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Os desafios para implementação do BIM no Brasil

Consolidação do BIM no Brasil demanda capacitação de profissionais, formatação de biblioteca de componentes e avanços na interoperabilidade

Por Larissa Leiros Baroni
Edição 115 - Fevereiro/2011

O processo de implantação do BIM no mercado de edificação residencial e comercial está em desenvolvimento e precisa de melhorias para que possa de fato propiciar avanços à construção civil brasileira. De um lado, questões tecnológicas e interesses comerciais colocam em xeque a interação de toda a cadeia produtiva. Do outro, a criação de bibliotecas de componentes (que aproximem o sistema virtual à realidade da obra) e a qualificação de profissionais, que se torna essencial para o melhor aproveitamento do potencial da ferramenta.

Interoperabilidade

"A integração automatizada do projeto arquitetônico a projetos complementares depende da criação de soluções tecnológicas que propiciem a interoperabilidade entre diferentes softwares." A afirmativa é de Eduardo Toledo Santos, professor do departamento de engenharia de construção civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP). Em outras palavras, é preciso criar uma linguagem comum ou uma solução de exportação para que os diferentes programas de projeto conversem.

Segundo Abram Belk, diretor de desenvolvimento da TQS Informática, provedora de sistemas para cálculo estrutural, "em alguns casos, projetistas têm que usar softwares de um mesmo fornecedor para poderem conversar, o que amarra esses profissionais a determinados acordos comerciais. De nossa parte, para atender o projeto estrutural, desenvolvemos soluções diferentes para interagir com softwares diferentes", relata ele.

O grupo interinstitucional sobre BIM, liderado pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), com o envolvimento da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece), a Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA) e a Associação Brasileira de Engenharia de Sistemas Prediais (Abrasip), propõe a criação de uma linguagem comum compatível aos mais variados softwares. "Estuda-se adotar a Industry Foundation Classes (IFC), uma medida válida internacionalmente", diz Maria Angelica Covelo Silva, coordenadora do grupo e diretora da NGI Consultoria e Desenvolvimento. O modelo é utilizado pela indústria norte-americana e padronizado pela ISO 16.739.

A complexidade do sistema, segundo Santos, está na criação de uma linguagem que represente todos os elementos da construção civil brasileira, que é bem diferenciada da dos Estados Unidos, e com todas as suas variantes. A viabilidade do modelo, no entanto, teria de superar os interesses comerciais das empresas de software, segundo ela. "Naturalmente a interoperabilidade entre produtos de uma mesma empresa, sob um formato proprietário, se torna mais simples. Neste contexto, utilizar uma linguagem padronizada é desinteressante para elas", adverte Belk. Ainda sim, há protocolos de interação entre diferentes empresas de software.

A necessidade imperativa de imediata adoção do IFC não é, porém, um consenso. Para Luiz Augusto Contier, titular de Contier Arquitetura e coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Judas, a adoção ou não do IFC não impede nem adia a implantação do BIM. Antes dessa preocupação, segundo ele, é preciso que se efetive a necessidade de troca de arquivos entre as disciplinas. "Hoje, a arquitetura está produzindo em BIM. À medida que outras disciplinas passarem a produzir sistematicamente, talvez haja a necessidade da adoção de uma nomenclatura comum e genérica - como é o caso do IFC", diz. Por outro lado, "a sugestão é que os próprios programas criem opções de importar/exportar informações de arquivos de outros softwares, pelo menos aqueles de maior receptividade do mercado, como já é prática corrente. Assim haverá maiores garantias de não haver perdas significativas em um projeto no momento da conversão dos dados de um sistema para o outro", explica.

A implantação do BIM, no entanto, não depende de uma resposta concreta para o desafio da interoperabilidade. "Não se trata simplesmente de uma vantagem estratégica. Quem não se adequar, não vai sobreviver. Isto vale para as empresas de software e também para as de projeto", adverte Belk.

Qualificação

Além de assimilar novas ferramentas tecnológicas e aprender a trabalhar colaborativamente, aos profissionais que quiserem trabalhar com BIM - sejam engenheiros, arquitetos ou projetistas - será imposto o desafio de reaprender a projetar a partir de modelos tridimensionais e integrados a todos os processos do empreendimento, inclusive os gerenciais.

Mudança que, segundo Eduardo Sampaio Nardelli, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie e presidente da Sociedade Ibero-americana de Gráfica Digital (SIGRADI), se resume na forma de se pensar os projetos. "Se desde o Renascimento bastava representar ideias a partir da geometria, hoje, serão exigidos planos tridimensionais para que seja possível fazer projeção real ao que vai ser construído com a definição de elementos estratégicos e estruturais da obra", explica. Ou seja, as decisões que normalmente se concentram no projeto executivo serão antecipadas para a fase de projeto.

Na opinião de Nardelli, todos os agentes da cadeia terão que se readequar. "Isso porque o conceito será implantado de maneira integrada e atingirá inclusive aqueles profissionais que atuam nos canteiros. As pessoas que trabalham no marketing, por exemplo, também vão ter que aprender o novo jeito de empreender para divulgar o conceito e seus benefícios", cita o professor.

Nesta direção, empresas e universidades assumem o papel de agentes condutores da transformação. É o que garante Maria Bernadete Barison, arquiteta, doutoranda do curso de pós-graduação em engenharia de construção civil da Universidade de São Paulo e autora de diversos estudos sobre o BIM. "Enquanto as empresas, para suportar as novas demandas, terão que reestruturar seus quadros de funcionários e capacitá-los para uso das novas tecnologias, para formar profissionais engajados ao conceito será fundamental uma reformulação nas grades curriculares dos programas de Arquitetura e Engenharia Civil", aponta. (Leia mais sobre mudanças curriculares no artigo "BIM e o desafio para as universidades", nesta edição).

Formação de bibliotecas

Com a implantação do BIM na construção civil, fornecedores de produtos e materiais ganham papel importante no processo de criação tanto de projetos de arquitetura como de elétricos, hidráulicos e de estrutura. Para que os desenhos virtuais possam de fato representar a realidade de uma obra, a criação de bibliotecas de componentes se torna essencial, assim como a maior aproximação entre fornecedores, arquitetos e engenheiros.

Além de informações detalhadas dos produtos, tais como dimensões e características físicas, também será necessária a divulgação de dados relativos aos seus desempenhos, bem como às normas técnicas, à aplicabilidade e até à manutenção. É o que aponta Fernando Augusto Correa da Silva, diretor da Sinco Consórcio Técnico. Mas muito mais do que mudar o conteúdo dos catálogos dos fornecedores, ele acrescenta a necessidade do investimento em aplicativos que integrem as informações de seus produtos aos softwares em 3D.

Segundo Maria Angelica Covelo Silva, diretora da NGI Consultoria e Desenvolvimento, não há regras, tampouco padrões mínimos de qualidade que possam auxiliar os fornecedores a criar suas bibliotecas de componentes. "Pretendemos, no entanto, formular diretrizes que possam criar padronizações e, ao mesmo tempo, respeitar a heterogeneidade dos diferentes tipos de fornecedores da construção civil", afirma ela, que também é coordenadora do grupo interinstitucional sobre BIM que envolve associações setoriais.

A previsão, de acordo com Maria Angelica, é que a norma técnica seja lançada ainda esse ano. Mas mesmo sem o guia, "muitas empresas já possuem catálogos com as informações consideradas prioritárias. Há algumas inclusive que já mantêm bibliotecas em formato CAD. Ou seja, os elementos já existem, basta adaptá-los ao formato 3D", assegura ela, que também ressalta a possibilidade do acréscimo de outras informações consideradas não comuns às bibliotecas atuais para agregar mais valor aos produtos.

A Tigre promete adaptar sua biblioteca de produtos, intitulada Tigrecad, às necessidades do BIM. "Por meio eletrônico, serão disponibilizadas não só as características geométricas de nossos produtos, mas também o inter-relacionamento entre seus componentes, bem como seus parâmetros e atributos. Também serão fornecidas informações relevantes para a tomada de decisão dos diferentes agentes envolvidos no empreendimento em todo o ciclo de vida da edificação", diz Giancarlo Minoietti, gerente de marketing de vendas da Tigre, que garante que as informações serão compatíveis com a grande maioria dos programas na versão 2D e 3D.

A proposta, segundo Minoietti, prevê que todos os dados gerados pelas equipes de projeto, mesmo que de diferentes especialidades, se mantenham consistentes e devidamente coordenados ao longo de toda a cadeia de valor. "Estratégia utilizada para a redução da ocorrência de erros. Isso porque muitas vezes esses erros só são descobertos durante o processo de construção e que normalmente têm um impacto muito negativo nos custos da obra", diz ele.

São poucos os fornecedores, porém, que estão se antecipando às inovações propostas pelo BIM. Mas esse inexpressivo envolvimento, na opinião de Maria Angelica, não impedirá que os projetos de arquitetura, elétricos, hidráulicos e de estrutura sejam planejados a partir do BIM. "O nível de precisão das informações nem sempre está vinculado à marca de um produto. Há padrões no setor que podem auxiliar tanto os arquitetos como os engenheiros. A experiência profissional nesse processo de captação de informações também é bastante válida", expõe a diretora da NGI.

Para vencer essa ausência de informações sobre os componentes relacionados à área de instalação, a Método optou em desenvolver sua própria biblioteca. "O ideal seria que os fornecedores fornecessem esses dados, mas, em vez de esperar que isso acontecesse, decidimos parar para montar nosso banco de dados. É nada mais do que homem-hora", relata Joyce Delatorre, coordenadora do núcleo BIM da Método.