Biblioteca Brasiliana, no campus da USP, é a construção vencedora da categoria Edifícios Institucionais | Construção Mercado

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PRÊMIO PINI 2014 - EDIFÍCIO INSTITUCIONAL

Biblioteca Brasiliana, no campus da USP, é a construção vencedora da categoria Edifícios Institucionais

Por Bruno Loturco
Edição 161 - Dezembro/2014

FOTO: MARCOS SANTOS/USP IMAGENS
Com 44,49% dos votos dos assinantes, a Biblioteca Brasiliana foi inaugurada em março de 2013, e abriga o acervo do Instituto de Estudos Brasileiros e a biblioteca de Guita e José Mindlin, doada ainda em vida. O projeto é do neto dos bibliófilos, Rodrigo Mindlin Loeb, e do arquiteto Eduardo de Almeida

A obra vencedora da categoria Edifícios Institucionais do prêmio Obra de Destaque Editorial, da Editora PINI, foi a Biblioteca Brasiliana, localizada no Campus Oeste da Universidade de São Paulo (USP). De autoria dos arquitetos Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb - neto dos bibliófilos - e executada pela S Copus Construtora e Incorporadora, a edificação, inaugurada em 23 de março de 2013, abriga 40 mil volumes da coleção de livros de José Mindlin e o acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, criado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, em 1962.

De um total de 980 votos de assinantes das revistas da Editora PINI computados, a Biblioteca Brasiliana recebeu quase metade, com 44,49% (233 votos) da preferência dos leitores.

Circulação privilegiada
A Biblioteca Brasiliana tem 22 mil m² de área distribuídos entre salas de acervo e de consulta, auditório, administração, restauro das obras, salas de aula, livraria e café. Embora os acervos do IEB e da biblioteca de Mindlin estejam em edificações separadas, contam com acesso único por meio de uma grande esplanada coberta. A cobertura metálica - que passa por todos os edifícios e os une - e suas perfurações feitas na parte central garantem o clima de penumbra apropriado aos livros, a partir da luz natural.

É também por meio dessa esplanada que se interconectam alguns ambientes do campus. Unindo duas ruas da Cidade Universitária, a esplanada tem, de um lado, os prédios das faculdades de Letras, História e Ciências Sociais. Do outro lado, perfilam-se edifícios administrativos da reitoria, edifícios de habitação estudantil e um refeitório.

Obras protegidas
O acesso aos dois diferentes acervos é diferenciado. O IEB abre-se mais ao público tanto fisicamente - as estantes podem ser vistas mesmo da rua - quanto burocraticamente - as obras podem ser consultadas mediante trâmite rápido. Este prédio também conta com salas de aula, área para reparo de livros e uma grande área de consulta, todas essas áreas posicionadas abaixo das lajes de acervo.

FOTO: MARCOS SANTOS/USP IMAGENS

Já a Biblioteca Mindlin tem acesso mais restritivo e exige autorização para consulta das obras. Está em andamento o processo de digitalização do acervo, para promover sua difusão sem comprometer a condição dos livros. Tal processo é fundamental para preservar a história de obras como a primeira edição de "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa, "O guarani", de José de Alencar, e "A moreninha", de Joaquim Manuel de Macedo, além de raridades como um livro do cartógrafo italiano Montalboddo, de 1508, em que se fez referência impressa sobre a viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil pela primeira vez, e os relatos de viagem de Hans Staden, de 1557, uma primeira edição encadernada em pergaminho, a única do mundo.

A arquitetura se aproveita da necessidade de resguardar o acervo. Ao levar o visitante a entrar na biblioteca pelo átrio, ficam ao alcance dos olhos, em três grandes mezaninos, as obras que pertenceram a Guita e José Mindlin. O fechamento por um pano de vidro, entretanto, indica que o contato com a ala climatizada e fechada ao exterior onde se encontram os livros só é permitido para o pessoal técnico.

Todo o cuidado dedicado às obras literárias influenciaram até mesmo o partido estrutural da edificação. Os pés-direitos são, conforme lembra o arquiteto Eduardo de Almeida, a soma de sete estantes de livros. "Os livros estão em primeiro plano, depois vêm as alas de consulta e administração e, finalmente, a fachada, eventualmente protegida por brises soleil", explica Loeb.

Almeida, por sua vez, aponta o contraste entre a fragilidade dos livros e sua força para resistir à ação do tempo. "Eles duram, não? Foram feitos há tanto tempo, são sensíveis, mas estão aí, em nossas mãos", compara.

Estrutura literária
O projeto da Brasiliana começou a ser concebido nos anos 1990, quando Mindlin começou a expressar sua intenção de doar seu acervo. Foi a empatia do empresário com a Universidade que o fez articular autorizações para construir o edifício dentro de seu campus.

Após a concessão do terreno por parte da instituição, o IEB, que à época estava sob a gestão de István Jancso, manifestou a intenção de unificar os acervos em um mesmo edifício. Firmado o acordo entre Mindlin e o IEB, começou a busca por recursos, que considerou como fontes a própria USP, instituições públicas e privadas, além de leis de incentivo à cultura.

O andamento da execução enfrentou percalços diversos, tendo sido iniciado por uma equipe pequena, liderada por um mestre de obras da confiança de Loeb, que fez a limpeza do terreno e as fundações. O edifício em si só começou a ser erguido quando da chegada da Scopus Construtora e Incorporadora. A execução viu passarem três gestões de reitores da Universidade, com todos os revezes relacionados às mudanças na administração, e também se estendeu além da morte de José Mindlin, que não teve a oportunidade de ver a Brasiliana.

Ainda hoje a Brasiliana não está totalmente concluída. A mudança da biblioteca do IEB somente estará concluída em 30 de dezembro de 2014.

FICHA TÉCNICA

Área construída: 22 mil m²; concepção: Eduardo de Almeida Arquitetos Associados e Rodrigo Mindlin Loeb Arquitetura; equipe de arquitetura: Leonardo Sette, Roberto Zocchio, Luana Radesco, Maira Rios, Cesar Shundi Iwamizu, Caio Atílio Dotto, Juan Gonzalez Calderón, Nana Blanaru, Jorge Spangenberg (meio ambiente), Marina Loeb, Cecília Heichstul, Marina Colonelli, Felipe Noto; cálculo estrutural de concreto e metálica: Companhia de Projetos; consultor de fundações: Zaclis & Falconi; consultor contenção em solo grampeado: Waldemar Hachich; instalações elétricas e hidrossanitárias: Projetar; caixilhos e vidros: Paulo Duarte Consultores; impermeabilização: Proassp; consultora em conservação de acervos: Guita Mindlin; construção: Scopus Construtora e Incorporadora; controle tecnológico: Falcão Bauer; terraplenagem: Alano; estacas hélice contínua e estacas raiz: Geosondas; solo grampeado: Solotrat; fôrmas em cubetas e cimbramento: Ulma; brises em painéis de alumínio perfurado e arremates: Sulmetais; forro da cobertura metálica: Hunter Douglas; estrutura metálica: Estrutel, Fortemetal; esquadrias metálicas: Reinstall; divisórias: Wall Systems