Armadura industrializada | Construção Mercado

Debates Técnicos

Aço cortado e dobrado

Armadura industrializada

Custo do aço cortado e dobrado já é vantajoso frente à armadura preparada no canteiro, mas o fornecimento ainda não é viável em algumas regiões afastadas dos grandes centros

Por Maryana Giribola
Edição 138 - Janeiro/2013
Marcelo Scandaroli

Antes produzido de maneira artesanal nos canteiros de obra, o aço cortado e dobrado em indústria para estruturas de concreto armado já é aplicado em grande parte das construções brasileiras. Segundo dados de um dos fornecedores do material, cerca de 70% do aço vendido pela empresa é cortado e dobrado, e quem abocanha parcela maior desse produto são obras imobiliárias de médio e grande porte, localizadas nos grandes centros.

A diferença de custo entre comprar aço cortado e dobrado ou executar o corte e dobra na obra, antes apontada como maior entrave para a disseminação do sistema, hoje já é favorável ao material beneficiado. "No comparativo, vemos o corte e dobra industrializados como uma alternativa interessante. Temos trabalhado com o mesmo preço ou até com preço mais baixo do que se fôssemos processar o material em canteiro", afirma José Roberto Leite, engenheiro do departamento de inovação e sustentabilidade da BKO Incorporadora e Construtora. Além disso, dependendo do espaço disponível em canteiro e até mesmo da dificuldade em encontrar mão de obra especializada, pode ser inviável optar por corte e dobra artesanais.

A realidade, porém, não é a mesma nos canteiros localizados no interior dos Estados. Nesses casos, a distância dos centros fornecedores pode encarecer o frete do aço pronto, tornando-o inviável para certos empreendimentos. "Nessas localidades, as obras são menores e não justificam o volume e o raio de entrega de uma central de corte e dobra", explica o presidente da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece), Marcos Monteiro.

Mas a despeito dessas dificuldades de atendimento, o mercado tem demandado peças prontas, e algumas revendas chegam a montar centrais de corte e dobra para atender a essa demanda.

Montagem controlada
Conta a favor do sistema industrializado a regularidade dimensional em que o aço é fornecido, algo que dificilmente se consegue cortando e dobrando o material em canteiro. "Se o projeto é bem detalhado e planilhado pelo fornecedor, os erros de montagem do sistema pronto são próximos de zero", garante Anibal Knijnik, presidente do conselho da Knijnik Engenharia Integrada.

Porém, a segurança de recebimento de peças mais conformes não impede que alguns erros aconteçam e, geralmente, eles só são notados quando o material já está sendo aplicado. Por isso, eliminar totalmente as bancadas de corte e dobra e os estoques de barras no canteiro não é uma alternativa cogitada pelas construtoras. "Temos que evitar que esses erros comprometam o cronograma da obra", explica Ricardo Tofolo Nonogaki, engenheiro da Porte Construtora.

Embora sejam raros, erros de fornecimento das peças podem comprometer a montagem de lajes, vigas e pilares e, se os erros não forem imediatamente reparados, a estrutura pode dar sinais de desgaste. O mais comum é a abertura de fissuras, geralmente encontradas em locais de maior concentração de carga, como no centro das vigas ou junto aos pilares. "Seja pela pressão de custo, seja pela pressão de prazo, temos notado com frequência a incidência desses erros em obra", conta Marcos Monteiro. Por isso, também é importante manter uma equipe técnica responsável pela conferência da armação.

Acervo Pessoal

ENTREVISTA MARCELO JOSÉ FERREIRA DA SILVA

Como e quanto estocar

Como conferir se o aço cortado e dobrado chegou com as medidas corretas na obra?
Raramente encontramos erros, mas caso apareça algum, eles normalmente são detectados no momento da instalação, quando as peças não se encaixam nas fôrmas, ou antes da concretagem, quando fazemos a conferência final. O correto é conferir no ato do recebimento com uma trena e por meio de um romaneio, que chega juntamente com a entrega do aço. Nesse documento, estão detalhadas as quantidades, bitolas, tipo de aço (CA-25, CA-50, CA-60) e as dimensões de cada peça produzida.

"É comum adotarse um ciclo inteiro de produção em estoque no mínimo, ou seja, uma laje. Isso dá à construtora a possibilidade de remediar atrasos de fornecimento"
Marcelo José Ferreira da Silva
gerente de obra da Tecnum Construtora

Quais cuidados tomar na estocagem?
Como as peças são longas, elas devem ser apoiadas em cavaletes, afastando-as do contato direto com o solo para proteger da umidade. Esses cavaletes têm apoios a cada 2 m, por exemplo, para reduzir qualquer possibilidade de deformação do aço. Em alguns canteiros, pela dificuldade de descarregamento, não é possível alocar as peças nos locais mais próximos de aplicação, mas esse não é um problema. As peças podem ser estocadas no térreo e transportadas para o local de aplicação quando necessário por meio de equipamentos de içamento.

Quanto é recomendável manter de estoque para evitar falta de peças em emergências?
Isso vai depender de como está o fornecimento do material em determinadas regiões. É comum adotar-se um ciclo inteiro de produção em estoque no mínimo, ou seja, uma laje. Isso dá à construtora a possibilidade de remediar atrasos de fornecimento. Porém, a depender da obra, os prazos de entrega podem chegar a 20 dias. Nesse caso, será preciso driblar esses problemas, aumentando o estoque para três ou quatro ciclos completos. Adicionalmente, para contornar alterações de projeto e dispor de capacidade de manobra em situações emergenciais, costumamos estocar algumas barras de todas as bitolas que estão sendo usadas, para cortar e dobrar em uma central no próprio canteiro caso seja necessário.


NORMAS TÉCNICAS
NBR 6.118 - Projetos de Estruturas de Concreto - Procedimentos.
NBR 7.480 - Barras e Fios de Aço Destinados a Armaduras para Concreto Armado - Especificação.
NBR 14.931 - Execução de Estruturas de Concreto - Procedimentos.

Preços podem subir
Enquanto que, para as construtoras, o custo do aço cortado e dobrado em indústria tem se tornado cada vez mais acessível, há indícios de que as usinas aumentarão, em breve, o preço do serviço. "O Brasil tem alto custo de produção, fruto da elevada carga tributária e dos custos financeiros que oneram a produção e o investimento das empresas produtoras de aço. Isso exige que o setor trabalhe com margens cada vez mais apertadas", alega Alvin Hiroshi Baito, gerente da Obra Fácil, da Votorantim Siderurgia.

Ele afirma que o encarecimento da mão de obra da construção civil é outro fator que tem afetado as contas das indústrias. "As siderúrgicas não sabiam como lucrar oferecendo um produto em que se agrega grande valor de mão de obra. Com a demanda cada vez maior por esse tipo de material e, consequentemente, por termos de aumentar o contingente de mão de obra dentro das usinas, teremos de adotar uma saída, que pode ser o aumento de custo."

Outro indício de que os preços podem subir está atrelado ao frete das distribuidoras. Isso porque na Grande São Paulo, por exemplo, há restrição à circulação de caminhões, imposta pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Para driblar o problema, as transportadoras têm trabalhado em horários alternativos e com esquemas que encarec k em seus custos. "Nossas transportadoras estão tentando conseguir uma regra diferenciada com os órgãos responsáveis, mas, por enquanto, sem sucesso", diz Alvin Baito.

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