Olhares diferentes (ou complementares) para a mesma obra

A luz do ambiente onde você está é amarela ou branca? Se esta pergunta fosse feita a um arquiteto, com certeza ele saberia a resposta. Mas se a questão fosse direcionada a um engenheiro, ele provavelmente diria: o importante é que a luz está acesa e funcionando. Esse é apenas um exemplo do olhar desses profissionais sobre um mesmo projeto.

Não há certo nem errado. Apenas visões distintas devido à própria formação de cada um. Se a engenharia preza pelos cálculos, respostas e verdades absolutas, o arquiteto tem uma abordagem muito mais subjetiva. São esses diferenciais que muitas vezes geram impasses que podem fazer com que uma obra siga em um ritmo diferente do que deveria.

Ao longo da minha trajetória e com centenas de projetos, essa questão sempre me instigou a perguntar: por que às vezes é tão delicada essa relação numa obra, quando seria muito mais simples ampliar essa sintonia voltando o olhar para o resultado final?

São ajustes finos e, muitas vezes, incompreensíveis num primeiro momento, tanto para um lado quando para o outro. Talvez por isso mesmo que em certos países, como os Estados Unidos, tem sido cada vez mais comum o acompanhamento do projeto em obra pelo arquiteto.

“A presença do arquiteto pode contribuir para as melhores soluções diante de imprevistos, no realinhamento de orçamentos ou de espaços, paredes ou instalações. Trocas de materiais ou de sistemas, em razão do orçamento, podem até diminuir o investimento, mas aumentam o custo da operação. Nesse momento, o arquiteto também pode colaborar, como autor do projeto, na definição de cortes de verbas de uma forma mais consciente.”

O que isso muda? A maneira como vai se conduzir a execução do projeto, desde o orçamento antes da obra, e diante de intercorrências. Nesse contexto, sempre são necessários ajustes técnicos da engenharia, mas que poderão ser executados sem perder a essência e o conceito do projeto original. E, assim, a presença do arquiteto pode contribuir para as melhores soluções diante de imprevistos, no realinhamento de orçamentos ou de espaços, paredes ou instalações, por exemplo.

Trocas de materiais ou de sistemas, em razão do orçamento, podem até diminuir o investimento, mas aumentam o custo da operação. Nesse momento, o arquiteto também pode colaborar, como autor do projeto, na definição de cortes de verbas de uma forma mais consciente.

São parâmetros comuns na rotina da execução de qualquer obra, independentemente do seu porte, com pontos críticos de execução, legalização ou de outra natureza, que o autor do projeto pode detalhar para o executor – e há muita informação perdida nesse gap.

Devemos pensar que qualquer aditivo ou atraso na obra gera custos e tem um impacto negativo, que pode até atingir a imagem de uma empresa pelo não cumprimento de inaugurações e a expansão de negócios. É nesse cenário de decisões críticas que o arquiteto que acompanha o desenvolvimento da obra agrega muito valor. Essa troca aperfeiçoa todos os profissionais para os próximos projetos, que, certamente, serão muitos e sempre com novos desafios para o olhar técnico do engenheiro e para o olhar conceitual do arquiteto.

*ANTONIO CARLOS RODRIGUES é arquiteto formado pela PUC Campinas. Diretor da ACR Arquitetura, empresa com sede em São Paulo, com foco em práticas inovadoras e eficientes, baseadas nos conceitos da arquitetura contemporânea, humanizada e sustentável. Especialista em protocolos de sustentabilidade em arquitetura hospitalar, já liderou equipes para a obtenção de certificação Leadership in Energy and Environmental Design (Leed) nas categorias Platinum e Gold. Consultor na área da saúde desde o estudo de viabilidade até a execução final do projeto.

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