Debate técnico: impermeabilização in loco

Impermeabilizar significa proteger as superfícies de concreto (ou de outros materiais) de diferentes ataques, sejam eles provenientes do solo, da atmosfera ou da água. Por mais básico que possa parecer, definir essa etapa da construção civil ainda se faz necessário atualmente no Brasil. ‘Nesse mercado, é comum achar que a impermeabilização é responsável por resolver uma patologia da construção, mas na realidade a técnica deve ser aplicada sobre uma obra sã, sobre um concreto são, sobre uma base muito bem-feita’, enfatiza a engenheira civil Maria Amélia Silveira, gestora do CB22, da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

Os fabricantes produzem diversas soluções para atender as diferentes necessidades do mercado. Há desde pinturas que substituem o cobrimento de concreto até sistemas capazes de resistir a severos ataques químicos. Com a crise econômica do país, enquanto as grandes empreiteiras lidam com o esvaziamento das obras, as pequenas e médias construtoras estão crescendo e ganhando esse mercado, principalmente nas regiões Sul e Centro-Oeste. ‘Tivemos uma mudança estratégica, que foi abrir mão um pouquinho do mercado habitacional para atender ao mercado varejista. Não são novas construções, mas a manutenção das existentes, especialmente reformas’, conta Ricardo Faria, coordenador técnico da Vedacit.

Para desenvolver esse mercado nacionalmente, as empresas vêm apostando na criação de material didático, que é colocado à disposição dos clientes em seus próprios sites ou nas redes sociais como Facebook e Youtube. Reunimos as engenheiras civis Maria Amélia Silveira e Fabiola Rago Beltrame, professora da Escola de Engenharia do Mackenzie, além de representantes de cinco empresas do ramo, como a Vedacit, para contar um pouco mais sobre o momento atual desse mercado. Veja os principais trechos dessa conversa.

Mesa-redonda

Considerando os mercados de larga escala, que tomou força com o Minha Casa Minha Vida, e o da pessoa que constrói a própria casa, o uso da impermeabilização já está disseminado no Brasil?
MARIA AMÉLIA SILVEIRA Nem um pouco.
VICENTE PARISOTTO JR. O pessoal sabe que precisa dessa técnica, mas não dá importância, a não ser quando sente o problema na pele. É cultural.
WADSON MARQUES Prefere-se fazer a correção do que a prevenção. Gasta-se com acabamento, numa tinta, numa textura, e a impermeabilização é deixada de lado, por achar que é secundária. Isso acontece porque nivelam pelo preço. Mas não vamos conseguir fazer um produto top por um preço muito baixo. Então, as grandes construtoras deram uma brecada – porque havia construtora lançando 15 empreendimentos e agora está lançando um só – e as construtoras menores estão se agitando. O mercado não zerou por isso.
ELIZANGELA MARTA STRULICIUC O mercado mudou e hoje os grandes fabricantes têm que investir nas pequenas e médias construtoras para superar essa crise econômica.

Vocês têm feito um trabalho efetivo para isso?
ELIZANGELA Com certeza. Temos investido no mercado do varejo. No consumidor final e nessa conscientização para que ele adote a impermeabilização não só como referência de conserto da patologia, depois de selado, mas também para que, no momento em que estiver construindo, já tenha esse conceito de impermeabilizar.
EMÍLIO TAKAGI Uma grande guinada para esse mercado foi a introdução da norma de desempenho. A Maria Amélia atua conosco nesse trabalho com o Instituto Brasileiro de Impermeabilização (IBI). Nós buscamos fazer um guia para atendimento da norma de desempenho.
JOSÉ MARIO ANDRELLO Os profissionais da construção estão começando a aceitar a norma de desempenho visando à durabilidade das edificações. Isso demora, porém, com o tempo, o consumidor acabará entendendo a importância da técnica.
FABIOLA RAGO BELTRAME A compreensão desse contexto tem tudo a ver com a formação. O engenheiro ou o arquiteto hoje na faculdade não tem um curso de impermeabilização, nenhuma disciplina ensina isso. Na graduação, aborda-se um pouco o tema em materiais de construção, em construções de edifícios, mas é uma aula só, falando que a técnica existe.

Como reverter isso?
FABIOLA O curso de pós-graduação já aponta um caminho. Nele existe uma disciplina inteira sobre revestimentos e impermeabilização. Estamos tentando criar, inclusive com o IBI, um curso de extensão de impermeabilização, de dois ou três meses. E, mais recentemente, estamos fazendo palestras para o pessoal da engenharia e da arquitetura. A gente sente os engenheiros e os arquitetos formados com muita dificuldade de entender o assunto, mas eles precisam desse conhecimento, porque todos têm que atender a norma de desempenho [em vigor desde 2013].

Essa norma tem sido efetivamente aplicada?
MARIA AMÉLIA Sim.

E quais os mecanismos de aferição na obra?
MARIA AMÉLIA Não existe fiscalização obrigatória ou direta. No entanto, o empreiteiro ou a construtora deveria se ater a isso, porque vai recair diretamente sobre ele.
ANDRELLO A norma de projeto e arquitetura determina que todo profissional responsável técnico pela obra responde pela obra como um todo: a parte hidráulica, elétrica, de estrutura e também de impermeabilização. Então, as construtoras devem fazer projetos inclusive de impermeabilização, pois a norma de desempenho dá vários parâmetros de durabilidade da obra. O projeto tem que especificar sua vida útil. É para durar 25 anos, 50 anos, ou o mínimo, 12 anos?

Partindo do pressuposto que foi feito um projeto correto, quais fatores podem levar a uma patologia?
ELIZANGELA A falta de manutenção.
RICARDO FARIA No guia a gente está trabalhando para criar novos parâmetros. Além do orçamento e da previsão de durabilidade da obra, é preciso ter ainda o projeto especificado, o produto adequado, o controle de manutenção e a fiscalização do serviço. É isso que essa cartilha vai dizer: “Esse produto funciona 20 anos desde que se faça a manutenção periódica”.

Vocês dão treinamento para capacitar a mão de obra?
CLÁUDIO NEVES OURIVES Sim. Todos aqui treinam seus aplicadores, e os credenciam. Mas muitas vezes você dá o treinamento e, mesmo assim, não tem o controle de como a estrutura foi dimensionada para tal edifício. Às vezes a impermeabilização é aplicada corretamente, mas a estrutura está inadequada porque tem deformações elevadas, por exemplo.

Um erro de execução na etapa anterior?
OURIVES No projeto estrutural. Tem também o problema executivo da obra. Às vezes o aplicador, talvez não bem treinado ou porque houve uma rotatividade muito grande na empresa, faz só um reparo com uma massinha, esconde, e depois aplica o impermeabilizante dele. Só que o reparo não foi eficaz e a impermeabilização pode ter algum defeito em razção disso ou por falha de inspeção do engenheiro da empresa credenciada.
MARIA AMÉLIA Um problema comum é achar que a impermeabilização é a responsável por resolver uma patologia da construção. Essa técnica tem que ser aplicada sobre uma obra sã, sobre um concreto são, sobre uma base muito bem-feita.
OURIVES A gente tem visto cada vez mais o uso do próprio concreto como elemento de estanqueidade. Então, às vezes, para evitar problemas estruturais, uma solução é trabalhar no planejamento desse concreto de tal forma que você consiga uma superfície estanque.

Adicionar um aditivo ao concreto?
OURIVES Sim. Você tem a tecnologia de cristalização, mas não é só isso. É preciso trabalhar com o projetista estrutural para ter a menor deformação na estrutura. Você trabalha no processo anterior para evitar esses problemas.

Em que fase do projeto deve ser prevista a impermeabilização?
MARQUES O projeto estrutural consegue determinar o sistema de impermeabilização. Nele você consegue especificar tamanho, altura e espessura de uma laje.
FARIA Dependendo da posição do encanamento, por exemplo, você não consegue aplicar o produto ou um sistema de impermeabilização por falta de espaço. Tem que ver isso antes.
TAKAGI Aí surge a importância do BIM [Building Information Modeling]. No site está disponível o código BIM e é possível fazer o download. Alguns produtos que têm aplicação in loco, por exemplo, permitem que se identifique por cores as fases da impermeabilização.

Como funciona esse recurso?
TAKAGI O material é líquido e esbranquiçado na embalagem, mas, conforme vai secando, fica transparente. Isso seria uma característica do acrílico, por exemplo, ou do poliuretano. A ideia é que se consiga ressaltar o azul. A gente consegue fazer com que esse produto, na hora da aplicação, fique azulado. Visualmente já se sabe que o produto está fresco. Depois de algumas horas, pela própria polimerização, ele seca e fica acinzentado, mais da cor do cimento. Daí, você sabe que dá para fazer a segunda demão ou receber proteção mecânica.

Existe alternativa à impermeabilização in loco, algum método industrial nessa escala de obra da qual estamos falando?
MARIA AMÉLIA Seriam as mantas préfabricadas. Mas você precisaria de uma mão de obra mais especializada, porque o equipamento é diferenciado. É por isso que nas altas construções ou nas reformas há uma tendência muito grande de se partir para as impermeabilizações montadas in loco. Porque o próprio empreiteiro, com a sua mão de obra, ou o dono da obra, acaba executando.
FARIA O trabalho dos fabricantes é facilitar a comunicação, porque muitas vezes quem aplica é um leigo. A comunicação visual das embalagens deve deixar o mais mastigado possível a relação de consumo, dizer “olha, essa embalagem vai render tanto”.
TAKAGI Hoje, a gente usa muito as ferramentas de internet. Na própria embalagem tem o QR Code, como se fosse um código de barras, daí você focaliza ele com a câmera de um smartphone e já puxa o vídeo da aplicação do produto – como se abre, se mistura, se aplica e se armazena.
MARIA AMÉLIA Isso é muito importante, porque um dos maiores problemas que a gente tinha – e ainda tem um pouco – é justamente o pessoal não aplicar o mínimo de demãos e não obedecer a secagem entre as demãos, o intervalo correto, nem a secagem final do produto após a última demão. À medida que o fabricante investe em orientar melhor o consumidor final ou o empreiteiro, a qualidade do serviço melhora.
ANDRELLO Os fabricantes têm produtos com a mesma finalidade. Porém, dependendo do fabricante, as características mudam de produto para produto. E, se o consumidor ou o aplicador não se atenta para isso, ele começa a aplicar um produto de forma igual para todos os casos e não vai ter o desempenho esperado. Além de obedecer a norma e de ter cuidados, o aplicador tem que conhecer o produto que está aplicando.
MARQUES A maior dificuldade para as empresas é essa: ter acesso à construtora mas não ter ao aplicador. Ele usa um sistema de impermeabilização de um fabricante e quando tem um novo sistema acha que é tudo igual.

Como é feita a manutenção?
ELIZANGELA Na própria norma você tem as diferenças de manutenção em uma área com revestimento e numa área exposta. Como fabricantes, passamos a orientação de períodos e de como é feita em áreas internas, que exige quebra e demanda mais tempo do que em áreas externas. Passamos essa orientação para o público mais leigo pelo Facebook e Youtube. Não adianta colocar só orientação com relação à norma. O que chega para o cliente final é o vídeo explicativo, fácil, rápido, no qual ele consegue visualizar como se mistura o material, como se faz a aplicação e como é a manutenção.
PARISOTTO JR. Mesmo que você consiga chegar a esse público com vídeos explicativos, é muito comum ver uma pessoa não seguir as informações disponibilizadas.
MARIA AMÉLIA Mas o maior problema de patologias nas construções, quando você tem uma proteção sobre elas, é o das reformas – para colocar a antena da NET, fazer o cabeamento da telefonia, incluir um para-raios não previsto no edifício ou o ar-condicionado. Ou as reformas. Em uma cobertura de alto luxo às vezes é feita toda a impermeabilização, testase tudo. Depois, o proprietário entra no imóvel e quer reformar tudo, tirar a piscina daqui e colocar ali, sem desconfiar que ali tinha uma impermeabilização. Hoje está um pouco melhor, porque as construtoras estão apertando mais no sentido de entregar realmente o manual de operação e uso. Porque com uma impermeabilização protegida não tem como fazer manutenção, a não ser quebrando.

Em termos de tecnologia, o que há de mais avançado ou em fase de pesquisa?
OURIVES Você pode utilizar materiais que trabalhem contra a pressão negativa – e aí se trabalha pelo lado externo. Quer dizer, não estou pensando em remover o azulejo. Você tem materiais à base de cristalização para fazer esse tratamento. Ou sistema de injeção, à base de resinas, gel acrílico, poliuretano, para fazer o tratamento pelo lado externo, pensando no moldado in loco. Eu acredito que o moldado in loco dá condições de reparo melhores do que sistemas pré-fabricados.
TAKAGI Uma tecnologia relativamente nova é o concreto autocicatrizante. É um material que, quando há uma fissura, consegue fechá-la, desde que seja de até 0,4 mm e seja passiva. No ITA, estamos fazendo algumas pesquisas. Já publicamos pesquisas desde 2011. No ano passado, a gente publicou essa pesquisa em uma revista internacional.
ANDRELLO Também existem os materiais de nanotecnologia. Ela agrega durabilidade e desempenho hoje a obras que não tinham condições de atingir o que existia no mercado para a proteção do concreto. Há sistemas que conseguem fazer, com duas demãos em forma de pintura, uma barreira de proteção na estrutura de concreto como se fosse 4 m de comprimento de concreto tipo aço. São técnicas e tecnologias que vão mudar o mercado da construção daqui a alguns anos.
MARQUES Essas tecnologias já estão disponíveis, mas a gente nota uma grande dificuldade na execução e na qualificação de mão de obra. Por exemplo, a membrana poliureia, que é um produto interessantíssimo, um sistema de impermeabilização top muito usado lá fora, e aqui o que a gente vê? Dificuldade de ter o equipamento e a mão de obra qualificada para esse tipo de impermeabilização.
ANDRELLO É tudo uma questão de evolução de conceito. Na década de 90, fui trabalhar na Sika, quando começou o uso da argamassa polimérica na impermeabilização. O pessoal dizia “mas vamos trocar um asfalto de impermeabilização por cimento?”. Na época isso não cabia. Depois virou febre e hoje só se usa isso.
FARIA Pegando o gancho da argamassa polimérica, hoje, na Vedacit, transformamos toda a linha em monocomponente, porque antes era comum trabalhar com bicomponente. Para uma pessoa leiga trabalhar a proporção do material era mais complicado, mas agora ele já vem pronto para a aplicação. Basta adicionar água. E vem o dosador, tudo para facilitar para o aplicador. Com isso percebemos, até mesmo pelas ligações para o SAC, que as incidências de erro de execução caíram drasticamente.

Qual é a tendência para o futuro desse setor?
ANDRELLO Os fabricantes têm investido bastante em pesquisa para o desenvolvimento de produto. Isso vai ampliar o mercado e trazer o benefício da durabilidade nas obras, com redução de custo. Porque, se é aplicado um produto que tem um desempenho melhor, você economiza na aplicação e na manutenção.
TAKAGI Com a norma de desempenho, a gente consegue utilizar bases mais nobres quando passa a entender que produtos com vida útil mais longa são mais baratos. Isso permite trazer a poliureia, o poliuretano, os híbridos, os géis polímeros e uma série de outras bases que não eram acessíveis devido ao custo inicial.
MARIA AMÉLIA Tenho visto o crescimento dos poliuretanos, dos silicones, e acho que vai ser uma tendência o aumento da utilização dessa linha de produtos.

Qual é a porcentagem de obras que têm projetos?
FABIOLA Em São Paulo, acho que menos de 10%.
MARQUES O pessoal dá mais importância ao acabamento. Até a pouco tempo atrás, a gente dizia que 70% das pessoas procuravam a impermeabilização quando já estavam com problema. Ainda hoje, em cada dez pessoas, sete já têm problema. Então é uma cultura nossa, de fazer a correção, e não a prevenção.
FABIOLA Vejam um exemplo interessantíssimo: a disciplina de impermeabilização é ministrada no curso de pós-graduação de patologia. E os engenheiros e arquitetos formados que estão fazendo um curso de patologia e nunca ouviram falar de impermeabilização demonstram pela expressão facial que tudo é uma novidade!

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