Edifício Pátio Victor Malzoni supera grandes desafios técnicos para valorizar casa histórica localizada no mesmo terreno e é eleito Obra de Destaque Editorial no Prêmio Pini 2013 | Construção Mercado

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PRÊMIO PINI 2013

Edifício Pátio Victor Malzoni supera grandes desafios técnicos para valorizar casa histórica localizada no mesmo terreno e é eleito Obra de Destaque Editorial no Prêmio Pini 2013

Por Kelly Carvalho
Edição 148 - Novembro/2013
 

Ucha Aratangy
Edifício formado por três blocos tem vão de 44,4 m para permitir a vista da casa tombada pelo patrimônio histórico

 

divulgação: Arruda Associados
Casa do século 18 é constituída por paredes de taipa de pilão caiadas de branco, com portas e janelas de madeira

Em um terreno de 20 mil m² na avenida Brigadeiro Faria Lima, área de localização privilegiada em São Paulo, um imponente edifício espelhado coexiste harmonicamente com uma casinha branca que retrata o estilo rural das obras paulistas do período colonial. Com sua parte central suspensa a 30 m do solo, e que vence um vão de 44,4 m, o edifício Pátio Victor Malzoni forma uma "moldura" que valoriza a vista da construção bandeirista do século 18, tombada em 1982 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). Pela arrojada solução arquitetônica e os desafios construtivos que o desenho impôs a seus projetistas, o Pátio Victor Malzoni venceu o Prêmio PINI na categoria Obra de Destaque Editorial.

O novo edifício corporativo de padrão triple A, atrelado ao bem tombado, ganhou notoriedade no meio técnico e imobiliário, tornando-se um dos empreendimentos mais caros da cidade. Vários fatores contribuíram para isso, a começar pela arquitetura assinada pelo escritório Botti Rubin e Associados, que foi projetada para evidenciar a casa bandeirista.

O Pátio Victor Malzoni é revestido por vidros semirrefletivos e o vão é refletivo, criando um elemento de valorização da casa, que passou por um processo de reconstrução e restauração com a autoria da arquiteta e historiadora Helena Saia.

A altura do vão central aumentada em 30 m também foi pensada com essa finalidade, tornando a travessia mais agradável, já que os pedestres podem cruzar uma rua a outra do quarteirão por um jardim central e mantêm contato com a construção tombada. "A ideia não é criar praça pública, mas um elemento de passagem tranquila, para que as pessoas possam ir de um lado ao outro e tenham contato com a casa bandeirista, que é o elemento fundamental", explica o arquiteto Alberto Botti.

A preocupação com elementos sustentáveis foi outro aspecto que norteou o desenvolvimento do projeto para o edifício, que conquistou em 2012 a certificação Leed Core & Shell Prata, concedida pelo US Green Building Council. No fator energético, com especial cuidado com a fachada, foram criados terraços nas faces sul e norte para barrar o impacto direto da luz, e as janelas receberam vidros de alta performance (low-e). As lajes e fechamentos de alvenaria foram cobertos com um tipo de vidro mais comum e econômico. Os vidros têm coloração diferente para a janela e a laje, formando um desenho. A fachada ainda conta com caixilhos para proteção contra incêndio, de acordo com exigência do Corpo de Bombeiros, que permanecem fechados e se abrem automaticamente na detecção de fumaça.

ENTREVISTA Mario Franco

Desafios do projeto estrutural

Marcelo Scandaroli

"O maior desafio foi claramente o das quatro vigas protendidas de transição. O momento fletor final de cálculo foi calculado em 60 mil t/m, um recorde."
Mario Franco
do escritório JKMF Julio Kassoy
e Mario Franco

Quais foram os maiores desafios deste projeto?
O maior desafio foi claramente o das quatro vigas protendidas de transição. O momento fletor final de cálculo foi calculado em 60 mil t/m, um recorde. É tão grande que passamos a nos referir a ele como sendo de 60 t/km! Outro desafio importante que me deu muito que pensar foi a estabilidade lateral do bloco central, o da transição, que tem seis pilares com 30 m de altura e apenas 1,50 m de largura em cada pilar. Este bloco C está "protegido" do vento longitudinal pelos blocos adjacentes A e B, que têm ainda a função de suportá-lo lateralmente por coxins verticais de neoprene. Mas, por uma consideração de robustez, fui obrigado a me perguntar: E se no futuro, por qualquer motivo, desaparecer um ou até os dois blocos A e B? Pouco provável mas não de todo impossível. O bloco C perderia o suporte desses blocos, e ainda estaria recebendo em cheio a carga de vento antes absorvida por aqueles blocos. Então, resolvi tratar o bloco C como se fosse isolado, recebendo em cheio a carga total de vento. Devido à grande esbelteza dos pilares de 30 m, foi preciso efetuar uma análise de segunda ordem pelo método P-Delta, que indicou um efeito de majoração dos esforços de vento com coeficiente 1,9.

O controle tecnológico da concretagem foi um momento crítico. Como se deu o planejamento desse processo?
Durante a execução das vigas de transição - cada uma delas teve concretagem contínua dia e noite durante dois dias consecutivos - a torcida era que a elevação da temperatura do concreto recém- lançado não ultrapassasse o previsto: 70ºC. O acompanhamento da temperatura por pares termoelétricos embutidos em pontos estratégicos da massa do concreto revelou que o valor máximo atingido foi de 66ºC. Valeu ter substituído toda a água por gelo, graças à consultoria do professor Paulo Helene. O concreto entrou na fôrma a 16ºC em lugar de 40ºC que teria com dosagem com água.

Além da estrutura de transição entre os blocos, quais outros elementos estruturais o senhor destaca nessa obra?
As lajes planas protendidas de 20 cm ou 22 cm, e as vigas de 18 m de vão, também protendidas, com 80 cm de altura e com grandes aberturas de 1,50 m x 0,40 m para a passagem dos dutos de ar-condicionado e de extração de fumaça.

O edifício teve muita repercussão no meio técnico. O que esse projeto representa para sua carreira?
Houve repercussão também fora do Brasil. Pediram-me para escrever um artigo sobre a estrutura do Pátio Malzoni para uma prestigiosa revista inglesa que está preparando um número especial sobre o Brasil. Essa repercussão me deu muita satisfação e representa um ponto alto em minha carreira de mais de 60 anos de projetos estruturais. Utilizamos tecnologia de ponta, quer no projeto, quer na execução, estabelecendo padrões de qualidade que irão balizar as obras futuras. O fato de esta estrutura de transição ter sido motivada pela preservação de uma das poucas relíquias históricas da cidade, dando-lhe visibilidade e acesso, é para mim um motivo especial de orgulho, aumentado pela alta qualidade da arquitetura do escritório Botti Rubin.

 

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