Argamassa de revestimento | Construção Mercado

Debates Técnicos

Argamassa de revestimento

Edição 54 - Janeiro/2009
Argamassa de revestimento

Cooperação técnica
O projeto de revestimento externo deve determinar os materiais, geometria, juntas, reforços, pré-moldados, acabamentos, procedimentos de execução e controle, além das diretrizes de manutenção
Especialistas concordam com a necessidade de um projeto para o revestimento, mas não se deve mistificar

É comum entre engenheiros se dizer que o revestimento externo é o cartão de visitas da obra. Afinal, é um dos elementos mais visíveis da construção, que pode ter um importante apelo de vendas. Talvez seja esse um dos motivos para a crescente atenção das construtoras ao revestimento argamassado. "Até pouco tempo atrás era raro se fazer projeto de revestimento. Isso tem ganhado corpo nas empresas mais desenvolvidas, mas certamente será adotado pelo restante do mercado", avalia Fábio Luiz Campora, secretário-executivo da Abai (Associação Brasileira de Argamassa Industrializada).

Essa também é uma reação do mercado a uma série de patologias registradas em obras nos últimos dez anos, reflexo das mudanças profundas na maneira de conceber as estruturas, como o uso de concretos de altíssimo desempenho e necessidade de vãos maiores nos edifícios. E isso "exige" muito do revestimento. 'A conseqüência foi inevitável, com um aumento muito grande nas patologias nesses últimos anos", avalia o livro "Revestimentos de Argamassas: Boas Práticas em Projeto, Execução e Avaliação", editado por Luiz Henrique Ceotto, Ragueb C. Banduk e Elza Hissae Nakakura e elaborado com a participação de construtoras, fornecedores e pesquisadores.

O mercado, ainda que tardiamente, respondeu e, hoje, uma série de treinamentos, cursos e orientações em canteiro promovidos por fornecedores e associações setoriais estão à disposição das construtoras. O principal avanço nesse sentido veio em 2004, com a criação do Consitra (Consórcio Setorial para Inovação em Tecnologia de Revestimentos de Argamassa), que reúne representantes de diversos segmentos da cadeia produtiva com o objetivo de desenvolver novas tecnologias de revestimentos. O consórcio tem duração de três anos, renováveis por mais três, com orçamento de R$ 1 milhão anuais. Uma das primeiras realizações foi exatamente a publicação do livro "Revestimentos de Argamassas".


Com uma rede de suporte à disposição, principalmente nas grandes capitais, as construtoras podem obter ganhos de produtividade e qualidade no canteiro. "As empresas podem avançar muito se realizarem parcerias com os fornecedores, treinarem a mão-de-obra e fazerem um monitoramento conjunto", afirma Otávio Lopes Simonis, gerente de obras da Barbara Engenharia e Construtora.

Por outro lado, as construtoras não podem esquecer que só auxílio de fornecedores não basta para se alcançar um revestimento de qualidade. "O construtor precisa ter claro que revestimento não é só argamassa. Entendendo isso, ele perceberá que apenas a parceria com o fornecedor não é suficiente, pois ele precisa ter um controle de todo o processo", afirma Mércia Bottura de Barros, especialista em revestimentos e professora da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Projeto

O projeto de revestimento externo deve determinar, basicamente, materiais, geometria, juntas, reforços, pré-moldados, acabamentos, procedimentos de execução e controle, além das diretrizes de manutenção. Uma peculiaridade dos projetos desse tipo é seu caráter evolutivo. Ou seja, para ser concluído, é extremamente dependente de aferições ao longo da obra para considerar, por exemplo, o desaprumo da estrutura, as propriedades reais das argamassas e dos componentes da vedação. Por isso, esse tipo de projeto tem um longo prazo de maturação, além de uma seqüência peculiar (veja boxe). "O projeto de revestimento acaba obrigando que a construtora pense de forma sistêmica, porque é preciso pensar no substrato, na estrutura, no produto, na mão-de-obra, na logística e nos detalhes de execução", afirma Campora, da Abai.

Pensar o projeto de revestimento de forma sistêmica consiste basicamente em considerar as interações entre seus diferentes componentes, como chapisco, argamassa e tratamento da base. É necessário, ainda, considerar elementos da obra que podem ter reflexos no revestimento, como características estruturais e de fachada. Tudo isso deve ser realizado com antecedência suficiente para que não apenas o projeto de revestimento possa ser alterado, mas até mesmo para que outros elementos possam sofrer alterações, se for o caso. "O que temos observado é que geralmente a base já está definida quando se começa a pensar no revestimento. Mas se for pensado com antecedência, a construtora pode, por exemplo, escolher o bloco de alvenaria considerando, entre outros pontos, aquele que tem maior potencial de trabalhar com a argamassa escolhida", explica Mércia de Barros. Atentar para as características do substrato, aliás, é fundamental para que o revestimento seja bem executado. "Não dá pra falar de revestimento sem falar do substrato. A melhor das argamassas pode se tornar o pior dos revestimentos se o substrato não for adequado", afirma a pesquisadora.


A mão-de-obra é outro ponto essencial para se garantir a qualidade do serviço e, se não for treinada adequadamente, pode ser a principal causa de patologias nos revestimentos. "Com a maior utilização de argamassas industrializadas, as grandes variações no revestimento hoje ocorrem na aplicação", afirma Gilberto Cavani, pesquisador do Laboratório de Revestimentos do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo). Segundo Cavani, no entanto, novas tecnologias permitem a redução dessa variabilidade, como o caso do revestimento projetado. "O ganho de qualidade da argamassa projetada já está comprovado", sentencia.

O primeiro passo para evitar contratempos com a mão-de-obra é inteirar a equipe de todo o conteúdo do projeto e de suas especificações técnicas. É importante que o projetista explique as premissas que nortearam o projeto, abordando, por exemplo, as características necessárias do chapisco e da argamassa, introdução de reforços e características do revestimento final. A seleção da mão-de-obra ou contratação da executora do revestimento deve ser criteriosa. Deve-se considerar, entre outros pontos, o número de profissionais considerando a produtividade média do processo, o cronograma da obra e o plano de ataque anteriormente definido. Com esses cuidados somados a um projeto detalhado e criterioso, além do controle do processo, estão dadas as pré-condições para que o revestimento seja, de fato, o cartão de visitas da obra.


Check-list

  • Inicie o projeto de revestimento externo logo após a entrega dos projetos preliminares de arquitetura, estrutura e vedação
  • Na realização do projeto, considere: condições ambientais, arquitetura (detalhes de friso e elementos decorativos, por exemplo), estrutura (geometria, rigidez e deformações previstas), instalações, vedações, processos construtivos e prazos
  • A equipe de obra deve se inteirar por completo do conteúdo do projeto e das especificações técnicas
  • O projetista deverá explicar à equipe de obra as premissas que nortearam as principais definições do projeto, englobando: características necessárias dos chapiscos e argamassas de emboço; disposição e acabamento de juntas; introdução de reforços; fixação de pré-moldados; introdução de peitoris; características do revestimento final e outros detalhes do projeto de arquitetura
  • Ajustes no projeto e planejamento, geralmente necessários, deverão ser feitos dentro dos princípios adotados nas fases anteriores
  • Projetos e execução adequados precisam ser complementados com manutenções preventivas, de maneira a fazer com que o revestimento externo possa alcançar sua vida útil prevista - ou até estendê-la
  • A construtora deverá fornecer aos usuários um manual contendo as orientações necessárias, que aborde os seguintes tópicos, entre outros: inspeção das fachadas, inspeção e limpeza

    Fonte: Revestimentos de Argamassas: Boas Práticas em Projeto, Execução e Avaliação. Editores: Luiz Henrique Ceotto, Ragueb C. Banduk e Elza Hissae Nakakura - Porto Alegre: ANTAC, 2005. - (Recomendações Técnicas Habitare, v. 1)


    Normas técnicas

    NBR 9778 - Argamassa e concreto endurecidos - Determinação da absorção de água por imersão - Índice de vazios e massa específica
    NBR 9779 - Argamassa e concreto endurecidos - Determinação da absorção de água por capilaridade
    NBR 12819 - Concreto e argamassa - Determinação da elevação adiabática da temperatura
    NM 9 - Concreto e argamassa - Determinação dos tempos de pega por meio de resistência à penetração
    NBR 10908 - Aditivos para argamassa e concretos - Ensaios de uniformidade
    NBR 13276 - Argamassa para assentamento e revestimento de paredes e tetos - Preparo da mistura e determinação do índice de consistência
    NBR 13279 - Argamassa para assentamento de paredes e revestimento de paredes e tetos - Determinação da resistência à compressão
    NBR 13281 - Argamassa para assentamento e revestimento de paredes e tetos - Requisitos
    NBR 13528 - Revestimento de paredes e tetos de argamassas inorgânicas - Terminologias
    NBR 13530 - Revestimento de paredes e tetos de argamassas inorgânicas - Classificação
    NBR 13530 - Revestimento de paredes e tetos de argamassas inorgânicas - Especificação


    Debate
    Otávio Lopes Simonis, gerente de obras da Barbara Engenharia e Construtora
    Rubiane Antunes, supervisora da qualidade da Lafarge Argamassas
    Fábio Luiz Campora, secretário-executivo da Abai (Associação Brasileira de Argamassa Industrializada)

    Adilson I. Schiavoni Júnior - coordenador de negócios Argamassas, da Votorantim Cimentos
    Paulo Sanchez, diretor técnico da Sinco Construtora
    Mércia Bottura de Barros, especialista em revestimentos, professora da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo

    Gilberto De Ranieri Cavani, pesquisador do Laboratório de Revestimentos da Divisão de Engenharia Civil do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo)
    Marcos Nunes, diretor comercial da Lafarge Argamassa

    Há uma percepção no mercado de que, nos últimos anos, as patologias em argamassas reduziram bastante. A que os senhores atribuem isso?

    Fábio Luiz Campora - Até pouco tempo atrás era raro se fazer projeto de revestimento, e hoje já se está fazendo. Acho que está ficando claro para a construção que os elementos não são estanques, mas sim partes de sistemas. Muito do que se faz num certo momento implica conseqüências para os passos seguintes. O projeto de revestimento acaba obrigando que a construtora pense de forma sistêmica, porque é preciso pensar no substrato, na estrutura, no produto, na mão-de-obra, na logística e nos detalhes de execução.

    Marcos Nunes - Hoje a Abai [Associação Brasileira de Argamassa Industrializada] e os fabricantes têm equipes imensas dedicadas a treinar e orientar dentro das obras tanto os engenheiros como os operários. Muitas vezes o mestre-de-obras e os operários estão acostumados a fazer o revestimento da maneira convencional e têm resistência a mudanças. Esse treinamento e orientação sem dúvida reduziram em muito as patologias.

    Paulo Sanchez - O que aconteceu na Sinco - e eu acredito que é mais ou menos o que aconteceu no mercado como um todo - foi o seguinte. Em 2003, na obra do edifício West Side, em Alphaville (Barueri-SP), tínhamos o desafio de fazer um prédio alto com revestimento argamassado. Quanto à estrutura do prédio, já existia no mercado conhecimento do assunto. Mas pouco se sabia de revestimento argamassado em prédios altos. Então, tivemos que fazer uma pesquisa profunda do assunto, buscamos o auxílio dos fabricantes, e essa experiência posteriormente foi repassada para a empresa como um todo.

    É possível dizer, pela experiência dos senhores, qual etapa do processo geralmente tem ocasionado o maior número de patologias nos revestimentos argamassados?

    Gilberto De Ranieri Cavani - Quando somos chamados pelas construtoras, o que temos reparado é que muitas vezes as patologias acontecem em revestimentos muito espessos. É aquela velha questão da adição de gesso na argamassa, que é extremamente perigosa. Isso acontece porque o revestimento é feito por empreitada, e se o pedreiro, que precisa terminar um pano em um dia, pega um clima mais frio, em que a argamassa não puxa, ele coloca um pouco de gesso para a argamassa fechar mais depressa.

    Adilson I. Schiavoni Júnior - A adição de gesso em argamassa é um veneno. E o grande problema é que a patologia vem só depois de anos, quando já está tudo pronto, com o acabamento por cima.

    Otávio Lopes Simonis - Com relação à experiência da Barbara, as patologias que registramos foram basicamente desplacamento de revestimento interno e externo. Isso foi diagnosticado e constatamos que o problema foi a mistura do chapisco rolado - nós controlamos a dosagem, mas, na aplicação, o chapisco decanta. Com essa decantação, corre-se o risco de só ser projetada água no substrato. Tivemos alguns problemas com isso e abolimos o chapisco da Barbara há uns quatro anos.

    Mércia Bottura de Barros - O chapisco rolado exige um treinamento muito sério de pessoal, porque ele não pode decantar. Quando isso acontece, fica-se com uma nata de cimento e polímero em cima. Se for aplicado, estará selando a base.


    O chapisco rolado foi abolido na Barbara mais por falta de cuidado na aplicação do que por problema no produto?

    Simonis
    - Exato. Porque essa questão da mão-de-obra é muito complicada. Em muitas obras se trabalha com cinco tipos de argamassa. E mesmo com treinamento, muitas vezes quando se vai aplicar o produto, temos surpresas, muitas vezes em função de prazos apertados. Externamente também tivemos problemas de desplacamento oriundo provavelmente do concreto, que cria uma dificuldade tamanha porque a estrutura é muito deformada.

    Em que consiste o projeto de argamassa de revestimento?

    Mércia
    - O projeto, na essência, é algo muito simples: é uma ação, uma atividade, que precisa ser realizada com antecedência. Acho que as pessoas estão mistificando muito o projeto de revestimento, e isso acaba virando um fantasma. E isso, na realidade, é simples. Projetar é pensar antes. É considerar como a estrutura se comporta, saber qual é o substrato, como é a alvenaria, etc.

    Rubiane Antunes - Outro ponto importante é o controle de todas essas etapas, que também precisa constar no projeto. Porque às vezes se têm todos os cuidados necessários, mas se esquece de controlar o material que está chegando na obra. Então, corre-se o risco de se preparar todo o sistema para uma determinada configuração, que pode ir mudando no decorrer da obra e, aí, se perder o histórico disso.

    Mércia - O ensaio de resistência de aderência da argamassa tem uma variabilidade imensa. Dá de 30% a 40% de variabilidade num ensaio feito em excelentes condições de trabalho. Outro problema é a interpretação dos resultados.

    Sanchez - Para se ter idéia dessa variabilidade, no edifício West Side fizemos quase 400 ensaios e tivemos, no mesmo painel, resistências de 0,80 MPa e 0,20 MPa. É uma variação brutal.

    Em relação ao chapisco, quais as falhas de execução mais comuns que os senhores têm observado?

    Cavani
    - Um problema grave que já observamos é a falta de cura do chapisco. Já vi casos em que foi necessário arrancar o revestimento do prédio inteiro por problemas desse tipo. O que acontece é que em alguns casos há enorme cuidado com o emboço, e o chapisco fica em segundo plano e coloca tudo a perder.

    Qual o tempo de cura recomendado para o chapisco?

    Mércia
    - A recomendação técnica é de que seja de pelo menos três dias. E essa recomendação vem exatamente no sentido de permitir que se faça um ensaio do chapisco. Se com três dias de cura do chapisco, as empresas fizessem o ensaio da espátula, que é extremamente simples, elas deixariam de perder muito. É só pegar a espátula do pintor e tentar arrancar o chapisco. Se sair com três dias, desiste, porque ele está sem aderência nenhuma

    Simonis - Fazendo uma analogia, a argamassa é como a pele do prédio. E, às vezes, um problema de pele pode ser apenas reflexo de outros problemas do corpo. Com a argamassa é a mesma coisa. Às vezes o problema repercute na argamassa, mas pode ser de outra área.

    Mércia - O chapisco tem uma dupla função no revestimento. É a ponte de aderência entre o substrato e a argamassa, e também tem a função de uniformizar as características do substrato. E no caso da fachada, também contribui para a estanqueidade, porque é uma camada a mais, e que tem um teor de cimento alto.


    Existem procedimentos e tecnologias não recomendáveis em argamassa de revestimento, que estejam causando muitas patologias?

    Sanchez
    - Acho difícil apontar um produto ou prática não recomendável. O que acho é que não se pode fazer nada sem controle. O construtor não pode cair no conto da terceirização, ou seja, achar que terceirizando ele estará passando a responsabilidade para a outra empresa.

    Simonis - Até porque, mesmo com a terceirização, a construtora continua, em última instância, responsável pelo serviço.

    Existem novas tecnologias que podem ajudar no sentido da racionalização da execução do revestimento?

    Mércia
    - Acredito que há avanços nesse sentido na medida em que temos a utilização de revestimento projetado mais intensamente nas construtoras.

    E isso funciona bem?

    Mércia
    - Tem funcionado muito bem, com ganhos não só de produtividade mas também de qualidade. Com o revestimento projetado se consegue diminuir muito a variabilidade da mão-de-obra, porque se passa para o equipamento grande parte do trabalho de aplicação.

    Campora - Acredito que foi um grande avanço termos passado da colher de pedreiro para o revestimento projetado. Mas acho que ainda estamos no primeiro degrau disso. Temos muito a evoluir nesse sentido.

    Para os construtores presentes, a argamassa projetada tem futuro nas obras?

    Sanchez
    - Uma coisa eu posso dizer, pela minha experiência: argamassa projetada não ganha produtividade. No meu entender, a única vantagem da argamassa projetada é o efeito dinâmico, que melhora em muito a resistência à tração. Quanto à produtividade, já testamos um prédio com argamassa projetada numa metade e argamassa manual em outra, e a produtividade foi igual.

    Cavani - O ganho de qualidade da argamassa projetada já está comprovado. Isso, de fato, ninguém contesta. E quanto à produtividade, vou discordar. Eu tenho certeza de que com a argamassa projetada também se ganha produtividade. O que acontece é que você tem que acertar condições. Tem que pensar diferente. Sei de alguns casos em que a pessoa pegou uma obra para teste, fez metade projetada e metade manual, e não ganhou nada. Acho que o problema nesses casos é que eles foram pensados da mesma forma, ou seja, só se trocou a colher por um projetor.

    Rubiane - É preciso, por exemplo, avaliar se não é interessante usar um balancim elétrico para a projeção.

    Sanchez - Mas aí é diferente. O que estou dizendo é que se mantiver-se todo o restante do processo da forma tradicional, e apenas mudar a aplicação da argamassa, não há ganho de produtividade. Já com um sistema de elevação elétrico, plataforma, aí sim, ganha-se muita produtividade, porque se aliam duas tecnologias.

    Simonis - O que temos constatado na Barbara é que a argamassa projetada, em termos de produtividade, praticamente iguala-se à convencional, exceto em panos longos. Recentemente fizemos um prédio de aproximadamente 4 mil m2 de fachada com argamassa projetada e o que constatamos é que a principal evolução ocorreu na mão-de-obra e no controle de qualidade, pois houve o compromisso do fornecedor com relação a ensaios e outros controles da obra. Devemos avançar com essas parcerias.


    Projeto de revestimento

    Projeto inicial
    - Finalizado antes do início da execução da alvenaria. O projetista apresenta, em linhas gerais, o partido do projeto, bem como as especificações básicas de desempenho dos materiais.

    Verificação de parâmetros - Iniciada após o início da alvenaria. Deverão ser testados e ensaiados os parâmetros definidos no projeto inicial nas condições de obra (painéis), para definição dos produtos e sistemas com as suas respectivas marcas a serem utilizadas. Etapa mais demorada do processo, demanda de 60 a 90 dias para a conclusão.

    Verificações de desvios geométricos da estrutura, definição da mão-de-obra e equipamentos - Executada logo após a conclusão da estrutura.

    Projeto final - Concluído antes do início dos trabalhos de revestimento de fachada.

    Fonte: Revestimentos de Argamassas: Boas Práticas em Projeto, Execução e Avaliação. Editores: Luiz Henrique Ceotto, Ragueb C. Banduk e Elza Hissae Nakakura - Porto Alegre: ANTAC, 2005. - (Recomendações Técnicas Habitare, v. 1)


    Normalização necessária
    Arnaldo Manoel Pereira Carneiro, Coordenador do Grupo de Trabalho em Argamassa da Antac (Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído), doutor em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo e Institut National des Sciences Appliquées de Toulouse (França)


    Como o senhor avalia o atual quadro normativo para argamassas de revestimento no Brasil?

    As normas ainda não atendem às nossas necessidades, pois as que existem ainda não levam em consideração a argamassa aplicada sobre uma base, ensaios sob ciclos de molhagem e secagem, ciclos de exposição à radiação solar, ou ciclos de intempéries peculiares de regiões no Brasil, como atmosfera com grande poluição (Cubatão ou Centro da cidade de São Paulo), névoa salina (litoral Atlântico), baixa umidade e calor constante (sertão do Brasil) e umidade e calor constantes (cidades da Amazônia). Por exemplo, a norma Inglesa de Argamassas prevê cuidados para argamassas que irão revestir paredes de sala de Radiografias (raios-X). No futuro espera-se ter no Brasil uma Tabela de Desempenho, que reunirá as características de desempenho para argamassas de revestimento para essas diversas situações, a exemplo do que acontece na França. Isso será possível graças aos estudos de pesquisas desenvolvidos em Centros de Pesquisa no Brasil, que são apresentados no SBTA (Simpósio Brasileiro de Tecnologia de Argamassas), que ocorre a cada dois anos, e que reúne pesquisadores e o mercado consumidor para discutir o tema. O próximo evento vai ocorrer na cidade de Recife, de 1. a 4 de maio de 2007.

    Quais os principais critérios que uma construtora deve adotar para escolher entre uma argamassa produzida em obra ou uma industrializada?

    O critério deve sempre ser o técnico aliado ao custo. Uma argamassa industrializada pode ser substituída por uma produzida em obra quando não for oferecido pelo fabricante garantia de qualidade e durabilidade, assistência técnica adequada para aplicar o seu produto, ou se no mercado não existir a argamassa para um uso especial. De qualquer forma, o controle de produção e aplicação são importantes para a durabilidade da argamassa.

    Em qual etapa da obra estão as principais causas das patologias em argamassas de revestimento externo (execução, projeto/especificação ou fabricação)?

    Se essa pergunta fosse feita no final dos anos 80 e início da década de 90, diria que a principal causa de patologias devia-se à especificação incorreta da argamassa. Mas atualmente não conheço dados que mostrem a maior ou menor causa das patologias. O que posso dizer é que o mercado consumidor precisa ser exigente com o fabricante, para garantir qualidade e durabilidade, assistência técnica; treinar a mão-de-obra e estudar e planejar os revestimentos externos com o mesmo critério que o fazem para o cálculo estrutural.


    Reportagem de Gustavo Mendes
    Construção Mercado 54 - janeiro de 2006