Mecanização dos canteiros de obras: questões culturais ainda barram a utilização de tecnologias e levam ao desperdício de material e tempo

A mecanização nos canteiros de obras Brasil adentro ainda enfrenta grandes obstáculos, mas engana-se quem pensa que os maiores entraves continuam sendo as evoluções tecnológicas que demoram a chegar por aqui. Há a defasagem tecnológica da indústria nacional em relação ao exterior, os preços não baixaram, o dólar segue valendo mais que o triplo do real e as taxas de importação também são pouco convidativas. No entanto, são as questões culturais que ainda dificultam o avanço da mecanização no País.

“O pessoal olha a mecanização como um equipamento e não como um todo. Ela é um processo e tem que ser olhada como tal. Não é a grua apenas. Se o profissional não pensar no processo, não há produtividade. O aumento de produtividade existe, mas é pequeno. O aumento estonteante da produtividade está em uma visão sistêmica da mecanização”, afirma Luiz Henrique Ceotto, diretor de design e construção da Tishman Speyer.

A resistência em adotar a mecanização nos canteiros de obras vem, muitas vezes, da falta de conhecimento dos gestores – na ponta do lápis – dos lucros e redução de perdas que podem ser geradas por meio dela. Nesse sentido, Ubiraci Espinelli Lemes de Souza, diretor da Produtime e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/ USP), afirma que o aumento da mecanização dos canteiros demanda a contratação de gestores melhores, com conhecimento satisfatório para calcular os benefícios de mecanizar e contrapor aos resultados de um canteiro apenas com mão de obra humana. “Se não na hora de executar você fica com o mico na mão e a culpa é da mecanização. Mas não, é falta de planejamento”, afirma.

Na hora de calcular o custo-benefício da mecanização surge ainda a dúvida entre comprar ou alugar uma máquina, o que nem sempre sai tão barato quanto as expectativas do contratante. “Tem gente que faz continha, percebe que consegue pagar a máquina em seis meses ou em um ano, mas esquece que tem todo o custo de manutenção. É um setor que não sabe fazer conta”, explica Ceotto.

Para além dos canteiros, em geral a sociedade não vê com bons olhos a substituição do homem pela máquina e tende a interpretar pela visão simplista de que os equipamentos roubam o emprego do trabalhador e sua fonte de recursos. “A sociedade também tem que achar importante, não pode brigar para não ter mecanização para arrumar mais emprego para as pessoas”, diz Espinelli.

Apesar do certo tipo de preconceito que ainda paira sobre o setor, os benefícios da mecanização têm o poder de atingir toda a cadeia da construção civil. “Vamos pensar em esforço físico, um pedreiro de alvenaria estrutural lida todo dia com duas a três toneladas. Um ajudante de dois pedreiros transporta seis toneladas por dia. Mecanizar envolve a saúde do trabalhador e todo o ganho de status dele. Quando ele lida com uma máquina, com um processo melhor e teve treinamento, tem o lado social bacana da mecanização. O setor é precário nisso”, conta o professor da Poli/USP.

Os especialistas defendem que a mecanização não elimina a mão de obra nos canteiros, mas torna-as qualificadas, uma vez que é necessário treinamento para o uso eficiente das máquinas. Sem isso, não é possível alcançar o máximo de produtividade que a mecanização pode oferecer.

Setor jogando contra 
Enquanto há uma parcela do mercado que justifica os entraves da mecanização devido às exigências dos consumidores, Ceotto afirma que o preconceito com a mecanização vem de dentro das próprias construtoras e incorporadoras. “Não tem nada a ver com o cliente. O problema é a mentalidade. Quando a Ford usou o para-choque de plástico, o cliente se perguntou naquela época se não era melhor algo mais forte e duro. Hoje quem quer um para-choque de aço? Mudou o conceito. Aqui você pega algumas construtoras boas que dizem: ‘ah, é papelão! Cuidado que cria barata lá dentro do drywall’. Coisa de doido.”

Otto Nogami, professor do Insper, também usa a indústria automotiva para exemplificar os rumos que a construção civil deve tomar para aumentar sua produtividade. “Cada fornecedor é responsável pelo sistema inteiro, dentro daquelas condições impostas pela montadora. É isso que dá o método de produção”, explica.

Além de pensar na construção como um sistema complexo, todas as pessoas que o compõem precisam obter treinamento para executar suas tarefas da maneira mais eficiente possível. É aqui que mora outro importante gargalo do setor. “A rotatividade de mão de obra é muito grande. Muitas vezes o empresário pensa: ‘vou qualificar para que se amanhã ele estiver no concorrente'”, conta Nogami.

Por ser um setor naturalmente cíclico, o treinamento dos trabalhadores torna-se ainda mais imprescindível para garantir bom desempenho mesmo em tempos de cenário econômico desfavorável.

Falta liderança 
Os profissionais que lidam diretamente com mecanização em seu trabalho ainda se ressentem da falta de liderança no setor. “O nosso setor produtivo não conversa, não temos uma cadeia de valor, temos uma cadeia de fornecimento”, avalia Ceotto, destacando que os avanços na construção civil e na mecanização dos canteiros necessitam de líderes que mostrem o “caminho básico” a seguir.

“É um bem necessário. A mecanização está no caminho da industrialização. Tem que ter organização, mecanização e pré-fabricação e aí você tem industrialização”, acrescenta Souza.

O atual ciclo de baixa da construção civil e da economia em geral poderia ser aproveitado como um bom momento para refletir sobre os processos adotados aqui e investir em melhorias. “Não precisa nem esperar voltar a crescer, tem que se preparar para terminar essas obras que estão com baixíssima produtividade e prejuízos enormes. A mecanização tem que ser pensada como uma coisa que pode acontecer imediatamente. Talvez não na escala que gostaríamos, mas é uma ferramenta que pode usar imediatamente”, avalia Ceotto.

Contudo, o professor da Poli/USP explica que há poucas construtoras e incorporadoras fazendo esse trabalho e, infelizmente, não têm demonstrado progressos relevantes, justamente pela ausência de estudos aprofundados dos processos e de investimento em treinamentos.

“Nós temos futuro, o problema é saber a velocidade de evolução do setor. A meu ver, ela está abaixo da velocidade da economia do País como um todo. É um setor que continua na rabeira, com todas as dificuldades. Quando um elo da cadeia começa a conversar com o outro, você entende as necessidades e vira uma cadeia de valor, mas hoje são elos que não se conversam, é uma cadeia de fornecimento que não incrementa valor”, acrescenta o diretor da Tishman Speyer.

A Construção Mercado aprofundou o debate sobre o assunto com cinco profissionais do setor. Veja os principais trechos da conversa a seguir.

Mesa-redonda

Qual a principal trava para o avanço da mecanização no País?
OTTO NOGAMI: É uma conjunção de fatores. A falta de estímulo a investimentos, principalmente no setor produtivo, associada à qualificação inadequada na mão de obra disponível, que acaba desestimulando o investimento. Outro fator importante é o capital estrangeiro e a restrição que o governo cria para importação de maquinário de ponta.
LUIZ HENRIQUE CEOTTO: Estamos em uma depressão fortíssima e que não é só a questão da mecanização, tudo é desincentivado. Os empresários e a alta direção das empresas não calculam produtividade. A análise de produtividade é usada de uma maneira muito rudimentar pelas empresas e nunca se sabe o quanto custam realmente as coisas. O segundo ponto são as altas taxas de juros e a locação do equipamento no Brasil, que é muito cara. Temos um ordenamento tributário que onera demais.

Por que a locação de equipamentos é cara?
CEOTTO:
 Por uma questão tributária que é muito forte e pela taxa de juros que é altíssima. Você soma tudo para compor o preço. É caro também por uma total falta de previsibilidade, quer dizer, como não há um planejamento setorial, o investidor não tem planejamento suficiente para poder investir.
GUILHERME VAZ: De um lado você tem a obra, que é muito carente de profissionais qualificados, do outro é a descentralização que ocorre no canteiro que toma sua própria decisão. Quando vou fazer a locação, estimo 30% para manutenção e 27,5% de imposto. Ainda temos o pagamento dos funcionários que são comissionados, a depreciação da máquina e o lucro do empreendedor. Quando você coloca essa gama de coisas, não tem muito como ajustar.
UBIRACI ESPINELLI LEMES DE SOUZA: Tem esse ponto, de não saber fazer conta, e acho que aumentar mecanização demanda melhores gestores. É preciso organizar as pessoas, como será a divisão do trabalho. Senão na hora de executar você fica com o mico na mão e a culpa é da mecanização. É falta de planejamento.
CEOTTO: Antes do planejamento tem a mentalidade, que precisa ser trabalhada.

É possível ter eficiência nos canteiros sem despender muito dinheiro?
CEOTTO: Sim. Hoje em dia a grande vantagem da locação é que ela está disponível para o pequeno, médio e grande, para qualquer um. Claro, se você tiver uma microdemanda, é uma coisa, mas se vai fazer um prédio, não importa se é feito por uma pequena ou grande empresa, a produtividade tem que existir, senão alguém está tomando prejuízo. Quem define a escala não é o tamanho da construtora, é o tamanho da obra.
VAZ: Todo equipamento surge pra atender algum gargalo existente e esses equipamentos estão disponíveis para todo o tipo de empresa.

As opções para mecanizar o canteiro estão mais acessíveis, mas a questão cultural não avança?
CEOTTO: Eles falam que a mão de obra é barata e realmente é, mas não é barata o suficiente para desincentivar a mecanização, volto de novo, na mentalidade. A mentalidade é tudo.
VAZ: Nem sempre a mecanização facilita o processo. A fachada, por exemplo, terá um retorno financeiro maior, com uma qualidade melhor, mas terá mais trabalho. Às vezes tem que planejar e acompanhar mais, mas é fato que o equipamento vai resolver o seu problema de uma forma melhor.
CEOTTO: Nosso setor foge do planejamento. Toda vez que tem que planejar melhor vira um problema, dizem que vai dificultar, que é mais trabalho. Na engenharia é fundamental ter planejamento, o nosso trabalho é esse.
ESPINELLI: Acredito que estamos melhorando.
Ainda temos aquele tal gestor na obra que gosta de tomar decisão na hora, mas ele tem o poder de fazer o planejamento, tem que pensar antes.
CÉSAR KATO: Antes de começar o projeto ele não consegue estudar previamente e aí começa o improviso. Dos sistemas produtivos que temos hoje disponível, tentamos mecanizar o máximo possível dos recursos, mas isso nem sempre é pensado antes de começar a obra.
CEOTTO: O pessoal olha a mecanização como um equipamento e não o processo como um todo. Não é a grua apenas. Se o profissional não pensar no processo, não há produtividade. O aumento estonteante da produtividade está em uma visão sistêmica.
NOGAMI: Tudo acaba desembocando na falta de treinamento e falta de qualificação.
CEOTTO: O treinamento é o segundo passo. Tudo começa na importância que o setor dá para a gestão, que não tem liderança. Nosso setor é fraquíssimo em liderança. Para treinar as pessoas tem que pensar nas diretrizes que darei no planejamento.
NOGAMI: Não existe essa cultura.
CEOTTO: Não existe a cultura porque não existe a percepção por parte do empresário que, no fundo, é ele quem perde. O planejamento é fundamental.

Como despertar essa união setorial?
NOGAMI: Uma mobilização efetiva do setor, um envolvimento efetivo.
ESPINELLI: Estamos em um momento propício para isso, que é o momento de vacas magras, talvez seja melhor do que vacas gordas.
CEOTTO: Precisa ter uma organização, uma articulação: como é o nosso modelo de crescimento? O que vamos fazer para baixar risco? A única coisa que o SindusCon sabe fazer é negociar aumento anual. Qual é a única informação que o SindusCon toma? É o INCC e o CUB, acabou. Isso não é nada. Nos Estados Unidos têm estatística para tudo, o americano vive de informação, nós não temos informação nenhuma.
ESPINELLI: Tem que ter informação para ajudar a tomar decisão. Também falamos de produtividade. Acho que essa é uma palavrachave para discutir os problemas todos. É a forma de mensurar a eficiência.

A introdução do BIM tem contribuído para o avanço da mecanização?
CEOTTO: O BIM está nos primórdios. Se chegar ao ponto de reduzir perdas com a análise correta, que é o primeiro estágio do BIM, já é um grande avanço. Hoje 99% dos nossos projetistas não trabalham com o BIM. Estamos muito longe, mas o que podemos fazer? Você só muda a mentalidade se mudar a percepção das pessoas. A meu ver, precisa mudar a mentalidade das associações de classe, precisamos ter liderança. Você só faz alguma coisa se tem líderes que podem introduzir alguns caminhos básicos para fazer com que a bola de neve comece a rodar. Tudo começa com a liderança. Qual é o principal papel da liderança? Apontar caminhos a serem discutidos. Essa é uma coisa que o nosso setor está carente e precisamos dar um jeito. Recebi do SindusCon-SP as diretrizes que eles estão propondo ao governo, mas é de doer. Será que eles sofreram muito pra vir com essas ideias?

Os pedidos são muitos simplórios?
CEOTTO: Ele mandou coisas simples, sabe aquele negócio de liderançazinha: “vou tirar alguma coisinha do governo assim”. Essa mentalidade cretina.
NOGAMI: Política é política. Política no mal sentido.
CEOTTO: “O governo tem que fazer isso, tem que fazer aquilo. nós não temos que fazer nada”, entendeu?
ESPINELLI: Tem vários agentes que podem contribuir. Os gestores não querem pensar, não querem tomar as rédeas, brigar com algumas pessoas para fazer as coisas acontecerem, enfim. Os fornecedores são outra fonte de esforços. As associações têm soluções, às vezes, muito simplistas. Parece que a solução é só baixar o imposto e tudo resolvido. A sociedade também tem que achar importante, não pode brigar para não ter mecanização para arrumar mais emprego para as pessoas.
CEOTTO: Nós somos o terceiro mundo por algum motivo, né? Autorregulamentação, auto-organização, isso é característica dos países desenvolvidos. Acha que vai chegar lá nos Estados Unidos e abrir uma empresa para produzir algo totalmente fora da norma? Esquece! Não existe isso, os caras te fulminam.
KATO: Quanto mais industrializado formos, mais essa tendência de mecanizar vai crescer.

Qual é o caminho para as pequenas e médias empresas?
CEOTTO: O grande, o pequeno e o médio têm as mesmas oportunidades, a apropriação da tecnologia ao cérebro. E têm disponível no Brasil as principais tecnologias usadas no mundo hoje, mas são muito pouco usadas.
VAZ: Inclusive tenho visto cada vez menos novidades nas feiras. Antes tinha um delay entre o que saía no país de primeiro mundo e o que saía aqui. Hoje já não acontece tanto.
CEOTTO: Claro, se você vai para a Alemanha tem uma sofisticação, mas, na média, o problema não é tecnologia, é como será apropriada essa tecnologia. Está faltando inteligência na nossa profissão.
KATO: Sistema de drywall, por exemplo. Estamos trabalhando com isso há uns 30 anos e até hoje tem uma dificuldade do lado cultural.

O grande salto que precisamos dar é do lado do conhecimento e da educação e não da tecnologia?
VAZ: Mentalidade, até porque o cliente final não exige algumas coisas. Você não compra um apartamento e pergunta: como foi feita essa fachada? E o piso?
CEOTTO: Não agrega valor a quem compra, se foi industrializado ou não. Isso é para nós que estamos pagando por esse preço. O cliente compra um bom projeto, uma boa performance, mas nem performance conseguimos vender porque somos incompetentes. Vemos performance em televisão, em computador, em tudo, mas em construção não pode. É isso: mentalidade e liderança. A vantagem da liderança é que você pode ter poucas pessoas com uma boa mentalidade que começam a gerar uma bola, já a mentalidade é para o setor inteiro. Então acho que a liderança tem que vir um pouquinho antes.
ESPINELLI: Mecanização para mim é um bem necessário. A mecanização está no caminho da industrialização. Tem que ter organização, mecanização e pré-fabricação e aí você tem industrialização. É um item que melhora a produtividade.
NOGAMI: E reduz custos.
ESPINELLI: Tem vantagem para o operário, que faz menos esforço físico, tem vantagens para o serviço que fica melhor e mais uniforme. Tem vantagens para o construtor porque ele consegue fazer tudo com um custo menor. Tem vantagens para o incorporador que vai auferir os lucros e tem vantagens para o País. Tem um monte de agentes. Não pode ficar só esperando alguém resolver o mercado, cada um tem que brigar.

Por Weruska Goeking, Fabiana Holtz e Tayane Sette

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