Demolição controlada engatinha no Brasil porque o mercado ainda prefere preços baixos – ao custo da tolerância com o pó e com o som das marretadas

De 15 anos para cá, a presença de uma equipe de demolição controlada em uma obra de retrofit passou a substituir o método primitivo, quase caseiro, das marretadas. Quando as primeiras empresas surgiram, executavam apenas perfurações. Hoje, elas oferecem muito mais: executam desde o projeto (de recuperação e reforço de uma estrutura) até soluções hidráulicas, além de disponibilizar equipamentos sustentáveis e ambientalmente seguros para demolições controladas. “Demolição controlada é quando você tira uma peça de um lugar e coloca em outro, predeterminado, sem afetar nenhuma das duas periferias”, define o engenheiro civil Alberto Libanio, sócio-proprietário da Furacon. Há 23 anos no mercado brasileiro, Libanio realiza palestras sobre o assunto e leva sua experiência também para o exterior. “Já fomos demonstrar nossa tecnologia na Malásia, na quarta maior usina do mundo, chamada Bakun”, conta. “Ficamos lá uma semana, ensinando como se faz junta dilatação para usina de ombreira estreita.”

Utilizando desde máquinas portáteis até robôs – que substituem a mão de obra e produzem menos ruído, menos pó e menos transtorno -, essas empresas detêm expertise técnica e tecnológica para demolir um hospital sem incomodar os pacientes, por exemplo. Ou demolir uma ponte sem interromper o fluxo de carros. Construção Mercado reuniu quatro empresários do ramo e um representante da Abece (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural) para conversar sobre o que há de mais moderno em tecnologia de demolição controlada no país e saber o que as empresas têm feito em tempos de crise. Veja os principais trechos da conversa.

MESA REDONDA

Comparando com o mercado internacional, como está o Brasil agora no ramo da demolição controlada?

FEDERICO DEL VILLAR Começamos com a perfuração que hoje está implementada. Cada construtora tem a sua máquina. Por exemplo, toda prumada de hidráulica é feita através de perfurações com essas maquininhas com diamante. Então, isso mostra uma evolução dos trabalhos de demolição convencional, em que vibrações e impactos são cada vez mais obsoletos, inclusive pelo transtorno que criam nas cidades. E o pessoal está cada vez menos propenso a aceitar isso. Hoje, se você bate numa parede, já tem um vizinho ligando. As pessoas estão mais intolerantes, e isso tem levado a gente a convencionar a demolição controlada.

BETINA FENSTERSEIFER Eu vejo que o Brasil está atrasado. A gente está engatinhando na utilização da demolição controlada, porque nos outros países se usa isso há muito mais tempo. A Darda está fazendo 60 anos, representamos essa empresa alemã aqui no Brasil há pelo menos 15 anos, e tem muita gente que não conhece.

ALBERTO LIBANIO Tem gente que não conhece nem a demolição controlada. Enfrentamos um problema cultural sério, no qual o preço predomina. Aqui você tem uma sequência de prioridades que é “preço, tempo e qualidade”. E na Europa é “qualidade, tempo e preço”. É outro raciocínio. Quando você fala numa obra “vim fazer um reforço com fibra de carbono” e entra com uma coisa que parece pano debaixo do braço, o pessoal fala “vai embora, isso aí é pano”. Mas quando a pessoa vê o pano virar ferro, não acredita.

DECIO REY Ninguém acredita porque a fibra de carbono é uma tecnologia nova no Brasil. Ela resiste dez vezes mais à tração do que o aço, simplificadamente falando. Teoricamente dá para reduzir as espessuras de reforço em vez de colocar concreto armado, quando é o caso. O uso da fibra de carbono resulta em prazos e custos menores. No começo falavam “ah, mas a fibra de carbono é 30 vezes mais cara que o aço, como pode resultar num custo menor?”. Diante da redução de prazo e de mão de obra. Se você coloca fibra de carbono, não põe muito concreto e, no final, isso acaba resultando também numa economia.

LIBANIO Usei fibra de carbono na obra da minha sede recentemente, quando fiz um reforço nas vigas. Mas é como a Betina disse, na Europa isso é cultural. Lá, você não vai fazer barulho e atrapalhar o vizinho por causa de grana. Hoje, aqui, dizem: “Quanto custa a demolição controlada?”. Estão esperando cinco ou seis profissionais com martelo no ombro para fazer sujeira, barulho e vibração, porque a gente se adapta a esse tipo de coisa. E aí sai barato, vamos supor 5 mil reais. “E para demolir com robô, com fio diamantado, que o pessoal no Nordeste chama de fita, quanto fica?” Ah, daí custa 25 mil. Aí o pessoal pensa e diz: “Ah, então vamos fazer barulho, não tem problema”. É assim.

Qual é a norma técnica que regula a demolição controlada?

LIBANIO Não tem. Estou tentando entrar em contato com o Crea há algum tempo, para tentar fazer com que eles obriguem toda empresa de demolição a ter um engenheiro. No Brasil, eu não sei. Mas aqui em São Paulo acho que só eu e a Ekipe-C temos engenheiro registrado no Crea, porque, tecnicamente falando, uma demolição tem o mesmo valor de uma construção.

REY Sem dúvida.

LIBANIO Então, o Crea tem de exigir que você tenha o engenheiro da empresa ou que a sua empresa faça parte do Crea. Mas o que acontece hoje? Quando alguém precisa de um engenheiro, vai e procura um engenheiro passando, que a gente chama de canetinha. Daí, compra uma ART [Anotação de Responsabilidade Técnica], de 1.200 a 2.000 reais, depende do resultado.

REY Mas ele não passa na obra.

LIBANIO Exatamente, o engenheiro nunca vai na obra. E a gente está brigando por quê? Porque um engenheiro civil dentro de uma empresa demolidora vai educá-la para usar técnicas mais atualizadas e materiais mais adequados.

REY E a se preocupar mais também com a segurança.

Se eu quiser fazer um projeto de retrofit, quais são as etapas até chegar à demolição em si?

THOMAS CARMONA Com o projeto arquitetônico na mão, o projetista vai ter de ver o impacto dessas intervenções propostas. Ele quer fazer uma piscina onde não tinha, precisa abrir um shaft para um elevador, vai cortar uma viga no meio, vai tirar um pilar. Definido isso, a gente vai pensar o que precisa ser feito para manter essa estrutura de pé ou dentro dos padrões de segurança para sofrer essas intervenções. Vamos projetar o reforço com fibra de carbono, a chapa colada, o aumento de seção. E a que horas isso vai ser demolido? Vai depender do funcionamento da estrutura. Não existe uma regra definida.

Num hospital, por exemplo?

CARMONA Normalmente, você tem de fazer um escoramento antes de demolir. Com exceção feita às lajes, os outros elementos precisam de escoramento.

REY O engenheiro é quem define os conceitos técnicos para fazer a demolição. E depois, na parte de obra, a direção técnica vai usar os aspectos técnicos definidos no projeto do Carmona para executar a obra. Então ele fala assim: “Primeiro, tem de demolir a laje, e na hora de demolir a viga tem de fazer o escoramento da viga. E aí o pessoal da obra junto com a equipe de demolição vai dizer que hora será a demolição, se precisa interditar a área, se pode fazer de manhã ou à tarde.

Quem define a técnica de demolição que vai ser adotada?

LIBANIO Como somos uma empresa de demolição, muitas vezes o projeto já chega pronto, e você não está vendo o todo, como o projetista. Você vai dar o seu preço só para demolir. Quando tem uma série de interferências, você vai falar assim “aqui só posso fazer com fio diamantado. Mas, se for com fio diamantado, como vou descer essa viga?”. São coisas que ele, por ser projetista, não tem ideia. É nossa área. Isso quando tem o projeto oficial. Mas normalmente não existe projeto. Quando você tem de demolir uma torre inteira, uma chaminé de aço, por exemplo, e não tem projeto, vai escutar: “É esse bloco inteiro”. Daí você, que é especializado, vai decidir por onde começar, se ali sobe robô ou não. O robô hoje é uma das ferramentas mais eficazes, silenciosas e práticas. A segunda ferramenta mais eficaz é o fio diamantado, que pode cortar este prédio inteiro aqui sem ninguém saber. A gente está demolindo no Hospital Nove de Julho [em São Paulo], do lado do centro cirúrgico, sem ninguém saber que estamos lá. Por isso, quem decide que equipamento será usado somos nós.

REY É sempre em função da necessidade do cliente. O hospital só fala se pode parar ou não. É a empresa demolidora que estabelece os critérios, se pode ter pó, se não pode.

E quem é responsável pela remoção do material resultante?

DEL VILLAR Isso também é um acerto com o cliente, caso a caso. O cliente pode se encarregar disso, porque a gente é terceirizado normalmente por uma construtora, ou a gente mesmo pode executar, vai depender da negociação feita.

Quando são vocês que executam, como é feito o trabalho?

DEL VILLAR Você contrata o transporte e precisa dimensionar o volume que será retirado. O tamanho de peças que você pode remover é infinito. É possível tirar uma ponte e cortar as extremidades, por exemplo. Mas como remover? Você tem de dimensionar seu plano de trabalho em função da capacidade de levar o material embora para um aterro. Muitas vezes tiramos uma peça inteira, põe no chão e fragmenta para poder carregar até o transporte.

REY Ou até dar o destino de reúso.

Há uma forma de reúso do material até na própria obra?

BETINA No nosso caso, como a gente entra como a locadora do equipamento, somos quarteirizados, então apenas entramos com a locação. É o empreiteiro que nos contratou que fica responsável pela remoção. Mas a gente já trabalhou em casos de hospitais que o pessoal precisou incluir no planejamento a forma de remoção. Era no terceiro andar e teve de se pensar em todo o trajeto do carrinho de mão. Geralmente nas propostas é mencionado se é com ou sem remoção. Já é predefinido. Os clientes com quem eu atuo trabalham com a remoção e têm seus aterros.

REY Nesse aspecto de reúso, na minha atuação de retrofit, como dirigente técnico de obra, adquiri uma experiência com um cliente atípico. Normalmente, o projetista faz um projeto estrutural, aí o arquiteto faz um projeto arquitetônico, e a obra executa o que está projetado. Só que esse cliente meu gosta de fazer diferente. Quando estão desmontando uma fábrica de motores, por exemplo, que tem estrutura metálica, rede de incêndio, bombas, escadas, ele me pede para ir até lá e verificar o que é que pode ser reaproveitado para a indústria dele. Eu vou olhar, identifico alguma coisa, vejo se interessam telhas, pilares metálicos, treliças da cobertura, pergunto o preço, aí meu cliente vai lá e compra. Aí chego para o projetista, explico que tenho esse material e vamos projetar um galpão para reusar o material. Se o ideal era fazer uma modulação de pilares a cada 8 metros, mas aquele pilar, por exemplo, permite de espaçamento de 6 metros no máximo, ele vai fazer um projeto para 6 metros. Ou o projetista vai dimensionar a fundação para aquele perfil metálico comprado por um terço do valor de um novo – ou até mesmo por um quarto de um novo.

Quando você contrata uma empresa de demolição e precisa que a peça seja removida inteira e intacta para reaproveitamento, quem cuida disso?

DEL VILLAR De novo, isso são ordens do cliente. Nosso cuidado é justamente usar os equipamentos corretos para não abalar as estruturas que ficam.

CARMONA Em termos de içamento, existe o plano de definir quantos pontos da estrutura vão ser levantados, se ela pode ir deitada, se tem de ir de pé.

LIBANIO É o plano que toda empresa que fornece guindaste faz. Quando você contrata um guindaste, tem de dar um ponto onde ele vai ficar e um ponto onde ele vai deixar o material, e saber quanto pesa esse material. Para ele calcular a altura da lança, o comprimento da lança, a envergadura da lança. Ele vai falar assim: “Eu posso pegar a 40 metros até 1 tonelada”. Quando a gente fica responsável pela retirada do material – retirada no sentido de baixar esse material de modo seguro até o solo -, nós contratamos o muque, ou uma empilhadeira, ou a gente usa a empilhadeira da obra em acordo com o cliente. Quando a gente for terminar o corte, vem a empilhadeira, suspende a viga, leva a viga até ali, e apoia a viga em pedaços de madeira para que ela seja quebrada ou removida de uma outra forma para um lugar adequado. Esse é o processo.

Qual é a técnica mais moderna de demolição controlada hoje nos projetos de retrofit?

LIBANIO O retrofit leva muitas técnicas. Por exemplo: uma técnica legal são os furos de arranque. Você fura o concreto, depois que já cortou o ferro, daí limpa e cola com uma resina o ferro que vai dar continuidade ao restante da obra. Caramba, você vai colar o ferro? Sim, com resinas importadas. Para cortar, por exemplo, você tem um prédio e metade dele está trabalhando e não dá para fazer barulho. O que não faz barulho e vibração? O fio diamantado. E se você estiver num lugar confinado. O que usar? Um equipamento elétrico, e não a combustão. Hoje o que há de mais moderno é o robô. Demolimos uma parte numa obra do Hospital Sírio-Libanês [em São Paulo], as paredes duplas. Nós fomos com o crusher, que é uma esmagadora de concreto manual. Ele pesa 47 quilos, duas pessoas pegam na mão, ele tem 30 toneladas de pressão e dois pistões que vão esmagar o concreto. E como vai ser retirado? Bem, se você vai trabalhar com robô, a retirada é entulho. Se for trabalhar com fio diamantado e com serra, a retirada é em placa, porque você corta e tira. Não existe demolição mais controlada do que isso.

Em termos de canteiro, quais são as exigências para levar esse equipamento?

LIBANIO Em geral, o equipamento precisa de meio contêiner, mas depende do que será usado. Nossos equipamentos são extremamente práticos e portáteis. A única coisa mais pesada é o robô, que pesa de uma até duas toneladas, dependendo do modelo.

REY Ele usou esse robô aqui na minha obra, dentro do Shopping Cidade Jardim. Os donos do shopping são a JHFS, então eles já têm uma cultura de engenharia que facilita a conversa. Fui contratado por eles para fazer o reforço estrutural criando passagens, em cortinas enterradas de concreto armado, de grandes espessuras. Eles já tinham o projeto estrutural e precisavam abrir uma passagem com 2,5 metros de largura por 2,5 metros de altura. Se a gente tivesse de colocar mão de obra, um martelete para fazer isso, teríamos de usar andaime. Como o prazo era curto, a gente queria usar pouca mão de obra. Conversamos sobre a possibilidade de utilizar o fio diamantado para fazer o corte, depois o robô para demolir aquilo e fazer tudo muito rápido, seguro, sem andaimes. O cliente com a cultura de engenharia facilmente entendeu e concluiu que seria também econômico e seguro, e nos autorizou a contratar um trabalho de demolição.

BETINA Voltando à primeira pergunta feita, sobre o avanço da demolição controlada no Brasil, em como nós estamos, o Rey falou que pouca gente usa esse serviço e que os robôs atendem a esse mercado ainda pequeno. Ou o Bobcat, que é uma [marca de] miniescavadeira. No caso do robô, o operador não precisa ficar junto. No caso do Bobcat é necessário ter uma pessoa, mas o que vai acoplado na frente é a mesma coisa.

LIBANIO A diferença é que o robô atinge 4 metros de altura, e o Bobcat quase 2 metros, e é muito usado para fazer trabalhos subterrâneos justamente por ser pequenininho.

BETINA Quando são usadas tecnologias avançadas e diferentes, como a cunha hidráulica, um equipamento que também faz demolição controlada em rocha, ou o robô, todo mundo na obra para para olhar.

REY Imagina um robô demolindo um pilar, que é um serviço que seria feito por oito peões de obra, e você só usa um profissional com um joystick. Aí aparecem mais 20 engenheiros, não sei quantos conhecidos, e ficam ali umas 30, 40 pessoas vendo.

BETINA Estamos nesse pé: fica muita gente vendo e pouca gente trabalhando.

Por Gustavo Curcio e Lidice-Bá

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