Produtividade é questão vital para construção civil, diz diretor do CTE

Tínhamos, no passado, certa insegurança do ponto de vista de aceitação das novas tecnologias, mas isso já está sendo contornado

O bom momento visto na construção civil na última década permitiu que construtoras e incorporadoras realizassem poucos investimentos em processos mais eficientes e capacitação da mão de obra, porque a demanda compensava a ineficiência. No entanto, esse tempo acabou e as empresas que não se adaptarem podem deixar de existir, segundo Giancarlo De Filippi, diretor de gerenciamento de projetos e obras do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE).

‘Quem não for produtivo vai quebrar, não vai sobreviver’, alerta De Filipi, engenheiro civil que possui mestrado em engenharia pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP). Como diretor do CTE, ele é responsável pelos projetos de consultoria, governança corporativa, planejamento e gestão de obras para empreendedores de real estate, base imobiliária, incorporadoras e construtoras, e pelas atividades de due diligence para fundos de investimento e properties. Além disso, ele é auditor líder ISO 9001 pelo Irca, com MBA em administração de projetos pela Fundação Instituto de Administração (FIA).

Segundo De Filippi, a pré-engenharia é o primeiro passo para quem pensa em melhorar a produtividade no canteiro de obras. ‘Na pré-engenharia você vai estudar os melhores processos para evitar desperdícios e buscar os melhores equipamentos.’ Ele destaca ainda a organização dos canteiros e a formação de parcerias sólidas com fornecedores como meios simples e eficientes para aprimorar os trabalhos. ‘O fornecedor consegue entrar no processo e fornecer um material que está dentro da sua necessidade’, explica.

A tecnologia também é outro ponto importante para ganhar produtividade, embora ainda encontre resistência nos canteiros. Para De Filipi, é preciso incentivar o uso de novos métodos por meio do convencimento e capacitação da mão de obra, mas a escolha do processo e seu uso precisam ser racionais. “Você tem que fazer uma conta para ver o ganho de tempo que terá em usar um sistema mais caro”, diz. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

Qual a importância da busca pela produtividade para o setor de construção civil?
Hoje você tem um mercado que está cada vez mais restritivo, mais difícil, com profissionais bons buscando a produtividade para serem mais competitivos. No passado, você tinha um ambiente no qual podia errar e se dar ao luxo de – por meio de um problema ou outro que você tinha na obra – compensar nos preços. O mercado tinha uma ascensão de preços e tudo que você lançava vendia. Hoje, as coisas já não são mais assim. Com o mercado cada vez mais restrito, você tem que ser mais competitivo. Para ser mais competitivo, tem que ser mais produtivo. Quem não for produtivo vai quebrar, não vai sobreviver. Se falávamos antes sobre qualidade, sobre tentar reduzir custos, hoje, a produtividade está incluída nisso. Os clientes estão mais exigentes e o investidor está mais reticente sobre onde colocará seu dinheiro, temos que garantir uma série de condições. Então, a questão da produtividade nas empresas é vital.

Quais foram os principais avanços nos últimos anos?
Percebemos diversos movimentos para aumentar a produtividade. Tem empresas menores que conseguiram melhorar seus processos, desenhando métodos mais produtivos, melhores encaminhamentos da produção interna, aplicação de conceitos de lean construction, que procuram evitar retrabalhos, evitar itens que não agregam valor ao processo produtivo. Outros visam à melhoria dos processos de trabalho. Canteiros organizados e estruturas melhores para os trabalhadores fazem com que eles tenham uma produtividade maior. Atualmente, você tem uma seleção natural de profissionais, antes tinha muita gente ruim trabalhando. A questão industrial é outro ponto, mecanismos de inovações tecnológicas em que conseguimos melhoria na produtividade. Outro ponto é a qualidade do material e do equipamento colocado no mercado. O envolvimento de parcerias é outro ponto, pois temos uma aproximação com os fornecedores, que conseguem entrar no processo e fornecer um material que está dentro da nossa necessidade.

Desses avanços, qual se popularizou mais rapidamente?
Vemos um conjunto de fatores que ajudam na produtividade, não há um ponto específico. As empresas estão começando a medir sua produtividade, identificar onde estão os seus gargalos. A organização dos canteiros, para mim, é ponto essencial. Não só em produtividade, como na melhor entrega do serviço, menos problemas de atraso das obras. A questão da pré-engenharia está muito mais presente. É um conceito que também está ajudando a pensar o canteiro antes, chamar as equipes que estão dentro da “linha de produção” para pensar antes de fazer, montar projetos de produção, entender como vai ser a logística da obra. A pré-engenharia é o principal ponto que nos ajuda no planejamento de como as coisas vão funcionar, nos tem ajudado a ser cada vez mais produtivos. Na pré-engenharia você vai estudar os melhores processos para evitar desperdícios e buscar os melhores equipamentos.

Quais técnicas permitem maior ganho de tempo de construção?
Tem uma série de ações pequenas dentro de um canteiro que ajudam na produtividade. Se você pegar, por exemplo, kit porta-pronta, a pessoa tinha que fazer o batente, fazer a regularização, depois colocar o batente, a porta. Hoje, com o kit porta-pronta, você faz a porta e acabou. Acho que as fachadas, os painéis em fachada, ajudam muito a reduzir [tempo gasto]. Você vê que fachada sobe muito rápido. Temos hoje o concreto de alto desempenho, há uma série de coisas.

Você percebeu ganhos significativos em termos financeiros com a adoção dessas medidas?
Com certeza. Quando você tem processos mais produtivos, tem menos hora-homem, e com isso consegue reduzir o custo daquele serviço. Uma obra que demorava 24 meses, consegue fazer em 20 meses. Você tem quatro meses de economia de equipe e de custo fixo. O mercado da construção, principalmente naquele boom, teve um aumento de demanda, uma quantidade grande de serviço, e os custos acompanharam esse boom. Quando falávamos no passado que “ah, o pessoal está ganhando muito dinheiro”, realmente, as pessoas ganharam muito dinheiro, mas os custos também aumentaram. O custo da mão de obra do nosso setor cresceu de uma forma muito grande. Quando você começa a otimizar processos, ter processos mais industrializados, que te garantam economia de hora-homem, de mão de obra, fatalmente terá redução de custos daquele serviço.

Acho que a terceirização simples, sem o envolvimento com a forma que o serviço está sendo executado, é um pouco temerário

Quais são os principais obstáculos para a produtividade hoje em dia?
Uma questão é o medo dos empresários de investir em novas tecnologias ou novos processos. Apesar do grande avanço que tivemos nos anos recentes, percebemos o setor muito conservador, que arrisca pouco e acaba não implementando essas novas filosofias. Tínhamos, no passado, certa insegurança do ponto de vista de aceitação do usuário dessas novas tecnologias, mas isso já está sendo contornado. Fiz um trabalho na implementação de uma inovação em fazer gesso projetado. O empreiteiro não queria fazer, ele estava acostumado a fazer de um jeito e queria continuar a fazer assim. Ao final de um mês, ele percebeu que produziu muito mais com aquela nova filosofia e só queria usar o novo procedimento. Então, aos poucos, você vai colocando na cabeça desse pessoal os ganhos que eles conseguem com esses processos produtivos, com essas novas tecnologias.

Quais os erros mais comuns que ocorrem quando se busca a produtividade?
Acho que é a falta de uma análise de engenharia, análise de custo-benefício, porque não necessariamente a metodologia escolhida desenvolve mais produtividade. Às vezes dizem “vamos fazer gesso acartonado, vamos fazer dry wall para as paredes, porque isso dá mais produtividade”, mas depende. Se você tem uma equipe qualificada para isso, se tem bons profissionais, se o seu projeto tiver adequação para esse tipo de metodologia, funciona. Mas tem que fazer uma conta para ver o ganho de tempo que terá ao usar um sistema mais caro. Estudar qual equipamento vai dar o melhor atendimento para aquela obra. Não estudar o processo produtivo antes de adotar a solução foi o principal erro no passado na implantação de inovações que não deram certo.

Quais pontos devem ser abordados por incorporadoras e construtoras em relação à produtividade para garantir o mínimo de perdas?
As construtoras precisam realizar estudos para todas as escolhas [de processos]. Por exemplo, qual sistema de transporte vertical vai adotar. O que será feito primeiro? A obra subindo ou descendo? Todas as escolhas a serem feitas precisam de estudo. Para as incorporadoras a saída é trabalhar com bons profissionais, fazer pré-engenharia, tentar diminuir a variabilidade dentro do canteiro, ter canteiros organizados, equipe motivada, ser transparente nas negociações, trazer os fornecedores para dentro da conversa, investir em treinamento e tentar ter uma regularidade no volume de obras para que caiba no seu orçamento. As incorporadoras precisam fazer planos de negócios nos quais cada vez mais consigam manter os parceiros, as equipes, tentar garantir o retorno dos investimentos e trabalhar naquilo que consegue controlar, não ter aquelas loucuras que as empresas tinham de 300 obras ao mesmo tempo.

Como medir a produtividade nos diferentes trabalhos nos canteiros de obras?
O conceito principal de produtividade é ter uma razão do homem versus a quantidade produzida, que pode ser medida por metros quadrados ou metros cúbicos. Isso nós chamamos de RUP, que é a Razão Unitária de Produtividade. Temos uma série de elementos que vão ter essa característica de RUP, como transporte de material, que será hora/quilo. Terei o trabalho do montador de uma viga, que será hora/homem por quilo. Por que quilo? Porque no caso de aço, vamos medir por unidade de quilo, mas se for alvenaria, será hora/ homem por metro quadrado de alvenaria, porque o serviço é medido assim. O principal ponto é fazer a relação entre o homem/hora pela quantidade de serviço que consegue produzir.

Como a tecnologia pode ajudar a aumentar a produtividade?
Para ter produtividade é preciso um processo benfeito, organização do ambiente de trabalho e, às vezes, ter um produto que ajude a ter maior desempenho. Um produto com dimensões adequadas àquele ambiente faz você quebrar menos, por exemplo. Quando você tem um processo industrializado, todos os pontos que ajudam a ter maior produtividade ficam evidenciados. Uma industrialização, um produto inovador, faz com que você tenha um canteiro mais limpo, mais organizado. Com maior organização, fatalmente vai aumentar a produtividade. Um processo inovador e industrializado vai gerar mecanização, que normalmente ajuda a ter menos erros humanos e a ter processos mais uniformes. Todos esses conceitos ajudam a melhorar a produtividade no dia a dia, mas apenas se a tecnologia for adequada ao projeto.

Ainda existem barreiras culturais para o avanço da mecanização e da industrialização dos canteiros de obras no Brasil?
Acho que está mudando. As experiências bem-sucedidas mostram que o empresário que efetivamente treinou, chamou a sua equipe, tentou dividir, ser transparente [a respeito de inovações], teve bons resultados. A mão de obra não pode ser tratada como ignorante, ela também tem ganhado com a inovação. Quando você começa a mostrar que o empreiteiro vai ter ganho, ele aceita. Tem que trabalhar no convencimento de que aquilo será bom para ele e para o bolso, que é o que importa, que ele vai ter menos trabalho para fazer a mesma coisa, que será produtivo com um novo sistema.

Qual a importância do treinamento da mão de obra para o ganho de produtividade?
O boom que aconteceu no mercado ajudou a desqualificar a mão de obra. Houve diminuição da qualificação da mão de obra, porque havia demanda grande de profissionais. Pessoas que estavam na área técnica viraram gerentes, gestores, diretores, e a equipe técnica que tocava os empreendimentos acabou ficando com menor competência. Tivemos muitos problemas devido à baixa qualidade da mão de obra, como aumento de custo de produção, de execução de obras, mas não tivemos melhoria da qualidade dos serviços. Como tudo que você produzia na época vendia, a qualidade foi deixada de lado. Hoje percebo um movimento contrário, de retomar o conceito de como se executa benfeito, porque está pesando no bolso do empresário o custo de assistência técnica. Percebo não só a questão do treinamento, mas de buscar mão de obra qualificada e vejo também o movimento de profissionais que estão se qualificando.

Quais os benefícios e os riscos com a contratação de equipes terceirizadas?
Em grandes cidades temos muitas equipes subcontratadas, normalmente para executar um serviço, pagas após a execução. No fundo, para empresas que subcontratam serviços, a produtividade não importa. Se uma parede é feita em dez horas, oito horas ou seis horas, não importa, ele vai pagar uma parede. Acho que a terceirização simples, sem o envolvimento com a forma que o serviço está sendo executado, é um pouco temerário. Do ponto de vista de produtividade, ela afeta, sim, acaba não ajudando a fazer os controles adequados. Para executar uma parede no tempo previsto no cronograma, ele [contratante] pressiona o empreiteiro para colocar mais gente. O empreiteiro está fazendo a parede no mesmo prazo, mas com uma equipe maior. Ou seja, ele não está sendo produtivo. Então, se for uma simples terceirização, tratar o empreiteiro, o terceirizado, como um mero fornecedor que precisa entregar e acabou, isso vai ser prejudicial. Atualmente, percebemos uma preocupação das empresas com seus terceiros, porque o terceiro não pode quebrar e te deixar na mão.

Por Ivan Ryngelblum

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