Debate técnico: sistemas de cobertura

Executar um sistema de cobertura sem projeto é quase como dar um tiro no pé. Mas ainda acontece – e muito – no Brasil, especialmente quando o cliente é o consumidor final. “No meu caso, quando o cliente pede para retirar o projeto do orçamento porque acha que está caro, eu o dou de graça”, afirma o engenheiro civil Gilberto Geron, sócio-proprietário da MSPlan. “Mas tenho muitos clientes que são construtoras e arquitetos, e esse pessoal não está incluído nesse leque.”

De acordo com José Sauro Neto, é preciso considerar ainda que o tempo que um projeto demanda, seja qual for a técnica escolhida, talvez seja até maior do que o de realização da obra. “Hoje, no Brasil, gastamos um ano no planejamento e no projeto, e quatro anos construindo”, afirma o engenheiro civil Daniel de Luccas, consultor técnico do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos de Cimento (Sinaprocim). Segundo o consultor, deveria ser o inve rso: investir mais tempo no projeto e menos na construção. “O que está faltando nos últimos dois, três anos é falar, como se deve, sobre o projeto. Aqui não se planeja”, diz De Luccas.

Reunimos, com Daniel de Luccas, três representantes de empresas fornecedoras de sistemas de coberturas para traçar um panorama do cenário atual desse segmento. A conversa tratou de novos materiais, das causas de patologias e da necessidade pontual de manutenção, entre outras questões. Veja a seguir.

Em que momento da concepção do projeto deve surgir a questão do sistema de cobertura? Logo no início, durante ou após a implantação?
GERSON ALCANTARA DE FREITAS Essa é uma questão séria porque na ArtServ atuamos muito com galpões industriais e, dependendo de seu uso, o cliente precisará de maior ou menor estanqueidade. Então, a parte da cobertura passa a ter uma importância enorme. Tem cliente que diz “seu preço está caro, retira o projeto”. E eu respondo que sem projeto não faço a obra, porque meu produto abrange a fabricação da telha in loco.
GILBERTO GERON Se não existir um projeto muito bem-feito, você não consegue fazer um orçamento enxuto, e vai ter desperdício de material e de trabalho. Tanto é que, no meu caso, quando o cliente fala para retirar o projeto do orçamento porque acha que está caro, eu o dou de graça. Para ele não ter prejuízo nem problema depois.
DANIEL DE LUCCAS Você só não conta que foi de graça, né?
GERON Às vezes eu falo. Digo que o projeto, para mim, é tão importante que, se ele não acha a mesma coisa e não quer pagar, eu pago. Mas eu faço o projeto. Preciso deixar claro também que quem acha que o projeto está caro normalmente é o cliente final. Tenho muitos clientes que são construtoras e arquitetos, e esse pessoal não está incluído nesse leque.
JOSÉ SAURO NETO Eu acho coerente você abrir mão do custo para garantir a qualidade, mas a preocupação que a gente tem que ter é com relação à leitura que o usuário está fazendo da necessidade do projeto. Se ele não existir, você corre o risco de cometer erros em razão daquilo que não foi previsto. Independentemente da técnica a ser utilizada, é preciso considerar que o tempo que vai demandar o projeto talvez seja até maior do que o da realização da obra. Mas isso é necessário porque, quando você parte para a execução, está tudo previsto, e isso minimiza gastos com material, canteiro e mão de obra.
GERON Com o projeto até o prazo fica mais fácil de acompanhar.
DE LUCCAS Às vezes, em apresentações, eu exemplifico essa questão da seguinte maneira: da concepção à entrega, vamos supor que um projeto dure cinco anos. E qual é a lógica hoje aqui no Brasil? Você gasta um ano no planejamento e no projeto, e quatro anos construindo. Mas deveria ser o inverso. Então, o que está faltando nos últimos dois, três anos é falar, como se deve, sobre o projeto. Aqui não se planeja.

Partindo do plano ideal, quando existe um projeto bem-feito, há casos em que o cliente quer trocar a especificação de um material por economia de preço, por exemplo?
DE LUCCAS Pode acontecer sim.
SAURO NETO É mais fácil acontecer quando não existe o projeto, porque daí você não está compatibilizando estrutura com solução de cobertura. O que responde à questão talvez seja a falta de qualificação da mão de obra, que é um grande indutor do mercado. Para essa mão de obra, que não é qualificada, é muito mais fácil “queimar” o sistema que foi pensado para aquela situação específica, inclusive no parâmetro custo. O trabalhador fala “é melhor não fazer isso”, porque ele não conhece a técnica a ser executada. Daí ele tira aquilo que estava arranjado e era perfeito, e coloca umacoisa que pode comprometer o resultado.

Por sofrer com intempéries, a cobertura é a parte da construção que talvez mais necessite de reposição num edifício. É previsto um estoque considerando o tempo de vida útil de um edifício?
FREITAS A grande maioria não pensa nisso, embora a gente encontre alguns clientes que tenham essa preocupação. Como produzimos telhas muito longas, já tive casos de fabricar algumas a mais para deixar de reposição. Mas foi um acerto feito com o dono porque ele pensou nisso. Não tenho encontrado essa atitude com frequência nos projetos.

Vocês são chamados para fazer reparos depois?
FREITAS Somos. E nesse caso temos que produzir uma peça.
SAURO NETO Essa falta de preocupação com um possível estoque está fundamentada também por aspectos normativos. Na Eternit, desde a década de 1940 se fabrica os mesmos perfis de telhas, o que independe do fabricante. Você tem uma metodologia que foi pensada para a funcionalidade do produto. Então, não é o que eu determino como empresa, mas, sim, aquilo que a gente sabe que vai dar uma resposta técnica ao produto aplicado. Isso dá uma margem para o usuário – de ele não precisar ter essa preocupação com o estoque. Ele sabe que a qualquer momento a indústria vai poder proporcionar essa reposição.
GERON Se você precisa de manutenção no telhado, eu peço para me mandar o projeto e vou olhar, dar uma solução técnica. Quando o cliente não tem projeto, dificulta muito meu trabalho, porque tenho que ir lá fazer uma análise, subir, medir, descobrir, então o serviço fica maior e o custo aumenta, só para eu poder dar o orçamento.

Quais parâmetros balizam a escolha do material para um sistema de cobertura?
GERON Em primeiro lugar, temos que obedecer a arquitetura. É baseado nela que vou chegar a uma solução técnica. A partir disso, é custo-benefício. É o que vai sair mais rápido e mais barato numa melhor composição técnica.

Os projetos em geral são feitos com preocupação termoacústica?
GERON Isso varia. Mas sempre temos essa preocupação, porque, se o telhado pronto não ficar como o cliente quer, ele vai nos chamar de volta. Então normalmente eu já alerto o cliente e falo que, para essa finalidade de uso, o telhado não está adequado e que será necessária uma telha termoacústica. Dou tudo por escrito, e ele decide se quer optar ou não.

Em termos de material, o que vocês têm de mais novo para coberturas?
SAURO NETO Nós estávamos atuando bastante no segmento de telha metálica e paramos por um tempo. Agora existe uma ideia de retomada e, novamente, vamos para o sistema composto, a fim de atingir os níveis de desempenho desejados. Há uma série de tipos de perfil, com associação de materiais e substratos que pode gerar melhor desempenho – PU e EPS. Isso traz diferenciais em termos de isolamento. Mas, por enquanto, não estão disponíveis no mercado.
DE LUCCAS Na questão do desempenho, os fabricantes de componentes estão tendo que olhar para dentro de sua empresa e complementar as características de seu produto. Hoje, há a questão acústica e térmica, que seria “a novidade”, e a gente está fazendo um trabalho amplo, para dar soluções que incrementem o sistema tradicional. Você falou de PU e EPS, mas tem também as mantas de polietileno expandido, que pouca gente conhece. É um produto voltado mais para o conforto acústico, mas que também tem desempenho de conforto térmico e é uma solução de mais baixo custo em relação a outros tipos de isolantes que existem no mercado. Percebemos uma demanda dos fabricantes junto às associações e entidades do setor para o desenvolvimento de soluções. Aí sim, o arquiteto terá condições de especificar o sistema de acordo com o uso, a zona bioclimática e a orientação.
SAURO NETO Hoje, quando você parte para o mercado das grandes construtoras, elas querem viabilizar o sistema como um todo. Ninguém pensa mais isoladamente a cobertura. Por isso, não basta receber uma telha de fibrocimento para cobrir, mesmo que a finalidade primária do produto seja essa; ela tem que gerar desempenho de absortância de calor, principalmente quando estiver lá no Nordeste. Então, pensamos em outros materiais. Que solução a indústria pode dar a fim de gerar resposta a essa necessidade específica regional? Nós temos estudado e viabilizado. Hoje, por exemplo, temos no portfólio telha que pode ser encarada como lançamento, porque tem essa propriedade, pura e simplesmente pelo tratamento superficial, da absortância do calor que o material recebe.
DE LUCCAS Só um adendo em relação ao conforto térmico: a norma de desempenho é restrita a edificações habitacionais. Só que o mercado é um todo, e a mesma construtora que faz residencial pode influenciar positivamente. Alguns aspectos da norma já estão extrapolando o limite do residencial e já pegam no comercial, por causa de certificações como a Leed e a Aqua. E podem chegar ao industrial. E a questão do requisito térmico é o que vai primeiro porque é uma simulação perfeita. A mesma simulação que você pode fazer para um edifício, você modela um galpão, que é muito mais fácil.

Como anda a questão do amianto e qual material o substitui na composição das telhas?
SAURO NETO Acredito que a questão esteja mais perto de um desfecho. O amianto que utilizamos, o amianto crisotila, o amianto branco, é o único permitido hoje no mundo, devido ao alto teor de magnésio que o produto possui. Isso proporciona uma fibra mais maleável e menos impactante nas questões ocupacionais de contato e de manipulação dessa matéria-prima. Na verdade, há muito tempo não existe mais o contato. Toda a manufatura das telhas que ainda é feita com amianto tem um grau de isolamento. O funcionário recebe o material já empacotado da mineradora, e ele já vai para o silo da mistura sem nenhum tipo de manipulação. Consequentemente, não temos mais o histórico de contaminação do passado e que não estava atrelado a esse tipo específico de fibra de amianto.

Mas, diante de uma proibição inclusive do amianto crisotila, existe algum plano?
SAURO NETO Há plano sim, tanto que nós fabricamos o produto sem amianto nas praças em que a proibição já acontece, por exemplo, no estado de São Paulo. E estamos caminhando para deixar de fabricar totalmente com amianto.

Isso deverá provocar uma subida no custo da telha?
SAURO NETO Isso aconteceu quando houve o lançamento da fibra alternativa. Hoje há duas matérias-primas que respondem bem à substituição do amianto: o PVA e o polipropileno. Mas há algumas técnicas, para a apropriação dessas matérias-primas, para que se garanta a longevidade do produto manufaturado. E isso já está acontecendo. Então hoje a gente tem os dois paralelos andando bem, e a partir do momento em que virar a chave [vier a proibição total], estaremos estruturados.
DE LUCCAS Além de São Paulo, outros estados já proibiram o amianto, como Sauro Neto relatou. E esse período alongado, de não proibir imediatamente a matéria-prima em todo o território nacional, deu tempo para as empresas pensar. Se uma delas não pensou, é de sua responsabilidade. Cada um procura o melhor para o seu negócio.

A cobertura está intimamente ligada com a questão dos painéis solares. Vocês têm tido demanda com isso?
GERON No meu caso só tive uma procura, foi uma residência. Começamos esse projeto, mas, até pelo momento econômico do país, o cliente pediu para dar uma parada.
FREITAS A demanda a gente já tem sentido, mas sem a existência de um projeto. Fizemos um shopping na Praia Grande e lá o dono planejou a estrutura metálica já considerando uma sobrecarga para as placas solares. Nós temos solução para fixar em cima do telhado e realmente é uma excelente situação. Se você pegar um telhado de 20 mil m2, é evidente que vai precisar de uma boa solução, a fim de não comprometer a estanqueidade nem a durabilidade do produto.

Em termos tecnológicos, o que há de mais moderno na parte de coberturas?
FREITAS O nosso sistema, que é zipado, vem crescendo nos últimos 15 anos, em termos de utilização. É porque os grandes galpões buscam estanqueidade, e o sistema zipado dá uma grande tranquilidade quanto a isso.

O que é o sistema zipado?
FREITAS É aquele pelo qual a gente fabrica a telha no próprio local da obra. Usamos uma máquina perfiladeira, que é içada na cota do telhado. Ela já fabrica uma telha contínua, sem emenda, da cumeeira à calha. Por exemplo, em uma área de 80 m ela garante a estanqueidade. Ela é fixada, uma telha na outra, com um clipe especial que absorve a hidratação térmica. A telha é costurada, uma na outra, com uma maquininha, por isso não há parafuso aparente – já uma telha convencional metálica, por exemplo, usa de cinco a seis parafusos por metro quadrado. Ela fica muito mais vulnerável ao longo do tempo.

Quais são as principais patologias nos dois sistemas?
SAURO NETO Quando se fala em patologia da telha, dá para dizer que 95% das situações estão atreladas à instalação incorreta do produto. Existe a especificação técnica, mas o mais recorrente que a gente verifica é a questão da permeabilidade na telha. Todo produto tem um potencial de absorção de água. E as inclinações dos produtos são determinadas em função disso. Na transição do amianto para a nova fibra estruturante, percebemos que essa questão se acentuou um pouco. Então, mais do que nunca, o produto tem que trabalhar dentro da inclinação mínima prevista para aquele modelo de telha, para que não incorra em nenhum tipo de patologia. Mas é preciso lembrar das patologias dos sistemas, porque, ao atrelar a telha a um sistema estrutural que não foi corretamente dimensionado, você fatalmente vai gerar patologia na telha também, pela acomodação do produto. Você pode criar uma flecha excessiva e essa telha, pelo aumento da tração, pode gerar trincas transversais, por exemplo.
GERON O mau uso também faz parte disso. Já peguei dois casos assim. O primeiro era um prédio grande que estava com problema no telhado e, quando subi, vi que o cliente tinha mandado instalar um para-raios e quem o instalou acabou com o telhado. Tinha pé de bota, barro, pedaços de materiais. Tive que trocar seis telhas para o telhado voltar a ter estanqueidade. No outro caso, o contratante falou “olha, o pessoal veio consertar o ar-condicionado e acabou com o telhado”. Fora esses dois casos, de patologia por mau uso, tenho encontrado pouquíssima patologia em cobertura. Quando me chamam, normalmente o problema é a falta de manutenção mesmo.

Qual é a manutenção?
GERON No meu caso é manter a estrutura limpa, pintada. Ter calhas e bocais de descida também desentupidos. Mantendo isso, dificilmente a pessoa vai ter problema.
FREITAS Com a telha zipada também. Nosso manual de manutenção pede para manter o telhado limpo e fazer revisões periódicas para observar se está tendo corrosão, porque pode cair alguma coisa em cima e levantar um rufo, bater um vento forte ou chover granizo, e daí a água empoça. As ações preventivas fazem aumentar a vida útil do telhado.
SAURO NETO Muitas vezes o responsável pela manutenção não sabe como fazer direito o serviço, mas mete a cara. E não é assim que se procede. Todos os fabricantes têm uma preocupação de especificação prévia em demonstrar como a manutenção deve ser feita. E muitas vezes quem contrata não tem essa preocupação e faz de qualquer forma. Daí vêm os problemas.
DE LUCCAS Nessa questão de patologia e manutenção, vale destacar que o usuário, seja ele o consumidor final, seja ele a construtora, tem que ter a consciência de que a manutenção é necessária. Pensando numa vida útil de 50 anos, 5% dela é a construção, os outros 95% poderiam ser o uso, se a construção chegar até lá. Mas o que acontece? O usuário acha que construiu, recebeu novo, acabou. Não precisa fazer mais nada. Na parte de estruturas metálicas em geral, não só de coberturas, a pintura é essencial, ela faz parte do sistema. Você tem que proteger contra corrosão.
GERON Exceto quando você usa aço A 572 Grau 50, que é patinado, o aço naval. Ele cria uma pátina por fora. É a própria “ferrugem”, falando entre aspas mesmo, que protege da corrosão.

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