Aço leve | Construção Mercado

Debates Técnicos

Aço leve

Embora construtores observem aumento na demanda, construção em steel frame ainda carece de normatização para escapar da burocracia, obter financiamentos e passar por difusão mais ampla

Por Gisele C. Cichinelli
Edição 125 - Dezembro/2011

Divulgação: Construtora Sequencia
Principal entrave à adoção do steel frame em habitações populares é a falta de normas para o sistema. Ausência de associação setorial também é tida como problema por construtores e fornecedores
O uso do sistema light steel framing - ou simplesmente steel frame, como ficou mais conhecido - é recente na construção civil brasileira. A técnica construtiva começou a ser difundida no Brasil no final da década de 1990, quando vantagens como leveza, rapidez de construção, baixa geração de resíduos e facilidade começaram a atrair a atenção de clientes para a solução, sobretudo nos segmentos comercial e industrial. No nicho residencial, o sistema está longe de decolar, mesmo com o horizonte de construções para atender programas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida pela frente.

Além das barreiras culturais, a falta de norma técnica capaz de orientar as etapas do sistema é dos principais entraves para o amplo uso no segmento de habitações populares, que exige longa jornada de comprovação tecnológica para aprovação de projetos.

Por enquanto, o único texto de referência é a diretriz Sinat (Sistema Nacional de Avaliações Técnicas) no 003 - Sistemas construtivos estruturados em perfis leves de aço conformados a frio, com fechamento em chapas delgadas (sistemas leves tipo "Light Steel Framing"), criado pelo Ministério das Cidades. "Hoje, esse é o documento mais importante para quem pretende financiar obra com a Caixa Econômica Federal", lembra o arquiteto Roberto Inaba, do CBCA (Centro Brasileiro da Construção em Aço).

Outro ponto desfavorável à difusão é o custo, 7% mais caro do que a alvenaria (segundo estudo realizado pelo departamento de engenharia da PINI). Por outro lado, fabricantes e construtores especializados contra-argumentam que orçamentos em steel frame possuem pouca variação. "O orçamento sempre bate com o custo final da obra, diferente do sistema convencional", ressalta Inaba.

Atenção ao projeto

Composto por perfis leves de aço galvanizados, fechamentos em placas cimentícias, OSB (Oriented Strand Board) ou placas de gesso acartonado, isolantes termoacústicos e impermeabilizantes, além de instalações elétricas e hidráulicas, o steel frame permite a construção de edifícios com até sete pavimentos. No entanto, costuma ser mais competitiva a construção de casas térreas, sobrados e edifícios baixos com até quatro pavimentos.

O ideal é que a obra seja arquitetonicamente concebida para o sistema, o que contribuirá para melhor aproveitamento de benefícios como rapidez de execução e redução de desperdícios. Luciana Oliveira, pesquisadora do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo), lembra que a etapa de projetos requer atenção especial em função da diversidade de materiais e componentes empregados e das diversas interfaces entre componentes e elementos construtivos. "A análise das soluções não deve ser feita de forma isolada, sem levar em conta o comportamento global do produto. Caso contrário, fatalmente resultará em diminuição do desempenho", completa Bernardo Sondermann, diretor comercial da construtora Steel Frame.

Cuidados e limitações

Componentes mal-especificados e descuidos durante a execução podem comprometer a qualidade e a durabilidade da edificação. "O steel frame não aceita excentricidades, exige ajustes perfeitos e parafusamento e prumos corretos. Também não é qualquer profissional que pode montar o sistema", conta Cintia Daruix, calculista estrutural da Daruix Engenharia.

Entre os erros mais comuns de execução estão a utilização de parafusos inadequados, isolamento entre o solo e perfis inadequados e ausência de contraventamentos, responsáveis pela resistência da construção a cargas horizontais como esforços gerados pelos ventos. A falta de proteção dos perfis de aço e das chapas de fechamento contra umidade, contato direto de componentes com potenciais eletrolíticos e ausência de vedação nas tubulações de gás internas à parede também são descuidos que podem prejudicar o bom desempenho do conjunto.

Do ponto de vista estrutural, o steel frame apresenta limitações, como as espessuras dos perfis. "O mercado oferece apenas as opções de 0,8 mm, 0,9 mm e 1,25 mm. Se quisermos usar perfis mais robustos, acima de 2,5 mm, não é possível, pois não há máquinas que dobrem perfis nessas dimensões, limitando o tamanho dos vãos e engessando o sistema", conta Cíntia.

 

MARCELO SCANDAROLI
Alexandre Mariutti, diretor da construtora Sequência
ENTREVISTA - ALEXANDRE MARIUTTI

Sistema Nacionalizado

Ainda há resistências ao uso do steel frame no Brasil?

Antigamente, havia muito mais barreiras. Era comum ouvirmos que steel frame era um sistema oco, frágil e com pouca resistência. Os clientes não o aceitavam muito bem. Mas hoje o mercado já enxerga vantagens, como menos mão de obra e material envolvidos no processo executivo e menores custos e riscos. O steel frame, muitas vezes, é a única opção viável de construção, sobretudo em lugares inóspitos, onde o transporte de cimento e blocos é inviável.

Já é possível encontrar todos os componentes do sistema no Brasil?

Há alguns anos, 100% dos componentes eram importados. Hoje, o único material que vem de fora é a barreira impermeável. O produto - que impermeabiliza o sistema, mas ao mesmo tempo permite que a casa respire - substituiu satisfatoriamente os antigos revestimentos em plástico, que causavam a condensação de água atrás das paredes de drywall mofando os rodapés. Em caso de necessidade de reparos, o produto pode ser substituído por papel alcatroado, disponível no mercado nacional, sem prejuízos ao sistema.

Quais os principais cuidados com relação aos perfis de aço?

É fundamental evitar a corrosão dos perfis, pois o sistema tem de ser totalmente estanque. O perfil deve se apoiar sobre manta impermeabilizante, sobre o radier. Vale ressaltar que os perfis perdem parte da galvanização nos pontos onde são furados e cortados, por isso é fundamental evitar qualquer contato com água dentro das paredes.

E quanto às etapas de execução, quais pontos merecem atenção?

Durante a execução da fundação, por exemplo, é importante certificar-se da lisura do concreto para que o frame se apoie corretamente. Outro ponto importante é seguir corretamente a quantidade de parafusos e os espaçamentos sugeridos pelos fabricantes durante a etapa de chapeamento das placas, evitando movimentações e posteriores trincas e fissuras no conjunto construtivo.

 

Checklist

Ventos, cargas e sobrecargas atuantes, além do próprio peso das estruturas devem ser previstos durante o cálculo estrutural do edifício

Certifique-se de que as empresas de projeto e cálculo possuem expertise no sistema

Aspectos de ancoragem e familiaridade com o ferramental envolvido na sua execução são fundamentais. Conte com empresas montadoras de confiança e experientes na montagem do sistema

Conexões e emendas de perfil devem ser muito bem executadas e as placas de fechamento corretamente parafusadas

Normas e diretrizes técnicas

Sistema

Diretriz Sinat no 003 - Sistemas construtivos estruturados em perfis leves de aço conformados a frio, com fechamento em chapas delgadas (sistemas leves tipo "Light Steel Framing")

Aisi (American Iron & Steel Institute) - Steel Frame

Componentes do sistema

NBR 14762 - Dimensionamento de Estruturas de Aço Constituídas por Perfis Formados a Frio - Procedimento

NBR 15253 - Perfis de Aço Formados a Frio, com Revestimento Metálico, para Painéis Reticulados em Edificações - Requisitos Gerais

 

Mesa-redonda

FOTOS: MARCELO SCANDAROLI

O segmento de light steel frame está sendo impactado pela desaceleração já sentida por outros segmentos da construção civil?

Bernardo Sondermann - Não, na verdade estamos acompanhando o movimento inverso. Temos tido mais procura e aceitação do sistema, com aumento de demanda.

Gabriel Pontes - O desaquecimento acontece de forma mais latente nos sistemas construtivos mais artesanais. A tendência do mercado é buscar sistemas racionais e industrializados, o que favorece o steel frame. Além disso, como o sistema é pouco difundido, sofre muito pouco com a desaceleração.

Quais as perspectivas para 2012?

Pontes - Estamos encontrando barreiras para o financiamento de construção de habitações de interesse social. Mas há outros mercados com muito espaço para absorver o steel frame e que podem, inclusive, servir de vitrine para que o sistema tenha aceitação maior no segmento residencial.

Felipe Barros - Vale ressaltar que muitas construtoras acabam indo para outras soluções não convencionais também pela falta de insumos.

Carlos Roberto de Luca - Além da falta de materiais, o setor enfrenta problemas também com mão de obra. As construtoras estão percebendo que a industrialização, com uso de sistemas construtivos de montagem ágil, é o único caminho para atender grandes volumes de obras verticais ou horizontais.

Marcelo Amaral - O mercado descobriu o steel frame como solução técnica para superar gargalos e a resposta positiva é que existe contrapartida da cadeia produtiva. As construtoras estão encontrando respaldo técnico dos fabricantes. Hoje, existe mão de obra especializada que pode oferecer serviço de qualidade.

Luiz Tadeu Papaterra Mariutti - Apesar de termos um sistema de rápida execução, a burocracia não o acompanha. Há alta demanda de licenças solicitadas aos órgãos públicos, que seguram as aprovações e licenciamentos, principalmente para grandes obras. Temos sentido muito esse problema neste último ano.

Que tipo de burocracia?

Mariutti - São os licenciamentos ambientais e aprovações, principalmente de grandes obras. Mas não é problema exclusivo do steel frame, também ocorre com obras convencionais.

Há entraves específicos para entrada de novas tecnologias?

Pontes - Novas tecnologias seguem conceitos difundidos no exterior e cumprem exigências de normas internacionais. Não temos norma específica para o steel frame, que atenda especificamente nossa realidade e nosso mercado. Mesmo cumprindo as normas e tendo referências do bom desempenho do produto, a falta de normatização é compreendida como falta de respaldo técnico para financiamentos que exigem garantias no longo prazo.

De Luca - O steel frame já está contemplado pelo Sinat (Sistema Nacional de Avaliações Técnicas). Porém, mesmo tendo a diretriz, cada executor do sistema tem de ter o seu DATec (Documento de Avaliação Técnica), que é a especificação da forma como vai construir o sistema. As exigências causam entraves e dificultam aprovações, apesar de sabermos que os fabricantes têm tecnologias definidas e bem completas em termos de ensaios.

Quais as perspectivas para esse quadro mudar?

Pontes - Os fabricantes e as construtoras estão unidos, vislumbrando uma associação própria pa­ra o steel frame, capaz de padronizar o vocabulário e a técnica envolvendo todos os insumos do processo construtivo. A ideia é que o DATec seja um só, facilitando os processos de aprovação.

De Luca - Um dos maiores problemas no setor é a falta de norma que caracterize o sistema completo, em todas as suas fases. Quando tivermos essa norma, não haverá mais questionamentos sobre a solução. Já temos massa crítica da indústria, fabricantes e construtoras e até ensaios para fazê-la.

Sondermann - Investimos em protótipos, testes e amostras, sobretudo na construção de casas. Hoje, temos mais abertura no mercado, mas ainda sofremos barreiras no segmento de habitação popular. Não acredito que consigamos, no curto prazo, abocanhar a demanda do programa Minha Casa, Minha Vida, apesar da enorme demanda por moradias. Por outro lado, segmentos de construções comerciais e industriais estão se abrindo, pois as grandes empresas estão superando o medo de usar o sistema. Já construímos, inclusive, para a Petrobras.

Pontes - Existem setores de aprovação de financiamento que sequer conhecem o sistema, e isso acaba sendo uma grande barreira.

Além das normas, falta informação sobre steel frame de modo geral?

Amaral - O uso do steel frame no Brasil é recente, tem aproximadamente 15 anos. Até bem pouco tempo, trabalhávamos com iniciativas pontuais e cada um trilhava um caminho distinto. Há três anos, as empresas de aço, por meio do CBCA (Centro Brasileiro da Construção em Aço), lançaram manuais técnicos de arquitetura e engenharia. A cadeia produtiva se organizou para discutir em bloco os aspectos de aprovação da tecnologia junto à Caixa Econômica Federal. Foram aprovadas 2,5 mil unidades, que não foram iniciadas ainda, pois o processo é moroso. O uso do sistema está, realmente, se consolidando nas obras comerciais e industriais, o que dará segurança para as construtoras o usarem como solução na construção de residências. Na minha visão, 2012 será um ano positivo para o desenvolvimento do sistema.

Mauricio Charles Cohah - O steel frame já decolou. O fundamental é nos unirmos e pensarmos a nossa associação. Temos a nosso favor a rapidez, pouca mão de obra envolvida e possibilidade de reciclagem de insumos, características importantes para as construtoras hoje. Mas é importante termos força em conjunto, não adianta falarmos sozinhos.

Amaral - A própria cadeia produtiva tem de fazer um mea culpa. Não nos interessávamos em sentar ao redor de uma mesa e discutir o mercado. Hoje, com novas empresas chegando e o interesse das construtoras aumentando, podemos mudar esse quadro, pois não existe desenvolvimento de tecnologia só com a vontade dos fabricantes. A Caixa impõe restrições, mas, ao mesmo tempo, impulsiona o setor a criar soluções técnicas de qualidade.

Pontes - Com a associação, poderemos divulgar o sistema de forma mais responsável. Nossa mão de obra, por exemplo, é muito mais fácil de ser treinada, pois o sistema é rápido e de simples execução. Mas a obra demanda tempo determinado de execução e projeto muito bem executado. As grandes empresas e indústrias compreendem essas necessidades, mas isso ainda não se estende ao segmento residencial.

Mariutti - Na construção convencional, não há detalhamentos de parede. Já no steel frame, o projeto é milimétrico, com elevação de todas as paredes. E não pode ser mudado. Não há aberturas para "gambiarras".

Há bons projetistas para o steel frame?

Mariutti - São poucos, mas eles existem. Contamos com uma empresa que se especializou também em cálculo estrutural, que nos atende com eficiência. Os arquitetos ainda têm alguma dificuldade para fazer a primeira obra com o steel frame, mas acredito que se adaptarão com facilidade ao sistema.

Como resolver o problema da falta de projetistas?

Roberto Inaba - O CBCA, em conjunto com a Abece (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural), está preparando um curso de steel frame voltado a calculistas, que deve ser ministrado em diversas regionais espalhadas pelo País em 2012. Temos atuado para ajudar na divulgação do produto. No que diz respeito às normas, acredito que devemos e podemos fazê-las, mas o fato de termos de criá-las não deixa de ser um preconceito, pois nenhum outro sistema construtivo no Brasil conta com norma.

Já é possível atender a todo o Brasil?

Mariutti - Culturalmente, havia muita rejeição com o sistema. Hoje, a resistência é bem menor. Nós, inclusive, estamos construindo obras populares na Amazônia, em Juriti, no Pará. O steel frame é a melhor opção para essas regiões, por conta da facilidade de logística e transporte.

Sondermann - Temos capacidade de fornecer todos os componentes do sistema para todo o Brasil. Quanto mais distante for, mais viável o uso. Já construímos na Bahia, em Pernambuco, Angola e Dubai, para citar alguns exemplos. Em obras gigantes, é possível, inclusive, fazer o perfil dentro da própria obra.

De Luca - O sistema é leve e fácil de transportar, facilitando a montagem em locais de difícil acesso.

Omair Zorzi - Há dez anos, obras do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) foram executadas em steel frame. Casas foram erguidas no meio da selva, o que comprova a facilidade de montagem do sistema frente a condições adversas.

Pontes - O steel frame não é mais uma opção e sim uma necessidade nessas regiões. Não há outro sistema construtivo que consiga atender a esses lugares. A indústria do steel frame cobre todo território nacional e também exporta materiais.

E quanto à mão de obra? Como capacitar pessoal nessas regiões?

Mariutti - Optamos por levar nossos líderes para treinar a mão de obra local. Com pouco tempo, no máximo uma semana, um carpinteiro de fôrmas pode se transformar em montador de steel frame.

Pontes - O montador deve aprender, sobretudo, a operar uma parafusadeira. Com um projeto executivo bem detalhado em mãos, a montagem é muito fácil.

A escassez generalizada de mão de obra na construção tem afetado o setor?

Mariutti - Temos tido dificuldades para encontrar pessoal, mas superamos com mais facilidade esse gargalo, pois precisamos de menos gente para construir. O montador de steel frame é um profissional melhor remunerado e mais caro.

Inaba - Há alguns anos, o CBCA investiu em um curso de formação de mão de obra junto ao Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), mas paramos na primeira turma. A formação de mão de obra depende da demanda do mercado, pois não existe estoque de montador. O montador quer emprego imediato.

Quais os impactos das variações do preço do aço?

Inaba - A participação do custo do aço no custo total do steel frame não é grande.Temos acompanhado leve tendência de queda no preço desse insumo.

Mariutti - Na construção acabada, o aço representa menos de 10%. Hoje, não temos perda de aço, porque o insumo já chega cortado milimetricamente. Não geramos entulho.

Zorzi - O steel frame é um sistema muito honesto. O construtor sabe o que compra e o que vai pagar.

Como está a qualidade dos perfis?

Mariutti - Compramos o aço já dobrado e cortado, pronto para uso. Acompanhamos os ensaios feitos nos lotes recebidos das usinas. Já optamos por comprar bobinas, mas percebemos que era horizontalizar demais a construção, pois não tínhamos como gerir essa etapa.

Inaba - O aço já sai da usina com certificados. O produto é normalizado.

Cohah - A obra em steel frame é 100% rastreável, o que a torna extremamente justa no que diz respeito a custo.