Debate técnico: argamassas para revestimentos

Trazer soluções de argamassas de revestimentos para cada tipologia de obra em vez de atuar apenas em um determinado nicho é a alternativa que as indústrias estão buscando para capturar o mercado atual, diante da crise econômica. “E aí entra um papel que é nossa responsabilidade como indústria, que é contribuir com o desenvolvimento da cadeia”, considera o engenheiro civil Marcus Coimbra Israel, gerente de desenvolvimento técnico de mercado da Votorantim Cimentos.

Segundo especialistas, apesar da crise tem ocorrido uma abertura das construtoras e de outros participantes dessa cadeia construtiva para inserir conhecimento e discutir como essas soluções efetivamente dão resultado e levam ao desempenho em termos de patologias em fachadas e revestimentos. “Isso já é o bônus de uma situação crítica como a que estamos vivenciando”, diz Israel. “É quando todos param para questionar e fazer de forma diferente.”

O engenheiro civil Carlos Alberto Fevereiro, que atua na área de serviços e assistência técnica da Weber Saint-Gobain, concorda que a crise traz um lado benéfico. “Com essa queda, o mercado está se reorganizando. Até então, na construção civil havia uma carência grande de mão de obra, e muitas vezes tínhamos de contratar pessoas não qualificadas. Hoje não”, afirma Fevereiro.

Os investimentos em tecnologia são altos. Mas, na opinião do engenheiro civil William Medeiros, gerente nacional de vendas e marketing da Sto Brasil, isso não basta. “No Brasil, a inovação que a indústria faz está muito limitada à capacidade de interpretação do grau de importância daquela inovação que o construtor tem. Mas essa demanda precisa naturalmente ser orientada pelo sindicato da construção civil brasileira”, pontua Medeiros.

Reunimos representantes da indústria da construção para discutir sobre esse segmento do mercado. Veja os principais trechos da conversa.


Qual é a visão do mercado com relação ao momento econômico?
MARCUS COIMBRA ISRAEL A Votorantim tem se posicionado e acredita na perspectiva de retomada. Provavelmente ela vai acontecer de forma mais gradativa e,independentemente do cenário econômico atual, a empresa tem apostado na venda de soluções, oferecendo como diferencial a compreensão da necessidade dos clientes. Mas tudo o que acontecer agora, em termos de lançamentos, só vai se refletir daqui a 12 ou 18 meses.
CARLOS ALBERTO FEVEREIRO De 2014 para cá, os construtores sentiram uma retração muito grande na área de venda direta. Mas no canal varejo percebe-se também um ajuste, porque as pessoas se sentem inseguras para investir. Temos apostado em apresentar novas soluções construtivas. Atender às tipologias de edificação de parede de concreto, estrutura convencional, alvenaria estrutural, enfim, atacar todos os segmentos. Com a queda atual, o mercado está se reorganizando. Até então, na construção civil havia uma carência grande de mão de obra, e muitas vezes tínhamos de contratar pessoas não qualificadas. Hoje não. O que nos ajuda na reorganização.
WILLIAM MEDEIROS A Sto chegou ao Brasil em 2014 e, de lá pra cá, estamos vendo o Brasil real e já estamos assimilando o redesenho |da nossa estratégia de implantação. Nós não sentimos nenhuma melhora. Na prática, é mais otimismo do que pragmatismo. A inadimplência está muito alta e existe uma tentativa de manter os projetos mais lucrativos em andamento. E ainda há pouquíssimos lançamentos. Alguns negócios foram feitos, mas nós não vamos sentir. Como fabricamos revestimentos, só depois que a Votorantim e a Weber venderem é que nós vamos comercializar alguma coisa. Não dá para fazer uma avaliação real antes de 24 meses.
ISRAEL O interessante é que a alternativa que as indústrias estão buscando para capturar esse mercado circunda a solução construtiva – e não a venda de produto. E aí entra um papel que é nossa responsabilidade como indústria, que é contribuir com o desenvolvimento da cadeia. Apesar da crise, existe uma abertura das construtoras e de outros participantes dessa cadeia construtiva para inserir conhecimento, discutir como essas soluções efetivamente dão resultado e levam ao desempenho, em termos de patologias em fachadas e revestimentos. Isso já é o bônus de uma situação crítica como essa que estamos vivenciando. É quando todos param para questionar e fazer de alguma forma diferente.

O desplacamento cerâmico provocou uma mudança de normatização e tivemos a nova NBR 13755, que praticamente duplicou o coeficiente de resistência das argamassas para revestimentos. Qual é a percepção dos senhores sobre essa questão?
ISRAEL Acho que são duas linhas separadas: uma é o momento recente que o mercado vivenciou, em que as construções eram feitas num ritmo a se capturar as oportunidades sem se preocupar com a qualidade. Isso gerou a necessidade de ter mais mão de obra e, mesmo não sendo capacitada, essa mão de obra fomentou o processo de industrialização nos canteiros. Daí a entrada de novos sistemas construtivos não tão conhecidos. E, quando você junta tudo, cria um cenário que favorece o problema. Agora, olhando por outro lado, que é o de como a indústria tem visto isso, entramos um pouquinho naquilo que eu já falei: temos uma responsabilidade também de desenvolver a cadeia. À medida que a gente traz novas soluções, elas precisam ser discutidas com esses participantes – projetistas, construtoras, empreiteiros, aplicadores, fabricantes de equipamentos -, para que sejam usadas da forma correta. Hoje, não é à toa que nós não falamos aqui em produto, mas em solução. O que a gente precisa trazer para esse mercado são coisas bem resolvidas. E no Brasil elas não estão bem resolvidas.

Você está falando de mão de obra?
ISRAEL Não só de mão de obra, mas de quem projeta. Essa norma não mudou só por consequência de um passado recente de problemas. As edificações estão mudando, os projetos estão mudando. Agora, você não pode querer que as argamassas desenvolvidas a um tempo atrás tenham o mesmo desempenho nos prédios com o nível de esbelteza atual, mesmo que os prédios se movimentem, se comportem de forma diferente. Com a evolução dos tipos de concreto para permitir toda essa esbelteza, há concretos cada vez mais resistentes, prédios cada vez mais altos, com absorções diferentes, então é natural que os revestimentos precisem cumprir e atender às especificações técnicas distintas das do passado. É preciso tomar cuidado para não atribuir essas movimentações normativas apenas como uma necessidade corretiva. Elas têm também a responsabilidade de atender às novas especificações, porque uma parte considerável das normas está ultrapassada e precisa realmente ser revisada.

O senhor está dizendo que uma mudança dessas é muito mais uma modernização das normas do que uma correção?
ISRAEL Ela serve para as duas coisas. Acho que a finalidade é a correção e a consequência é a prevenção.
MEDEIROS Sintetizando o que o Israel falou, aqui no Brasil a inovação não é estudada antes de se tornar realidade. Falando de placa cerâmica, a relação entre ela, a argamassa colante e o substrato, inevitavelmente existem três culpados. Mas eu acho que a inovação que o construtor fez, à luz de uma hipotética redução de custo do processo, é o grande vilão. Sobre a colocação de uma placa cerâmica diretamente no substrato estruturalmente responsável, eu vejo como o Israel disse: o fck está diferente, naturalmente o grau de desempenho está diferente, o revestimento está diferente. Muita gente usa a argamassa industrializada, mas antes fazia isso com a argamassa dosada em obra, que tem agregados totalmente diferentes, módulos de deformação elástica totalmente diferentes. No entanto, inventou-se a roda com o carro andando. E agora estamos descobrindo que ela não necessariamente vai funcionar do jeito como estávamos fazendo. Eu acho que esse é o grande problema.

As empresas estão aproveitando a desaceleração para investir em tecnologia?
FEVEREIRO A Weber tem dez centros de pesquisas espalhados pelo mundo e um deles é aqui no Brasil, em Capivari, no interior de São Paulo. Ele tem a função de fazer a sinergia entre as empresas do grupo Saint-Gobain, porque trabalhamos muito forte com sinergia sobre soluções tecnológicas para a construção civil. Temos um projeto chamado Habitat, que integra empresas como Brasilit, Isover, a própria Weber, pelo qual desenvolvemos soluções para esse mercado.
MEDEIROS Nós temos 80 pessoas no departamento de desenvolvimento de tecnologia e estamos presentes em 87 países. É praticamente uma pessoa em cada país falando de desenvolvimento regionalizado, porque, acima de tudo, a construção em cada país é diferente. Mas a indústria de materiais depende de outras indústrias para fazer valer esse estudo profundo da inovação. É um trabalho contínuo. E, nesse caso das placas cerâmicas, o sindicato da construção civil brasileira deveria ter orientado um pouco melhor os seus associados construtores. O sindicato tem que ser o fomentador, porque a indústria é apenas uma ponta do iceberg. Aqui no Brasil a inovação que a indústria faz está muito limitada à capacidade de interpretação do grau de importância daquela inovação. Essa demanda precisa naturalmente ser orientada pelo sindicato.

Como fornecedores, seja de argamassa, seja revestimento, os senhores estão presentes no canteiro para garantir que o seu produto seja aplicado corretamente?
FEVEREIRO Fornecemos o produto, mas não estamos full time no canteiro. Mas temos uma equipe de instrutores, principalmente em revestimentos decorativos – não para a linha propriamente de rebocos, argamassa cinza -, que tem um trabalho muito forte de treinamento na nossa sede. E fazemos os acompanhamentos em obra, quinzenalmente, dependendo das soluções da própria construtora. Não basta fornecer um produto ou um sistema se não tiver toda a cadeia produtiva envolvida, seja a construtora, seja a empresa aplicadora.
ISRAEL O cenário agora praticamente obriga as construtoras a serem competitivas. E elas estão buscando competitividade não só pela redução do processo inteiro, mas pela consciência de que o custo menor tem que ser no metro quadrado aplicado. Para isso, ela tem que passar pelo processo de industrialização. Ou seja, tem que investir em equipamento e produtos de ponta para que o ganho de produtividade, na hora que for contabilizada a redução dos riscos de pós-obra, tenha um custo de metro quadrado menor.
FEVEREIRO Hoje as grandes construtoras estão investindo muito na formação do seu corpo técnico, principalmente alinhado-o com o das indústrias. A gente percebe isso e tem participado. Na Weber, recebo muitos engenheiros, arquitetos, o corpo técnico do canteiro de obra, para fazer treinamento sobre o sistema oferecido. Isso é bacana porque estamos capacitando realmente o mestre de obras, o encarregado.
ISRAEL A Votorantim criou há três anos e meio uma área só para atuar no desenvolvimento técnico de mercado. Ela vai encontrar uma solução de forma customizada dentro do canteiro. Se a empresa tem duas obras, uma do lado da outra, mas os projetos são diferentes, então as soluções também são diferentes e desenvolvemos essas soluções em conjunto: construtor e cliente, empreiteiro e mão de obra, fazendo o processo de capacitação. Muitas vezes fazemos painéis-protótipos para entender o desempenho mediante a norma daquela solução. Como atuamos na área que vai desde a argamassa de assentamento até o rejunte, conseguimos ter o desempenho da solução do sistema como um todo. Esses painéis-testes geram uma confiança grande. E, se antes não havia abertura para fazer um trabalho como esse, hoje falta braço. As solicitações são tantas que é preciso estabelecer em quais construtoras vamos atuar, porque não temos braços para tudo.

Os projetos de revestimento chegam com um detalhamento e uma preocupação de pesquisa, ou isso ainda é visto acontecendo ao longo da obra?
FEVEREIRO As grandes construtoras já têm esse detalhamento, e eu sempre falo que fachada tem que ter projeto. Não é simplesmente aplicar uma argamassa cinza e ver depois o que vai fazer. O projeto tem que estar mastigado, detalhado. As grandes construtoras já estão trabalhando com projetos, com soluções. O engenheiro da obra não vai perguntar para mim, lá no canteiro, que tipo de selante ele tem que usar. Isso tem que estar no projeto.
ISRAEL Ainda é decepcionante o número de construtoras que efetivamente fazem um projeto de fachada. Acho que não chega a 5%. Mesmo assim, é uma herança positiva que ficou desse histórico de patologias que temos hoje o fato de que elas sentiram a necessidade de ter o projeto. Agora, as grandes dificilmente executam suas edificações sem ter o projeto. Mas a gente ainda encontra, a todo o momento nas obras, aquele questionamento: “Como devo proceder?”, que é algo que deveria ter sido visto na fase de concepção.

Falando em tecnologia, o que há de mais moderno em soluções para revestimento?
ISRAEL A Votorantim entende que a solução, em revestimento, precisa passar por todas as etapas do canteiro. Pensamos desde em quais são os produtos que vão compor uma solução mais a parte executiva, de canteiro. É preciso entender a logística de canteiro do cliente, saber como o produto vai ser entregue, onde vai ficar armazenado, como será transportado verticalmente para os pavimentos, como vai ser aplicado e controlado. Pensando nisso, temos investido hoje muito fortemente no sistema Matrix, que só havia na cidade de São Paulo e em Curitiba. Atualmente, já existe em Brasília, Goiânia, interior de São Paulo e em algumas cidades de Minas Gerais e no Sul do país.

E o que é exatamente o sistema Matrix?
ISRAEL É uma solução que vai desde o fornecimento da argamassa a granel – e o armazenamento dela é em silos – até o sistema que já prevê o transporte a seco para o pavimento, por mangotes. Assim, dá para eliminar um dos principais gargalos, em termos de custo para a obra, que é o transporte vertical. Não precisa elevador, grua, nada disso. A argamassa cai num equipamento de mistura já no pavimento, no local de aplicação, e ali ela é misturada com água e pode ser aplicada manualmente ou projetada. Em paralelo com o Matrix, temos o piloto do Projeto Empreiteiro, que está qualificando e certificando os empreiteiros de projeção, a fim de poder garantir que o maior problema, que é a mão de obra, seja resolvido.
MEDEIROS Não existe norma para revestimentos decorativos no Brasil, e sentimos essa carência enorme. Mas a inovação que a Sto está propondo é que o mercado tenha à sua disposição revestimentos decorativos capazes de suportar essas tensões maiores que o fck. Nós recomendamos uma linha de revestimentos permeável ao vapor, apesar de ser acrílico. São revestimentos flexíveis, tolerantes a fissuras e permeáveis ao vapor, para que se tenha um sistema que transpire. Eles não precisam ser pintados tão rapidamente, porque permitem a transpiração. Chamamos esse produto de textura orgânica.
FEVEREIRO A partir do ano 2000, a Weber introduziu no mercado brasileiro as argamassas decorativas. É um produto cimentício que tem a monocamada como diferencial, algo que já existia na Europa desde 1974. Esse revestimento colorido dispensa a pintura. É diretamente aplicado sobre a alvenaria, tanto sobre o bloco cerâmico quanto sobre o de concreto. Até 2014 indicávamos o uso desse produto a um nicho específico de mercado, que era o da alvenaria estrutural. A monocapa era aplicada em espessuras que variam entre 1,5 cm e 3 cm. Pensando nisso, e já sentindo que o mercado necessitava de uma adequação, ouvimos os principais players, procurando atender às diferentes tipologias com as quais cada construtora atuava. Daí, apresentamos soluções de fachadas para diversos tipos de obra. Hoje, se falar em alvenaria estrutural, tenho a monocapa; se falar em alvenaria reticulada, introduzimos um produto chamado monocapa base, um revestimento cinza que dispensa o uso de chapisco.

O revestimento pode ser aplicado diretamente na alvenaria?
FEVEREIRO Sim. Mas para qual tipologia de obra? Alvenaria convencional, em que as diferenças de planeza são muito grandes. Lançamos também um produto derivado do monocapa classic, que é o monocapa natura, para um nicho de mercado das obras populares, onde a construtora precisa ter uma redução de custo.

É uma argamassa já pigmentada?
FEVEREIRO Sim. É para revestimento externo e para obras populares. Ela tem um tipo de acabamento e seis cores, pode ser projetada ou aplicada manualmente, e permite o acabamento travertino. A gente percebe que o sistema para parede de concreto está crescendo bastante, comparado com a alvenaria estrutural. E para parede de concreto o revestimento utilizado é o acrílico. Pensou-se numa solução cimentícia, compatível com o substrato, que não sofresse alcalinidade, porque as texturas sofrem alcalinidade.
MEDEIROS Sim, apesar de ninguém levar isso em conta.
FEVEREIRO O revestimento acrílico retém líquido, é estanque, enquanto um revestimento cimentício transpira. O nosso revestimento decorativo monocapa é lavável e o custo de uma lavagem, comparado com o de uma pintura, é de um terço. E aí o nosso trabalho muito forte, principalmente no revestimento de monocapa, é o treinamento. Tenho que capacitar, e esse desafio é grande. Tanto que não vendemos a solução sem o cliente procurar uma empresa credenciada no nosso site. Ou formamos essa mão de obra. Do contrário, ela condena todo o sistema.

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