Quatro anos de vigência da norma de desempenho: um balanço positivo

Há pouco mais de quatro anos, no dia 19 de julho de 2013, entrava em vigor a NBR 15.575 – Edificações Habitacionais – Desempenho, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), conhecida simplesmente como norma de desempenho. Foi idealizada e elaborada ao longo de mais de dez anos de debate, reflexão e consolidação de outras 232 normas técnicas preexistentes, e baseada na necessidade pungente de lançar mão não só de um divisor de águas para o controle da qualidade do espaço construído, mas também de um marco que promovesse imensa mudança cultural no mercado da construção civil.

Ainda não há números capazes de revelar a métrica de seus impactos, porém, já é possível saber que são positivos os seus resultados e que esta é uma norma que veio para ficar. Projetos que foram protocolados após sua entrada em vigência, que por isso obrigatoriamente devem atendê-la, começam a mostrar seus frutos somente agora – é o fechamento do ciclo da construção (de quatro a cinco anos), entre aprovação, construção e entrega dos produtos.

“Desempenho é o comportamento em uso e operação. Ele não é medido somente do ponto de vista técnico, da engenharia e da arquitetura, mas também parte da premissa de que o ambiente finalizado, em todos os seus subsistemas, deverá atender aos anseios do usuário”, explica Sergio Fernando Domingues, diretor técnico da construtora Tarjab e membro do Comitê de Tecnologia e Qualidade do Sindicato da Construção (Sinduscon-SP).

Em outras palavras, é só a partir de agora que esses impactos passam a ser efetivamente aferidos por quem for ocupar os imóveis construídos de acordo com os critérios da NBR 15.575. Vai ser possível dizer quem cumpriu ou não cumpriu o seu papel a partir da idealização do projeto – arquitetos, engenheiros, incorporadores e/ou construtores, fornecedores de insumos e soluções construtivas e até mesmo o cliente-consumidor, afinal, uma das grandes vantagens da norma é deixar claro qual é o papel de cada um deles.

“Não se trata de dividir responsabilidades. Vai muito além disso, porque responsabilidade é algo que não se delega. O que pode ser delegado é um trabalho ou outro, mas cada agente da cadeia é responsável pela qualidade e pelo desempenho do produto final como um todo. E, para que isso seja atingido, é preciso que todos, sem exceção, façam a lição de casa: cada um no seu foco, na sua área de expertise”, destaca Domingues. Para ele, o ganho não é só do consumidor, que aprende o que exigir (e de quem exigir), mas também dos construtores, que passam a ter uma visão muito mais clara de todo o ciclo construtivo e de suas próprias responsabilidades.

Dionyzio Klavdianos, presidente da Comissão de Materiais, Tecnologia, Qualidade e Produtividade (Comat), da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), afirma ser possível notar que a entrada em vigor da norma está levando à obsolescência uma série de práticas antigas, produtos, fornecedores, construtores e até mesmo projetistas que não comungam com os novos tempos de maior exigência e rigor técnicos. “Já há uma conscientização muito maior quanto aos critérios da norma e à obrigatoriedade de atendê-la. Sinto que esses agentes têm percebido que ela é um caminho sem volta”, confirma Domingues.

De acordo com Maria Salette de Carvalho Weber, arquiteta e coordenadora-geral do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H), do Ministério das Cidades, a norma de desempenho impactou muito o setor da construção civil ao adotar requisitos mínimos necessários para que os usuários de unidades habitacionais sejam atendidos nos aspectos de segurança (estrutural, combate ao fogo, uso e operação), habitabilidade (estanqueidade, desempenhos térmico, acústico, lumínico, além de saúde, higiene, qualidade do ar, funcionalidade e acessibilidade, confortos tátil e antropodinâmico) e sustentabilidade (durabilidade, manutenção e impacto ambiental). “Essa norma mudou um paradigma que antes não tinha como foco o usuário final”, defende Maria Salette.

O que mudou
Para Sergio Domingues, diretor da Tarjab, uma grande mudança aconteceu no setor de projetos – escritórios de arquitetura e engenharia. E não é só porque 83% dos 281 critérios da norma estão direta e exclusiva ou até tangencialmente atrelados ao projeto, mas também porque projetistas não tinham a visão de que eram responsáveis pelo desempenho final do produto, e atribuíam muito dessa responsabilidade a seus contratantes, que executam as obras.

A opinião da engenheira e consultora Maria Angélica Covelo Silva, do Núcleo de Gestão e Inovação (NGI), é convergente. Desde os anos 80 ocupada com a gestão da qualidade na construção como desempenho de produtos finais – e não como documentação de processos construtivos –, ela sempre achou importante que a cultura de outras indústrias chegasse ao mercado das obras civis: “Estou debruçada sobre as questões que envolvem a NBR 15.575 pelo menos desde 2005, e uma visão realista sobre o setor aponta que se havia, ou se ainda há, uma falta de consciência da responsabilidade de atender à norma, ela não é da pessoa jurídica, mas sim do profissional pessoa física, engenheiro ou arquiteto, que não tem intrinsecamente no seu DNA a conformidade do projeto aos critérios de desempenho. Nossos técnicos não são formados com essa mentalidade”, pondera.

Em países do Hemisfério Norte, o desempenho do produto final é ponto de largada para qualquer projetista. É a operação e o conforto do usuário que delimitam diretrizes para as decisões técnicas. No Brasil, legislação (como o Código de Obras), cálculos, dimensões, formatos, custos e até estética sempre estiveram à frente.

Mas isso tende a mudar a partir de agora. A Tarjab, que não tem equipe própria de projetos, fez um trabalho de conscientização de seus parceiros, “para colocar todo mundo na mesma página” e fazer entender que o desempenho deve permear o conceito todo tempo, em cada traço. “Isso, por si só, já é uma grande mudança positiva de cultura”, avalia Domingues.

Não se trata, no entanto, de jogar todo o peso da mudança cultural nas costas dos técnicos-projetistas. No que diz respeito a incorporadores e construtores, as mudanças também não são pequenas. Quem não executar à risca o projeto que contemplou o bom e normatizado desempenho, lá na ponta final, vai deixar a desejar, além de chamar para si a responsabilidade por falhas do produto devido à falta de observação do próprio projeto.

“Embora seja possível aferir totalmente o desempenho só depois da ocupação dos imóveis, temos formatado métodos mais detalhados para evidenciar como os itens de desempenho vêm sendo cumpridos ao longo da execução”, conta Domingues.

Trata-se de verificações parciais, ou check points, mais frequentes (em maior número) e em maior intensidade, através de ensaios técnicos in loco ou laboratoriais, conferência de materiais e de serviços, para saber se cada subsistema inclina-se a atender aos critérios da norma de desempenho.

Para Domingues, bom exemplo é a performance acústica de um contrapiso. “Terminada sua execução, fazemos um ensaio de ruído de impacto. Dá para perceber se houve algum erro, o que é inerente ao processo construtivo, a fim de corrigi-lo a tempo de evitar novos custos e falhas”, afirma.

Outros exemplos de mudanças nos processos construtivos são os ensaios de corpo mole in loco, nos guardas-corpos, ou mesmo o desenvolvimento de protótipos (unidades-modelo) para ensaios acústicos de ruídos de impacto e aéreo. Mas não é só.

Na Tarjab, documenta-se, por meio de um dossiê de desempenho, o atendimento de todos os itens da norma, um a um, desde o projeto até a entrega das unidades. “O cliente compra o imóvel da incorporadora e/ou construtora e, quando existe algo que o desconforta, é para ela que chega a reclamação. O que a NBR 15.575 faz é possibilitar que o consumidor reivindique do próprio projetista ou fornecedor, se for o caso, a falha de desempenho do produto. Porém, temos que ter um arcabouço técnico de evidenciação de cumprimento dos critérios estabelecidos e, por isso, é tão importante que tudo seja descrito e documentado. Se algo for solicitado, fica mais fácil identificar quem fez o necessário, ou não. Esse método de registro, para atender aos anseios do consumidor, também deve ser visto como um grande impacto positivo da norma sobre o mercado da construção”, diz Domingues, diretor técnico da empresa.

Numa terceira ponta, fornecedores de materiais e subsistemas construtivos que já tinham a obrigação de atender a normas técnicas agora também devem se preocupar em evidenciar como seus produtos cooperam com o atendimento aos critérios de desempenho. Não basta mais afirmar que têm qualidade. Para continuar vendendo, será preciso uma formalização.

Alguns setores, como é o caso de esquadrias e gesso acartonado (bastante industrializados), fizeram sua lição de casa muito bem e têm praticamente a integralidade de seus produtos classificada e adaptada à nova realidade da norma. Quem ainda não atentou para ela, por outro lado, tende a perder a vez nos grandes mercados concorrenciais como São Paulo.

Segundo Sergio Domingues, membro do Sinduscon-SP e diretor da Tarjab, o ciclo se fecha de forma natural. “O que houve foi uma tradução da norma para cada subsistema ou insumo da construção, e cada fornecedor formaliza seu compromisso num contrato, em que detalhamos tudo que precisa ser cumprido, para evidenciar o atendimento à norma de desempenho.”

Por fim, é o próprio usuário quem toma conta da operação do produto – e ele também terá suas responsabilidades definidas a partir dos critérios da norma. Nesse ponto, a questão é de educação continuada: informar aos condomínios que é essencial e inadiável atender aos prazos para manutenções periódicas indicadas nos manuais.

“É o mesmo que acontece com os automóveis novos. Você tem um manual, uma garantia e, para que se beneficie dela, deve atender a critérios e prazos das revisões. Não é possível esperar aparecer o defeito para só depois reclamar do desempenho do motor, ou da aerodinâmica, ou da elétrica – se você não fez as revisões necessárias. Com o imóvel será a mesma coisa”, explica Sergio Domingues.

A manutenção preventiva listada no manual deve ser atendida para que a garantia do produto não seja perdida. Deverá ser feita uma vez por ano, por exemplo, a lavagem do sistema hidráulico da caixa d’água. E, para cumprir bem essa tarefa, será necessário contratar um prestador de serviços qualificado, que realize a manutenção conforme o escopo técnico descrito no manual, além de celebrar o contrato entre o condomínio e o terceiro prestador do serviço.

“O cliente compra o imóvel da incorporadora e/ou construtora e, quando existe algo que o desconforta, é para ela que chega a reclamação. O que a NBR 15.575 faz é possibilitar que o consumidor reivindique do próprio projetista ou fornecedor, se for esse o caso, a falha de desempenho observada no produto. No entanto, temos que ter um arcabouço técnico de evidenciação de cumprimento dos critérios estabelecidos e, por isso, é tão importante que tudo seja descrito e documentado. Se algo for solicitado, fica mais fácil identificar quem fez o necessário, ou não. Esse método de registro, para atender aos anseios do consumidor, também deve ser visto como um grande impacto positivo da norma sobre o mercado da construção.”
Sergio Fernando Domingues, diretor técnico da construtora Tarjab e membro do Comitê de Tecnologia e Qualidade do Sindicato da Construção (Sinduscon-SP)

Se esse é o papel do consumidor no cumprimento da norma de desempenho, fica claro que a questão não é isentar construtoras de sua obrigação, mas sim introduzir uma cultura geral de responsabilidade compartilhada e cuidado, cuja materialização depende da consciência de todos: de quem idealiza, de quem faz e de quem usa o edifício.

Portanto, cada um deve cumprir seu papel e responder por seus deveres. Assim, é possível entender por que se torna desnecessário o trabalho de um órgão ou um sistema externo de fiscalização (pelo menos em teoria) quando o próprio sistema, fechado em ciclo, distribui as competências de cada integrante – do projetista ao consumidor. É o próprio ciclo construtivo, dessa vez, que se autofiscaliza.

Industrialização positiva
Outro legado indiscutível do advento da NBR 15.575 é a legitimação que o texto da norma dá a um maior emprego de processos construtivos industrializados nas obras, por serem, a priori, mais adequados a seus parâmetros. “Fornecedores desses sistemas normalmente investem em pesquisa e desenvolvimento, realizam ensaios e oferecem, assim, produtos de qualidade superior, com maior garantia”, define Dionyzio Klavdianos da Comat/Cbic. Ele acredita que, embora sistemas artesanais ainda sejam os mais utilizados no Brasil, a norma fez com que a aplicação de sistemas industrializados tenha tido maior crescimento nos últimos quatro anos.

De outra perspectiva, a ABNT NBR 15.575 também impulsionou positivamente a industrialização da construção ao não especificar quais produtos ou insumos devem ser utilizados, mas sim os requisitos mínimos necessários para atender aos seus critérios de desempenho. O que a ABNT NBR 15.575 faz, assim, é abrir um leque de oportunidades para o desenvolvimento de novos produtos e novas tecnologias construtivas. “Prova disso são os produtos e sistemas inovadores já avaliados no âmbito do Sistema Nacional de Avaliação Técnica de Produtos Inovadores e Sistemas Convencionais (Sinat)”, afirma a arquiteta Maria Salette Weber, coordenadora-geral do PBQP-H, do Ministério das Cidades.

A ampliação do Sinat, desde 2009, reconheceu também a realidade brasileira de preponderância dos sistemas artesanais convencionais, e os incluiu em sua avaliação com base na norma de desempenho, por meio das Fichas de Avaliação por Desempenho (FADs) – instrumento que dá ainda mais segurança ao agente financeiro e a órgãos públicos no momento das contratações.

“Fornecedores desses sistemas normalmente investem em pesquisa e desenvolvimento, realizam ensaios e oferecem, assim, produtos de qualidade superior, de maior garantia.”
Dionyzio Klavdianos, presidente da Comissão de Materiais, Tecnologia, Qualidade e Produtividade (Comat), da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic)

O Sinat Inovação já avaliou e publicou 32 Documentos de Avaliação Técnica (DATecs), contemplando soluções inovadoras que atendem à norma de desempenho, tais como paredes de concreto moldadas in loco, painéis mistos, blocos de gesso, steel framing, wood framing, argamassa decorativa e telhas plásticas.

Já o Sinat Convencional conta com a publicação de 18 FADs, abrangendo soluções como sistemas de cobertura, pisos, vedações verticais e resultados de desempenho de esquadrias de aço e alumínio, que também atenderam aos requisitos da norma de desempenho.

Habitação social
Se já são vários os impactos positivos da norma sobre a construção civil de forma geral, no que diz respeito às habitações populares eles podem ser considerados muito maiores.

A Gerência de Padronização e Normas Técnicas da Construção Civil da Caixa Econômica Federal (CEF) informa que aproximadamente 5.000 unidades habitacionais do programa Minha Casa Minha Vida foram executadas com algum tipo de tecnologia inovadora.

Nota-se também um aumento do uso de soluções industrializadas nesses projetos, justamente porque, com eles, é muito mais fácil demostrar e garantir que os aspectos de desempenho da NBR 15.575 serão atendidos.

Fabio Villas Bôas, diretor técnico da Tecnisa e integrante muito ativo no CB-002, comitê da ABNT responsável pela elaboração da NBR 15.575, vê os possíveis impactos da norma de forma muito clara e objetiva. Para ele, no caso das construtoras que já cumpriam o sistema normativo brasileiro de forma ampla, a mudança de procedimentos e práticas não é grande. A mudança será, no entanto, muito mais notada no setor das habitações para baixa renda, ou se considerar empresas que ainda não tinham seus processos e produtos totalmente adaptados ao sistema normativo.

Na habitação popular, setor em que por muito tempo foram aplicados critérios de redução de custos para atingir patamares técnicos mínimos necessários, o desempenho no uso sempre foi bastante negligenciado. “As espessuras de pisos e paredes eram incapazes de absorver som e calor, ou isolar das baixas temperaturas”, lembra Fabio. “Mesmo considerando custos, no caso de construtoras do porte da Tecnisa, que trabalham com o alto padrão, o impacto foi pequeno, e não passou de 2%”, afirma. “Quem não cumpria nada foi, ao contrário, bastante onerado com o advento da norma.”

Para a arquiteta Maria Salette, do Ministério das Cidades, a melhora na qualidade da habitação popular com a norma de desempenho é inquestionável, apesar de ainda não poder ser traduzida em números. “Ainda temos muito a evoluir e a aperfeiçoar, mas o importante é que esses critérios sejam referência para todos. Outros aperfeiçoamentos necessários, a serem propostos com a abertura da revisão da norma em 2018, não devem, no entanto, paralisar o que já vem sendo realizado hoje”, afirma.

“Ainda temos muito a evoluir e aperfeiçoar, mas o importante é que esses critérios sejam referência para todos. Outros aperfeiçoamentos necessários, a serem propostos com a abertura da revisão da norma em 2018, não devem, no entanto, paralisar o que já vem sendo realizado hoje.”
Fabio Villas Bôas, diretor técnico da Tecnisa e integrante do CB-002, da ABNT

Gargalos a ultrapassar
Integrantes do CB-002 e especialistas em desempenho dos produtos da construção civil admitem que, embora os impactos positivos sejam consideráveis, há ainda muitos agentes da cadeia produtiva que não sabem do que trata a norma. De maneira geral, essa não é uma realidade de mercados onde a concorrência é muito acirrada – como São Paulo e outros estados do Sul e Sudeste. “Há também pontos específicos da norma que alguns mercados não conseguem atender, a exemplo do isolamento acústico entre paredes geminadas”, diz o diretor da Tecnisa.

Outros itens como estanqueidade ou resistência a fogo são considerados, por muitos, complexos demais para ser atendidos – e isso estaria até mesmo além de uma disparidade extrema entre as diversas regiões do país. Fabio Villas Bôas faz a seguinte crítica: “Onde há qualidade dos materiais é possível atender a alguns requisitos. No Norte e no Nordeste, por exemplo, não há produção em larga escala de blocos do jeito que deveriam ser feitos”.

A consultora e engenheira Maria Angélica Covelo Silva, do Núcleo de Gestão e Inovação (NGI), relembra que, ao contrário do que pode parecer, os parâmetros da norma não são exagerados e devem ser absorvidos pelo mercado como mínimos – ou um ponto de partida.Ela concorda, no entanto, que mesmo em algumas regiões mais ricas, como é o caso do norte o Paraná, o construtor não encontra blocos de 19 cm para comprar. “São setores mais pulverizados, com milhares de fabricantes. Claro que há iniciativas regionais importantes, como em São Paulo e no Rio Grande do Sul, mas ainda é muito pouco”, contabiliza Maria Angélica.

Quem tem visão mais crítica sobre os impactos reais da norma de desempenho também afirma que o problema não é a norma em si, mas sim o enorme número de construções informais no país, a difusão da autoconstrução e de empresas não capacitadas.

É preciso que agentes financeiros, seguradoras e o próprio consumidor sejam educados para exigir conformidade antes de assinar contratos. “O consumidor é importante para fazer valer a norma. Ele deve reclamar, ir à Justiça, se informar e pesquisar antes de comprar. Dessa forma, a concorrência predatória tenderá a acabar”, opina Villas Bôas, do CB-002 e da Tecnisa. É fato que a norma traz parâmetros bem objetivos para avaliações e para perícias judiciais, o que aponta para maior garantia de qualidade e segurança de contratantes e contratados. “Isso deve tirar do mercado, com o tempo, produtores informais e maus concorrentes, se eles não se adequarem às determinações da norma, que cedo ou tarde serão exigências do mercado consumidor”, reforça Villas Bôas.

Para ele, o impacto positivo na concorrência já é notável: “Se eu sou uma construtora ou incorporadora que preza pelo atendimento da norma, vou estudar meus concorrentes para descobrir onde eles estão falhando, a partir de parâmetros objetivos, e instruir minhas equipes de vendas para informar melhor o consumidor. Por isso vejo a norma também como uma ferramenta concorrencial – e você educa o mercado, oferecendo instrumentos ao cliente para que ele mesmo faça sua própria comparação (mais segura) e opte pelo melhor produto, a partir de uma declaração, de quem vende, de que seu produto está em conformidade com a norma”. Dessa forma, ninguém melhor que o próprio cliente para ser o fiscal do desempenho. Afinal, é ele mesmo quem vai usar o espaço construído.

“A verdade é que a simulação, quando necessária, deve ser feita no momento de desenvolvimento do projeto de arquitetura, e nossos escritórios não têm condições de fazê-la. Há no Brasil não mais que meia dúzia de especialistas gabaritados para bem realizar as simulações, e eles não estão no mercado, porque são acadêmicos em sua maioria.”
Maria Angélica Covelo Silva, engenheira e consultora do Núcleo de Gestão e Inovação (NGI)

Revisar para melhorar
A ABNT NBR 15.575 poderá entrar em revisão a partir de fevereiro de 2018, momento em que alguns parâmetros passarão a ser reavaliados, em razão dos resultados já obtidos. “Com a prática, alguns preceitos podem e devem ser questionados, seja por motivo de custos, seja por diferenças regionais de clima, práticas construtivas ou qualidade dos insumos disponíveis, seja pelo próprio estado da arte no setor”, opina Dionysio Klavdianos, da Comat/Cbic.

Segundo Maria Angélica Covelo Silva, da NGI, alguns pontos da norma admitem interpretações abertas e requerem maior precisão. “Sinto a necessidade de anexos informativos que melhor orientem para a aplicação de determinados requisitos, como é o caso do desempenho acústico”, exemplifica. A norma exige que parede de geminação mais porta de entrada, conjuntamente, apresentem 40 Db de isolamento acústico, mas não esclarece nada sobre métodos para identificar o nível de isolamento da porta sozinha.

“O setor de portas soltou uma classificação, mas ela não resolve totalmente o problema, já que em cada empreendimento tenho formas geométricas e contextos de ruídos (impactos e aéreos) diversos”, critica Maria Angélica. “Se você não fizer os cálculos separados, não há como especificar a porta com segurança.”

Já no que tange ao desempenho térmico, outro ponto polêmico da norma, principalmente em razão da enorme diversidade climática brasileira, há apenas dois critérios – um simplificado, em que só é calculado o isolamento da fachada e o da cobertura, e outro técnico, que é estudado por meio de simulação computacional. “Não fica claro quando é mais recomendado usar o segundo, muito mais completo e seguro”, afirma Maria Angélica.

E não bastaria tapar o sol com a peneira, dizendo que tem que simular tudo porque é mais seguro. “A verdade é que a simulação, quando necessária, deve ser feita no momento do desenvolvimento do projeto de arquitetura, e nossos escritórios não têm condições de fazê-la. Há, no Brasil, não mais que meia dúzia de especialistas gabaritados para bem realizar as simulações, mas eles não estão no mercado, porque são acadêmicos em sua maioria”, diz Maria Angélica.

Por outro lado, nivelar por baixo tampouco resolveria a deficiência de desempenho térmico, porque no caso de fachadas de vidro, por exemplo, a absorção de calor é um ponto muito crítico e que precisa ser tratado com maior rigor técnico.

Os pontos a serem revisados no próximo ano ainda deverão ser definidos pelo CB-002, da ABNT, com ampla participação de agentes da cadeia da construção, acadêmicos, consultores e, espera-se, da sociedade – talvez um pouco mais consciente de seu papel de usuário final dos produtos e da necessidade de maior controle da qualidade e do desempenho da habitação no Brasil.

Habitação popular no Brasil*

*FONTE: ANA PAULA KOURY, ARQUITETA, URBANISTA E PROFESSORA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO DA UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU, EM SÃO PAULO (SP)

Residencial Portal dos Mares – Goiânia (GO)
A Construtora Moreira Ortence sentiu na pele a dificuldade de encontrar projetistas prontos para trabalhar de acordo com as diretrizes da norma de desempenho (ABNT NBR 15.575). “Muitos não estudam a norma, se negam a adaptar-se, porque acham que a responsabilidade de adaptação dos projetos é das construtoras”, confirma a engenheira Mariana Cátima Silva, gerente de planejamento da empresa. “Quando o projeto chega, temos que conferir contratos, fabricantes, todos os detalhes do projeto, o que implica pelo menos dois meses a mais de trabalho.” Na região Centro-Oeste, outro gargalo são fornecedores conformes, com ensaios e documentação adequados, conta Mariana. “Blocos cerâmicos furados têm sido o calcanhar de aquiles”, reclama. No edifício Portal dos Mares, o custo adicional de adaptação total à norma foi de 3%, valor equivalente a custos com ensaios que a construtora ainda não fizera, como estruturas (espessuras de laje), esquadrias e impermeabilização. “Foi preciso alterar o cronograma da engenharia em razão de atrasos, por exemplo, na entrega dos ensaios de esquadrias. Mas foram atrasos pontuais, considerados normais para um primeiro projeto-piloto integralmente adequado aos quesitos normativos de desempenho”, afirma Mariana.

Ficha técnica
Área do terreno 2.930 m²
Área total construída 20.027 m² (176 unidades/ 22 pavimentos-tipo)
Arquitetura Eva El Zein Ortence e Rafael El Zein Ortence
Fundação Hoover van Newton Paolucci
Estrutura Paulo César Cardoso
Hidrossanitário e incêndio Flávio Eduardo Rios e Murilo Alves da Costa
Gás Flávio Eduardo Rios e Rogério Gobato
Eletroeletrônico Maria das Graças R. Teixeira
Responsáveis técnicos Engenheiros Moacyr Soares Moreira, Marcelo Moreira, Marco Aurélio Moreira e D’áwilla Batista Vieira de Souza
Construção Construtora Moreira Ortence (CMO)

Chronos Residencial – Novo Hamburgo (RS)

O Chronos Residencial, edifício de alto padrão da Athivabrasil Empreendimentos Imobiliários, é pioneiro na implantação do nível superior de desempenho em todos os requisitos estabelecidos na ABNT NBR 15.575. Quanto à segurança contra incêndio, foi necessário readequar projetos, principalmente o estrutural (lajes), e a definição das rotas de saída de emergência.

Já no que tange à segurança no uso e na operação, era preciso eliminar do projeto situações (desenho e materiais) geradoras de cortes, queimaduras, escorregamentos, desníveis não sinalizados, instabilidades estruturais, infiltrações, rampas com inclinação excessiva, choques elétricos, entre outros, o que exigiu revisão detalhada dos projetos e escolha atenta dos materiais, especialmente os revestimentos, além da realização de ensaios mecânicos (de corpo mole, carga suspensa e de corpo duro) para testar a funcionalidade de sistemas como portas, janelas, guarda-corpos, tubulações aparentes, forros de gesso, sistemas de piso, entre outros.

Mais pontos nodais para o projeto, como desempenhos térmico e acústico e a estanqueidade, exigiram ensaios ou adaptações dos materiais e soluções construtivas adotadas, a fim de atender às exigências da norma. Também no quesito conforto tátil e antropodinâmico, a construtora optou por ajustar roldanas e parafusos em esquadrias externas, além de solicitar ensaios para fornecedores de torneiras, maçanetas, válvulas de descarga e demais equipamentos de manuseio.

Ficha técnica
Área construída 18.000 m² (72 unidades/26 pavimentos-tipo)
Arquitetura Gerhard + Spindler | Bethina & Maria José
Elétrica, cabeamento estruturado e projetos integrados Axial Engenharia (engenheiro Carlos Eckhard e técnico Ian Rech Jacob)
Coordenador de obras Eduardo Frapiccini
Direção de engenharia Victório Altair Carara Jr.
Responsáveis técnicos Engª Fabiana Pires Rosa, Engo Thiago André München, Enga Bianca de Andrade Krai e Francine Barcellos (estagiária)
Construção e Incorporação Athivabrasil Empreendimentos Imobiliários

Por Giovanny Gerolla e Alexandra Gonsalez

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