Alojamentos | Construção Mercado

Debates Técnicos

Alojamentos

Edição 26 - Janeiro/2009
Instalações provisórias

Refeitórios, dormitórios e escritórios temporários devem seguir regulamentação e assegurar boas condições de trabalho ao pessoal de canteiro


As edificações de canteiros de obras ganharam atenção especial a partir de 1995 com a reformulação da Norma Regulamentadora no 18 do Ministério do Trabalho. A mudança passou a garantir segurança e boas condições de vivência ao trabalhador ao tornar obrigatório o cumprimento de regras antes vistas apenas como recomendações.

Entre outras determinações, a NR-18 estabelece as condições básicas de alojamentos, refeitórios e escritórios provisórios, como tamanho, número de janelas, pé-direito e distância, por exemplo, entre mesas. Como era esperado, as medidas tiveram, desde então, impacto positivo imediato na evolução das obras. As construtoras descobriram que as instalações provisórias são peças-chave de produtividade.

"Estima-se que o operário gaste 1/3 de seu tempo em movimentação", explica Ubiraci Espinelli, professor da Poli-USP. "Por isso, alocar corretamente cada unidade do canteiro tem impacto positivo direto sobre a produtividade da obra e consumo de materiais", completa. Segundo Espinelli, para se conseguir uma boa adequação das construções temporárias é preciso seguir alguns passos. "Uma das fases da produção de qualquer produto é a execução do projeto da fábrica, neste caso, do projeto do canteiro em que será feito o produto", conta.

Normas
ABNT NB 1367/NBR 12284 - Áreas de Vivência em Canteiros de Obras
NR-18 - Condições e Meio Ambiente do Trabalho na Indústria da Construção


Em obras não-urbanas, em que, normalmente, há mais espaço, é possível implantar as edificações temporárias fora da área a ser construída, sem preocupações com a futura interferência da obra no canteiro. Nesta solução da InPar, em um projeto perto do aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo, foi reservado espaço para estacionamentos e refeitórios, já que a obra estava localizada em uma área afastada.

As edificações do fundo foram destinadas a cozinhas, refeitórios e vestiários. A da frente, mais perto da construção, abrigou escritórios, sala de controle tecnológico, almoxarifado e salas de apoio de fornecedores. Todas as edificações foram reutilizadas pela construtora - uma delas, pela quarta vez





Os canteiros suspensos foram a solução encontrada pela InPar para a fase inicial de uma obra em São Paulo, na qual todo o terreno estava sendo usado para escavação. É um exemplo típico de construção urbana, em que há pouco espaço para a implantação de canteiro de obras. A edificação de um pavimento foi destinada aos vestiários, refeitórios e áreas de vivência. A outra serviu para abrigar os escritórios de engenharia, dos encarregados administrativos, além de almoxarifado e salas de apoio



Planejamento

Ter o cronograma físico do projeto é essencial para um bom planejamento. "O cronograma mostra em que momento haverá necessidade de alojar mais pessoas", diz o consultor Leonardo Manzione. As necessidades de cada fase também são distintas, segundo ele, e devem ser consideradas. A opinião também é compartilhada por Espinelli. "No começo, por exemplo, a segurança patrimonial pode não ser tão importante, porque há poucos equipamentos e materiais de valor, mas na fase seguinte sim", diz o professor da Poli.

Flávio Lino, engenheiro da InPar, segue a receita dos especialistas. "Nós definimos o cronograma e fazemos um histograma do material, para avaliarmos as áreas de armazenamento", conta Lino. "Com isso, identificamos pelo menos três momentos fundamentais: o início da obra, com a escavação, depois a parte de estrutura e, por último, os acabamentos internos. "A partir daí, montamos um planejamento de localização, onde ficará o banheiro, o refeitório e demais instalações", conclui.

A consciência do espaço a ser utilizado só é conseguida por meio de um planejamento. "O ideal é fazer, no mínimo, três desenhos diferentes do canteiro e usar as boas idéias de cada um para compor um novo", sugere Espinelli.

Uma das dificuldades, principalmente em canteiros urbanos, é conseguir espaço para as instalações devido aos terrenos serem cada vez menores e pela impossibilidade de se usar áreas vizinhas. Nesses casos, o planejamento torna-se ainda mais importante, para que se possa aproveitar ao máximo todos os espaços disponíveis.

Grandes terrenos com área de sobra para os alojamentos não dispensam o planejamento dessa etapa como se poderia imaginar. "Encontrar uma solução de layout para canteiros de pouco espaço é difícil, mas o contrário também pode ser um problema", diz Espinelli. "Se a área é grande e os alojamentos estão dispersos sem racionalidade perdem-se recursos e horas produtivas, pois a movimentação do trabalhador é maior."


Padronização e identidade visual

O planejamento do canteiro de obras pode estar ligado, muitas vezes, a uma padronização da empresa. Construtoras como a InPar e a Hochtief possuem um manual que deve ser seguido de acordo com a característica de cada obra.

"Tudo deve ser padronizado, até a maneira de se armazenar material", recomenda José Carlos de Arruda Sampaio, consultor de empresas na área de segurança do trabalho, gerenciamento e gestão de qualidade e autor do Manual de Aplicação da NR-18, da Editora Pini. Sem padronização, segundo Sampaio, é impossível saber quanto e como se gasta. "Ou seja, a falta de um planejamento de canteiro, de uma logística e layout adequados podem elevar o orçamento, e isso é decisivo, por exemplo, em uma concorrência."

A padronização começa pela definição dos sistemas construtivos para chegar ao layout de canteiro e logística mais adequados à obra. A linguagem visual e até a aparência de alguns materiais são levados em consideração no planejamento de algumas construtoras. "Nossos canteiros possuem uma linguagem visual própria, com isso sabemos que cor deve ter cada elemento do canteiro e até mesmo onde deve ser pintada a logomarca", conta Alexandre Safar de Oliveira, gerente de suprimentos e logística da Hochtief.

As empresas se conscientizaram de que um canteiro com boa aparência e organizado confere a elas uma imagem de credibilidade e atrai o consumidor. "As relações com a vizinhança são cada vez mais importantes", diz Percival Deimann, diretor da Canteiro. Segundo ele, a preocupação com a imagem é crescente entre as construtoras que procuram sua empresa atrás de soluções de layout e de uma identidade para as obras. "Além disso, muitas construtoras abrem seus canteiros para visitas semanais e fazem questão de que a impressão seja boa", conta Deimann.


Oliveira, da Hochtief, concorda. "Um canteiro com layout bem definido, bem tratado, bonito e padronizado marca muito forte a imagem da empresa e o próprio trabalhador se sente melhor", diz. Segundo ele, se esse argumento não for convincente para se investir em melhorias, então basta a empresa comparar seus índices de produtividade num canteiro assim e em outro, onde não houve a mesma preocupação.





A sofisticação de algumas instalações torna o
escritório do canteiro tão confortável quanto
o escritório da matriz.
As empresas de locação oferecem até mobília, sistema
de condicionamento de ar e pisos especiais












Os alojamentos metálicos são considerados
insubstituíveis em obras de curta duração e
quando há escavação no canteiro.
O desconforto dos antigos contêineres aos poucos
vai dando lugar a instalações com proteção térmica
e pé-direito maior







Instalações sanitárias

18.4.2.3. As instalações sanitárias devem:

c. ter paredes de material resistente e lavável, podendo ser de madeira
d. ter pisos impermeáveis, laváveis e de acabamento antiderrapante
e. não estar ligadas diretamente aos locais destinados às refeições
i. ter pé-direito mínimo de 2,50 m, ou respeitando-se o que determina o Código de Obras do município
j. estar situadas em locais de fácil e seguro acesso, não sendo permitido um deslocamento superior a 150 m do posto de trabalho aos gabinetes sanitários, mictórios e lavatórios

18.4.2.4. A instalação sanitária deve ser constituída de lavatório, vaso sanitário e mictório, na proporção de um conjunto para cada grupo de 20 trabalhadores ou fração, bem como de chuveiro, na proporção de uma unidade para cada grupo de dez trabalhadores ou fração.

Vasos sanitários
18.4.6.1. O local destinado ao vaso sanitário (gabinete sanitário) deve:
a. ter área mínima de 1 m2
c. ter divisórias com altura mínima de 1,80 m

Vestiário
Nos canteiros em que trabalham operários não-residentes na obra, é necessária a construção de vestiários, conforme o item 18.4.2.9 da NR-18.

18.4.2.9.3 Os vestiários devem:

a. ter paredes de alvenaria, madeira ou material equivalente
d. ter área de ventilação correspondente a 1/10 da área do piso
f. ter armários individuais dotados de fechadura ou dispositivo com cadeado
g. ter pé-direito mínimo de 2,50 m, ou respeitando-se o que determina o Código de Obras do município da obra
i. ter bancos em número suficiente para atender aos usuários, com largura mínima de 0,30 m

Alojamento
O alojamento é feito para abrigar os trabalhadores que dormem na obra.

18.4.2.10.1 Os alojamentos dos canteiros de obra devem:
f. ter área mínima de 3 m2 por módulo cama/armário, incluindo área de circulação
g. ter pé-direito de 2,50 m para cama simples e 3 m para camas duplas
h. não estar situados em subsolos ou porões das edificações

18.4.2.10.2 É proibido o uso de três ou mais camas na mesma vertical

18.4.2.10.3 A altura livre permitida entre uma cama e outra e entre a última e o teto é de, no mínimo, 1,20 m

* Fonte: Manual de Aplicação da NR-18. José Carlos de Arruda Sampaio. Editora Pini
Debate



Foto 1 - Flávio Rios Vieira Lino, engenheiro civil da construtora Inpar
Foto 2 - Leonardo Manzione, engenheiro e consultor
Foto 3 - Persival Deimann, arquiteto e diretor da Canteiro


As disposições da NR-18 sobre as construções temporárias são adequadas na opinião dos senhores?

Leonardo Manzione - Alguns aspectos são discutíveis, mas são detalhes técnicos. A NR-18 conscientizou grande parte do setor da importância de se melhorar as condições do trabalhador na obra por razões humanas, principalmente, mas também porque os ganhos de produtividade são visíveis.

Flávio Lino - Há dez anos, as condições de vida dos trabalhadores dentro de um canteiro de obras eram subumanas. A NR-18 moralizou essa situação, mas automaticamente gerou custos para sua implantação. Como conseqüência, o primeiro passo das construtoras foi deixar de alojar dentro dos canteiros, o que foi um avanço.

Para os fabricantes, houve um impacto após a reformulação da NR-18?

Persival Deimann - Sentimos bastante. A gente deixou de produzir alojamentos nas áreas urbanas. Às vezes ainda se aloja um mestre ou meia dúzia de operários. Mas eu concordo com a opinião deles, a norma melhorou as condições de vida do operário. Principalmente no segmento de edificações leves e urbanas. Nas grandes obras e nos canteiros das grandes empreiteiras já havia essa preocupação.

Como vocês avaliam a influência do layout do canteiro na produtividade da obra?

PD - Layout é tão importante que a InPar, por exemplo, prevê em seus projetos mobília, abertura de porta e tráfego interno de pessoas para chegar a um limite de utilização máxima. Nós, como fornecedores, disponibilizamos em nosso site cerca de 70 projetos para ajudar o engenheiro a enxergar a configuração que pode tornar o canteiro mais produtivo.

Como e quando o layout deve ser pensado?

FL - A definição do sistema construtivo vem antes de tudo. A partir dessa escolha, é possível saber se o canteiro terá grua ou elevador de carga, o número de pessoas que será necessário e as etapas que deverão ser cumpridas. Só depois chega-se ao layout que vai proporcionar maior produtividade à obra.

LM - As edificações de canteiro devem entrar em uma fase anterior de planejamento de obra. Aspectos como modularidade, flexibilidade e possibilidade de reaproveitamento devem ser premissas da definição do sistema. Muitas empresas erram por não levar isso em consideração no processo de produção, mas outras erram igualmente quando tomam atitudes conservadoras porque querem correr o menor risco possível.

Como o comprador procura o fornecedor? Ele tem conhecimento do que necessita?

PD - O cliente quer saber o custo do metro quadrado, antes de qualquer coisa. Quem faz o contato é quase sempre um orçamentista leigo, ou seja, sem conhecimento técnico algum. O metro quadrado é razão direta do que se vai produzir. Uma guarita tem apenas 1 m2, mas há quatro paredes externas, hidráulica, elétrica. O profissional bem informado sabe o que vai planejar para seu sistema construtivo. Ele tem o desenho, pensou na logística do canteiro. Já há um número grande de pessoas que mandam layout. Outros pedem um refeitório para 300 homens, ou um escritório de 20 m2, por exemplo. Mas quem pede o custo do metro quadrado é a maioria.

FL - O Percival [Canteiro] sofre porque a cultura de uma empresa para outra é bastante diferente. Eu ligo e solicito o canteiro modelo 61A, porque eu já tenho todas as informações de que preciso, custo, dimensões, planta. A InPar tem acordo com 70% dos seus fornecedores, a Canteiro é uma delas. É um perfil de empresa ainda pouco comum.

Como as construtoras devem agir, então?

FL - Primeiro, devem buscar a padronização. O engenheiro da obra deve se preocupar com o planejamento da obra, não em resolver qual será o layout do refeitório ou do escritório. Isso tudo já deve estar resolvido. As construtoras não podem passar pelo mesmo processo toda vez que surgir uma nova obra.