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Debates Técnicos

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Disparidade na adoção entre projetistas, arquitetos e construtoras faz com que uso do BIM ainda seja permeado por problemas de compatibilidade no Brasil. No entanto, usuários pioneiros afirmam que benefícios em produtividade compensam dificuldades

Por Gisele C. Cichinelli
Edição 127 - Fevereiro/2012

ghafari associates
Ao permitir visualizar os projetos integrados e em 3D, o BIM possibilita verificar interferências entre instalações e com a estrutura. O teste de clash detection, por exemplo, aponta elementos em conflito
Sob os argumentos de propiciar confiabilidade
à informação, consistência aos projetos e eliminar retrabalhos, o BIM (Building Information Modeling) tem ganhado espaço. A ferramenta permite modelar completamente o empreendimento, atualizando todos os arquivos simultânea e imediatamente a partir das modificações, e ainda organizar banco de dados de todas as obras, acessível a todas as equipes envolvidas.

Quem usa a plataforma afirma que os benefícios em termos de qualidade e otimização de processos são evidentes. Mas, na contramão do que acontece em países desenvolvidos como Estados Unidos, Inglaterra e França, a adesão do mercado imobiliário brasileiro à tecnologia segue em ritmo lento no Brasil. "Os escritórios de arquitetura saíram na frente; empresas de projetos de estrutura e algumas grandes incorporadoras também já começaram a acordar para a realidade do BIM. Mas, no segmento de instalações, a adesão ainda está muito atrasada", lembra a arquiteta Miriam Roux Azevedo Addor, sócia-diretora da Addor e Associados.

Como um dos grandes atrativos do BIM é a possibilidade de compatibilizar projetos, a disparidade no ritmo de adesão entre projetistas tem sido prejudicial ao mercado como um todo. "Para os benefícios da compatibilização e para realizar o "clash detection" (análise de interferências) é preciso ter todos os projetos em ferramentas paramétricas, o que ainda não é uma realidade", completa Miriam.

A quantidade de obras com cronograma apertado, a falta de mão de obra qualificada para operar com o BIM e de tempo para treinamento justificam o pouco comprometimento das empresas com a transição. Outro entrave são as cifras envolvidas na implementação. Uma estação de trabalho, incluindo licenças, hard­ware compatível e pessoal treinado custa entre R$ 10 mil e R$ 20 mil. "Toda nova tecnologia pressupõe riscos e, se há alguém que poderia assumir esses riscos, é o contratante", acredita Guilherme Brito Neves, gerente de TI da MHA Projetos, empresa especializada em projetos de instalações que já investiu cerca de R$ 600 mil em licenças e treinamento de pessoal por ano desde que começou a implantar a ferramenta, em 2010.

Interoperabilidade

Para o arquiteto Luiz Augusto Contier, pioneiro no uso da tecnologia, as dificuldades eram previstas. "Vivemos um salto tecnológico, com problemas inerentes à mudança de paradigma. O que preocupa é que as empresas querem o BIM sem saber exatamente o que é", observa.

Outro ponto crítico tem sido a contratação de projetos. O ideal é negociar a entrega do arquivo no formato nativo (.rvt, .dgn etc.) ou em IFC (Industry Foundation Classes). "Evite arquivos em DWF ou PDF 3D, que permitem visualizar o modelo e imprimir desenhos, mas não a edição ou obtenção das bibliotecas", explica o professor da Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo), Eduardo Toledo.

Interoperabilidade é palavra-chave para o BIM. Há ferramentas que importam e exportam arquivos em formatos nativos de outros softwares BIM, mas todas devem ser capazes de, pelo menos, exportar em IFC.

Detalhes ligados a modelagem e bibliotecas a serem usadas ou produzidas também devem constar do contrato. "São aspectos complexos, pois o cliente tem que saber o que quer e como quer receber o modelo", lembra Toledo. "Por isso o contratante precisa ter diretrizes que especifiquem detalhes. O ideal é que a construtora disponha de bibliotecas próprias e as forneça aos projetistas, de forma a garantir que suas padronizações sejam seguidas", completa o professor.

 

Marcelo Scandaroli
Miriam Roux Azevedo Addor, sócia-diretora da Addor e Associados
ENTREVISTA - Miriam Roux Azevedo Addor

Investimento alto

Quanto tempo o escritório levou para implantar o BIM?

Todo o processo - que inclui a compra de máquinas que suportam os softwares e de licenças, treinamento da equipe e produção propriamente dita de modelos tridimensionais - consumiu quatro anos.

Quais foram os maiores entraves?

O principal é o dinheiro. O investimento é alto e, aqui no Brasil, temos poucas opções financeiras de empréstimo para empresas de projeto. Tudo demora ou os juros são muito altos. Todo investimento é feito pelo escritório e nem sempre pode ser repassado ao cliente.

Quanto investiram no processo?

Já compramos vários hardwares e fizemos três níveis de consultoria de treinamento básico de 40 horas em Revit e de acompanhamento na organização das bibliotecas. Não consigo precisar ao todo qual foi o montante investido e muito menos o quanto ainda teremos de investir. Mas, para se ter ideia, unitariamente, a composição de custo de uma estação de trabalho com licença, hardware compatível e treinamento pode variar de R$ 10 mil a R$ 20 mil.

Como está a difusão do BIM no Brasil?

Está em franca ascendência. As grandes construtoras estão entendendo qual é o potencial e identificando os principais usos. O BIM possibilita muitos usos e aplicações e cada setor deve identificar suas necessidades. Acredito que no curto prazo - pelo menos em cinco anos - haverá bastante desenvolvimento, pois os fornecedores de software estão muito interessados.

 

divulgação Matec
A partir do desenvolvimento de norma de classificação, elementos serão identificados por códigos padronizados e não mais por nomes comerciais
Adesão estimulada

A NBR 15965 - Sistema de Classificação da Informação da Construção pode impulsionar o uso do BIM ao estabelecer a terminologia e estrutura de classificação para a tecnologia de modelagem da informação da construção e deve servir para nortear métodos de avaliação, escopos de trabalho, padrões técnicos e outros parâmetros.

Na prática, como lembra Toledo, a nova norma permitirá atribuir códigos uniformes aos elementos. "A classificação poderá estar embutida nos aplicativos BIM e nos objetos das bibliotecas. Isso facilitará a comunicação com outras aplicações como na geração de orçamentos, cotações e catálogos eletrônicos", explica.

Na avaliação de Marcos Otávio Bezerra Prates, diretor do MDIC (Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) e membro do comitê que elabora a norma, o CEE-134 da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), a construção desse acervo normativo será fundamental para intensificação do esforço de utilização do BIM no Brasil. "Esperamos, em conjunto com a elaboração de bibliotecas e a qualificação de profissionais aptos a operar a tecnologia, chegar a um nível próximo ao da França, onde a maior parte dos projetos já é apresentada em BIM."

 

 

Mesa-redonda

FOTOS: MARCELO SCANDAROLI

O BIM está disseminado nos escritórios de projetos e nas construtoras?

FERNANDO CORREA DA SILVA - Temos tentado motivar o mercado a usá-lo, mas ainda há resistência. Os projetistas estão com muito trabalho e sem tempo para investir na tecnologia. Por isso, a adesão à ferramenta não caminha como gostaríamos. Optamos por receber os projetos em DWG e modelá-los na construtora.

RICARDO BIANCA DE MELLO - Avaliar o grau de adoção não é simples. Estamos falando de diferentes indústrias, com diferentes objetivos, níveis e amplitudes de uso. Há adoções parciais ou totais. O desenvolvimento de modelo de informação é realidade para algumas empresas há muito tempo. Nos últimos dois anos, acompanhamos adoção intensa nesse sentido. O "Big BIM" (adesão total) começa a se desenvolver agora no mercado imobiliário.

LUIZ AUGUSTO CONTIER - Começamos a usar o Revit em 2002, de forma pioneira. Meus clientes nunca souberam que projetávamos em BIM. Como a licitação da sede da Petrobras em Santos exigia que todas as informações fossem extraídas do BIM, contratamos todos os projetos nessa tecnologia. Atualmente, gerencio 28 disciplinas em BIM. Isso deve mudar o panorama do mercado, já que estamos falando de uma empresa de porte passando a contratar apenas em BIM.

Quais têm sido os impactos no mercado?

CONTIER - Ninguém sabe o que está contratando. Há empresas que vendem o modelo, sem "clash dectection", a identificação de interferências. Num contrato como esse, contrata-se duas vezes: o modelo e o projeto. Só é mais caro contratar em BIM quando não se contrata corretamente.

RICARDO O. MACHADO - O mercado está passando pela quebra de paradigma, com empresas enxergando o BIM como custo. A curva de aprendizado é extensa e cara. A maioria faz modelo BIM para retirar imagem e gráficos, sem detalhar o modelo.

MELLO - A questão a ser discutida são os processos. Existem desafios de contratação, inclusive jurídicos.

Quais os maiores erros das construtoras?

CONTIER - O desconhecimento. Fala-se de modelagem em 4D e 5D e de "clash detection". O 5D exige acoplar o modelo à base para extrair custos, etapa à qual as empresas não estão preparadas. Em vez de usar o BIM para fazer o plano de ataque à obra, apenas giram o modelo, sem o vincular a um software de gerenciamento.

Quais as vantagens para a arquitetura?

CONTIER - Rastreabilidade e confiabilidade da informação, consistência do projeto e menos retrabalho. É vantajoso para os clientes que querem, de fato, extrair informações do modelo.

SILVA - As regras de criação e atuação. O BIM é um processo e não um software. Permite checar se o projeto está bem detalhado, ajuda a partilhar a responsabilidade e a mitigar riscos. O projeto passa a ser um grupo de informações, organizadas e com responsáveis identificados.

Qual a experiência das construtoras?

ADOLFO BLASCO RIBEIRO - O modelo vinculado ao cronograma, usado em etapa embrionária, permitiu, em uma obra, executar simultaneamente o fechamento em uma parte e piso vinílico em outra.

EWERTON BONETTI - Tivemos um projeto isolado em 2008 e depois só retomamos em 2010. O primeiro passo foi buscar informações. Sem diretrizes, as informações não seriam recebidas como precisávamos. Contamos com consultoria para elaborar um caderno de orientação para projetar com BIM. Agora, já extraímos as informações que precisamos. Não é mais necessário fazer reuniões presenciais com 15 projetistas. Mudar a forma de projetar e de interagir com os projetistas não é fácil, pois demanda tempo e envolvimento de muitas pessoas.

ALEXANDRE RÉGIS - Na baixa renda, falamos em escala e padronização. O desenvolvimento da arquitetura é feito internamente e contamos com sistema de parede de concreto. Temos poucas tipologias de torres. Vamos desenvolvê-las em BIM e depois replicar em todos os empreendimentos.

A Copa do Mundo e a Olimpíada, além do Minha Casa, Minha Vida, vão ajudar a disseminar a tecnologia no Brasil?

CONTIER - A colocação não é técnica, e sim política. O BIM é péssimo para esses eventos, pois não permite entregar nada além do que foi contratado. Com a tecnologia, não há improviso, não é possível estourar orçamentos.

SILVA - A execução de estádios não é tão significativa para a disseminação como a construção de moradias e infraestrutura, onde a tecnologia organiza e confere transparência.

MELLO - Lidamos muito com clientes públicos, inclusive ministérios. Há desafios ligados a esses eventos que podem ser resolvidos com tecnologia. Há segmentos sérios interessados em obter maior controle e assertividade nos processos.

Quais os principais obstáculos ao BIM?

ricardo o. MACHADO - A barreira é jurídica. Como contratar corretamente e quem se responsabiliza por cada item são questões que devem ser colocadas mais claramente.

CONTIER - O momento de transição traz oportunidades de cooperação. Posso disponibilizar informações com o mercado. O que é comum a todos é o melhor, mesmo que não seja exatamente o que a empresa gostaria de fazer. Não adianta impor padrões. Não adianta linkar com base de dados se o melhor fornecedor de custos da construção não tem interesse em abrir informações porque vende software concorrente. O sistema deve ser aberto para irmos ao 5D mais rapidamente.

PEDRO PAULO MACHADO - A PINI já faz isso, por que é do nosso interesse. Não somos uma empresa de um software apenas, e sim de uma solução completa. Entendemos que isso é importante para o mercado e quem estiver fechado estará na contramão. A palavra mágica para os envolvidos na disseminação do BIM é interoperabilidade.

ABRAM BELK - Modelagens 3D em estruturas são feitas há 30 anos. O desafio é integrar o projetista à cadeia. A maioria dos programas decepciona na leitura e gravação do IFC (Industry Foundation Classes), mas isso será resolvido.

Cada empresa deve desenvolver sua biblioteca ou pode-se compartilhar informações?

ricardo o. MACHADO - Essa informação é proprietária e deve ser cobrada. É proposta do IFC padronizar informações, mas há particularidades, detalhes como o tamanho da brita, que variam a cada construtora.

CONTIER - A biblioteca segue junto com o modelo do edifício. Não há como travar essa informação. Há um problema de direito autoral. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior me contratou para criar um grupo de famílias para projetos de empreendimentos do MCMV dentro das normas de coordenação modular. As famílias estão disponíveis gratuitamente, mas eu fui pago para isso.

EDUARDO TOLEDO - Quando a incorporadora compra um projeto, tem de comprar a biblioteca. Daí, passa a ter as informações e pode disponibilizá-las a outros projetistas. Com o tempo, os objetos estarão disponíveis a todos os projetistas.

Há mão de obra qualificada e disponível para atuar com BIM?

CONTIER - Não e pago a preço de ouro para quem souber onde encontrar. Em instalações, por exemplo, a saída seria treinar engenheiros. E não há engenheiros disponíveis. Isso nos faz compreender porque o segmento está tão atrasado. Na minha equipe todos são arquitetos. Trabalho com menos gente, mas muito mais qualificada. O BIM se ensina em uma semana. É preciso ter arquitetos experientes em projeto executivo.

Quais os desafios da universidade ao formar profissionais que atuem em BIM?

TOLEDO - O BIM não cabe numa única disciplina, mas permeia todo o curso. É preciso mudar a cabeça de dez ou 15 professores de arquitetura. Por essas razões, a universidade vai ficar devendo nesse sentido.

MELLO - Os centros de excelência de educação em engenharia nos países desenvolvidos estão trazendo essas matérias para a grade curricular.