Mesa-redonda: o futuro da construção | Construção Mercado

Debates Técnicos

Mesa-redonda: o futuro da construção

Edição 85 - Agosto/2008

Fotos: Marcelo Scandaroli
Dirigentes setoriais, empresários e profissionais debatem o futuro da construção no SindusCon-SP

Futuro da construção
Futuro da construção em debate
Mesa-redonda analisa perspectivas do setor pelas óticas da sustentabilidade e da valorização profissional
Quais as conseqüências do boom imobiliário para o setor e a sociedade? Como capacitar mão-de-obra para esse crescimento? Os modelos de certificação propostos vão promover a sustentabilidade na construção? Essas foram algumas das questões sugeridas pela PINI a dez especialistas do setor, em evento promovido pela editora, na sede do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo), no último dia 1o de julho.

Intitulado "O Futuro da Construção Civil no Brasil - Como Garantir o Desenvolvimento Sustentável e a Valorização dos Profissionais", o evento fez parte das celebrações pelos 60 anos de fundação da PINI. A cadeia produtiva esteve representada em sua diversidade por arquitetos, construtores (tanto da área imobiliária quanto de obras públicas), professores/pesquisadores, consultores e agentes financeiros.

O debate foi dividido em três painéis: o primeiro abordou questões ligadas ao ciclo de expansão da indústria da construção; o segundo concentrou-se em avaliar o futuro dos profissionais do setor; e o último foi direcionado à temática da sustentabilidade e dos desafios que o conceito apresenta à cadeia.

Cada especialista focou análises em seu segmento de atuação, identificando problemas e, por vezes, sugerindo soluções. O valor de um encontro como esses está justamente na oportunidade de idéias pulverizadas serem postas em comparação direta umas com as outras. Identificam-se respaldos e divergências valiosas ao trabalho de cada agente - num setor que, apesar de viver da integração entre as especialidades, tem tido poucas chances de refletir em conjunto, em virtude do elevado volume de demanda dos últimos tempos.

Acompanhe, a seguir, alguns dos principais desmembramentos de cada painel:

1. Painel Ciclo de Expansão da Indústria da Construção Civil

Abordagens propostas:

>> Quais as conseqüências do boom imobiliário para o setor e a sociedade?
>> Indústria de materiais de construção: tecnologia, custos e capacidade de produção.
>> Avaliação das obras do PAC e situação da infra-estrutura no País.

Acabou o amadorismo
"Todos nós fomos pegos de surpresa. Ninguém previa esse crescimento tão contundente e tão acelerado, como está acontecendo. Aposto na sustentação desse momento por um período de cinco a dez anos, em virtude do compromisso que as empresas têm - pelo menos as listadas na Bolsa de Valores."

"Parece-me que estamos vivendo um momento de alto profissionalismo. Não tem mais aquele amadorismo da década de 80, quando o médico, contador, dentista faziam incorporação de um edifício, e o prédio muitas vezes nem terminava. Hoje está havendo controle de gestão, sabe-se onde se quer chegar. O investimento está sendo astronômico."
Salvador Benevides, SindusCon-SP e Formaplan

Sem infra-estrutura, País não vai crescer
"Participamos de diversos fóruns de competitividade, onde se discute muito como vamos resolver a questão da habitação popular. Mas precisamos de transporte, saneamento, infra-estrutura para instalar grandes pólos residenciais. Por que no Rio de Janeiro os morros estão sendo tomados pelas favelas? Pela falta de infra-estrutura. Sem infra-estrutura, não vamos nos enganar, o País não vai crescer."

"Temos dificuldade de projetar o consumo de aço no País pela falta de previsibilidade em relação ao crescimento. As expectativas do Banco Central são de um crescimento, nos próximos anos, de 4% a 4,2%. É muito pouco."

"Há 26 anos o Brasil consome 100 kg de aço por habitante. No ano passado, fomos a 116. Se crescermos 4% ao ano, teremos, em 2015, 200 kg. A China consome 230 kg por ano, depois de ter consumido 30 kg em 1980."
Catia Mac Cord, CBCA (Centro Brasileiro da Construção em Aço)


Maçahico Tisaka, consultor

Fiscalização severa
"Do início da década de 80 até hoje, as empresas que atuam no setor de obras públicas têm tido uma taxa de desenvolvimento muito baixa. Muitas foram se deteriorando aos poucos. As mais eficientes migraram para a área privada. Aquelas que persistiram estão em situação de sucateamento."

"Pela lei que criou o pregão (no 10.520), não é possível fazer licitação para obras e serviços de engenharia. Está explícito na regulamentação. No entanto, nossos políticos propõem emendas que são totalmente contrárias à legislação em vigor."

"Os tribunais de contas e as controladorias gerais da União têm atuado de forma extremamente severa na fiscalização dos contratos que essas empresas [de obras públicas] fazem. E os seus dirigentes, tanto os agentes públicos quanto as empresas privadas, são punidos de forma até indiscriminada."
Maçahico Tisaka, consultor


Augusto Vargas, Caixa Econômica Federal

PAC: admissão de mil profissionais
"Acompanhamos de perto mais de 20% das obras do PAC - entre R$ 110 e R$ 115 bilhões. Fizemos um concurso recentemente para admissão de mil novos profissionais da área técnica, exatamente para fazer esse acompanhamento."

"Poucos países no mundo têm ritmo e potencial de crescimento como o Brasil. Não obstante possamos ter alguns problemas ainda não detectados claramente, apresentamos algumas vantagens comparativas muito fortes, para um crescimento sustentado por um bom período."

"Com relação ao financiamento de baixa renda, não se trata de descobrir a roda novamente. Todos os países do mundo que trabalharam financiamento como uma solução do déficit habitacional separaram o que é habitação para a faixa da população que não tem condições de pagar e o que é a habitação para a parte da população que tem condições de pagar - quando então se faz habitação de mercado."
Augusto Vargas, Caixa Econômica Federal


Siegbert Zanettini, Zanettini Arquitetura, Planejamento e Consultoria

Exportadores de matéria-prima
"Fala-se muito em infra-estrutura; temos o maior leito fluvial do mundo e não sabemos como utilizar. No fim do século 18, em 1875, tínhamos o maior parque ferroviário da América Latina. Isso foi posto de lado porque veio a lógica do petróleo."

"Temos que investir profundamente em educação. Nenhum país se desenvolveu sem educação - o Japão é exemplo típico disso, um país menor do que o Estado de São Paulo que, nos últimos 50 anos, se transformou na segunda potência mundial."

"Nossa obra é para rico, feita para uma classe privilegiada."

"Somos colônia há 500 anos. Meros produtores de matéria-prima. Vemos a Vale do Rio Doce se orgulhar de exportar minério. Isso é o maior absurdo que pode existir: nós, que somos uma montanha de ferro, vendo essa montanha desmontar sem agregarmos valor algum."
Siegbert Zanettini, Zanettini Arquitetura, Planejamento e Consultoria


2. Painel Futuro dos profissionais da Indústria da Construção Civil

Abordagens propostas:

>> Como capacitar mão-de-obra para o crescimento do setor?
>> Como deverá ser o profissional do futuro na construção, engenharia civil e arquitetura?
>> Quais serão as novas demandas?
>> Quais as adaptações necessárias nos cursos de formação de engenheiros civis e de arquitetos?

Software sofisticados
"Chama muito a atenção a distância fenomenal que existe entre a iniciativa privada e a academia. Exemplo são alguns software sofisticados, com uma dificuldade maior de aplicação. Dentro do quadro de profissionais dos escritórios, é muito difícil conseguir implementar. Por outro lado, existe uma série de instituições que detêm esse conhecimento. Mas quando você faz contato para sugerir essa aproximação, elas apresentam dificuldade no entendimento das demandas reais."

"Nos próximos anos, vai haver uma convergência grande no sentido de se passar a desenvolver projetos avaliando desempenho de uma obra. O profissional terá que demonstrar o desempenho da mesma forma como hoje se demonstra no manual de um automóvel."
Paulo Lisboa, Asbea (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura)


Ercio Thomaz, pesquisador do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo)

Muita administração, pouca engenharia
"Dou aula de pós-graduação em gerenciamento de empreendimentos na construção civil. Entre os alunos, tinha gente que não sabia o que é chapisco."

"Está se tentando ensinar muita administração, gerenciamento, MBA, empreendedorismo, liderança, quando o que precisamos é de engenharia e arquitetura."

"Precisamos de uma formação técnica forte; que se conheçam novos materiais, novos sistemas. E não tem jeito: arquiteto precisa saber história da arte, precisa ter uma formação humana, noção de materiais, de tecnologia. E o engenheiro precisa saber calcular, projetar."

"Enquanto não valorizarmos uma profissão chamada 'professor', a situação não caminha. Tem professor ganhando por aí mais ou menos o que ganha um meio-oficial."
Ercio Thomaz, pesquisador do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo)

Ética no recrutamento
"Além dos cursos de engenharia, deveríamos investir também nos cursos técnicos. Num país como o nosso, onde há falta de dinheiro, um curso técnico exige menos tempo de estudos e com menos tempo o trabalhador teria uma formação e começaria a ser produtivo."

"Apesar dos bons salários que estamos pagando, não conseguimos competir com os bancos. As boas cabeças, que saem bem treinadas, são levadas pelos bancos. Por que pagam mais? Por que oferecem cursos, ou é elegante trabalhar em banco? Não sei. Só sei que essa competição é desleal."

"Outra coisa que está acontecendo fortemente: nossos profissionais estão sendo recrutados pela Petrobras. Se não apresento gente boa para o cliente, ele não me contrata; se apresento, a Petrobras leva. É um problema ético."
Carlos Zveibil Neto, Apeop (Associação Paulista de Empresários de Obras Públicas)


Ricardo França, França e Associados

Estagiário-toca-obra
"Preocupa-me bastante a improvisação de profissionais que está acontecendo. O engenheiro faz duas obras e já é coordenador. Quem toca a obra do dia-a-dia é um estagiário sem qualificação."

"As pesquisas acadêmicas vão para projetos que não têm nada a ver com a realidade. Quem possui experiência na área profissional não tem valorização na universidade de hoje."

"Na área de arquitetura é necessária a mesma especialização que existe em outros países do mundo. A pessoa não pode exercer um trabalho especializado só com diploma de arquiteto. Tem que fazer cursos, obrigatoriamente, para poder se credenciar."
Ricardo França, França e Associados

Disputados a tapa
"Por 25 anos, não houve investimento na construção. As grandes obras, de maior responsabilidade, escassearam de tal forma que os jovens formados dessa época para cá praticamente não adquiriram capacitação - não têm acervo para apresentar."

"Há um ano, estávamos precisando de um engenheiro, recém-formado, com pouca experiência. Fizemos anúncio num jornal. Apareceram 50 candidatos. Nenhum foi aproveitado. Não conheciam as coisas elementares; não sabiam montar uma planilha de custos."

"Quem teve uma boa escola, boa orientação, está mais bem preparado, esses representam a minoria - e são disputados a tapa. As empresas pagam a eles salários muito acima do que seria o normal. Mas a grande maioria vive numa situação de total desvalorização, em termos de conhecimento de engenharia."
Maçahico Tisaka, consultor


Gianfranco Vannucchi, Königsberger Vannucchi Arquitetos Associados

Cursos para arquitetos
"Com os riscos que temos de correr no dia-a-dia, espero que não aconteça nada, mas que estamos abrindo os flancos violentamente, estamos."

"Criei, em meu escritório, minicursos para os arquitetos de maior potencial. Não é o ideal, mas é o possível nesse momento."
Gianfranco Vannucchi, Königsberger Vannucchi Arquitetos Associados


3. Painel Desafios da Sustentabilidade da Indústria da Construção Civil

Abordagens propostas:

>> Como criar programas e ações reais, evitando as ações irresponsáveis de marketing?
>> Os modelos de certificação propostos vão promover a sustentabilidade na construção civil?
>> Qual deve ser o papel dos Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) para a promoção da sustentabilidade no setor?


Salvador Benevides, SindusCon-SP e Formaplan

Sustentabilidade engatinha
"Hoje se colocam no prédio lixeiras coloridas, uma minuteria para controle de iluminação, reaproveitamento de água de chuva e pronto: já é considerado prédio sustentável. A construtora já divulga que é preocupação com o meio ambiente."

"Vamos ainda naquele negócio de tentativa e erro. Vai investir em sustentabilidade quem quiser. Agora, tem a pressão natural do mercado, pressão natural das exigências legais, prefeitura e Estado participando. O lixo tem que melhorar, o transporte desse lixo tem que melhorar. No meu entender, estamos ainda engatinhando para ter uma posição mais profissional."
Salvador Benevides, SindusCon-SP e Formaplan

Custo tem que ser competitivo
"Nós, arquitetos, temos um papel muito importante de convencimento dos nossos clientes. É fundamental apresentarmos soluções viáveis, de bom senso - que muitas vezes não custam muito caro. É muito difícil vender essas soluções. Nem por culpa do incorporador: é o custo, que tem de ser competitivo. Se você começa a tentar muita coisa, sai fora do mercado."

"Reaproveitamento de água de chuva não é coisa simples, é uma coisa cara. Energia solar, mesma coisa: não é só colocar meia dúzia de plaquinhas em cima do edifício que vai resolver. As instituições deveriam criar repertórios de soluções inteligentes para o Brasil - porque não adianta vir com solução da Suécia, Inglaterra, que a conta não fecha."
Gianfranco Vannucchi, Königsberger Vannucchi Arquitetos Associados


Carlos Zveibil Neto, Apeop (Associação Paulista de Empresários de Obras Públicas)

Fazedores de obras
"Os materiais que estão especificados não permitem que nós, empreiteiros de infra-estrutura, tenhamos uma colaboração efetiva na sustentabilidade. Somos fazedores de obras, não temos ação pró-ativa nesse assunto."

"A grande contribuição que podemos dar é na diminuição do desperdício. Por outro lado, insistir junto aos governos que tratem o esgoto e o lixo. Somos um País em que apenas 17% do esgoto e 7% do lixo são convenientemente tratados."
Carlos Zveibil Neto, Apeop (Associação Paulista de Empresários de Obras Públicas)


Paulo Lisboa, vice-presidente da AsBEA (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura)

Bicicleta sem ciclovia
"A sustentabilidade é um processo. Não existe algo totalmente sustentável. É sempre em relação a alguma outra coisa. Enquanto processo, é uma evolução, uma intenção, um desejo. E projeto é isso: intenção, desejo, adequação. Não há um momento na produção em que se fala: 'agora vou transformar isso num projeto sustentável'. O projeto precisa nascer sustentável."

"Para aferirmos níveis de sustentabilidade, existem as certificações. Como é que o usuário, o comprador, vai assimilar que aquele projeto é mais sustentável do que aquele outro? Só pelo marketing da empresa ou existe alguma instituição, alguém que possa fazer essa afirmação? Agora, certificação não é um objetivo. É resultado de um processo. E os modelos existentes não são necessariamente os mais adequados à realidade nacional. Há um caso em que um dos elementos que definem pontuação é a existência de um bicicletário. Só que, na maioria absoluta das cidades grandes, não há ciclovia, não há espaço para bicicleta."
Paulo Lisboa, vice-presidente da AsBEA (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura)


Catia Mac Cord, gerente-executiva do CBCA (Centro Brasileiro da Construção em Aço)

Norma de desempenho
"Três dimensões precisam ser vistas: o social, o ambiental e o economicamente viável. No Conselho Brasileiro da Construção Sustentável, estamos coletando recomendações para seleção de materiais - um diagnóstico setorial de práticas de sustentabilidade, com um banco de dados de análise de ciclo de vida. Nesse ponto, o aço dá de dez a zero. Já tem um trabalho feito em nível internacional, que está sendo aprimorado. 94% dos resíduos gerados são reutilizáveis."

"Norma de desempenho tem que vir para pegar. Precisa pegar. Porque está diretamente ligada à sustentabilidade."
Catia Mac Cord, gerente-executiva do CBCA (Centro Brasileiro da Construção em Aço)


Por Thiago Oliveira
Construção mercado 85 - agosto 2008

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