Aparelhos economizadores | Construção Mercado

Debates Técnicos

Aparelhos economizadores

Edição 75 - Outubro/2007


Mesa-redonda
Aparelhos economizadores


Construção mercado 75 - outubro 2007
As tecnologias para economia e controle do uso de água nas edificações encarecem muito o orçamento das obras?

Silvio Chaimovitz
- Se praticarmos tudo o que o mercado vem estudando, de fato existe um aumento no custo. O que temos feito é analisar o que é possível ser incorporado - e existem itens que já temos adotado, sem onerar o negócio demasiadamente.

Que itens são esses?

Chaimovitz
- Por exemplo: nos nossos empreendimentos, a água de chuva cai para uma piscininha, é conduzida até outra caixa d'água, filtrada e, por fim, alimenta toda a parte de lavagem do térreo.

Marcio Augusto Araújo - O Nordeste tem uma cultura maior de uso de água de chuva. Na região Sul, o primeiro caso aconteceu só em 1974. Para implantar esse sistema, é preciso que se tenha muito cuidado para que a água não seja usada em situações de potabilidade. Porque, mesmo de chuva, ela pode conter coliformes fecais, totais e bactérias.

Sergio Boaventura - Do ponto de vista ambiental, o aproveitamento de água de chuva oferece vantagens mínimas.

Araújo - Se houver um bom dimensionamento do sistema, é uma vantagem sim. Existe um estudo na Austrália que aponta que, adotado em conjunto com o reúso de águas servidas, o aproveitamento de água de chuva possibilita uma economia de até 80% em toda a água utilizada numa edificação.

Chaimovitz - Além do uso de água de chuva, outro aspecto que implementamos é a entrega das obras com a infra-estrutura para medição remota de água e gás. A individualização é capaz de reduzir em 30% o consumo de água num condomínio - cada um paga o que efetivamente gasta. Estamos também fazendo um estudo para já entregar os empreendimentos com os medidores, de modo a não repassar o ônus para o condomínio. Ao longo desses sete anos, vimos que os administradores demoram em torno de três anos para comprar e instalar o sistema.

Até onde é possível incorporar outros instrumentos economizadores de água?

Chaimovitz
- Algumas empresas já vêm fazendo reutilização de águas cinzas. É promovido um tratamento e essa água volta para alimentar as bacias sanitárias. Realizamos um estudo de custo e vimos que esse recurso encarece bastante no item das instalações. Então não temos adotado.

Douglas Barreto - Os mecanismos de economia de água estão começando a virar prática comum. Várias construtoras já viram que o aproveitamento de água de chuva não tem custo tão elevado. É um negócio viável, tratamento primário simples. Já o reúso da água cinza é um passo mais crítico. Demanda muito cuidado, uma atenção que ultrapassa os cinco anos de responsabilidade civil da obra - se o condomínio não administrar muito bem, essa água pode ser contaminada. Já na parte de equipamentos, a medição individualizada é uma vertente muito forte.



Osvaldo Oliveira Jr. - No que diz respeito à medição, temos visto um desconhecimento muito grande no mercado, por parte dos síndicos e dos próprios projetistas. Parece uma coisa muito simples, instalar um hidrômetro e pronto. Mas o dimensionamento do produto tem variáveis. Depende do tamanho do edifício, assim como é completamente diferente medir a água de uma casa e de um apartamento.

Vale dizer que o sistema de medição individualizada não tem um custo muito popular.

Barreto
- E não era para ser tão caro. Deve haver um desenvolvimento, por trás do preço, que está sendo pago agora. Acredito que o custo tenda a diminuir, porque a tecnologia de aquisição de dados e monitoramento é farta, disponível.

Oliveira jr. - Pior que o preço elevado é o fato de, muitas vezes, serem vendidos sistemas cujo hidrômetro não está dimensionado. Gera-se uma série de patologias nas tubulações. Outro aspecto é que muitas construtoras não deixam os espaços corretos, os pontos para se implantar a medição individualizada. São necessárias intervenções que encarecem ainda mais o projeto.

Barreto - Estamos falando de empreendimentos de um nível um pouco mais alto. Porque tenho experiências com prédios populares da CDHU (Companhia do Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo) em que o custo de implantação da medição individualizada foi baixíssimo, e trouxe uma economia da ordem de 15% a 20% em uma conta de água que já
era pequena.

Gabriel Aroca Gama - Temos que discutir todos esses fatores que envolvem o uso racional da água - reúso das águas cinzas, de esgoto, utilização da água de chuva, o sistema individualizado de medição. Todas as opções têm que ser cada vez mais empregadas de formas inteligentes, para que realmente produzam um certo impacto, não só ambiental, mas também econômico.

Adilton Schiavon - Além de viáveis, esses sistemas são um diferencial de venda dos empreendimentos. Basta que sejam aplicados com boa técnica.

Como o mercado avalia a regulamentação nesse setor?

Francisco Antunes de Vasconcellos Neto
- Questões ligadas à sustentabilidade têm feito com que a sociedade crie uma demanda. Para atender a essa demanda, os políticos freqüentemente saem na frente criando uma série de regras - que, na maioria das vezes, são estabelecidas com absoluto desconhecimento das dificuldades técnicas envolvidas. Não existem normas, nem tecnologia que seja efetivamente testada e assumida como viável. Há também um problema de saúde pública envolvido. E são poucos os fóruns que discutem isso com o nível de profundidade necessário.

Barreto - As leis saem com amparo político e jurídico. Amparo técnico, não.

Newton Figueiredo - Os políticos estão sendo pressionados fortemente, e vai sair, certamente, uma legislação atrás da outra. Tivemos há pouco a polêmica da obrigatoriedade do aquecimento solar, depois do amianto, já está na assembléia a discussão quanto ao uso de madeira certificada - e virão muitas outras. A iniciativa privada deve se mobilizar para que essa avalanche de leis saia na direção correta.

Eric Roberto Deuber - A regulamentação deve existir, sim. Mas, por outro lado, o governo precisa conceder incentivos. Em Nova York, por exemplo, existe um sistema segundo o qual a pessoa que fizer a troca da bacia sanitária recebe um desconto na tarifa de água durante algum tempo.

Araújo - Em toda a união européia, os sistemas economizadores de água atendem a normas técnicas específicas do mercado, de desempenho mecânico. Além disso, existe o diferencial ambiental, proporcionado por uma rotulagem que aponta aparelhos ecologicamente corretos.


João Carlos Farias - No município de Joinville, em Santa Catarina, já existe uma legislação em vigor há muitos anos. Ela determina que banheiros públicos de edifícios comerciais tenham produtos economizadores. E não é só uma lei municipal; está em trâmite para ser implementada também na esfera federal.

Chaimovitz - Não enxergo que o governo está preparado para tomar atitudes impondo regras. O assunto vai se resolver com o aumento do custo da água. Se isso acontecer, certamente as pessoas vão começar a se movimentar na adoção de medidas de economia. O governo pode ajudar nesse momento: em firmar taxas mais caras para um volume maior de consumo, e mais baratas para quem gasta menos.

É verdade que há uma demanda por produtos maior do que as construtoras absorvem?

Ricardo Aued - Isso varia de acordo com o grau de conhecimento da população quanto a este ou aquele instrumento de economia. Nos anos 90, ocorreram iniciativas muito boas ligadas à caixa acoplada e à válvula de descarga. Muito embora os especialistas saibam que existem escalas de importância no que diz respeito ao vilão do consumo. E o chuveiro é o grande vilão, muito mais do que a válvula de descarga. Os vazamentos são o segundo vilão.

sergio Boaventura - A máquina de lavar roupas também é uma violência. Num certo caso em que trabalhamos, o consumo dela equivalia ao gasto da válvula de descarga, da lavagem de piso e do regamento de jardim - e ainda sobrava água.

Marco Yamada - No consumo da válvula de descarga, o grande vilão é o consumidor, que pressiona e fica segurando. É uma questão de conscientização que leva tempo para ser incorporada. São necessários produtos que ajudem nisso, como válvulas de duplo acionamento, entre outros.

O que pode ser feito além da conscientização dos usuários?

Plínio Grisolia
- A primeira ação, numa estratégia de uso racional de água, é o controle da demanda dos pontos. Imaginem que uma cidade como São Paulo, com uma população total perto de 20 milhões de habitantes, teria quase um bilhão de torneiras. A Universidade de São Paulo, por exemplo, economizou R$ 126 milhões em água num período de oito anos só com procedimentos de controle da demanda e algumas ações de combate a vazamentos.

Francisco José de Toledo Piza - Temos que fazer um critério de certificação dos produtos. E além de educar a população, educar também os profissionais. As pessoas não sabem o que compram, nem o que especificam. Um exemplo disso é que os artigos técnicos só falam em economia de água nos prédios, quando 70% da população brasileira vive em casas.

Toledo Piza - A certificação é um dos instrumentos importantes que nós temos, mas não é o único e, na minha visão, nem é o melhor. Não acredito nela como único instrumento que vá levar à sustentabilidade na construção. E por não acreditar nisso é que eu e uma série de profissionais nos mobilizamos para criar o CBCS (Conselho Brasileiro de Construção Sustentável) - que entendemos ser a forma mais abrangente e correta de se tratar o assunto.

Araújo - No que toca à certificação, é um mix de abordagens que vai trazer aquilo que chamamos de sustentabilidade. O sistema de certificação da Inglaterra, por exemplo, já contemplou cerca de 60 mil obras. O detalhe é que eles têm uma divisão para certificar residências também. Isso é muito importante, porque se não atingimos o consumidor final, não tem como conscientizar ninguém.

A construção evoluiu na forma como as edificações são projetadas visando ao consumo eficiente de água?


Toledo Piza - Embora nós convivamos com empresas de ponta, no que diz respeito ao uso de tecnologias, sabemos que o mercado de forma geral não é assim. O que acontece é que há uma carência de profissionais de projeto. E digo mais: os bons projetistas, dos bons escritórios, estão fazendo maus projetos porque não têm condições de se dedicar ao que produzem.

Chaimovitz - Acho que as grandes empresas estão melhorando. Os projetos têm pensado em novidades tecnológicas para atender a essa questão do consumo de água. Mas quando se coloca na ponta do lápis, não cabe na conta. A solução é difundir os conceitos. Uma vez que isso acontecer, os preços vão cair - e a regra vale para bacias de dois estágios, medidor individualizado, irrigação automatizada e outros sistemas.

Schiavon - O problema é que, nos projetos, a forma de dimensionar esses novos equipamentos continua a mesma. Não adianta o projetista especificar que um chuveiro, por exemplo, fornece 8 l de água por minuto. De repente não é aquilo que, dentro do contexto, vai pesar, mas sim o tubo de 4" para alimentar o equipamento.

Chaimovitz - Naturalmente, existem projetistas e projetistas. Não acredito que seja essa a realidade do mercado das grandes empresas, que trabalham com profissionais preparados, que mantêm contato direto junto aos fornecedores. Há até uma responsabilidade técnica, tanto do projetista como do construtor, em fazer com que o sistema hidráulico funcione.

Marcos Pantaleão Silveira - Sinto que as construtoras impedem, sim, a entrada de novas tecnologias no mercado. Só seguem aquilo que já está estabelecido. Trabalho também na área industrial e vejo que lá está ocorrendo uma mudança forte no quesito consumo da água. As empresas utilizam cinco vezes a mesma água no processo produtivo - e a idéia é de que passem a utilizar até dez vezes.

A indústria é mais regulamentada do que o setor da construção?

Silveira
- Não sei se é mais regulamentada, mas existe a preocupação de se aprimorar cada vez mais no uso da água.

Toledo Piza - A indústria investe numa economia de água da qual ela se beneficia diretamente. Já as construtoras não têm nenhum tipo de incentivo para aplicar em sistemas economizadores; e, mesmo assim, muitas investem nesses sistemas - ainda que enfrentem uma concorrente logo ao lado que não se preocupou com o assunto, e oferece apartamentos a preços equivalentes aos seus.

Patrícia Gaspar - No ramo industrial, a viabilidade econômica se faz muito mais presente. O forte dessas empresas é que elas trabalham com grandes volumes de água, acima de 3 mil m3 por mês. Isso possibilita que obtenham tarifações menores. Já nas edificações residenciais há uma dificuldade por conta do consumo reduzido. Sem contar que uma estação de água demanda monitoramento que não pode ficar a cargo do zelador.

Figueiredo - Devemos notar que a indústria sempre foi pressionada a estar à frente nas ondas de competitividade, pelo seu grande impacto ambiental. Então ela foi se adequando às legislações, sempre foi mais forte. No caso da construção civil, existem construtoras que têm ISO 9.000 ou ISO 14.000, mas o prédio não tem. Enquanto a indústria fica sob pressão, no seu processo produtivo permanente, a construtora pode construir o seu edifício e dali para a frente não é mais com ela. Daí, portanto, essa mobilização mundial de criação e estabelecimento de green buildings.