Aquecimento solar para habitações econômicas | Construção Mercado

Debates Técnicos

Aquecimento solar para habitações econômicas

Utilização de equipamentos solares para segmento econômico cresce no País; saiba como especificar, comprar e instalar o sistema

Por Gisele C. Cichinelli
Edição 106 - Maio/2010

Divulgação CDHU

Incentivos estaduais e federais, como leis e programas de eficiência energética, têm expandido o uso de aquecedores solares em habitações de interesse social no País.

Para o governo, o benefício da instalação desses equipamentos nesse perfil de imóvel é a redução expressiva das cifras investidas no setor de energia elétrica, já que se trata de um equipamento cuja fonte de energia é localizada no ponto de uso, sem necessidade de redes de distribuição e de transmissão. Para os moradores, a vantagem é a economia nos gastos com luz elétrica.

É da união desses benefícios - para o governo e para o consumidor - que se apontam oportunidades para as construtoras, isso porque as empresas podem receber estímulos para instalarem os equipamentos em suas unidades e, assim, terem um diferencial competitivo em suas ofertas imobiliárias. De acordo com especialistas, os sistemas individualizados são os mais indicados para habitações unifamiliares.

Nesse modelo, cada moradia recebe um reservatório de água quente de 200 l e um coletor solar, cuja área pode variar de 1,5 m2 a 2 m2, dependendo da região onde será instalado o sistema e das exigências do projeto. "O projeto de aquecimento desses imóveis também deve ser concebido de modo a dispensar o emprego de um sistema de bombeamento, dependendo exclusivamente do efeito da termossifonagem para seu correto funcionamento", explica Humberto Farina, gerente técnico e sócio da Tesis Tecnologia e Consultoria de Sistemas em Engenharia.

De acordo com o gerente, é recomendável que a tecnologia aplicada em empreendimentos destinados à baixa renda tenha garantias de qualidade em seu desempenho ao longo da vida útil. "Não dá para pensar em aplicação em grande escala sem que os sistemas tenham passado por um processo confiável de análise de desempenho", completa.

Atualmente, construtores e fabricantes contam com o respaldo do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial), por meio do programa Procel, como agente certificador dos reservatórios térmicos e dos coletores planos solares.

Compra e instalação
O primeiro passo para garantir a eficiência do sistema é caracterizar a demanda de água quente, listando seus usos, as respectivas vazões e o número de usuários da residência. Com esses dados em mãos é possível chegar a um valor total de consumo diário, o que facilitará o dimensionamento do reservatório que será instalado na edificação.

Nas etapas de projeto, especificação e compra desses equipamentos, é preciso atenção para evitar problemas de mau dimensionamento do sistema, já que previsões malfeitas podem comprometer, em muito, o desempenho dos sistemas de aquecedores solares. Além do correto dimensionamento, outra etapa que exige atenção redobrada é a instalação. Em moradias unifamiliares, o ideal é que o projeto de hidráulica preveja alguns metros a mais de tubulações e isolantes para esse fim, além de um misturador de água quente e fria.

Já em edificações multifamiliares mais modernas, que contem com medição individualizada de água, o sistema tende a ser mais complexo. "A tendência nesses edifícios parece ser o uso de um aquecimento solar coletivo e de um aquecimento auxiliar individual, por apartamento", explica o professor Racine Prado, da Escola Politécnica da USP (Uni­versidade de São Paulo).

Entre os erros mais comuns cometidos durante a etapa de execução estão: o mau posicionamento relativo entre os coletores e o reservatório térmico; a instalação de sifões invertidos na rede hidráulica e a incorreta forma de associação dos coletores solares no telhado, que podem impedir a circulação e prejudicar a vazão da água. Para evitar problemas dessa natureza, especialistas recomendam que o sistema seja previsto ainda em projeto, etapa na qual é possível planejar corretamente a área da instalação dos coletores e dos reservatórios térmicos.

"No caso da cobertura, não basta ter a área disponível, o formato do telhado é um dado importante, bem como a faixa de sombreamento a que poderá estar submetida", explica Farina. O ideal é que a área destinada à instalação dos coletores localize-se na face norte (ou com pequenos desvios dessa direção) e não seja sombreada.

Na hora de escolher o fornecedor, a principal recomendação é checar se as empresas disponibilizam no mercado produtos com isonomia técnica, além de oferecer atendimento na instalação e assistência técnica ao construtor. Para facilitar essa tarefa, o setor já disponibiliza a lista de empresas qualificadas pelo Qualisol Brasil (Programa de Qualificação de Fornecedores de Sistemas de Aquecimento Solar).

Os produtos etiquetados estão listados no website do Inmetro: 
http://www.inmetro.gov.br/consumidor/pbe/coletoresSolares.pdf

Checklist

Projeto
n Para garantir o dimensionamento correto e o bom desempenho dos sistemas de aquecedores solares, a recomendação é que os equipamentos sejam previstos ainda na fase de projeto
Escolha do fornecedor
n Durante a escolha do fornecedor, verifique se os produtos são certificados pela etiqueta do Inmetro ou pelo selo Procel
n Verifique se o fabricante oferece garantia e profissionais capacitados para executar a instalação
Na obra
n Para uma perfeita instalação dos dutos e equipamentos, siga adequadamente o projeto
n No canteiro, os equipamentos, sobretudo o coletor solar (que possui superfície de vidro) devem ser armazenados e manejados com cuidado
Instalação
n Conte sempre com profissionais capacitados em cursos de instalação de sistema de aquecimento solar ou técnico em hidráulica ou mecânica para fazer esse serviço
n A soldagem deve ser bem-executada para que não haja risco de vazamentos ou problemas de vedação. Para não prejudicar o sistema, confira se a tubulação está livre de esmagaduras
n O transporte e a instalação das barras de tubulações devem ser feitos de maneira cuidadosa para evitar acidentes
n No momento da instalação, os funcionários devem usar todos os EPI's indicados conforme a determinação das normas brasileiras
Normas técnicas
n NBR 15569 - Sistema de Aquecimento Solar (SAS) - Concepção, Dimensionamento, Arranjo Hidráulico, Instalação e Manutenção.
n NBR-5626 -  Instalação predial de água fria.
n NBR-7198 - Projeto e Execução de Instalações Prediais de Água Quente.
n NBR-5410 - Instalações Elétricas de Baixa Tensão.

Mesa-redonda

Fotos: Marcelo Scandaroli

O que é preciso para viabilizar o uso do SAS (Sistema de Aquecimento Solar) em habitações econômicas?

Laércio Lopes - É necessário que haja incentivo governamental para entrar nesse mercado. O SAS não é inimigo do chuveiro. Em obras do Minha Casa, Minha Vida e da CHDU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo) há muitos incentivos para usar o sistema, pois com ele é possível resolver o problema do consumo na demanda.

É preciso desmistificar esse paradigma de que o aquecimento solar está ligado apenas à questão ecológica. O sistema também traz retorno financeiro. Mas existe um trabalho de aculturamento da população a ser  feito aqui.

Eduardo Baldacci - A inclusão do SAS nos empreendimentos destinados às faixas mais baixas de renda é uma obrigação do governo, pois traz economia no consumo e nos investimentos em energia.

Além da redução na conta de luz do usuário, há queda de demanda de energia elétrica em horário de ponta. Esses são os dois principais benefícios do sistema. No Minha Casa, Minha Vida 2, a obrigatoriedade de instalação dos SAS será contemplada. Nos projetos da CDHU, o uso é obrigatório.

Marcelo Mesquita - Uma boa notícia é que, recentemente, foi publicada a portaria 097 do Ministério das Cidades que agrega à construção uma faixa de valor adicionado para a implantação do SAS. Para a construção de uma residência de R$ 40 mil do programa habitacional, por exemplo, as construtoras poderão contar com um valor acrescido de R$ 1,8 mil (unifamiliar) ou de R$ 2,5 mil (multifamiliar) do governo para implantar o aquecedor.

Por trás disso, há uma tentativa de o construtor poder incluir o aquecedor em projetos nos quais esses equipamentos sejam imprescindíveis. 

Thiago Leomil - Essa é a medida que o mundo corporativo espera, pois a conta, para a construtora, tem de fechar. Trabalhamos com produtos enxutos e esses equipamentos devem ser subsidiados pelo governo ou então o valor deve ser agregado no custo final do produto de alguma forma.

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