Concreto auto-adensável | Construção Mercado

Debates Técnicos

Concreto auto-adensável

Edição 70 - Maio/2007
Quais são os principais cuidados que o construtor deve observar em relação ao concreto auto-adensável, da escolha ao momento em que os materiais chegam à obra?

Arcindo Agustin Vaquero y Mayor
- Os cuidados são os mesmos em relação aos concretos comuns: as balanças têm que estar calibradas, deve-se conhecer os materiais, a forma como se trabalha o cimento com os aditivos que serão utilizados, o motorista tem que estar treinado. O que tem de diferente em concreto auto-adensável é que esses aditivos são colocados na obra. Nesse tipo de operação, algumas vezes vai um suporte laboratorial junto. O problema é que os aditivos atuais que estão disponíveis no Brasil perdem o efeito em 40 ou 50 minutos, dependendo da temperatura, do balanceamento entre cimento e aditivos. De uma maneira geral, todas as nossas betoneiras não misturam bem. O problema é que saímos com uma trabalhabilidade muito baixa da central para poder adicionar o aditivo que aumenta muito a trabalhabilidade, então é preciso tomar cuidado para que a betoneira tenha as facas ainda melhores, um sistema de eficiência melhor de mistura do concreto.

Renata D'Agostino De Marchi - O construtor deve estar atento ao que acontece antes da entrega e da mistura do concreto. A seleção dos materiais deve ser previamente feita. Além disso, o concreto auto-adensável precisa de no mínimo três tipos de controle na obra e de uma equipe para controlar. Não é só slump ou espalhamento; não é possível medir todas as propriedades só no visual, subjetivo e com uma única medida. Precisamos ter outros dois tipos de controle, com uma caixa-L e um funil-V, para que se consiga controlar esse aspecto reológico do concreto no estado fresco.

Ricardo Alencar - O controle do concreto auto-adensável não é o mesmo do convencional. Particularmente na industria de pré-fabricado, a maior preocupação é com o controle de umidade dos agregados, porque uma variação muito pequena dessa umidade é a diferença entre fazer o concreto segregar ou não. Além disso, o concreto auto-adensável não pode ser caracterizado simplesmente pelo ensaio do flow. É preciso deixar claro quais são as características requeridas. Não é só fluidez, é habilidade passante por entre as armaduras e coesão. Por isso ele não pode ser caracterizado por apenas um ensaio.

Carlos Eduardo Santana Melo - Quando se vai usar um concreto especial numa obra, seja auto-adensável ou de alto desempenho, devem ser feitas várias reuniões antes, definindo as responsabilidades. Essas conversas antes às vezes não existem, algumas construtoras pedem o concreto auto-adensável na véspera.

Quais fatores ainda tornam o concreto auto-adensável pouco utilizado no mercado?

Alencar
- O que é caro no Brasil hoje é o material, não a mão-de-obra. Por isso que no exterior é muito mais viável a aplicação de concreto auto-adensável; em alguns casos ele deixa até de ser um concreto especial e já é um concreto comum. Não estou dizendo que o concreto auto-adensável é para todas as aplicações, mas existem casos em que se usam quase 100% de CAA em pré-moldados. Acredito que o concreto auto-adensável pode ser viável no Brasil pela redução do número de mão-de-obra, pela maior durabilidade das fôrmas, porque sofrem um desgaste menor, e economia de energia elétrica.

Vaquero y Mayor - Infelizmente o que tenho visto internacionalmente é que o concreto auto-adensável nunca será uma commodity. Em nenhum lugar do mundo é utilizado em 100% ou 80% das obras. É um nicho muito específico, onde se têm aplicações muito características. Concretos especiais não encontram um passivo de 10% no mercado. No entanto, é possível no Brasil ter experiências bem-sucedidas, economicamente viáveis. Já existem casos no País de prédios inteiros construídos com concreto auto-adensável.


Concreto auto-adensável
Mesa-redonda

Renata - É um sistema construtivo diferente. A partir do momento em que tivermos informações e o mesmo nível tecnológico, ele acabará se tornando muito mais comum. Não colocamos a palavra especial para diferenciar o custo, é porque exige uma série de cuidados. Em países desenvolvidos existe a disponibilidade econômica. As empresas brasileiras estão capacitadas, têm tecnologia, fazem pesquisas. O que acontece é que como a mão-de-obra é muito barata no nosso país, a preferência pelo sistema construtivo convencional ultrapassa a necessidade de um sistema construtivo que utilize concreto auto-adensável.

Emerson Cremm Busnello - Acho que o aumento da participação do concreto auto-adensável começa pela informação do que é o material e de como aplicá-lo. A outra questão é a comparação entre sistemas construtivos, não entre materiais: concreto auto-adensável e convencional. A partir do momento em que o mercado começa a ter mais informações sobre o concreto auto-adensável, começa a se viabilizar uma série de coisas, até as matérias-primas que o compõem, como os aditivos, policarboxilatos.

Considerando que as obras devem ter algumas condições determinadas para receber o concreto auto-adensável, até que ponto a concreteira se envolve na obra?

Renata
- O concreto auto-adensável é um sistema, a obra tem que estar preparada para recebê-lo. Temos engenheiros que prestam um serviço de assessoria técnica. Mas não nos cabe fazer uma verificação de fôrmas, por exemplo. No entanto, se estamos dentro do processo, faz parte desse serviço detectarmos qualquer irregularidade na obra e passar para o engenheiro responsável. Temos um centro tecnológico que faz essa parte de desenvolvimento, com uma equipe de engenheiros especializados que podem ajudar. Estamos sempre em contato com pesquisadores, professores, e sempre desenvolvemos pesquisas em parceria para viabilizar o material.

Busnello - Na questão da prestação de serviços, a orientação técnica sempre cabe, desde a especificação à preparação de uma concretagem. Mas é sempre no aspecto da orientação, não de responsabilidade.

Vaquero y Mayor - Nem sempre as concreteiras conseguem identificar todas as obras que estão sendo atendidas. Mas, quando se consegue um envolvimento maior, participamos de uma reunião de início de obra e fazemos um checklist. A primeira atividade importante para se fazer em relação ao concreto auto-adensável é escolher muito bem a concreteira. O concreto auto-adensável tem uma tecnologia embarcada muito grande. Algumas empresas têm essa tecnologia e quando estão envolvidos na obra conseguem identificar problemas porque são altamente especializados. Inclusive, o concreto auto-adensável não avança muito no mercado porque nem sempre a pessoa que está na obra identifica um problema que pode ser resolvido por uma concreteira.

Quais procedimentos e fatores nas usinas e fábricas podem determinar as diferenças na qualidade do concreto auto-adensável?

Busnello
- A questão da mistura. Como o auto-adensável é um concreto mais argamassado e com mais finos na mistura no mercado brasileiro, em caminhão betoneira não temos uma mistura tão eficiente quanto nas centrais misturadoras. Então é preciso lançar mão de ter um slump inicial mínimo na central do concreto para garantir uma mistura inicial durante o processo de carregamento. O concreto já sai pré-homogeneizado. Queremos um concreto de alta reologia, mas a base de aditivos não dá essa característica, só que se for reduzida a água desse concreto, o que pode prejudicar a mistura e homogeneidade. Acho que esse é um cuidado adicional na produção em relação aos demais.


É possível que o concreto já chegue auto-adensável na obra?

Melo
- Já existe esse tipo de aditivo; em alguns casos dá certo. Não necessariamente a central tem que se partir de um slump 0 ou slump 3 para controlar o recebimento do concreto na obra. Hoje a indústria de aditivos tem condições de fornecer aditivos para se dosar todo o concreto na central e ele chegar na obra auto-adensável. Há essas condições e já foram feitos alguns trabalhos pela Bauer junto com empresas de aditivos, com bons resultados, Usa-se estabilizadores de hidratação, mas quando se começa a mexer com a reologia do concreto, a possibilidade de ocorrer erro dentro do processo é muito grande.

Renata - Tem um outro fator que impede isso. Concretos muito fluidos em cidades que têm subidas e descidas é absolutamente inviável. Teríamos que colocar uma quantidade mínima de concreto para ter a melhor mistura e o máximo para que não caia, então é uma relação muito difícil de se conseguir. Teríamos que usar uma capacidade menor da betoneira e isso encareceria. Para mandar a mesma quantidade de concreto seria preciso muito mais caminhões.

Quais são as principais aplicabilidades do concreto auto-adensável?

Renata
- Estruturas esbeltas e densamente armadas são as principiais. Mas dá para ter uma série de aplicações.

Melo - O concreto auto-adensável pode ser utilizado em locais onde se reforçam os blocos de fundação. Nesse aspecto, nem sempre a opção é da construtora para redução de custos, mas sim uma barreira técnica. Isso porque quanto mais esbelta está uma estrutura, mais densa está sua armação. Se o concreto convencional for aplicado, não se consegue preencher a armação. É quase mandatório utilizar CAA.

A aplicação do concreto auto-adensável é mais vantajosa em lajes ou em vigas e pilares?

Vaquero y Mayor
- As vantagens são diferentes. Quando se está construindo o pilar, a probabilidade de se ter alguma descontinuidade é muito grande, principalmente em pilares muito altos. Quando se está utilizando o concreto auto-adensável, esta probabilidade diminui; custa muito caro reparar uma estrutura. E isso é uma vantagem muito importante. No caso da laje, a aplicação do concreto é muito rápida e diminui o número de trabalhadores.



CONSTRUÇÃO MERCADO 70 - MAIO 2007