O preço da desqualificação | Construção Mercado

Gestão

Mão-de-obra

O preço da desqualificação

Em pleno crescimento do setor da construção, cerca de 112 mil vagas de trabalho foram abertas no último ano. Mas, com tantos anos sem investir na qualificação da mão-de-obra, o mercado já sente falta de braços bem treinados para tocar as novas obras

Por Mirian Blanco
Edição 73 - Agosto/2007


Mais de 112 mil vagas de trabalho foram abertas no último ano na construção. Segundo pesquisa do SindusCon-SP/FGV, na média do País, o emprego com carteira cresceu 6,4%, sendo que quase todos os segmentos da construção apresentaram evolução do emprego formal superior a 5% (no acumulado até abril). Com indicadores como esses, já há quem diga que o setor fechará o ano com até 200 mil novos postos de trabalho ocupados. Mas isso só se houver mão-de-obra qualificada.

Ironicamente, o setor da construção civil brasileira, construído artesanalmente pelas mãos de operários majoritariamente analfabetos e sem qualificação técnica, paga o preço de anos sem investimentos em formação de pessoal. E agora, quando, finalmente, depois de quase três décadas de estagnação, o segmento retoma o ciclo de crescimento consistente e demanda um contingente de mão-de-obra expressivo para dar conta do aumento do volume de obras, faltam trabalhadores habilitados.

Carpinteiros de fôrmas, armadores e profissionais de escoramento já são figuras raras no mercado. E se nem mesmo aqueles que já atuam no setor respondem às necessidades do novo paradigma da construção, o que dizer dos mais de 20 milhões de desempregados do Brasil afora, que em outros tempos seriam aqueles que poderiam abastecer a demanda da construção, historicamente receptiva à mão-de-obra desqualificada e conhecida como a porta de entrada do trabalho? A questão é quem vai assumir a responsabilidade pela qualificação e formação de todo esse contingente.

Um estudo realizado pela Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo) e encomendado pela Abramat (Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção) revelou as dimensões do desafio: para que a totalidade dos trabalhadores da construção (entre formais e informais) tenha uma educação compatível com os quatro primeiros anos do ensino formal é preciso capacitar meio milhão de pessoas. Esse número sobe para mais de 1,1 milhão quando se pensa em cumprir a lei, garantindo o ensino fundamental ou os oito primeiros anos de ensino dos operários da construção. Segundo o professor Francisco Ferreira Cardoso, do Departamento de Construção Civil da Poli-USP, 80% dos trabalhadores do setor têm menos de quatro anos de estudo e 20% são analfabetos funcionais. Para além da sala de aula, o cenário também é preocupante: apenas os trabalhadores formais - que hoje, de acordo com dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), representam 30% do total dos 4.743.095 milhões de pessoas empregadas pelo setor - receberam algum tipo de treinamento técnico. O restante, que representa 72,4% do mercado de trabalho (ou os quase 3,5 milhões de trabalhadores), opera no sistema informal, não contribuem para a Previdência Social e nunca receberam nenhum tipo de treinamento ou qualificação. Para piorar, o alto índice de rotatividade do setor impede uma formação continuada, já que em média 55% dos funcionários ficam menos de um ano na mesma empresa e em torno de 30% permanecem até seis meses.

Não existe articulação entre os agentes da indústria. "Falta visão estratégica, seja das empresas, das entidades representativas e dos governos", diz Cardoso. Para José Gabriel, secretário de educação da CNTI (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria), essa precariedade da mão-de-obra advém de um ciclo de desaquecimento do investimento e de desestímulo à construção iniciado no início dos anos 80 e que culminou, em 1986, na destituição do BNH (Banco Nacional da Habitação), responsável na época pelas políticas, diretrizes e grandes projetos habitacionais.

De onde vem o gargalo
Naquela época, os mecanismos criados pelo governo Sarney, como o Plano Cruzado e o congelamento de preços e de salários para conter a inflação, resultaram numa defasagem entre a correção monetária das prestações e o rendimento das cadernetas de poupança, fazendo com que as parcelas do financiamento da habitação, ao passar dos meses, aumentassem, em vez de diminuir. "O setor da construção passou a perder muito de sua força na economia, e como não havia um ambiente favorável para o desenvolvimento dos sistemas construtivos, engessou", diz José Gabriel.

Sem condições de se desenvolver, a construção não apenas deixou de investir no aprimoramento de seus funcionários como também atraiu uma mão-de-obra menos qualificada, perdendo seus profissionais para as indústrias metalúrgica, têxtil e automobilística, mais atrativas.

O mercado já sente a falta de carpinteiros, armadores e mestres. Em São Paulo, 400 de mil vagas solicitadas ao Sintracon não foram preenchidas

Apesar de algumas reivindicações do movimento sindical no final da década de 80 e até das melhorias trazidas, durante o governo Collor, pelo então ministro do trabalho Rogério Magri, que reorganizou a Caixa Econômica Federal e o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), o setor da construção só começou a se reerguer no governo de Fernando Henrique Cardoso. Nesse período, possibilitadas pela abertura da economia, as empresas de ponta começaram a importar tecnologias, equipamentos e modernizar os métodos construtivos.

"A abertura da economia e a introdução de inovações no processo produtivo criaram um novo paradigma da construção, que rompeu com o método artesanal de construir e inaugurou uma forma mais racionalizada e industrializada de trabalhar, pautada na construção seca e em obras sistêmicas", diz Roberto Mingroni, consultor da Fundação Vanzolini.

As tubulações de cobre dos sistemas hidráulicos começaram a conviver com as de polipropileno, que chegam prontas no canteiro. O mesmo aconteceu com as fachadas que, quando pré-moldadas, passaram a ser construídas fora da obra. Paredes divisórias de blocos ganharam a concorrência dos painéis de gesso acartonado, o drywall, apenas para citar alguns exemplos (veja boxe). As gruas, que antes eram absorvidas quase exclusivamente pelo setor de infra-estrutura, também passaram a ser vistas nos canteiros das edificações carregando paletes com blocos embalados.

Paralelamente, o acirramento da concorrência forçou as empresas a promoverem mudanças profundas em seus processos de gestão e a aprimorarem seus desempenhos técnicos/econômicos. Como conseqüência, começaram a despontar sistemas de gestão da qualidade compatíveis com a norma ISO 9000, como a NR-18 e, mais tarde, iniciativas como o PBQP-H (Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat), que tem como objetivo "elevar os patamares da qualidade e produtividade da construção civil, por meio da criação e implantação de mecanismos de modernização tecnológica e gerencial".

Entretanto, esse cenário, apesar de exigir profissionais com conhecimentos e atitudes bastante diferentes das qualificações formais requeridas pelas organizações do trabalho anteriores aos novos paradigmas produtivos, não foi acompanhado pela qualificação da mão-de-obra, que agora precisa responder às exigências de qualidade, produtividade, redução de perdas e desperdícios, controle e sustentabilidade.

O operário braçal está perdendo gradativamente seu espaço nos canteiros, que agora, cada vez mais industrializados, requerem a figura do montador. Se por um lado essa mudança gradual promovida pela industrialização e intensa automação exige um profissional mais qualificado, por outro revela uma tendência de encolhimento da base da pirâmide da construção.

De acordo com Roberto Mingroni, da Fundação Vanzolini, hoje se constrói um mesmo empreendimento com no mínimo um terço ou menos da quantidade de operários que se necessitava há dez anos. Geórgio Vanossi, diretor de engenharia da Setin, confirma: "Para construir uma fachada no modo convencional, por exemplo, calcula-se uma média de 80 itens ou tarefas, entre serviços, equipamentos e pessoas. Já com fachada pré-moldada, não estimo mais do que três etapas".

De acordo com ele, apesar dos processos produtivos facilitarem o trabalho operacional, uma vez que muitas peças já vêm prontas da fábrica, exigem um controle muito maior. Ele exemplifica: a métrica passa a ser o milímetro e não centímetro; a organização é sistemática; a tolerância ao risco é diminuta; as soluções de quebra-galho, como quebrar parte de um tijolo ou bloco para adaptá-lo à alvenaria, são proibidas; os materiais já vêm nas medidas previstas pelo projeto, que deve ser seguido à risca, e as ferramentas são mais sofisticadas.


É claro que em se tratando de um mercado que abriga cerca de 172 mil empresas informais, esse cenário de automação é ainda uma realidade restrita à elite da construção, ao mercado formal ou apenas às grandes empresas. Basta um passeio entre os empreendimentos para encontrar tanto o mestre-de-obras analfabeto e que executa seus projetos segundo a tradição, como aquele que trabalha com um laptop e tem plenos conhecimentos de gestão e administração da obra. Mas também é verdade que em menor ou maior proporção, o sintoma está presente em todo o setor.

Antonio de Sousa Ramalho, presidente do Sintracon-SP (Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil), diz que recentemente a entidade recebeu a solicitação de mil trabalhadores, mas que, devido ao nível de qualificação requerido, só conseguiu preencher 600 vagas, pouco mais que a metade. "Temos emprego, mas não temos gente. Estamos prestes a viver o apagão da mão-de-obra. Precisamos formar a massa de desempregados do País", diz.

A pergunta é: Como? Na busca em atender o gap de gente especializada, salpicam iniciativas de qualificação em todo o País, vindas por parte de associações representativas (como o SindusCon-SP), fabricantes de materiais, organismos de capacitação (como o Senai), órgãos governamentais e até mesmo de construtoras e empreiteiras.

Nas entidades representativas, como Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção Civil) e Seconci (Serviço Social do Sindicato da Indústria da Construção Civil), diversos cursos em diferentes níveis atendem o mercado da construção. Os fabricantes também investem muito em qualificação, como o projeto Doutores da Construção, porém, em geral, apesar de serem bastante expressivas numericamente, trata-se de formações rápidas de duas ou três horas, de algumas palestras ou cursos de um dia.

As instituições de ensino como Senai e até mesmo o Cefet (Centro Federal de Educação Tecnológica) propõem uma formação mais abrangente, porém o alcance dessas iniciativas ainda é ínfimo. E quanto à iniciativa privada, em geral, as empresas qualificam seus funcionários a partir de critérios estabelecidos pelos sistemas de gestão da qualidade, de parcerias com centros de formação e até mesmo em salas de aula criadas em seus canteiros.

A Votorantim Cimentos conduz um projeto de formação de mão-de-obra para a construção civil em 13 Estados brasileiros. Chamado de "Futuro em Nossas Mãos", a iniciativa já capacitou, com cursos de três meses de duração, mais de 6.600 jovens na faixa etária de 18 a 24 anos, localizados em 71 municípios do País.

Por meio de parceria com o Senai e também de instituições públicas, empresas locais, sindicatos e ONGs, o projeto tem conseguido não apenas formar, como também inserir esses jovens no mercado de trabalho. Além da competência técnica, o curso aborda conceitos sobre direitos e deveres do jovem como cidadão, utilização de normas e procedimentos de qualidade e segurança, princípios básicos de trabalho em equipe, empreendedorismo e criatividade.

PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>
Destaques da Loja Pini
Aplicativos