Ar-condicionado | Construção Mercado

Debates Técnicos

Ar-condicionado

Edição 50 - Janeiro/2009
Fabricantes, projetistas e instaladores debatem ética concorrencial, desempenho técnico, consumo de energia e interface com os demais projetos dos empreendimentos
Ar-condicionado
Preço contra a qualidade
Essencial na maioria das edificações comerciais e industriais, o ar-condicionado pode ser uma exigência de projeto. Nesse caso, experiência e responsabilidade são ainda mais essenciais para que o sistema venha atender satisfatoriamente às exigências dos usuários. Mas isso nem sempre é assim.

Segundo especialistas consultados, é muito comum o cliente receber aquilo que não comprou. A busca desenfreada pelo menor preço gera distorções absurdas e leva à execução de sistemas incompatíveis com as necessidades identificadas inicialmente.

A racionalização de custos de sistemas de condicionamento de ar inicia-se, na verdade, na mesa do arquiteto. Ele deve se pautar pela redução de cargas térmicas ao definir elementos importantes como a implantação do edifício, sistema de fachada e materiais de revestimento. Essas preocupações, sim, podem reduzir significativamente os custos com equipamentos de condicionamento.
Sistema complexo, o ar-condicionado integra diversos equipamentos e interfere nas instalações hidráulicas e elétricas

Danilo Werneck, diretor da DW Engenharia, enfatiza a importância da sinergia entre arquitetura e engenharia. "Os construtores devem ser devidamente orientados para que as edificações tenham a menor carga térmica possível sem desrespeitar o partido arquitetônico."

Entretanto, o desrespeito ao projeto e a desvalorização dos projetistas são práticas bastante comuns. Oswaldo Bueno, engenheiro mecânico e membro do departamento técnico da Abrava (Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-condicionado, Ventilação e Aquecimento), observa que a fase de projeto costuma ir bem até ser abandonada. "Depois é um salve-se quem puder", lamenta. "No passado existia uma regra que privilegiava o preço médio, descartando-se o mais alto e o mais baixo. Hoje a lei é a do menor preço", lamenta Bueno.

Em tese, a ética determina uma dinâmica de análise dos problemas pelo crivo do autor do projeto, mas poucos cumprem esse ritual. A relação entre construtores e instaladores também é desequilibrada. "Os construtores representam, na forma atual de trabalho, apenas um intermediário comercial entre instaladores e o empreendimento. E se aproveitam disso", reclama Antonio Uehara, da Servtec Instalações e Manutenção.

No meio da ofensiva, os construtores se defendem. "Tomamos as nossas decisões com base em três parâmetros, que poderiam ser colocados na seguinte ordem de importância: atender satisfatoriamente ao cliente, observar o consumo de energia elétrica exigido pelo sistema e, por último, o custo total da solução", salienta Mauro Vernalha, diretor técnico da Conceito Construtora.


Normas técnicas

NBR 6401 - Instalações centrais de ar-condicionado para conforto - Parâmetros básicos de projeto
NBR 14679 - Sistemas de condicionamento de ar e ventilação - Execução de serviços de higienização
EB 269 - Unidade compacta ou divisível de condicionamento de ar self contained tipo industrial ou comercial
Opções
Rico em conceitos e em tecnologias, o ar-condicionado exige, no projeto e na execução, ações responsáveis que devem ser rigidamente observadas. Trata-se de um sistema complexo que integra diversos equipamentos, interfere numa série de sistemas (elétricos, hidráulicos, construção civil) e com grande influência sobre o usuário de um edifício.

Devido à implicação sobre os demais projetos, o engenheiro responsável pela instalação do ar-condicionado deve interagir de forma sistemática com todos os demais instaladores, principalmente os de elétrica e hidráulica.

O ideal é que o sistema de condicionamento de ar seja planejado antes e instalado durante a execução da obra. Embora sejam possíveis, as adaptações dependem da flexibilidade do projeto e qualidade das instalações realizadas.

Correções de sistema de ar-condicionado também podem exigir procedimentos muito complicados. "Quando o projeto nasce errado, a solução é muito difícil. Por isso deve estar perfeitamente integrado, dimensionado e qualificado para determinados usos", lembra a arquiteta Maria Regina Otero Pertusier.

Apesar das questões comerciais, é inegável a evolução dos sistemas, principalmente quanto ao consumo. No segmento de aparelhos de grande porte, um bom exemplo são os modernos chillers, que consomem 0,50 kW/TR contra 1,50 kW consumido pelos antigos equipamentos da década de 70.

Na hora da escolha, para não errar é importante estar atento às particularidades e condicionantes de cada projeto, a começar pelo uso destinado à edificação. Uma das fases mais críticas é o dimensionamento, que definirá o sistema ideal para cada situação. "Fatores como área de insolação, condução, iluminação e tipo de ocupação, entre outros, devem ser observados no cálculo da carga térmica", lembra Werneck. Um erro nessa etapa pode comprometer todo o sistema, tornando-o inadequado para atendimento das demandas térmicas reais.

Werneck também explica que existem diversos sistemas de ar-condicionado, divididos basicamente em produção - sistema primário - e consumo - sistema secundário -, onde efetivamente as cargas térmicas são combatidas.

Os principais sistemas primários podem ser classificados como de expansão indireta (utiliza a água gelada ou outro fluido como intermediário) e o de expansão direta (unidades tipo self contained, splits, aparelhos de janela e roof tops), que retiram o calor gerado no ambiente por uma serpentina de expansão direta.

Os sistemas secundários são constituídos de bombas (no caso de expansão indireta), condicionadores de ar, sistema de distribuição de ar (rede de dutos e difusores) e rede hidráulica, entre outros itens. "Em edifícios comerciais de grande porte é usualmente utilizado o sistema de expansão indireta, com uso de água gelada como fluido intermediário, e unidades tipo fancoil, para atendimento dos escritórios, por exemplo", ressalta Werneck. Sistemas centrais exigem do projeto de arquitetura a previsão de estrutura e espaços adequados para a instalação dos equipamentos, suprimento de energia elétrica e água e acesso fácil para manutenção.


Combate à falsificação

A Abrava (Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento) está lançando uma ofensiva contra a falsificação e contrabando de fluidos refrigerantes. A entidade que congrega as indústrias de refrigeração e condicionamento de ar alerta para riscos à saúde humana e ao meio ambiente associados a produtos sem procedência, entre outros possíveis danos a usuários e equipamentos.

Grave problema enfrentado pelo setor, a falsificação e o contrabando de fluidos refrigerantes, produtos também conhecidos popularmente como "gás de geladeira" e largamente utilizados no País, nas áreas de refrigeração, condicionamento de ar, indústrias automotiva, farmacêutica, de propelentes aerossóis e no mercado de reposição (mecânicos de refrigeração) são responsáveis por uma série de riscos. Desde a explosão de um automóvel a danos à camada de ozônio.

Diligências e apreensões de produtos sem procedência estão acontecendo desde o início do ano. O Brasil é um dos países signatários do Protocolo de Montreal que propõem ações para reduzir a gradual destruição da Camada de Ozônio. Até 2007, o País não importará mais o fluido refrigerante CFC e há um cronograma de redução de importação, que já está em marcha.
Splits
O mercado de ar-condicionado se divide, basicamente, entre os aparelhos de grande e pequeno porte. De olho nos aspectos econômicos e com uma simplificação em massa dos sistemas de ar, muitas construtoras aderiram aos mais simples, instigando o recente fenômeno da "splitização".

Mas se o mercado de equipamentos de grande porte caracteriza-se por uma integração maior na hora da definição do sistema, o mesmo parece não acontecer com os splits. "Não vejo muita compatibilidade entre construtores, arquitetos e instaladores de ar-condicionado. É possível até mesmo identificar uma certa divisão, onde no setor de grandes equipamentos a preocupação é maior, até mesmo porque demandam custos muito altos. No segmento dos pequenos, infelizmente, as construtoras estão deixando a cargo do cliente, e nesse nicho há as maiores distorções e falta de sintonia entre os profissionais", lembra Fernando Villarrubia Pino, engenheiro de apoio técnico para minisplits da Trane. O problema preocupa, afinal o mercado de minisplits já detém cerca de 50% do segmento. A tendência é que chegue a 70%.

Apesar de boa fatia do mercado corporativo ter sido absorvida pelos splits, as grandes estruturas ainda demandam equipamentos centrais que ofereçam rendimento superior para atender satisfatoriamente tais construções. Os minisplits e multiplits são recomendados para aplicações de conforto térmico em ambientes compartimentados de pequeno porte como residências, pequenos escritórios e comércio, embora possam ser aplicados em áreas maiores com as devidas restrições. Porém, a instalação desses equipamentos em aplicações de controle de precisão e filtragem especial não é recomendada. "O maior problema relacionado ao uso de minisplit refere-se às inúmeras instalações onde não foi providenciada a renovação de ar necessária", conta Carlos Massaru Kayano, da Thermoplan.

Além do avanço dos splits, o setor também oferece outras novidades. Mauro Vernalha lembra que a Conceito Construtora atualmente desenvolve um empreendimento Triple A na região da Faria Lima, na capital paulista, que poderá ter ar irradiado pelo teto. "Embora mais caro, permite melhor distribuição do ar refrigerado por todo o ambiente e não interfere na mudança de layouts", argumenta.


Check-list

  • Contrate projetista idôneo e experiente, que não mantenha vínculos comerciais com empresas instaladoras e fabricantes
  • Discuta as alternativas, mas sem levar em conta somente o custo
  • Certifique-se de que o projeto de ar-condicionado passou por um processo de compatibilização com os demais projetos
  • Verifique a qualidade do projeto, que deverá ser composto por desenhos detalhados de todas as áreas beneficiadas e especificações de todos os equipamentos
  • Solicite o orçamento da instalação de empresas idôneas, com experiência prévia no serviço que será executado
  • Analise as propostas de fornecimento da instalação verificando se atendem a todos os requisitos estipulados no projeto. Se for necessário, contrate um assessor especializado
  • Não aceite alternativas sem antes consultar o projetista, que poderá analisar as conseqüências das alterações
  • Caso necessário, contrate assessoria especializada para acompanhar os trabalhos de execução das instalações e verificar se os equipamentos e componentes fornecidos atendem às especificações do projeto
  • Exija da empresa contratada, na entrega da instalação, relatório comprovando o desempenho da instalação, em conformidade com as premissas de projeto. É preciso lembrar que o resultado final somente poderá ser avaliado com a edificação ocupada

    Fonte: Carlos Massaru Kayano, diretor da Thermoplan Engenharia Térmica
    Edifícios saudáveis
    A contratação com foco exclusivo no menor preço é responsável pela não-conformidade com o conceito original e nenhum compromisso com a performance do sistema. Cada vez mais freqüentes, os problemas técnicos e funcionais em sistemas de ar-condicionado em empreendimentos novos são frutos dessa displicência. As conseqüências são o desperdício de energia, o comprometimento da qualidade do ar interno e a dificuldade de realização de programas de manutenção adequados.

    O usuário final também tem sua parcela de culpa, pois muitas vezes instala o equipamento sem a devida assessoria e sem criar condições adequadas para taxa de renovação de ar.

    Dados da Anvisa revelam que tanto a produtividade humana como a dos equipamentos está diretamente relacionada com a qualidade interna do ar. Os sistemas de condicionamento podem não ser apontados como geradores do problema, mas tornam-se incubadores, levando ao efeito conhecido como "Síndrome do Edifício Doente". Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), caracteriza-se assim o edifício que abriga 20% de usuários com uma série de sintomas transitórios que desaparecem quando as pessoas afetadas deixam o edifício, tais como dor de cabeça, náuseas, cansaço, irritação dos olhos, nariz e garganta, falta de concentração e problemas de pele. "Não é possível atribuir apenas ao fato de existir um sistema de ar-condicionado os prejuízos à saúde dos ocupantes da edificação, pois seria uma análise simplista, sem a profundidade que esse tipo de tema exige", faz questão de ressaltar Alexandre Perri de Moraes, engenheiro civil da Poli-USP.

    Embora não seja possível condenar o sistema de ar-condicionado, componentes como dutos e filtros devem ser limpos com freqüência, pois podem conter restos de materiais de construção, além de material biológico, dois dos grandes responsáveis pelas doenças alérgicas. Outra medida segura é a instalação da torre de resfriamento longe das tomadas de ar externo do sistema de climatização.

    Filtros entupidos, vazamento de gás refrigerante, quebra de correias, perda de eficiência por falta de limpeza, entre outros problemas, também podem ser as causas do insucesso da instalação. Por isso, especialistas alertam para a necessidade regular de manutenção preventiva. E, novamente, a escolha pautada pelo preço também traz implicações pois a solução que parece em um primeiro momento a mais barata nem sempre se confirma como tal quando o assunto é consumo de energia ou manutenção.


    Preocupação com a qualidade






    Roberto Montemor Augusto Silva

    Sócio-diretor da Fundament-AR, presidente do DN
    Projetistas da Abrava (Associação Brasileira de
    Refrigeração, Ar-Condicionado, Ventilação e
    Aquecimento)





    Quais são os erros mais comuns de projetos de ar-condicionado?

    Falta de coordenação com os projetos de estrutura e arquitetura, desrespeito aos níveis de ruído admissíveis, falta de local interno e externo para instalação de equipamentos e desconhecimento de normas e leis. Na minha opinião, porém, o erro mais grave é não contratar o projetista de ar-condicionado desde a fase de arquitetura.

    E de execução?

    Contratar mão-de-obra desqualificada e falta de coordenação de projetos para prever interferências entre os sistemas. Antes de fabricar e comprar, o instalador deve ir à obra e conferir o projeto, checar essas interferências, marcar bases e furações e checar os pontos de força.

    Quem projeta deve, necessariamente, acompanhar a execução? O mercado contempla essa prática? Quais são os problemas comuns que ocorrem devido à falta de sintonia entre o projetista e o instalador?

    Seria ideal se pudéssemos fiscalizar. Dessa forma os projetos seriam executados conforme foram planejados. Às vezes o instalador faz adaptações que prejudicam o sistema. Não é uma prática comum acompanhar a montagem, pois o cliente acha caro e desnecessário.

    Um dos pontos importantes de um projeto de ar-condicionado é a taxa de renovação do ar. Quais os parâmetros para saber se está ou não adequada? Quais as conseqüências da não-observação desse detalhe de projeto?

    Em primeiro lugar tem de haver uma tomada de ar externo (ar de renovação), dimensionada pela norma NBR 6401 e pelas legislações da Anvisa, por onde deverá entrar no sistema o ar novo. Hoje é muito comum as pessoas instalarem splits em qualquer ambiente. Na maioria das vezes não é o melhor sistema nem o mais barato. Mas mesmo o split deve ter um sistema de ar externo de renovação, feito com ventilador, filtro e dutos.



    DEBATE

    A preocupação com o consumo de energia mudou a maneira de projetar? Houve uma evolução visível no segmento de ar-condicionado?

    Oswaldo de Siqueira Bueno - O equipamento em si é basicamente o mesmo há 50 anos. A eficiência mudou. Grandes máquinas gastam metade do que gastavam antes. Não diria que há uma novidade no equipamento em si, a não ser na eletrônica aplicada, que permite uma grande economia de custo operacional, incluindo gerenciamento e dispositivos de segurança.

    O conceito de arquitetura sustentável conflita, de algum modo, com as expectativas do setor?

    Bueno - O chamado green building é a resposta a essa necessidade. Nasce a partir de um trabalho casado com o setor para tornar os sistemas menos agressivos ao meio ambiente. Mas as soluções, hoje em dia, não são radicalmente diferentes.

    Renata Mello - É necessário definir a ocupação da edificação - se comercial, industrial ou residencial - para determinar qual o tipo de equipamento ideal. Com relação aos equipamentos, eu discordo. Houve, sim, para os fabricantes, uma evolução grande. Principalmente nos quesitos peso, ruído e consumo de energia.

    Marcelo Lemes - Houve uma evolução muito grande em relação à eficiência dos equipamentos. Talvez o princípio de funcionamento continue o mesmo, mas em termos de eficiência houve um grande avanço.

    Em um empreendimento, quem define qual será o sistema de condicionamento de ar? Quem é responsável pela escolha e quais critérios são observados?

    Hendra Winardi - No início do projeto, o investidor é obrigado a contratar um arquiteto. Juntos, definem os rumos e premissas a seguir. O uso e perfil da edificação, nesse ponto, já estão definidos. Reduzir o consumo de energia do sistema, a partir das escolhas de materiais, é função do arquiteto. O investidor vai definir se entrega o prédio equipado ou só na infra-estrutura. No final, quem define a compra é a construtora.

    Antonio Uehara - O sistema de ar-condicionado, como o próprio nome diz, integra diversos componentes. A instalação, o projeto, a aplicação da engenharia a partir do projeto conceitual, a aquisição de equipamentos e a sua integração devem ser feitos por uma única empresa, pois é um processo indivisível. Mas no mercado a realidade é outra. As empresas estão executando verdadeiros monstros.

    E qual é o papel do instalador diante disso?

    Uehara - O instalador é responsável pelo projeto executivo, porque na concepção ele não tem uma visão plena do que, na prática, será o edifício. Muita coisa acontece no caminho, com as estruturas, instalações e fontes de energia que irão modificar o projeto original. Entretanto, as mudanças são de forma e não de conceito. Quem responde pelo projeto executivo é o instalador e as instalações devem atender às especificações dos consultores.

    Essa segmentação de etapas é prejudicial ao projeto? Em que fase o construtor atrapalha?

    Carlos Massaru Kayano - A questão não é atrapalhar ou não. Quando se fala de instalação de ar-condicionado, o prédio nasce de um projeto. Existe a fase natural do desenvolvimento da instalação. Nesse primeiro processo, o profissional de ar define junto com o arquiteto a condição mais fácil de convivência, pois tanto no quesito estético como de economia, a formatação do sistema nasce nesse momento.

    O projetista de ar-condicionado pode interferir no projeto arquitetônico?

    Maria Regina Otero Pertusier - O bom projeto leva em consideração o tipo de uso. Mas o projeto de ar-condicionado é o segundo imediato à criação da arquitetura, porque interfere bastante na área, shafts, distribuição, zoneamento e insolação. Por isso, não há como não nascer juntamente com a concepção do projeto arquitetônico.

    A função do arquiteto não é conflitante com a do fabricante? Um quer retirar e o outro tem interesse de vender equipamentos. Existe uma queda de braço?

    Regina - A nossa função não é reduzir torres, retirar equipamentos ou colocar equipamentos menores. Isso gera problemas de difícil correção. A função do arquiteto é a de trabalhar na coordenação do projeto perfeitamente compatibilizado e adequado ao uso daquele local.

    Lemes - O fabricante não quer fornecer uma quantidade maior de equipamentos, apenas o que está especificado no projeto. O construtor, visando reduzir custos, altera completamente e cria soluções malucas.

    Uehara - O vício é de contratação e expõe muitos conflitos. O ar-condicionado representa 50% do consumo de energia de um edifício. Nunca vi nenhum contrato que defina o compromisso do empreendedor com relação à performance do sistema, à qualidade do ar interno e à condição de saúde das pessoas. O que adianta o fornecedor desenvolver novas tecnologias se a aplicação é distorcida?

    Bueno - Tanto o projetista de ar quanto o arquiteto tem um foco comum, que é o bem-estar da pessoa.

    É prática comum conceber um sistema de olho numa redução inicial de custos projetando seu futuro upgrade?

    Regina - Isso é praticamente inviável. É possível fazer um projeto mais complexo e ter um plano de etapas de economia, mas ele deve ser conceituado em sua origem.

    Quais garantias podem ser dadas ao cliente?

    Regina - Seria muito importante que o cliente colocasse todas essas obrigações no contrato e que remunerasse os profissionais para isso.

    Uehara - O que mais queremos é que o cliente nos cobre pela performance, mas que pague por ela. E a construtora é um intermediário que não vai fazer isso porque não tem o compromisso futuro com o cliente e não tem nem o conhecimento de como fazê-lo.

    William Newton Ribeiro - Vale lembrar que em um empreendimento de grande porte, o término da obra não ocorre no momento da entrega. Existe um período de ocupação da estrutura. Nesse momento, é possível fazer um julgamento da qualidade do sistema. Portanto, a fase de ajustes deve ser respeitada, principalmente em se tratando de grandes instalações.

    É possível estabelecer um limite ético para a redução de custos? O que dá para fazer sem comprometer o desempenho do sistema?

    Renata - Em projetos que participamos, quando sentimos que o cliente ultrapassa o limite do aceitável, declinamos de vendas.

    Bueno - Existe esse descaso porque o ar-condicionado é diferente de construção. Se ele não funcionar direito, no pior dia permitirá 27.C. Não está bom, mas perto da temperatura externa, pode ser melhor. O homem se adapta à temperatura dentro de uma determinada faixa. Se você errar na proporção de 1:2, ele ainda funciona.

    Uehara - Pode até funcionar, mas com qual custo de energia, com que qualidade de ar e quantos dias por ano? A lógica do "se gelar está bom" é complicada, se olharmos o que acontece. Há sistemas com cinco anos que estão seriamente danificados e exigem intervenções radicais.
    Existe um mercado consolidado para retrofit de ar-condicionado?

    Lemes - Uma central de água gelada consome metade de energia que consumia há 15 anos. Há um mercado de retrofit desde que haja, por parte do cliente, uma preocupação de obter eficiência, o que se paga em poucos anos. Mas, no Brasil, ninguém quer esperar o retorno do investimento.

    Os arquitetos possuem noções claras sobre condicionamento de ar?

    Regina - Têm de ter, senão o projeto não tem como comportar o sistema.

    Bueno - O conceito de conforto é bastante claro para o arquiteto. Ele sabe como tornar o ambiente harmônico e confortável. Mas precisa do conhecimento de um projetista de ar-condicionado para orientá-lo.

    O grau de dificuldade da instalação varia de acordo com o partido arquitetônico e estrutural adotados?

    Bueno - Há uma implicação na distribuição do ar: quanto mais compartimentado for o ambiente, vai ser mais difícil instalar os equipamentos.

    Qual o roteiro para a contratação do serviço?

    Kayano - O projeto tem de ser confiável, o instalador competente e os materiais precisam ter qualidade. Está tudo nesse tripé. Por mais sofisticado ou mais simples que seja o projeto, é preciso executá-lo corretamente.

    Como estão as normas técnicas do setor?

    Bueno - A Abrava está trabalhando, junto com a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), no CD 55. Assim como é importante colocar claramente o que se vende, só vamos conseguir isso se houver uma base de comparação entre equipamentos. A norma estabelece parâmetros e como deve ser a medição do equipamento. A norma tem um papel fundamental de colocar o trabalho em um bom nível.


    Reportagem Gisele Cichinelli
    Construção Mercado 50 - setembro de 2005