Produtividade na fachada | Construção Mercado

Debates Técnicos

Argamassa de revestimento externo

Produtividade na fachada

Revestimento externo com argamassa passa por importantes avanços em tecnologia e mecanização, mas sistema ainda carece de projetos específicos

Por Maryana Giribola
Edição 139 - Fevereiro/2013

Marcelo Scandaroli

O serviço de revestimento de fachadas com argamassa cimentícia tem se tornado uma tarefa cada vez mais especializada. Nos últimos anos, aumentou a gama de argamassas industrializadas disponíveis no mercado, cada uma atendendo a necessidades diferentes, e a tendência é de que a ramificação siga crescendo. A projeção de argamassa também vem ganhando força e, junto com ela, argamassas especiais para projeção com bomba vêm se desenvolvendo.

Apesar dos avanços, o desempenho das fachadas vai muito além da qualidade das argamassas e envolve uma série de fatores que vão desde a preparação do substrato até a logística de aplicação e a elaboração de um projeto de revestimento específico para cada empreendimento. É nessas etapas que o mercado ainda precisa avançar.

O projeto de revestimento ainda não é unanimidade, mas a prática tem se disseminado, de acordo com Mercia Maria Bottura de Barros, professora doutora da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli- USP). Ela alerta que, a despeito das semelhanças entre dois empreendimentos, não há como fazer um projeto genérico, pois cada obra tem particularidades que devem ser consideradas antes mesmo da escolha da argamassa, como o substrato, as condições climáticas e as espessuras desejadas para o revestimento.

Para Helena Carasek, professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), "o ideal seria ter argamassas específicas para as condições de clima e de deformações do projeto arquitetônico. Mas não há produtos com esses parâmetros". Por isso, contar com um projetista especializado na especificação da argamassa é fundamental.

Cuidados no preparo
Quando a argamassa é virada em canteiro, deve-se dar atenção especial à escolha dos insumos. A areia, por exemplo, pode ter distribuição granulométrica diferente em épocas de chuva e de seca, além de sofrer variações de uma região para outra. Por isso, o ideal é reservar, em canteiro, uma amostra da areia comprada inicialmente para poder compará-la, de tempo em tempo, com a comprada posteriormente. Outro cuidado é o tempo de mistura da argamassa feita em canteiro quando, em vez da cal, for utilizado aditivo incorporador de ar. Se misturada por muito tempo, a argamassa pode incorporar muito ar e apresentar patologias depois da aplicação, como esfarelamento ou baixa aderência.

Já a argamassa industrializada é um material mais homogêneo, pois seus componentes são pesados e misturados em fábrica. No entanto, é também um produto mais sensível. "A argamassa industrializada sofre muito com o processo de mistura, pois esse material, que é cuidadosamente concebido, encontra condições de obra muito variáveis", diz a professora Mercia de Barros. "Há alguns anos, não havia argamassadeiras em obra. A argamassa industrializada era virada em betoneira ou misturada com a enxada mesmo. Isso muda muito o comportamento do material."

Helena Carasek acrescenta que é imprescindível seguir à risca as orientações dos fabricantes quanto à dosagem de água e não misturar a água livremente. Além disso, depois de misturada, caso não contenha retardador de pega, a argamassa precisa ser utilizada em cerca de duas horas para não perder suas propriedades.

A professora da UFG explica que executar painéis testes antes de começar a aplicar a argamassa nas fachadas reduz a probabilidade de retrabalhos em caso de fissuramento e descolamento. "Se você faz os painéis testes e cria um procedimento bem definido de aplicação, ao final poderá fazer menos ensaios de aderência, o que traz economia à obra", diz.

O ideal é que os testes sejam feitos em todas as situações da construção. Por exemplo: na estrutura de concreto, é preciso realizar testes em todas as variações de resistência da estrutura, já que nos primeiros andares o concreto é mais resistente que nos últimos. Além disso, é preciso testar a aderência da argamassa também nas alvenarias. Assim, além de avaliar a qualidade da argamassa, é possível testar o desempenho de todo o sistema, considerando substrato, aplicação, condições climáticas e tempo de cura de acordo com a obra.

ENTREVISTA HELENA CARASEK

acervo pessoal

Projeto de revestimento

Em que momento da obra se deve elaborar o projeto de revestimento?
O ideal é que o projetista de revestimento de fachada seja chamado assim que sair o pré-projeto de arquitetura, e não depois que o projeto estiver pronto. Uma vez que exista o pré-projeto, os demais projetistas fazem seus pré-projetos e discutem, inclusive o de estruturas. Isso porque, às vezes, há detalhes na fachada que poderiam estar na própria estrutura, e não no revestimento. Isso diminui os riscos de fissuramento, de descolamento, de infiltrações. É preciso fazer essa compatibilização para que o projeto de revestimento colabore mais com a obra.

Há profissionais suficientes na área de projetos de revestimento?
Estão em falta. Aqui em Goiânia são poucas as pessoas que o fazem e acredito que esse seja um nicho de mercado no Brasil inteiro.

"Às vezes, há detalhes na fachada que poderiam estar na própria estrutura, e não no revestimento. É preciso fazer essa compatibilização [entre os projetos]"
Helena Carasek, professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) e coordenadora do Núcleo de Tecnologia das Argamassas e Revestimentos (Nutea)

Quais informações o projeto de revestimento deve conter?
São muitas, entre elas as definições de posição das juntas de movimentação; as posições de tela; as espessuras mínimas e máximas aceitáveis e o que se deve fazer quando houver espessuras diferentes; as características da argamassa de revestimento, como módulo de elasticidade e aderência; locais onde devem ser feitos os ensaios de controle; toda especificação dos procedimentos, desde a limpeza da base até a aplicação da argamassa; o fluxo do balancim; entre outros pontos. O projeto também é um meio de conseguir controlar os prazos.

Há alguma norma para projeto de revestimento?
Não, mas existe uma intenção. Há dez anos surgiu a proposta de fazer essa norma, mas ela ainda não está nem em projeto. Acredito que normatizar essa prática faria com que ela fosse mais disseminada, e o mercado caminha para isso.

Planejamento e logística
Outro ponto importante no desempenho dos revestimentos é a limpeza do substrato antes da aplicação da argamassa. Mais comumente, utiliza-se o jateamento de água para retirar a poeira da alvenaria. Caso haja graxa, óleo e até desmoldante, a lavagem pode ser feita com sabão neutro ou por meio de escarificação e lixamento. Na cura, principalmente em locais de tempo mais seco, é importante umedecer tanto o chapisco, quanto o reboco.

No caso da argamassa projetada, a execução requer ainda cuidados extras no planejamento da mão de obra e da logística. Como o sistema de projeção oferece maior produtividade à obra, também é preciso pensar que a frente de trabalho para o serviço mecanizado precisa ser maior. Isso porque com a projeção se aplica mais metros quadrados em menos tempo, o que exige mais rapidez nos serviços de acabamento. Além disso, o sistema de locomoção dos operários pela fachada precisa ser previamente estudado, com a adoção de um grupo de balancins elétricos, por exemplo, ou de andaimes fachadeiros, a depender da altura do edifício.

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