Mercados de Cuiabá e Campo Grande comemoram o aquecimento, mesmo que tímido, do setor após três anos

Baixo estoque de imóveis novos e valores até 30% mais altos. O cenário, projetado pelos dirigentes do setor de construção para os próximos anos em Cuiabá, capital de Mato Grosso, é resultado da pouca quantidade de lançamentos dos últimos anos. Passada a euforia por causa da Copa do Mundo (em 2014 a metrópole sediou alguns jogos de uma das fases da competição), a cidade viu a quantidade de empreendimentos novos despencar de 16, há três anos, para três, em 2016.

Esses números fazem parte de um estudo realizado pela consultoria Brain – Inteligência e Assessoria em Real Estate, de Curitiba, no Paraná, a pedido da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), em várias capitais do país. Segundo Júlio Flávio Campos de Miranda, presidente do Sinduscon-MT, o mercado local começa a retomar as atividades em ritmo lento, mas constante. “Já verificamos um saldo positivo, com as empresas contratando. De forma geral, o setor está mais otimista”, explica Miranda.

Fachada do empreendimento Grand Arena Residence, da Construtora São Benedito, na capital mato-grossense

Não é como o boom vivido nos tempos dourados do segmento, há alguns anos, mas já é um recomeço. Nos três primeiros meses deste ano, por exemplo, três empreendimentos (a mesma quantidade do ano passado todo) foram lançados, com 528 unidades. Atualmente, 88,4% ainda estão disponíveis para comercialização. Os números confirmam as previsões do presidente da entidade. Os 16 empreendimentos lançados em 2014 contavam com 2.336 unidades. Desse total, hoje 483 ainda estão disponíveis.

O cenário é favorável especialmente para quem deseja negociar, como explica Miranda. “A oferta de boas unidades ainda é grande e os preços estão estáveis. Em breve, teremos um vácuo, pois poucos imóveis têm previsão de entrega no ano que vem e nos dois seguintes. E isso poderá elevar os preços”, afirma. Para ter uma ideia, basta olhar o levantamento da Brain. Em maio, houve apenas um empreendimento lançado, com 76 unidades. O preço médio do metro quadrado residencial fechou o mês em R$ 5.342.

Ainda de acordo com a pesquisa da Brain, o maior número de lançamentos ocorreu no segmento entre R$ 180 mil e R$ 400 mil, chamado standard. No entanto, a maior oferta disponível está na faixa de médio padrão (até R$ 700 mil), com 23,8% de unidades à venda. O estudo mostrou que o número de lançamentos caiu, porém a demanda continua crescendo. Isso faz com que os dirigentes acreditem que a indústria da construção já superou seu momento mais crítico.

Lançamentos em profusão
Marco Sérgio Pessoz, presidente do Secovi-MT, confirma que o melhor momento do mercado imobiliário na região ocorreu antes de 2013. Tanto que várias construtoras anteciparam lançamentos de olho na procura crescente. De 2013 para 2014, a queda chegou a quase 12%. “Até 2013, o momento da macroeconomia era bom. Em razão disso e da demanda interna, as construtoras aproveitaram para lançar empreendimentos que seriam entregues somente neste ano”, explica Pessoz. “Foi o que contribuiu para elevar o estoque.”

“A oferta de boas unidades ainda é grande e os preços estão estáveis. Em breve, teremos um vácuo, pois poucos imóveis têm previsão de entrega no ano que vem e nos dois seguintes. E isso poderá elevar os preços.”
Júlio Flávio Campos de Miranda, presidente do Sinduscon-MT

Pessoz diz que a queda na taxa de juros e a retomada paulatina da economia têm estimulado as pessoas a realizar o sonho da casa própria. “Se monitorarmos as operações de TBI (transferências bancárias via internet), veremos que houve uma redução de 5% na quantidade de transações, mas no valor total houve acréscimo de 1,5%”, afirma ele. Com o agravamento da crise econômica em 2016, a retração do mercado foi tão drástica que muitas construtoras tradicionais com sede em São Paulo, por exemplo, deixaram de investir em novos projetos e simplesmente abandonaram Cuiabá. Permaneceram apenas as empresas locais.

Em Cuiabá, o programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) não sofreu alteração drástica. “Dos três lançamentos de 2016, dois eram do MCMV”, conta Pessoz. Outra iniciativa que ajudou a turbinar as vendas nessa faixa foi a realização de um feirão da Caixa, entre os dias 23 e 25 de junho. O evento atraiu mais de 3.000 pessoas – 50% acima das expectativas – e movimentou negócios na ordem de R$ 146 milhões em contratos.

Dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) mostram que, em junho, o montante de financiamento imobiliário voltou a crescer em Mato Grosso. Os financiamentos com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) atingiram R$ 3,8 bilhões, alta de 6,5% em relação a maio. Comparado a junho do ano passado, a queda, no entanto, foi de 11,1%. No estado, houve aumento de 44% em relação a junho do ano passado, com volume total de R$ 87.575.185,00.

Paulo Bresser, presidente da Comissão da Indústria Imobiliária do Sinduscon-MT e sócio da Gerencial Construtora, também faz parte do grupo que acredita que o segundo semestre deste ano será bem melhor do que o ano passado e que o próximo terá um bom volume de vendas. “O impacto da crise não vai deixar marcas. No momento, o mercado está comedido e até tímido, mas já está reagindo”, afirma Bresser.

Para ele, como as construtoras pisaram no freio e reduziram lançamentos, em 2019 vão faltar imóveis. Os preços, consequentemente, devem aumentar até 30%. Bresser fala com base em sua experiência de empresário. Ele diz que sua empresa, a Gerencial Construtora, lançou recentemente o Villaggio Veronese, com 100 unidades e valor médio de R$ 600 mil cada uma, com entrega prevista para 2020. Mesmo com as inovações propostas, como o reaproveitamento da água dos aparelhos splits de ar condicionado, as vendas ficaram abaixo da expectativa. “Devem melhorar nos próximos meses”, aposta Bresser.

“O impacto da crise não vai deixar marcas. No momento, o mercado está comedido e até tímido, mas já está reagindo.”
Paulo Bresser, presidente da Comissão da Indústria Imobiliária do Sinduscon-MT

Quem partilha do mesmo otimismo e não deixou de investir no mercado foi a Construtora São Benedito, com sede na capital mato-grossense. De janeiro a maio deste ano, a empresa entregou dois grandes empreendimentos residenciais – o Grand Arena Residence e o Park Líbano – e tem previsão de finalizar mais cinco nos próximos meses. Segundo informações fornecidas pela construtora, esse é o maior volume de imóveis de uma companhia finalizados no mesmo ano.

Ritmo lento, mas constante
Ao contrário de Cuiabá, a cidade de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, vive uma retomada mais lenta. De acordo com Amarildo Miranda Melo, presidente do Sinduscon-MS, o mercado está estável e deve permanecer assim até o fim de 2017. Ele diz que a instabilidade política tem feito os empresários do segmento fechar as torneiras e ser mais cautelosos na hora de investir.

“A previsão é de retração de 3% na construção civil no país. Portanto, a esperança de retomada aqui deve ocorrer no segundo semestre de 2018”, afirma Melo. Marcos Augusto Netto, presidente do Secovi-MS, acredita que as empresas já estão retomando paulatinamente seus projetos e que, com relação a outros estados, Mato Grosso do Sul ainda vive uma situação diferente – e até certo ponto mais positiva –, pois procura manter em dia o pagamento do funcionalismo público, o grande cliente do programa MCMV.

De acordo com Netto, a cidade está se tornando um importante centro de ensino e de tratamentos de saúde. É que muitas famílias enviam os filhos para cursar universidade em Mato Grosso do Sul e moradores de países vizinhos chegam à cidade em busca de cuidados médicos ou de vacina para seus filhos. “Sem dúvida, esse fluxo ajuda a movimentar a economia e tem reflexo também no setor imobiliário”, explica.

Fachada do Park Líbano, da Construtura São Benedito

“Os corretores de imóveis têm uma postura mais arrojada. Acredito que, com a crise, esses profissionais investiram em capacitação, se especializando e buscando soluções para driblar as dificuldades.”
Delso José de Souza, presidente do Creci-MS

Enquanto o segmento não decola, o Sinduscon-MS tem promovido parcerias com órgãos estaduais e municipais para acelerar, por exemplo, a liberação de documentos com menos burocracia. Outra iniciativa foi criar, junto com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Escola Senai da Construção para capacitar mão de obra. A ideia é oferecer cursos nas áreas de construção civil e indústria do mobiliário – das formações iniciais às mais complexas, com opções tanto para o trabalhador de base quanto para gestores, engenheiros e estudantes de graduação.

Outro incentivo é o convênio assinado pelo governo estadual com a Caixa Econômica Federal para oferecer subsídio de R$ 1,5 mil a R$ 6 mil por moradia, dependendo da faixa salarial (o teto é de R$ 2.350), para ampliar o poder de compra das famílias no programa Minha Casa Minha Vida.

Aposta certeira
A Construtora MRV também acredita no reaquecimento do mercado. Tanto que, atualmente, está com três obras no MCMV, com 1.028 unidades e custo médio de R$ 122 mil cada uma. “Desde o ano passado, o mercado vem melhorando muito e reagindo bem. Estamos nos reinventando e ajustando as condições de pagamento à situação atual do país”, diz Fábio Simões Pires, gestor de vendas da empresa.

O executivo explica que a construtora faz todo o possível para que o sonho do imóvel se encaixe nos planos de seus clientes. “Prova disso é o crescente número de vendas, que foi 60% superior em relação a 2016. Hoje, temos empreendimentos nas melhores regiões da cidade, com lazer completo e condições exclusivas de pagamento”, diz Pires.

A Construtora MRV toca três empreitadas ao mesmo tempo em Campo Grande. As unidades do programa MCMV têm custo médio de R$ 122 mil cada uma. Acima, fachada do Parque Castello del Monte

Delso José de Souza, presidente do Creci-MS, também está otimista. “Campo Grande é uma capital em crescimento”, afirma. Ele reconhece que 2016 não foi um ano fácil para ninguém, mas várias estratégicas foram criadas para ajudar o segmento a se recuperar. “Os corretores de imóveis naturalmente têm uma postura mais arrojada. Acredito que, com a crise, esses profissionais investiram em capacitação, se especializando e buscando soluções para driblar as dificuldades”, explica Souza. “Agora, aguardamos medidas mais robustas, por parte do governo, para motivar a população a buscar o financiamento da casa própria.”

Por Katia Cardoso

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