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Prêmio PINI 2011

Trabalho eficiente

Prêmio PINI 2011 homenageia o Laboratório de Eficiência Energética em Edificações, referência nacional em pesquisas na área e figura central no desenvolvimento da etiquetagem de edifícios

Por Pâmela Reis
Edição 124 - Novembro/2011

Marcelo Scandaroli
A Casa Eficiente, desenvolvida em parceria com a Eletrosul e a Eletrobras, foi um dos principais projetos do LabEEE; a residência é uma vitrine de tecnologias de ponta em eficiência energética
Hoje parece normal falar sobre eficiência energética em edificações. A preocupação com o uso racional de energia cresce em praticamente todos os setores da economia, tanto por questões econômicas quanto ambientais. Mas o cenário era bem diferente 15 anos atrás, quando foi fundado o Laboratório de Eficiência Energética em Edificações, ou LabEEE, na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

"Dentro do próprio setor elétrico, a eficiência energética era negligenciada. O negócio era produzir mais energia e consumir mais energia", comenta Roberto Lamberts, professor titular do departamento de engenharia civil da UFSC e coordenador geral do LabEEE. O laboratório é fruto da cultura de pesquisa que surgiu no departamento a partir de 1991, com a criação da pós-graduação e a necessidade de se criar um laboratório. Em 1996 nasce então o LabEEE, vinculado ao Núcleo de Pesquisa em Construção do departamento.

Desde então, o laboratório vem desenvolvendo um trabalho pioneiro no sentido de reduzir o consumo de energia nas edificações, melhorar o desempenho térmico, viabilizar fontes de energia renovável e incentivar o uso racional da água. "Naquela época eu já vinha trabalhando com desempenho térmico de habitações de baixo custo, mas não havia dinheiro para financiar esse tipo de pesquisa", comenta Lamberts. "Percebi que se eu fosse para o lado da energia elétrica, que tinha mais apoio da indústria, conseguiria captar recursos. No fundo, mexer com energia foi um desvio para conseguir retroalimentar o lado mais social da pesquisa de desempenho térmico de edifícios de baixa renda."

Com o tempo, a questão do desempenho térmico ganhou projeção e hoje é um dos pontos centrais da discussão acerca da Norma de Desempenho (NBR 15.575). O laboratório se tornou também - e principalmente - uma referência nacional em eficiên­cia energética, acumulando expertise e reconhecimento na medida em que cresce nas empresas e governos a preocupação com a sustentabilidade. Hoje são 50 pesquisadores, entre professores, alunos de pós-graduação e alunos de graduação em programa de iniciação científica. A equipe multidisciplinar é formada majoritariamente por arquitetos e engenheiros de áreas como civil, elétrica, mecânica e sanitária.

"A demanda sobre o laboratório tem sido muito grande, e não apenas para serviços no Brasil. A cooperação internacional também está bastante forte", comenta Lamberts. O LabEEE participou, por exemplo, do Projeto Sushi (Sustainable Social Housing Initiative), iniciativa global do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) que visa a promover práticas de construção sustentável em programas de HIS (Habitação de Interesse Social) no Brasil e na Tailândia.

Executado aqui pelo CBCS (Conselho Brasileiro de Construção Sustentável), o projeto contou com a participação do professor Lamberts e da pesquisadora Maria Andrea Triana nos estudos sobre como inserir eficiência energética em HIS. Segundo relata a diretora do CBCS, Diana Csillag, "o trabalho permitiu avaliar as tecnologias existentes no mercado e as soluções para melhorar a eficiência energética em HIS no Brasil. Foi possível fornecer uma análise de custos, benefícios e eficiência das alternativas selecionadas para melhorar o desempenho sustentável das unidades habitacionais sociais".

Marcelo Scandaroli
O LabEEE conta com 50 pesquisadores, entre professores, alunos de pós-graduação e graduação
Etiquetagem de edifícios

Um dos projetos mais importantes desenvolvidos pelo LabEEE foi a etiquetagem de eficiência energética em edificações. A iniciativa é fruto do Programa Brasileiro de Etiquetagem, coordenado pelo Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial) e pela Eletrobras (Centrais Elétricas Brasileiras), e visa a classificar os imóveis de acordo com seu nível de eficiência energética, oferecendo um elemento a mais para balizar a decisão de compra do consumidor final.

O laboratório participou da elaboração tanto dos requisitos técnicos para avaliação e classificação do projeto quanto dos critérios de inspeção pós-obra. Além disso, foi o primeiro e, por muito tempo, o único órgão designado pelo Inmetro para conceder a etiqueta. "Começamos com a etiquetagem, mas logo sentimos que não conseguiríamos fazer todos os controles de qualidade necessários dentro de um laboratório que já era pequeno e que tem como viés principal atender a pós-graduação", comenta Lamberts. Foi feita então uma parceria com a Fundação Certi (Centros de Referência em Tecnologias Ino­va­­­doras), que conta com um centro de metrologia e instrumentação, para criar dentro dela o OI3E (Organismo de Inspeção em Eficiência Energética de Edificações), que hoje emite as etiquetas e fiscaliza os empreendimentos.

Para dar suporte à expansão do programa de etiquetagem no País, o Ministério de Minas e Energia está agora ampliando a atua­ção do LabEEE por meio da criação do Centro Brasileiro de Eficiência Energética em Edificações, ou CB3E. A nova entidade abarca o LabEEE e o Laboratório de Meios Porosos e Propriedades Termofísicas da UFSC e deverá coordenar as iniciativas complementares à etiqueta, como a elaboração de normas para medir as propriedades térmicas e óticas dos materiais da edificação.

Lamberts revela que o próximo passo será a criação da etiquetagem para edificações em uso, já que até agora apenas imóveis novos são avaliados. "A etiqueta fornece uma radiografia do prédio que foi entregue ao usuário, mas ninguém sabe se esse prédio vai ser bem operado ou não. A monitoração do prédio em uso seria outra forma de qualificá-lo", explica o professor. O selo de eficiência energética também está na fila de futuros projetos. Diferente da etiqueta, que classifica os edifícios dentro de cinco níveis de eficiência (de A a E), o selo é concedido apenas aos produtos que atingem os melhores níveis, para indicar ao consumidor quais são os produtos mais eficientes da categoria.

A Eletrobras tem incentivado ainda a disseminação de iniciativas semelhantes ao LabEEE em outras universidade do País, para formar uma rede de laboratórios e introduzir a cultura da etiquetagem nas universidades.

Paulo Noronha/Agecom/UFSC
Roberto Lamberts, coordenador geral do Laboratório, com troféu do Prêmio PINI, é cumprimentado por Alvaro Touber Prata, reitor da UFSC, e Ademir Pautasso Nunes, presidente da PINI (ao fundo)
Simulação acessível

No rastro da etiquetagem de edifícios veio outro projeto de peso que está em fase final de desenvolvimento: o Simulador de Eficiência Energética de Edificações, ou S3E. Trata-se de uma interface online gratuita para que arquitetos, engenheiros e projetistas possam calcular os níveis de eficiência energética de seus empreendimentos, conforme os requisitos do Programa Brasileiro de Etiquetagem.

A ferramenta se baseia no EnergyPlus, software de simulação desenvolvido pelo departamento de energia do governo norte-americano. Lamberts explica que, embora seja gratuito, o Energy Plus é extremamente complexo e a dificuldade no manuseio desestimula a adoção do software pelos projetistas. O S3E é uma interface simplificada deste mesmo programa, ou seja, o LabEEE bloqueia uma série de comandos do software, disponibilizando apenas os campos necessário para produzir uma resposta voltada à etiquetagem.

O usuário insere dados sobre a localização e o tipo do edifício, sua geometria, aberturas, componentes construtivos, iluminação e condicionamento de ar. Como resultado, recebe o consumo de energia do prédio avaliado, comparado ao consumo aceito em cada nível da etiquetagem. Os projetistas podem, então, alterar as configurações e especificações até chegar ao nível de eficiência desejado. "A ideia é popularizar a simulação, ou seja, fazer com que ela entre no escritório de projeto e modifique a forma de projetar", comenta Lamberts. A versão premilinar de testes está disponível no endereço www.s3e.ufsc.br. Até o final deste ano a versão definitiva deve ser concluída.

Energia que vem do sol

Outra frente de atuação destacada do LabEEE é a geração de energia solar fotovoltaica. Uma das principais realizações nessa área tem sido a participação no projeto Megawatt Solar, encabeçado pela Eletrosul, que prevê a implantação de um sistema fotovoltaico integrado ao telhado e ao estacionamento do edifício-sede da companhia, em Florianópolis. Em parceria com o Grupo de Pesquisa Estratégica em Energia Solar da UFSC, o LabEEE participou da especificação técnica do projeto, que passa atualmente por licitação internacional para execução.

A usina solar de 1 MW (megawatt) pode gerar o equivalente a 1,2 mil MWh de energia elétrica por ano. Seria o suficiente para atender ao consumo de 400 residências. O sistema será conectado à rede da distribuidora de energia elétrica local, mas a energia solar não será vendida aos consumidores residenciais. O objetivo é que a Eletrosul comercialize a energia solar no mercado livre de energia (consumidores livres são aqueles com demanda superior a 3 MW, como grandes fábricas e shopping centers, que podem escolher livremente seu fornecedor de energia elétrica e negociar preços diferentes das tarifas impostas aos consumidores comuns).

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