Bons ventos à frente? | Construção Mercado

Entrevista

Bons ventos à frente?

Economista revela como os principais indicadores econômicos afetam preços e orçamentos e traça perspectiva para o setor da construção em 2012

Por Gisele Cichinelli
Edição 125 - Dezembro/2011

Marcelo Scandaroli
Ana Maria Castelo
Coordenadora de projetos da construção da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e responsável pela divulgação do INCC-M (Índice Nacional de Custo da Construção do Mercado). Graduada em Economia pela UFC (Universidade Federal do Ceará), possui mestrado em economia pela USP (Universidade de São Paulo).

Quais indicadores econômicos mais afetam os insumos da construção civil?

Existem condicionantes pelo lado da oferta e da demanda. Pela ótica da demanda, que é determinada pela produção formal das construtoras e das famílias, em pequenas obras de reformas e de manutenção, o crescimento econômico, ou seja, renda e crédito, afetam diretamente o desempenho dos insumos.

Como esses fatores afetam os preços?

É difícil responder genericamente. Quando falamos de insumos da construção, falamos de uma gama muito grande de produtos com características e condições de mercado distintas. No caso da mão de obra, por exemplo, o grande crescimento da construção nos últimos anos determinou elevação significativa dos salários, sobretudo em função da escassez de pessoal qualificado. Em relação aos insumos materiais, apesar do grande aumento da demanda, não tem havido até o momento problemas de indisponibilidade de materiais. Além disso, houve desoneração tributária, ou seja, a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), que contribuiu para reduzir o preço de vários materiais. Outro aspecto importante que tem afetado o mercado doméstico são as importações, que vêm crescendo nos últimos anos. A maior diversidade de produtos também tem contribuído para a menor elevação dos preços. Assim, nos últimos anos - entre janeiro de 2008 e outubro de 2011 - enquanto o INCC-M da mão de obra registrou alta de 40,7%, o INCC-M de materiais e equipamento elevou 25,4%.

Como as variações cambiais podem interferir no preço dos principais insumos?

Temos que olhar de forma diferente cada mercado. A desvalorização cambial não tem efeito direto sobre insumos básicos como tijolos, telhas, areia, cimento e produtos relacionados, pois esses produtos não são commodities. Além disso, são mercados onde importação e exportação não representam muito. No entanto, se a desvalorização levar a um aumento do preço do combustível, certamente haverá efeitos em cadeia. Vale lembrar que o transporte é um componente bastante relevante na composição dos custos, pois influencia no valor dos fretes e no custo da produção industrial de diversos insumos.

E no preço do aço?

O mercado do aço é bastante afetado pelo comércio internacional. A demanda externa - e aí o crescimento da China é fator importante no desempenho do setor siderúrgico - é um aspecto bastante relevante nesse mercado, mas, cabe ressaltar, a maior dificuldade é pensar o mercado da construção em termos de preços de insumo de maneira homogênea, pois é bastante diversificado e apresenta evoluções de preços que variam conforme as características de cada cadeia produtiva.

Nos últimos meses, tivemos leve apreciação do dólar frente ao Real. Essa tendência de aumento deve se manter?

Ainda não sabemos se a desvalorização do dólar vai se sustentar ou se será revertida. Há muitas incertezas no cenário internacional e fica difícil apontar tendências. A incerteza aumenta a instabilidade do câmbio. É possível que o dólar não volte mais aos patamares de R$ 1,60, mas é complicado apontar a tendência para os próximos meses.

Como instabilidades e incertezas afetam os orçamentos?

Certamente fica mais difícil antecipar a evolução dos preços com tantas incertezas. Além da evolução do câmbio, aspecto fundamental é a evolução da economia europeia em 2012 e as repercussões de uma crise externa mais acentuada no Brasil.

E quanto aos índices de inflação, que efeitos produzem nos preços dos insumos?

A inflação capta também a evolução dos preços dos insumos da construção. O IGP (Índice Geral de Preços), por exemplo, tem em sua composição, com peso de 10%, o INCC que acompanha os custos setoriais. Vale notar que, de maneira geral, os preços dos materiais, acompanhados tanto pelos índices do CUB (Custo Unitário Básico da Construção Civil) e do INCC, estão ficando abaixo dos índices de inflação. Os preços de produtos da construção têm variado menos que a inflação, característica que tem se mantido desde 2009 por conta da desoneração tributária e do aumento das importações.

A taxa Selic interfere na composição dos preços?

A elevação dos juros afeta a demanda por materiais na medida em que o crédito se torna mais caro e escasso, restringindo o consumo das famílias que querem realizar obras, reformas e manutenção e impactando negativamente o mercado. Uma demanda comprimida contribui para reajustes menores dos preços dos insumos. Claro que qualquer elevação da taxa Selic também aumenta o custo do capital, influenciando a decisão de investimento das empresas. No momento, no entanto, estamos observando uma redução da Selic. O acesso ao crédito e o custo de capital não são os maiores problemas das empresas atualmente.

Se a tendência de redução da Selic se consolidar, que impactos podemos esperar para as empresas?

A redução da Selic favorecerá a demanda, na medida em que as condições de crédito fiquem mais favoráveis. Se pensarmos na indústria como um todo, se a oferta de crédito não se restringir, as empresas com projetos de expansão também serão favorecidas.

Como o comprador pode ler esses índices e usá-los para fazer bons negócios?

Se imaginarmos o cenário macroeconômico mais positivo, o setor tende a crescer e a demanda a continuar mais aquecida, implicando necessidade de planejamento maior de compra para evitar surpresas com falta de material. Em relação a preço, o ideal é acompanhar o comportamento das commodities, de energia e combustíveis. A construção civil não permite formação de grandes estoques, mas os insumos, como o aço, por exemplo, podem ser negociados com antecedência para entrega na data desejada. No entanto, quando o preço desses insumos muda, não há muito a ser feito. Não dá para se antecipar e se proteger das variações dos mercados.

A leitura dos indicadores econômicos pode ser utilizada de forma estratégica para planejar compras?

A leitura correta dos índices é importante para a melhor compreensão do mercado em termos de maior ou menor aquecimento. Mas, no sentido de antecipação de compras, é mais difícil utilizar esses dados. O que pode ser antecipado é a orçamentação por meio da estimativa e da projeção de possível evolução dos preços de energia, petróleo, frete etc., por exemplo. Com esses dados em mãos, o orçamentista pode imaginar quais serão os impactos na inflação setorial.

Com que margem de tempo pode-se fazer essa avaliação com segurança?

Com segurança, com margem nenhuma. Quando falamos de insumos da construção, boa parte deles está em um mercado concentrado, com indústrias oligopolizadas, com um poder de mercado muito grande. É mais difícil prever a ação dessas indústrias.

Quais as projeções para o cenário econômico e o setor em 2012?

é possível adiantar que neste ano as incertezas estão maiores. Há muitas variáveis no mercado externo e ainda não sabemos se a crise da Europa e a dificuldade dos Estados Unidos para crescer vão continuar. Também é cedo para prever se o crescimento da China vai retrair. Por melhor que sejam as condições macroeconômicas internas, o Brasil não sairá ileso da turbulência externa. Por outro lado, as políticas adotadas pelo governo em 2009 e que surtiram efeito em 2010, como o programa Minha Casa, Minha Vida, continuam a acontecer. Além do MCMV 2, temos a expansão vigorosa do crédito sustentando o mercado imobiliário, investimentos a serem feitos para os eventos da Copa 2014 e Olimpíada e eleições, elementos que favorecem bastante o setor. Não temos números fechados, mas é pouco provável imaginar um cenário desfavorável para o setor em 2012.

Os preços das commodities e do petróleo tendem a cair em 2012 como consequência da retração da economia mundial?

Já houve arrefecimento nos preços de commodities. Se houver aprofundamento da crise, a tendência é que os preços recuem ainda mais. E, com a redução dos preços de algumas commodities como cobre, alumínio e aço, o preço de alguns insumos, como fios e cabos elétricos, também tende a cair. Nos últimos tempos, acompanhamos crescimento do número de importações no mercado de insumos - como cerâmicas, válvulas e metais sanitários -, que devem ser afetadas pelo aumento do dólar. Por outro lado, a desvalorização pode contribuir para diminuir a importação e a concorrência com os produtos da indústria local. O ponto positivo é que não corremos o risco de falta de fornecimento, pois as empresas têm feito importantes investimentos de expansão para atender ao mercado interno.

E qual deve ser o ponto mais crítico para o setor em 2012?

A grande questão do orçamentista continuará a ser a elevação dos preços dos serviços. E o componente mão de obra influencia fortemente no aumento desse item. Sem dúvida, esse é um dos pontos mais preocupantes para o setor já que o cenário de falta e de encarecimento da mão de obra deve se manter ao longo de 2012. O profissional de orçamento tem de estar atento a esse dado.

Onde obter mais informações sobre
indicadores econômicos?

Uma boa fonte de consulta é o site www.construdata.com.br, resultado da parceria do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo) com a FGV e que concentra informações relevantes da construção civil, como índices de preços, produção, consumo, emprego e renda.

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