Traço racional | Construção Mercado

Construção

Prêmio PINI 2010

Traço racional

Marcado pela dedicação ao ensino e ao desenvolvimento da arquitetura brasileira, o arquiteto Siegbert Zanettini é homenageado na categoria Reconhecimento Profissional do Prêmio PINI 2010

Por Giovanny Gerolla
Edição 112 - Novembro/2010

marcelo scandaroli
Perfil

Nome: Siegbert Zanettini
Idade: 76 anos
Graduação: arquiteto e urbanista pela FAUUSP
Pós-graduação: doutor pela FAUUSP (1972)
Trabalho atual: Zanettini Arquitetura Planejamento Consultoria Ltda.
Prêmios recebidos nos últimos anos: Greening (2010), Máster de Reconhecimento em Projeto de Arquitetura (Câmara Brasileira de Cultura, 2009), Arquitetura Corporativa (São Luiz Anália Franco, 2008), Prêmio Sustentabilidade, no IV Grande Prêmio de Arquitetura Corporativa (2007), Prêmio Brasileiro de Qualidade da Academia Brasileira de Arte, Cultura e História (2006), Top of Quality (2005)

Foi numa aula de Artes do tradicional colégio Dante Alighieri, em São Paulo, que Siegbert Zanettini ouviu, pela primeira vez - quando tinha 14 anos de idade - , um professor dizer: "Você vai ser arquiteto". "Eu nem sabia o que era aquilo; meu professor pedira um desenho, e eu fiz um edifício, com uma piscina em forma de ameba", conta.
O talento do jovem aluno e sua natural sintonia com a estética moderna de fins dos anos 40 e início dos de 1950 chamou a atenção do professor. "Eu estudava no Dante, mas vinha de uma família de operários da região do Brás, na zona Leste de São Paulo; meu pai, marceneiro, se esforçava muito para me dar a melhor educação possível", relembra. Nesse mesmo colégio, Zanettini esteve à frente na primeira bienal, que expôs trabalhos de alunos, e levou para casa um conjunto completo de desenho, com prancheta, todos os tipos de réguas e esquadros, jogos de compasso, lápis, cores e sonhos. Foi o seu primeiro estúdio, em casa.

Imagens: Divulgação Zanettini
Atrium do Hospital Albert Einstein, São Paulo, 1999
Antes mesmo de entrar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Uni­versidade de São Paulo, já era conhecido por sua dedicação aos estudos. Na graduação, viveu aquilo que chama "o momento Brasília", em que Niemeyer e Lucio Costa eram referências entre os estudantes. "Havia duas correntes de alunos na FAUUSP: aqueles mais racionalistas, que seguiam Le Corbusier, e outros mais orgânicos, da linha de Frank Lloyd Wright; eu sempre fui apaixonado pela arquitetura norte-americana e, para mim, Wright foi e ainda é o maior arquiteto de todos os tempos." E se há identidade no amor aos ído­los, Zanettini revela o que há de melhor em seu próprio trabalho: "O que eu mais gosto em Wright é a qualidade da sua arquitetura; obras muito bem implantadas e estudadas, com programa de uso definido e representado, sem adornos ou fantasias". Qual­quer semelhança não é mera coincidência: a obra do brasileiro é marcada por atenção especial ao uso predial, obras limpas, emprego de sistemas construtivos eficientes, industrializados e duráveis, sempre com olhos aos aspectos térmicos, acústicos e ao rigor na execução de seus projetos.

Foi já no terceiro ano da faculdade que começou a desenhar projetos executivos para residências, "à la Wright", como gosta de frisar. No final dos anos 50, abriu empresa com o amigo e colega da USP, o arquiteto e urbanista Candido Malta Campos Filho; na mesma época era convidado pelo professor de Projeto, o lendário Carlos Milan, a ajudá-lo no concurso de arquitetura para o edifício do colégio Porto Seguro. "Quem ganhou foi o talentosíssimo Gasperini, ficamos em segundo lugar", conta, livre de ressentimentos. "O Candido, mais tarde, começou a se empenhar na área de planejamento urbano, na qual eu nunca acreditei muito, porque acho que quem faz o planejamento no Brasil é a especulação imobiliária. Ainda hoje é assim." Querendo dar atenção exclusiva à arquitetura, encerrou a sociedade com o amigo, e paralelamente começou a investir na vida acadêmica, nos anos duros da ditadura.

Imagens: Divulgação Zanettini
Passarela de Interligação entre os Blocos do Instituto Dr. Arnaldo - Instituto do Coração e Prédio dos Ambulatórios - Hospital das Clínicas, São Paulo, 2010
"Entre 1964 e 1967, dei aulas na USP sem receber um tostão, porque era assistente; depois de contratado, comecei a reformular o sistema de contratação de professores, regularizando o quadro por meio de concursos públicos que escolhiam por dedicação, desempenho e formação; também fiz parte da primeira leva de arquitetos brasileiros pós-graduados, com doutorado, e daí em diante, a responsabilidade com o ensino da arquitetura só aumentou." O mesmo Siegbert Zanettini que hoje é conhecido no setor da construção civil por ter sido pioneiro e grande incentivador do uso do aço no Brasil, é também autor do primeiro livro brasileiro sobre o ensino de projeto para edificações. Doutorou-se no tema da habitação popular e, já no início dos anos 70, via com olhos críticos programas como o do Banco Nacional da Habitação, que, segundo ele, "optava pela mão de obra mais barata e desqualificada para gerar emprego, à medida que adotava sistemas construtivos artesanais - o que tomava mais tempo, desperdiçava materiais e não contribuía com o enriquecimento cultural do brasileiro, e nem com o da nossa arquitetura".

Imagens: Divulgação Zanettini
Vista lateral da Panamericana Escola de Arte e Design, unidade Angélica, São Paulo, 1997
"Venho desde então lutando pela construção industrializada, racional. Foi nesse contexto que passei a olhar para o aço como uma solução limpa, durável e de matéria-prima largamente disponível em solos brasileiros." Apesar de hoje estar muito vinculado ao uso do aço em seus grandes projetos, Zanettini completa 50 anos de carreira sem querer deixar esquecidos sua importantíssima colaboração ao ensino e ao emprego de outros sistemas, como o concreto e a madeira.
"A Maternidade Vila Nova Cachoe­i­rinha (1968), por exemplo, foi um grande projeto executado em concreto. Inovador, tinha salas de cirurgia circulares, onde o paciente era o "centro" das atenções; foi o primeiro hospital público [do município de São Paulo] a receber pintura em cores diversas do padrão hospitalar vigente, piso contínuo e revestimentos especiais. Tão criterioso fui com o projeto executivo e com o andamento da obra que acabei sendo convidado a ser fiscal de obra para a prefeitura, durante três anos", conta. Na época, o jovem Zanettini chegou a peitar brigadeiros-interventores municipais pela execução fiel do projeto que havia desenvolvido.

Ainda hoje, ele briga pela qualidade do homem-cidadão e da construção civil brasileiros. "Não sou a favor de programas de habitação que padronizem obras públicas, porque temos que atender tanto às famílias com dois como às com oito filhos; também não apoio a insistente contratação de mão de obra desqualificada, tampouco a pobreza formal e conceitual da arquitetura imobiliária especulativa, que explora a ideo­logia da casa própria em vez de dar assistência à saúde, à educação e à cultura. Nunca fui parte da política, mas me sinto muito político naquilo que acredito, e espero que consigamos reverter esses 500 anos de incultura, formando gente digna, de verdade."

Depoimentos

"O esforço de Siegbert Zanettini sempre me impressionou muito. Durante os anos em que fomos sócios, quando já havíamos sido colegas de turma na FAU, pude aquilatar, no dia a dia da prancheta, a qualidade de seu traço. Disputávamos a cada projeto, especialmente nos mais trabalhosos e tensos concursos, a busca da melhor solução, os desenhos, croquis e perspectivas de apresentação. Tínhamos grande sintonia de linguagem, o que tornava difícil atribuir, em cada situação, maior ou menor responsabilidade pela qualidade dos resultados. Hoje, após 44 anos de carreira "solo", seu portfólio atesta o quanto a criatividade como arquiteto o levou além daquilo que eu conseguiria fazer. Indiquei-o ao professor Helio Duarte nos anos 60, para a cadeira de Projeto I na FAUUSP, e sua despedida da universidade, por ocasião de aposentadoria, não poderia ter sido mais emocionante para mim: o aplauso longo e forte de professores, alunos e funcionários também atestava sua competência como professor dedicado e capaz."

Candido Malta Campos Filho
Arquiteto e urbanista

"É um imenso prazer falar de Siegbert Zanettini, com quem convivi e pude estreitar relações nos tempos de ensino de Projeto, na FAUUSP. Não se pode mencionar, em poucas palavras, a importância de sua contribuição para o desenvolvimento do ensino e da arquitetura brasileiros. Sempre apareceu com ideias desafiadoras e jeitos inovadores de resolver os problemas de nossa atividade profissional; aplaudi e acompanhei sua iniciativa e seus trabalhos acerca do uso do aço, além de ter podido debater seus projetos em várias reuniões e simpósios, quando eram apontados por sua qualidade e rigor. Admiro muito a obra de Zanettini, arquiteto de cultura madura em relação ao que se propõe atualmente, com carreira mais que consolidada nesses 50 anos."

Gian Carlo Gasperini
Arquiteto

"O processo criativo de Zanettini transformou a construção civil brasileira. A pesquisa sobre ecoeficiência, sua audácia, estética espacial, planificação do projeto, a integração com a paisagem e a possibilidade de reciclar estão presentes em sua obra, e demonstram quanto o emprego do aço pode tornar o futuro melhor."

Catia Mac Cord
gerente-executiva do Centro Brasileiro da Construção em Aço

"As qualidades que mais admiro no arquiteto Zanettini são o prazer, a dedicação, o profissionalismo e o carinho que ele tem com toda a equipe de projeto e fiscalização da Engenharia da Petrobras, na obra de ampliação do nosso Cenpes (Centro de Pesquisas da Petrobras). Nas reuniões, sempre transmite a emoção que é, para ele, ver um de seus grandes projetos tornar-se realidade. Temos muito orgulho de trabalhar ao lado de um profissional tão dedicado e que, ao mesmo tempo, se apresenta como ser humano simples, otimista e aberto a sugestões."

Guilherme Neri
Engenheiro


"Zanettini é um verdadeiro arquiteto de prancheta e de obra. Obstinado criador, que assim tem pautado sua trajetória. Gosto muito da Escola Pan-americana. Parabéns!"

Ruy Othake
Arquiteto


Trabalhos marcantes

Imagens: Divulgação Zanettini
Hospital São Luiz 
Anália Franco
São Paulo
2000

Solução de arquitetura em área de 43 mil m², com grande vazio separando dois blocos que se unem por passarelas, apresenta praça central de jardins visíveis a partir de todos os pavimentos. A volumetria resultante e a fluência dos espaços internos são valorizadas por iluminação e ventilação naturais  - conjunto que garante ecoeficiência energética. A topografia do terreno, em declive, foi aproveitada para a separação de acessos e fluxos, gerando mais conforto e praticidade aos usuários. A forma escalonada do edifício cria um balanço de 22 m em cada extremidade, descartando o uso de pilares e gerando amplitude visual e leveza estrutural. O projeto venceu o Prêmio Destaque Saúde Projeto Predial, no V Grande Prêmio de Arquitetura Corporativa.

Imagens: Divulgação Zanettini
Maternidade da Vila Nova Cachoeirinha
São Paulo
1968

O projeto prevê estrutura em concreto e reúne propostas cromáticas e novos revestimentos plásticos para o uso hospitalar. Ambientes de internação são abertos para espaços internos ajardinados, e suas salas circulares de cirurgia também foram inovadoras. Foi um divisor de águas no desenvolvimento de projetos de arquitetura para concursos públicos, principalmente no que diz respeito a edificações hospitalares.

 

Imagens: Divulgação Zanettini
Ampliação do Cenpes (Centro de Pesquisas da Petrobras)
Ilha do Fundão, Rio de Janeiro
2010

Em coautoria com José Wagner Garcia, o projeto visa equilíbrio e harmonia arquitetônica decorrentes do dimensionamento adequado de cada espaço. O conjunto do Cenpes é síntese de arquitetura, urbanização, sistemas de conforto ambiental e eficiência energética, sistemas prediais de utilidades, sistemas construtivos estruturais e de recomposição dos ecossistemas naturais. Obra "aberta", envolve sustentabilidade e oferece grande flexibilidade para ampliações futuras. Preparado para comportar cerca de 2.600 cientistas, o Cenpes acaba de ser inaugurado e poderá ser o maior laboratório de pesquisa do mundo em tecnologias para energia limpa.

Imagens: Divulgação Zanettini
Sede Zanettini Arquitetura
São Paulo
1987

Sob medida, é chamado laboratório de inovações, oficina e estúdio. Exemplo de solução industrializada em estrutura metálica, o prédio traz estética nova, leve e transparente. Foi realizado com planejamento impecável para a redução de tempo e custos de obra - executada em apenas 35 dias, nos tempos de inflação galopante. Duas macrotreliças laterais suportam perfis transversais, além dos apoios de pré-lajes que servem de fôrma para a concretagem final. Vidros são colados à caixilharia com silicone; nos pisos, usou-se laminado melamínico. Foi a primeira obra limpa em aço feita no Brasil, com toda sua estrutura e componentes vindos prontos de fábrica, somente para montagem no local.