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Prêmio PINI 2009

Memórias de cálculo

Responsável por estruturas que se tornaram marcos da engenharia, Bruno Contarini é eleito Reconhecimento Profissional do Prêmio PINI 2009

Por Juliana Nakamura
Edição 101 - Dezembro/2009

acervo pessoal
Perfil
Nome:
Bruno Contarini
Idade:
75 anos
Graduação:
engenheiro civil com especialização em arquitetura pela Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil (atual Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro), em 1956
Trabalho atual:
diretor da BC Engenharia
Prêmios:
Emilio Baumgart - Ibracon (1997); título de Associado Honorário da Abece (2002); Paulo de Frontin - Clube de Engenharia (2003); Prêmio Vitória - Sinaprocim (2005); Prêmio PINI - Profissional de Destaque (2009)
Alguns trabalhos realizados:
Ponte Rio-Niterói; Teatro e Plataforma Rodoviária; Tribunal Superior de Justiça (Brasília); Hotel Nacional; Rio Centro; Linha Amarela - Viadutos; Sambódromo Marquês de Sapucaí; Vila Olímpica e Estádio Olímpico (Rio de Janeiro); Bolsa de Valores (Rio de Janeiro); Museu de Arte Contemporânea (Niterói); pontes sobre os rios Tocantins, Paraná e Pelotas; Editora Mandadori (Itália); Universidade de Constantine (Argélia); Embaixada do Brasil (Argélia)

Assim que chega ao seu escritório na Praia de Botafogo, no Rio de Janeiro, o engenheiro Bruno Contarini se apressa em pedir desculpas à repórter, que na verdade chegou antes do horário combinado para a entrevista. Era cedo, mas naquela segunda-feira ele já havia atravessado a cidade para visitar um colega que precisava de um parecer emergencial sobre o comportamento de uma estrutura.

Aos 75 anos e com uma vasta lista de realizações, Contarini trabalha intensamente. Por conta de suas realizações e constante contribuição com a engenharia brasileira, ele foi eleito, no âmbito do Prêmio PINI 2009, para a homenagem Reconhecimento Profissional - Indústria da Construção Civil.

Embora Contarini esteja à frente de uma equipe menos numerosa do que outras que já comandou no passado, sua empresa é referência em estruturas de concreto, sobretudo protendido. Atualmente, realiza projetos como o da ampliação do Shopping Tijuca, no Rio de Janeiro, presta consultoria técnica na área de estruturas para estádios de futebol, e realiza projetos diversos de infraestrutura viária. No papel de consultor, ele diz que na maioria das vezes em que é chamado, o cliente está em busca de uma solução para alguma dificuldade. "Costumo dizer que aqui solucionamos qualquer problema", brinca.

Até por isso, é difícil para ele se imaginar aposentado. Como seu pai, um italiano que fez carreira na companhia automobilística Fiat, Contarini só pretende parar quando chegar aos 93. Mas o principal motivo que o faz levantar todos os dias para se debruçar sobre cálculos e desenhos é outro. Apesar dos 53 anos dedicados à engenharia e de ser responsável por inúmeras inovações que servem de objeto de estudo para a nova geração de engenheiros, ele afirma que precisa trabalhar. A produtiva carreira não o deixou rico financeiramente. Mas isso não parece o incomodar. Bastam alguns minutos de conversa para perceber que sua trajetória profissional é motivo de orgulho. Só perde em prestígio para a sua família, especialmente os três filhos, que preferiram não seguir os passos do pai, mas também têm carreiras bem-sucedidas nas áreas que escolheram: informática, medicina e gastronomia.

Conduzido à engenharia pela habilidade natural para lidar com números, Contarini formou-se em 1956 no Rio de Janeiro. Logo nos primeiros anos, se deparou com um boom de obras de infraestrutura e, das suas pranchetas saíram, por exemplo, a variante em concreto protendido da ponte sobre o rio Tocantins, executada em balanços sucessivos. Outro trabalho marcante foi, na verdade, um desafio proposto pelo presidente Juscelino Kubitschek. Às vésperas da inauguração de Brasília, um viaduto de 220 m de extensão e 27 m de largura em frente ao prédio do Banco do Brasil deveria ser construído em apenas 40 dias. "Passei a madrugada calculando e, no dia seguinte à reunião no Catetinho, a obra já estava sendo iniciada", revela.

Experiência de campo

Nos anos 1960, a pedido do amigo Oscar Niemeyer, Bruno Contarini desembarcou na Argélia para trabalhar no que seria mais tarde a Universidade de Constantine, um complexo de edifícios famoso pelo auditório em forma de gaivota.

Ao engenheiro, a demanda por obras de infraestrutura do país africano pareceu mais sedutora que viver no Brasil em um período tão conturbado. Do período em que passou no continente africano - onde atuou como chefe de obras em cerca de 20 projetos, de edifícios institucionais a pontes e barragens - ele guarda boas recordações. "Assistíamos episódios da novela que eram gravados e cedidos pelo pessoal da Embaixada", lembra o engenheiro flamenguista, que do canteiro argelino também viu a Copa do Mundo de 1970.

Ao todo foram 18 anos de trabalhos no norte da África interrompidos por um período de quase cinco anos dedicados àquele que seria o principal trabalho de sua carreira: a direção técnica das obras da Ponte Rio-Niterói (ou Ponte Presidente Costa e Silva).

A construção da ponte de 13 km que atravessaria a baía de Guanabara era uma das maiores obras do País e passava por uma situação crítica. O consórcio construtor havia sido desapropriado pelo governo,  transformando-se em uma firma estatal logo a seguir. Então, em 1968, o Consórcio Construtor Guanabara (formado pelas construtoras Camargo Correa, Mendes Júnior, Rabello e Sergio Marques de Souza), assumiu a difícil tarefa de concluir a ponte, com desafios inéditos e prazo reduzido.

acervo pessoal
Contarini e Niemeyer em 2004
Foi nesse momento que Contarini retornou ao Brasil para assumir a direção técnica da obra, que em seu auge reuniu mais de dez mil operários e 120 engenheiros. Benjamin Ernani Diaz, professor emérito da Escola Politécnica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), foi co-responsável pelo projeto da ponte, juntamente com o engenheiro Antonio Alves de Noronha Filho. Ele se recorda que a situação encontrada por Contarini era extremamente desafiadora. "Era urgente a definição de praticamente todas as diretrizes construtivas, a maior parte delas apoiada em técnicas inovadoras. Mas o Bruno teve competência para gerenciar tecnicamente a construção", afirma o colega, listando alguns feitos históricos obtidos pela equipe comandada por Contarini: "A Rio-Niterói inaugurou o uso, no Brasil, da teoria das estruturas prismáticas laminares sem transversinas com programa específico. Ainda hoje esse cálculo é mais preciso do que a análise em elementos finitos", compara Diaz. O projeto também foi o primeiro no País a eliminar todas as transversinas intermediárias em tabuleiros de longarinas múltiplas.

Para completar, a ligação rodoviária foi projetada inteiramente no computador, algo que jamais havia acontecido em obras desse porte até então. Também foram inovadoras as utilizações de ilhas flutuantes com equipamentos de perfuração de tubulões. "Por fim, de forma pioneira, foram exigidos ensaios de todas as colas epóxi usadas em colagens, o que evitou vários desastres durante a construção", comenta Ernani Diaz.

As inovações não ficaram por aí. "Segundo a bibliografia, o concreto autoadensável apareceu em uma ponte no Japão em 1980. Mas o concreto dos tubulões da Rio-Niterói já era autoadensável dez anos antes!", ressalta Contarini, lamentando a falta de articulação, divulgação e reconhecimento das técnicas empregadas pela engenharia brasileira.

Depois da inauguração da ponte em março de 1974, Contarini ainda concluiria mais alguns trabalhos na Argélia. No início dos anos 1980 regressou, dessa vez em definitivo, para o Brasil.

Presente de Niemeyer para Patrícia, filha de Bruno Contarini. Abaixo das linhas do MAC e da Universidade Constantine, a inscrição: "Museu de Niterói... as obras de Constantine: como o Bruno me foi útil com sua competência"
A transição coincidiu com uma fase complicada em sua vida. Por dez meses ele esteve doente, sem condições para trabalhar e, diante das dificuldades, teve que vender sua empresa para a Promom Engenharia, em 1981. O saudosismo ao falar sobre esse episódio é inevitável. Criada nos anos 1970, a Projectum foi o principal escritório de engenharia do País por alguns anos, chegando a empregar 130 engenheiros.

Mas Contarini sabe que os tempos são outros. E não tem dificuldade para se adaptar a novos contextos. O que não consegue deixar de lamentar são duas situações que, em sua opinião, enfraquecem enormemente a engenharia. A primeira delas é a tirania do menor preço, que faz com que a inteligência e a sensibilidade adquiridas ao longo de anos de experiência sejam facilmente substituídas por "jovens que pensam que para projetar uma estrutura basta saber mexer no software". A segunda, que não deixa de ter relação com a primeira, é a concorrência desleal de alguns colegas. "Infelizmente são raros os casos de colegas preocupados em somar", diz ele.

Apesar de alguns lamentos, esse senhor, no auge dos seus 75 anos, está longe de ser amargurado. Afinal, ele sabe que teve o privilégio e competência de trabalhar ao lado de outros grandes profissionais - como Lucio Costa, Affonso Eduardo Reidy e Oscar Niemeyer - que o desafiaram a ponto de encontrar soluções estruturais para obras que fazem parte da história da engenharia.

 

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