Aquecedores | Construção Mercado

Debates Técnicos

Aquecedores

Edição 58 - Janeiro/2009

Definir o melhor sistema de aquecimento de água envolve variáveis que extrapolam o debate técnico. Fatores como aspectos culturais dos usuários, e a dinâmica do mercado, influenciam diretamente a decisão
Opções de aquecimento
Opções quentes
Definir o melhor sistema de aquecimento doméstico de água envolve inúmeras variáveis que extrapolam o debate técnico e aumentam a complexidade da tarefa. Fatores imensuráveis como os aspectos culturais dos usuários, assim como a dinâmica do mercado, influenciam diretamente a decisão.

Um exemplo claro é o caso da utilização de aquecedores solares em edifícios verticais. Em São Paulo são raros os prédios que adotam a tecnologia; já em Belo Horizonte existem mais de mil edifícios com aquecimento solar. A disparidade é explicada, em parte, pelo fato de os edifícios paulistanos serem mais altos, o que dificulta a implantação do sistema. No entanto, a diferença também se deve às especificidades do mercado de cada região. Exemplo: a instalação dos coletores solares praticamente inviabiliza as obras das coberturas, unidades extremamente valorizadas em São Paulo. "Infelizmente, a construtora não vai deixar de construir uma cobertura que será vendida a um valor altíssimo para instalar um sistema de aquecimento solar que pode custar mais de R$ 150 mil", lamenta o engenheiro Maurício Milhin, gerente técnico da Tuma Industrial, fabricante de aquecedores solares e a gás. Como agravante, segundo Milhin, em São Paulo os sistemas de aquecimento solar não têm forte apelo de vendas como em Belo Horizonte.

As características regionais também influenciam na escolha de aquecedores a gás, segundo o engenheiro de assistência técnica da divisão termotécnica da Bosch, Herwin Salto Schultz: "No Rio de Janeiro, por exemplo, já existe uma cultura do gás há muito tempo. No caso de Minas Gerais a cultura mais forte é a do aquecimento solar. Lá os projetos já são concebidos com esse sistema e os aquecedores a gás ficam em segundo plano", afirma.


Além de especificidades regionais, a condição socioeconômica do usuário é outro fator que exerce influência definitiva na escolha do sistema. Caso exemplar é o do chuveiro elétrico, geralmente vetado nas obras de médio a alto padrão.

Se de um lado a questão socioeconômica é uma barreira ao chuveiro elétrico, de outro é o principal trunfo dessa tecnologia, que tem um custo inicial imbatível. "Fora os chuveiros elétricos, atualmente não existe outra solução de aquecimento de água economicamente viável para toda a população. Um aquecedor a gás custa cerca de R$ 400, enquanto um chuveiro pode ser comprado por R$ 30", afirma Ronei de Jesus Lira, promotor técnico da Lorenzetti, fabricante de chuveiros, aquecedores elétricos e a gás.

Dimensionamento

Assim como a seleção da melhor tecnologia, o dimensionamento do sistema de aquecimento também tem suas complexidades. O problema, nesta etapa, é a falta de informação para execução do projeto. "Há uma carência de conhecimento técnico por parte das construtoras para dimensionamento do sistema de aquecimento", avalia Alberto Fossa, consultor do Sindinstalação (Sindicato da Indústria de Instalação).

De acordo com Fossa, uma das falhas é a falta de normas que disciplinem a tarefa: "À exceção do aquecimento solar, que terá em breve uma norma de projeto, não existem normas específicas para dimensionamento completo dos sistemas. Os projetos têm sido baseados no conhecimento empírico dos profissionais", alerta.

A boa notícia é que novas regras estão em formulação nessa área, o que deve melhorar o suporte técnico aos construtores. Dentre as novidades está a elaboração de uma norma única de instalações internas de gás natural e gás liquefeito de petróleo, substituindo as NBRs 13932, 13933 e 14570. "Se não temos um quadro normativo completo, ao menos já existe um mapeamento das carências do setor, além de grupos trabalhando no desenvolvimento de novas regras", conclui Fossa.


Como funciona

  • Aquecedor de passagem elétrico: a água aquecida por resistência elétrica no momento da utilização é descarregada em tubulação para utilização em pontos distantes
  • Aquecedor de acumulação (a gás ou elétrico): a água é aquecida por meio de queimador de gás ou resistência elétrica e armazenada em reservatório
  • Aquecedor de passagem (a gás): a água é aquecida por um trocador de calor, a partir de um queimador a gás, no momento de sua utilização
  • Aquecedor solar: placas coletoras de radiação solar transferem o calor para a água, que circula em tubulações de cobre, e é armazenada em reservatório térmico (boiler); pode ter sistema auxiliar de apoio elétrico ou a gás
  • Chuveiro elétrico: a água é aquecida por resistência elétrica no momento da utilização


    NORMAS TÉCNICAS

    Instalação hidráulica

    NBR 5626/1997 - Instalação predial de água fria
    NBR 7198/1993 - Projeto e execução de instalações prediais de água quente

    Eletricidade
    NBR 5410 - Instalações elétricas de baixa tensão

    Gás
    NBR 13103/2006 - Instalação de aparelhos a gás para uso residencial - Requisitos dos ambientes
    NBR 13932 - Instalações internas de gás liquefeito de petróleo (GLP) - Projeto e execução
    NBR 13933 - Instalações internas de gás natural (GN) - Projeto e execução
    NBR 14570 - Instalações internas para uso alternativo dos gases GN e GLP

    Projeto e execução
    * Está em desenvolvimento nova norma para consolidação das NBRs 13932, 13933 e 14570.

    Solar
    Projeto de revisão da NBR 12269 - Instalação de sistemas de aquecimento solar de água em circuito direto - Procedimento


    ENTREVISTA

    "Depois de 2010, o objetivo é garantir taxas de crescimento de modo a substituir 60% dos chuveiros elétricos"



    Governo incentiva uso solar

    Quais as principais medidas previstas no programa de incentivo de uso de energia solar da Abrava?


    Queremos linhas de financiamento em parceria com os principais bancos do País, principalmente a Caixa Econômica Federal e o BNDES (Banco Nacional
    de Desenvolvimento Econômico e Social); criação de políticas regulatórias e fiscais de incentivo do aquecimento solar e o Qualisol, lançado
    de forma pioneira para garantir a qualificação de revendas e instaladoras.

    Com o programa em prática, qual a perspectiva de crescimento do mercado de aquecedores solares?

    Temos como objetivo triplicar anualmente, até 2010, a área de coletores solares instalados. Depois de 2010, o objetivo é garantir taxas de crescimento de modo a substituir 60% dos chuveiros elétricos. É uma meta audaciosa, mas de acordo com o que há de mais moderno em políticas de energias renováveis em todo o mundo. Além dos evidentes benefícios para os usuários com a redução dos gastos de energia, o aquecimento solar posterga o investimento no aumento da capacidade do setor elétrico brasileiro.

    Existem ações também nas esferas estaduais e municipais para o incentivo do uso dos aquecedores solares?

    Estamos desenvolvendo um programa que se chama Cidades Solares. A iniciativa visa a apoiar os tomadores de decisão, construtores e projetistas a adotar o aquecimento solar, seja em edificações unifamiliares ou em edificações coletivas.

    Carlos Faria
    Diretor do Departamento de Aquecimento da Abrava


    Mesa-redonda



    Para uma construtora de edifícios residenciais, as opções de sistemas disponíveis para aquecimento de água ainda são muito restritas?

    Maurício Belo
    - No nosso caso, a opção do chuveiro elétrico é descartada de início pois nosso consumidor, de médio a alto padrão, não aceita essa solução. Já o aquecedor elétrico, para o usuário final, se mostra muito caro, e o solar não tem sido usado pelas construtoras de edifício prediais, pelo menos em São Paulo. Por isso temos utilizado apenas aquecimento a gás, de passagem ou de acumulação.

    Qual sistema especificamente?

    Belo
    - Temos utilizado bastante um aquecimento a gás coletivo composto por dois tanques de acumulação, com alimentação por aquecedores de passagem. Com isso o usuário tem água quente o tempo todo e a conta de gás diminui, porque a concessionária cobra uma taxa diferenciada. No mercado em que atuamos, acredito que todas as construtoras têm partido para esses sistemas coletivos.

    Herwin Salto Schultz - As últimas construtoras que visitei, no entanto, estavam saindo desse sistema de aquecimento central porque muitas pessoas reclamavam por ter de pagar pelo consumo do outro. O custo global da conta de gás pode até ficar mais baixo, mas, individualmente, se uma pessoa vai viajar, ela paga pela conta dos outros também. Outro problema que as construtoras colocaram é a questão da manutenção. Se ocorrer um problema no sistema, todo o edifício é afetado.

    Belo - Nós geralmente já entregamos as obras com uma previsão de medição individualizada, para não ter esse problema. Mas, mesmo assim, são raríssimos os casos em que esse sistema é adotado, pois a implantação é muito cara.

    As construtoras em geral preparam a infra-estrutura adequadamente para os sistemas de aquecimento de água?

    Schultz
    - As construtoras geralmente deixam alguns pontos em aberto no sistema de aquecimento. É corriqueiro haver falta de pressão para acionar o aquecedor. Também acontece de a chaminé para ventilação ter diâmetro reduzido, o que impede que o usuário instale um aquecedor de exaustão natural. E para fazer uma adaptação depois de tudo pronto, é muito trabalhoso e às vezes inviável.

    Ronei de Jesus Lira - Se a construtora não fizer a previsão correta do diâmetro, saída e altura da chaminé, o consumidor eventualmente terá que pagar mais caro por um aparelho que seja adequado àquela infra-estrutura. As construtoras grandes fazem isso corretamente, mas as menores muitas vezes não atentam para esse tipo de detalhe, o que pode afetar muito a venda do produto final. E em muitos casos encontramos um diâmetro correto da saída da chaminé, mas com uma altura inadequada dos pontos de água, porque a norma, até o presente, é omissa nesse ponto.

    Como os senhores avaliam a qualidade das normas para aquecimento de água?

    Alberto Fossa
    - As normas de instalações de água fria e água quente estão caquéticas. E só isso já afeta todo o dimensionamento do sistema de aquecimento. Esse é um problema que precisamos resolver e já existe uma iniciativa para reativar as discussões. No caso específico do aquecimento elétrico, existe a NBR 5410, uma norma extremamente atual, que dá um ótimo suporte à instalação.


    E as normas para aquecimento a gás?

    Fossa
    - Na parte de gás foram feitas três normas: uma para gás natural, outra para GLP (gás liquefeito de petróleo) e outra que trata dos dois combustíveis. Isso foi resultado de briga de mercado. Os representantes do GLP queriam a sua norma, os de gás natural também. Então foi preciso fazer duas normas para eles perceberem que elas sozinhas não davam conta, pois é preciso uma norma que trate de gás de forma geral. Atualmente essas três normas estão sendo fundidas numa única norma de instalações, que deve ser publicada ainda neste ano. Por fim, existe uma norma lançada em março, a NBR 13103, que trata da regulamentação da instalação dos equipamentos a gás. Ela sai depois de uma briga de três anos, mas com tudo muito bem equacionado.

    E quanto às normas de aquecimento solar?

    Fossa
    - Na parte de aquecimento solar, coordeno um grupo que está elaborando uma nova norma de instalação. O objetivo é harmonizá-la com conceitos internacionais. Isso deve ser feito em breve para, em seguida, fazermos uma norma de projetos de sistemas de aquecimento solar, que é uma área onde identificamos uma necessidade de suporte técnico ao mercado.
    Os aquecedores solares, antes restritos a casos muito específicos, hoje já conseguem ter uma maior flexibilidade de aplicação?

    José Ronaldo Kulb - As aplicações de aquecimento solar hoje são das mais diversas. A Petrobras tem um programa de eficiência energética no qual utiliza aquecimento solar nos vestiários das suas unidades. Inúmeros hotéis já utilizam essa tecnologia - em Porto Seguro, praticamente todos têm aquecimento solar. Existem, no entanto, aplicações onde não dá para utilizar essa tecnologia, como o caso de prédios com uma verticalização muito grande, pois não existe área suficiente na cobertura para colocar os aquecedores.

    Arnaldo de Oliveira Corrêa - Mas isso não é regra. Um prédio pode perfeitamente ter aquecimento solar combinado com outro sistema, o que já pode reduzir significativamente o consumo de energia elétrica ou a gás.

    De qualquer forma, com a verticalização crescente, a instalação dos aquecedores solares fica bem dificultada...

    Corrêa
    - Mas esse processo de verticalização já sofreu mudanças. Veja a cidade de São Paulo, por exemplo. A prefeitura anterior mudou o código de obras de modo que os prédios vão ter uma área menor do que anteriormente. Sendo mais baixos, a instalação do aquecedor é mais vantajosa. E aí pode acontecer o mesmo que em Belo Horizonte, onde existem mais de mil prédios com sistema solar.

    Belo - Embora em São Paulo a prefeitura tenha realmente reduzido o índice de aproveitamento do terreno, ainda assim as grandes construtoras têm partido para empreendimentos cada vez mais altos, procurando terrenos maiores.

    Maurício Milhin - Outra barreira para o aquecedor solar é que em São Paulo e em algumas outras cidades a cobertura tem um valor agregado muito alto. E o aquecimento solar exige a colocação de placas na cobertura. Por isso, talvez seja preciso estudar algum tipo de incentivo para a construtora instalar o aquecedor solar. Um prédio alto com implantação solar é possível. Pode-se implantar um sistema a gás ou elétrico com apoio solar, por exemplo. Isso pode ser o suficiente para uma economia de 10% de energia, o que já é bastante. Em vez de se economizar 70% da energia com o sistema predominantemente solar.


    Qual a participação de mercado dos aquecedores solares, segmento que praticamente saiu do zero cerca de 20 anos atrás?

    Kulb
    - Num estudo recente com o Governo Federal identificamos que, apesar do crescimento vertiginoso, o aquecimento solar atende apenas 1,4% das famílias brasileiras. No entanto, por meio de um programa estratégico em conjunto com dois ministérios que deve ser lançado neste ano para incentivo do aquecimento solar, pelas nossas projeções, em 2010 devemos atingir 2,8% das famílias. Já em 20 anos, pretendemos atingir entre 70 e 80% das famílias.

    Em se tratando de aquecedores a gás, essa tecnologia enfrenta barreira
    cultural do brasileiro, talvez por medo de acidente?

    Fossa
    - Com algumas exceções, o aquecimento a gás enfrenta sim uma barreira cultural. Mas isso se resolve por meio de direcionamentos estratégicos para estimular a tecnologia. Nesse ponto, eles enfrentam o mesmo problema que os solares: a falta de incentivo. Esses aquecedores a gás também enfrentam a concorrência do chuveiro elétrico, que é muito barato para o consumidor num primeiro momento e muito fácil de ser instalado. Só que o chuveiro elétrico, é claro, tem um custo muito alto para o País, pois utiliza uma energia nobre e cara, que poderia ser destinada a outros usos.

    Lira - Quando ocorreu o apagão, o chuveiro elétrico foi eleito o vilão da história. Mas não podemos esquecer uma questão importante que é a condição socioeconômica do brasileiro. Fora os chuveiros elétricos, atualmente não existe uma solução de aquecimento de água economicamente viável para toda a população. Não podemos negar o mercado, deixando essa questão da oferta e demanda de fora da discussão. A realidade que temos é a seguinte: existe o chuveiro elétrico que custa R$ 30 e o aquecedor a gás, por exemplo, que nós também fabricamos, cujo modelo mais barato gira em torno de R$ 400.


    Reportagem de Gustavo Mendes
    Construção Mercado 58 - maio de 2006