Alvenaria estrutural | Construção Mercado

Debates Técnicos

Alvenaria estrutural

Atenção no projeto e na execução são fundamentais para garantir vantagens do sistema

Por Gisele C. Cichinelli
Edição 158 - Setembro/2014
Marcelo Scandaroli
Empreendimentos de 15 ou até 20 pavimentos podem ser executados com sucesso utilizando alvenaria estrutural

A qualidade dos blocos de concreto e os processos construtivos envolvendo o sistema de alvenaria estrutural têm evoluído continuamente ao longo dos últimos anos. A criação de programas de certificação de blocos foi fundamental para desenhar esse cenário. Agora, o setor prepara-se para divulgar, ainda nesse semestre, resultados sobre a avaliação do ciclo de vida do produto.

A ideia, segundo Carlos Alberto Tauil, consultor técnico da Associação Brasileira da Indústria de Blocos de Concreto (BlocoBrasil), é que, com esses dados em mãos, seja possível orientar o mercado sobre os índices de sustentabilidade do produto. "Hoje, há muito menos recusa de blocos nos ensaios de qualidade do que no passado. Agora, queremos mostrar ao mercado que o sistema é sustentável", conta.

De acordo com Tauil, a alvenaria estrutural está se expandindo para todo o Brasil, em grande parte impulsionada pelo programa Minha Casa Minha Vida. Com a oferta de blocos certificados e de mão de obra qualificada relativamente equacionada, o setor volta-se agora para um desafio de ordem técnica. A escassez de laboratórios para testar o produto e os erros no manuseio de corpos de prova, sobretudo para os ensaios de prisma, são um dos maiores gargalos (leia debate).

Projeto
Quando corretamente projetada e executada, a alvenaria estrutural pode apresentar um custo de 10% a 30% menor que o de estruturas convencionais em concreto armado. Para fazer valer as vantagens do sistema, no entanto, o ideal é prever a execução de edifícios mais robustos.

De acordo com Arnoldo Wendler, diretor da Wendler Projetos, a grande maioria dos empreendimentos de até 15 pavimentos sem subsolo pode ser executada com sucesso com o sistema. "Já temos edifícios projetados e construídos no País com mais de 20 pavimentos-tipo de alvenaria estrutural sobre transições e com térreo e vários subsolos em estrutura convencional", aponta.

Para o projetista, a grande limitação do sistema pode ser a inexistência de bons blocos estruturais na região da obra. "Mas grande parte do mercado é muito bem atendida", diz.

Mesa-redonda

Marcelo Scandaroli
Carlos Alberto Tauil
consultor técnico da Associação Brasiliera da Indústria de Blocos do Concreto (BlocoBrasil)

Claudio Puga
diretor da Claudio Puga Engenheiros Associados



Daniel Franco
gerente de controle de qualidade da Falcão Bauer



Fábio Trabold
gerente técnico comercial da Glasser


Marcelo Scandaroli
Ricardo Panhan
diretor comercial da Isoeste



Gustavo Gagliardi
gerente geral de obra da Cury



Mário Sérgio Guimarães
gerente comercial da Glasser



Marcos Barral
gerente comercial da Oterprem

Que segmentos da construção civil mais utilizam o sistema de alvenaria estrutural atualmente?
CARLOS TAUIL - Todos os segmentos utilizam o sistema, mas aquele que o emprega em maior escala, sem dúvida, é o segmento de baixa renda. O programa Minha Casa Minha Vida foi responsável por impulsionar também o setor de alvenaria estrutural nos últimos anos. Mas há mais de 10 anos temos visto o uso do sistema em obras mais incrementadas. A alvenaria estrutural, quando bem projetada, pode conferir flexibilidade ao empreendimento, sobretudo pela possibilidade de usar paredes leves, como drywall, em cima da laje, nas paredes de vedação.
GUSTAVO GAGLIARDI - Em janeiro de 2013, tínhamos sete mil unidades em execução. Em janeiro de 2014, esse número saltou para 12 mil unidades e, em agosto, registramos 17 mil unidades em São Paulo e outras dez mil no Rio de Janeiro. Em setembro, teremos 30 mil unidades em execução, atingindo nosso pico. Nosso número de unidades cresceu muito. O mercado de incorporação está mais estável, mas a Caixa Econômica Federal ainda contrata muito dentro do programa Minha Casa Minha Vida. Hoje, 70% das obras da Cury são destinadas a atender à faixa 1 do programa. A alvenaria estrutural é a melhor opção para executar as unidades em São Paulo. No Rio de Janeiro, usamos também paredes de concreto, pois temos tido dificuldades com mão de obra especializada para executar o sistema. Estimamos que, hoje, no Rio de Janeiro, 35% das obras estejam sendo executadas em parede de concreto, contra 7% em São Paulo.

A dificuldade de encontrar mão de obra para executar o sistema no Rio de Janeiro ainda persiste?
TAUIL - O Rio de Janeiro foi uma das últimas praças a desenvolver uma indústria de blocos de alvenaria estrutural, que só cresceu com o boom da construção civil. A formação de mão de obra especializada no sistema também acabou ficando em segundo plano.
GAGLIARDI - Sim, pois a mão de obra, além de escassa, é mais cara. Quando conseguimos levar nossa mão de obra para lá, resolvemos apenas uma única obra.
CLAUDIO PUGA - No Rio de Janeiro, um aspecto interessante é que muitas soluções de projeto são diferentes de outras localidades. Prefere-se usar mais material, considerando que a execução seja mais simples justamente pela ausência de mão de obra qualificada. Em São Paulo, economiza-se mais em material e confia-se mais na mão de obra.

Até que ponto a alvenaria estrutural permite flexibilização das plantas?
TAUIL - Depende do projeto. Hoje, há uma tendência de execução de unidades menores nos grandes centros urbanos. À medida que a planta diminui, é possível fazer vãos grandes com paredes periféricas, oferecendo ao usuário a possibilidade de dispor a área interna de acordo com o seu desejo.
PUGA - Entre 2006 e 2008 foram executados muitos empreendimentos de médio e alto padrão com esse sistema. A concepção e a construção em si não constituem problemas. O grande gargalo são as intervenções ocorridas no pós-obra. O sistema permite flexibilização, mas, obviamente, não em uma escala tão grande como a proporcionada pelo concreto armado.


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