Aquecimento solar de água | Construção Mercado

Debates Técnicos

Aquecimento solar de água

Edição 88 - Novembro/2008
FOTOS: MARCELO SCANDAROLI

Aquecimento solar de água


Por Guilherme Conte
Construção mercado 88 - novembro 2008

Mercado busca as melhores alternativas para implantação do aquecimento solar de água em conjunto com outras fontes e com a medição individualizada
Desafios técnicos
Não é de hoje que a busca por soluções alternativas e sustentáveis vem ganhando espaço em setores diversos. Na construção civil, ela fica mais patente devido ao impacto ambiental das obras e, depois, dos ambientes já construídos. Além disso, no Brasil, a questão ganha outra faceta: para o País crescer a taxas adequadas, a questão energética é uma das principais condicionantes. Nesse contexto, o aquecimento solar, se projetado e instalado com aprofundamento técnico, pode dar contribuição valiosa.

Um desafio que tem sido enfrentado pelo mercado é encontrar o melhor casamento entre o aquecimento solar e outro sistema, para suprir a demanda de energia em caso de dias nublados ou na impossibilidade de aquecimento solar durante a noite. "Essa é uma questão realmente complexa", destaca o engenheiro Alberto Fossa, da MDJ Assessoria e Engenharia Consultiva. "Do ponto de vista energético, o gás é uma grande solução, pois estamos utilizando uma fonte de energia primária na aplicação final, diminuindo perdas de conversões ou transporte de energia. O problema realmente reside no adequado dimensionamento da composição do sistema solar e a gás", explica.

José Jorge Chaguri Jr., especialista em hidráulica e sistemas de aquecimento do Sindinstalação (Sindicato da Indústria da Instalação do Estado de São Paulo), acredita ser questão de tempo para que os desafios técnicos sejam superados. "O solar é uma ótima solução, mas temos que incorporá-lo tecnicamente", afirma.

Para Fossa, da MDJ, as características bastante peculiares de funcionamento do sistema solar exigem atenção. "Elementos como eficiência dos coletores, volumes de armazenamento, tipos de distribuição da água, entre outros, precisam ser levados em consideração", afirma.

O dimensionamento do sistema solar e outro auxiliar não é o único nó a ser desatado. Outro ponto que exige atenção - e que tem sido acompanhado principalmente pelas administradoras de condomínio - é a combinação da medição individualizada de água com o aquecimento solar. "Chega-se a questionar como coordenar a pessoa que toma banho à tarde, que usa a energia gratuitamente do aquecimento solar, com a pessoa que toma banho de manhã e usa o gás. Há a expectativa de que, dependendo de como se faça, mude até o comportamento das pessoas. A idéia é discutir e achar soluções. Tudo isso vem da parte de projeto. É questão de amadurecimento", acredita Chaguri.

Lei divide especialistas
Recentemente, a lei municipal 14.459, regulamentada em janeiro último na cidade de São Paulo, trouxe a questão do aquecimento solar à tona e ampliou o debate técnico acerca do sistema. A lei dispõe que todos os novos prédios e casas com mais de dois banheiros devem garantir um mínimo de 40% de aquecimento de água por meio de energia solar.

A questão divide especialistas. Do ponto de vista técnico, falta consenso a respeito de caminhos e soluções para a adequação à lei. Os fabricantes são enfáticos em dizer que o mercado existente no Brasil pode sim dar conta de solucionar os desafios existentes, desde que haja um esforço conjunto de construtoras, incorporadoras, projetistas e engenheiros.

Para Luiz Fernando Lucho do Valle, presidente da Ecoesfera, a lei não só é viável como deveria também ser total, até para edificações com menos banheiros. "Há um efeito claro de conscientização. As soluções de economia têm de vir desde a construção, seja qual for o consumo", diz.


O arquiteto Paulo Lisboa, vice-presidente da AsBEA (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura), afirmou recentemente à PINIweb que o sistema de aquecimento solar de água inviabiliza a medição individual. "O sistema de aquecimento ficaria sendo coletivo e não individual, tendência contrária às recomendações para economizar água", um problema que, para ele, é mais crítico na cidade do que a economia de energia. A posição foi contestada por Carlos Faria, diretor do Dasol-Abrava (Departamento de Aquecimento Solar da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento). Para ele, "existem inúmeras soluções de medição individual de água quente usadas em todo o mundo, inclusive em programas de venda de água quente de companhias de energia nos Estados Unidos. Assim como se mede água fria, se mede água quente e as soluções estão disponíveis".

O ponto principal da divisão de opiniões no caso da cidade de São Paulo é o alto grau de verticalização das edificações, o que desafia o projeto de aquecimento solar. Para Francisco Vasconcellos, vice-presidente do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo), os problemas na lei existem sim. Mas ele esclarece que isso não significa que a entidade seja contrária ao uso do aquecimento solar. "Somos contra a forma com que as coisas foram feitas, sem levar em consideração todos os pontos levantados pelos representantes das construtoras, incorporadoras, projetistas e instaladores e o fato de que não há consenso entre as possíveis soluções apresentadas."

Para Vasconcellos, quem constrói está numa posição complicada. "Temos uma situação real de ter que cumprir uma lei sem ter elementos técnicos para isso", afirma. "Essa lei deveria ser inserida em uma política pública ampla. Uma lei eminentemente técnica, para ser feita, tem que levar em consideração todos os lados afetados."

Alberto Fossa tem opinião semelhante. Para ele, a lei é válida, mas a forma de discussão do tema não foi a mais adequada. "É necessário que sejam esclarecidos todos os pontos para que as construtoras possam implantar soluções adequadas, que venham a favorecer o usuário final e que atendam a premissa básica da intenção da lei que é economizar energia", conclui.


"Soluções ousadas já existem em alguns países, como no caso da França, onde empresas oferecem e vendem o "serviço de água quente", independentemente do sistema que estão utilizando" Alberto Fossa

ENTREVISTA - Alberto Fossa

Compatibilidade em questão

Há dúvida no mercado a respeito do melhor dimensionamento de um sistema combinando aquecimento solar e a gás de água. Qual a melhor saída?
Várias soluções observadas partem da análise isolada dos dois sistemas, agregando-se de forma independente o outro. O tratamento isolado da questão só gera soluções não eficientes. É necessária uma análise do funcionamento conjunto dos sistemas, para que a solução seja otimizada. As características de funcionamento do sistema solar são bastante particulares e elementos como eficiência dos coletores, volumes de armazenamento, tipos de distribuição da água, entre outros, precisam ser levados em consideração para uma resposta adequada do sistema.

E quanto à questão da medição individual de água e energia juntamente com o aquecimento solar. Quais as soluções já existentes?
Soluções ousadas já existem em alguns países, como na França, onde empresas oferecem e vendem o "serviço de água quente", independentemente do sistema que estão utilizando. Uma discussão interessante é o da uniformidade de uso. Se distribuímos água quente (aquecida por um sistema solar central) e temos complementos individuais para aquecimento, como determinar que o uso da energia "gratuita" do sol seja compartilhado por todos os moradores de um edifício? Depende essencialmente do tipo de sistema a ser escolhido. Aparentemente o mais democrático é o sistema onde exista um reservatório único para o edifício, solar e gás, distribuindo água quente para todos os apartamentos. Se medirmos a água quente utilizada em cada apartamento, conseguimos, de forma precisa, cobrar pelo uso do gás necessário a complementar o sistema solar. Mas como fica essa questão em sistemas indiretos, ou em sistemas de complementos individuais como o exemplo citado? Cada caso vai exigir uma solução. As tecnologias estão disponíveis, mas existe ainda muita dúvida sobre qual a melhor maneira de se individualizar a cobrança.

Quais são os principais aspectos que devem ser observados por quem quer fazer uso do aquecimento solar de água?
Analisar cuidadosamente a necessidade de demanda de água quente, inclusive avaliando excessos e eventuais exageros, considerando uma racionalidade do uso da água. Identificar a real aplicabilidade do próprio sistema solar, em função do nível de insolação da região, das características de eficiência dos coletores, dos padrões e volumes de armazenamento. Estabelecer uma estrutura hidráulica compatível com a necessidade dos usuários, pensando em conforto, mensuração individual do uso de água e energia para aquecimento complementar. Não esquecer das condições de vida do sistema, uma vez que cada solução carrega consigo as particularidades de manutenção e adequação ao longo da vida útil. Considerados esses aspectos, podemos usufruir tranqüilamente dos benefícios dessa energia limpa e gratuita.

Alberto Fossa, diretor da MDJ Assessoria e Engenharia Consultiva


Mesa-redonda
FOTOS: MARCELO SCANDAROLI

Neste ano, principalmente com a sustentabilidade entrando em pauta para valer no setor, vocês sentiram algum reflexo em vendas?

Marcelo Borges
- No caso da Cumulus, sentimos bastante, principalmente
em São José do Rio Preto, e até mesmo em São Paulo, tanto em uso residencial como comercial. A previsão é de crescimento grande.

Frederico Dantas dos Santos - Desde o apagão em 2001 o mercado de aquecimento solar tem crescido a taxas bem generosas, dois dígitos praticamente todo ano. É uma tendência mundial. No ano passado, com a lei [dos aquecedores em São Paulo], gerou-se uma expectativa bem maior de crescimento para este ano. Ela ainda não se concretizou, tem um delay de aplicação da lei, mas o mercado continua crescendo bem. No caso da Tuma, crescemos o ano passado 35%, e este ano esperamos crescer na faixa de 30%.

Joel Lima - De 2008 para 2009 a expectativa da Ouro Fino é triplicar a produção, voltada sobretudo para uma linha popular, no Brasil todo, com foco nas residências.

A aprovação da lei dos aquecedores solares em São Paulo deu início a um debate entre construtoras e os agentes do setor sobre o aquecimento solar. Um dos pontos levantados foi o de que o aquecimento solar inviabiliza a medição individual de água. A questão é: inviabiliza ou não?

José Jorge Chaguri Jr.
- Estamos montando um grupo de discussão sobre isso. Uma coisa é dimensionar um sistema solar, outra um a gás, outra o intermediário. Como casar? A individualização é um ponto preocupante, com dúvidas, até pelas administradoras de condomínio, sobre esse rateio de água e energia. O mercado está com essas dúvidas. As discussões estão girando em se precisa ou não, não está se discutindo como será feito. É uma oportunidade. Há também a preocupação de as soluções serem dadas de qualquer forma, não tecnicamente. Há uma tendência a aparecerem coisas ineficientes. Em vez de auxiliar uma grande solução, tendem a fazer o contrário, a todos acharem uma forma de não colocar. O solar é uma ótima solução, mas temos que incorporá-lo tecnicamente.

Santos - A Tuma está baseada em Belo Horizonte, uma cidade em que o aquecimento solar em edifícios acabou se desenvolvendo por iniciativa própria, e não por lei. As construtoras viam obstáculos, como agora, e a engenharia entrou em cena. Num esforço conjunto de fabricantes e projetistas das construtoras, no intuito de dar um diferencial na construção, soluções foram criadas. Em São Paulo hoje temos desafios que eu via há 15 anos em Minas. Há variáveis diferentes daquelas, mas não são intransponíveis. Como isso veio por lei, estamos na fase de só enxergar os obstáculos. Daqui a pouco a poeira baixa e vamos ver as soluções.

Em que momento deve ser pensado o projeto de aquecimento solar?

Borges
- O sistema tem que nascer na arquitetura, estudar a estrutura, se há as condições para integração, a hidráulica, se há compatibilização. É diferente de um sistema elétrico, em que você adapta aqui ou ali.

Santos - O prédio é um sistema vivo, e os subsistemas interagem para que ele possa funcionar bem. Temos dois sistemas: geração de água e distribuição de água, em que muitas vezes se confundem os limites, mas eles são absolutamente interligados. Não adianta ter um bom sem o outro. No início da década de 90, quando começou a se disseminar em Belo Horizonte o uso de aquecedores solares em prédios, havia problemas que muitas vezes denegriram a imagem do produto. A Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) resolveu mapear esses problemas. Descobriu-se que na geração estavam 11% dos problemas. O resto era arquitetura, hidráulica e uma série de outras coisas. Ficou clara a falta de interação entre os sistemas que provocou a pane.


Chaguri - O projeto é a parte mais importante. Não há duvida de que o solar funciona muito bem. O gás funciona bem. A dúvida é os dois juntos. Sobre distribuição, a melhor forma de trabalhar com o gás acoplado ao solar, há milhares de alternativas. Quanto à individualização, chega-se a questionar como coordenar a pessoa que toma banho à tarde, que usa a energia gratuitamente do aquecimento solar, com a pessoa que toma banho de manhã e usa o gás. Há a expectativa de que dependendo de como se faça, mude até o comportamento das pessoas. A idéia é discutir e achar soluções. Tudo isso vem da parte de projeto, é questão de amadurecimento.

Santos - A medição individualizada é uma tormenta. O desafio não é compatibilizar o solar com a medição, mas sim o sistema central de aquecimento com a medição individualizada.

Chaguri - Quando há aquecimento central, existe uma ponte única, com um custo fixo rateado. Divide-se a água quente e o gás proporcional. Quando se entra com uma energia a custo zero, uns são beneficiados e outros não. É uma dúvida dos condomínios. Qual é a solução, em vez de medir água, é medir energia?

Em relação à compatibilização, em que ponto está essa discussão? O que já existe feito, quais são os desafios?

Santos
- O sistema solar, por utilizar uma energia que não está disponível 100% do tempo, é uma fonte alternativa, precisa de um backup. O sistema solar por si só já é híbrido: solar-gás, solar-elétrico, solar-lenha... O que muda é na noção de híbrido solar, em que o solar é principal e outro é coadjuvante. Em São Paulo a tendência é o contrário, o solar será coadjuvante, reduzindo custos. O desafio de ter híbridos funcionando já foi superado. A realidade nova é juntar as três coisas: o solar, o gás numa proporção menor e a medição individualizada.

Onde estão as principais causas de patologias no sistema de aquecimento solar: projeto, instalação, manutenção?

Borges
- Uma grande concentração está na instalação e em condições desfavoráveis do local para esse trabalho: vende-se, mas não se olha se o local tem condição, tem placa malposicionada, mal-instalada, ou se a instalação é malfeita.

Santos - Antigamente os fabricantes faziam os produtos, projetavam, instalavam e mantinham. Com o crescimento do mercado foram surgindo maus profissionais. A tendência de que o fornecedor faça a manutenção e até a instalação é cada vez menor. Há um mercado de instaladores à parte dos fornecedores. De que forma isso está sendo contornado? O primeiro grande passo foi do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial), com o selo Qualisol. O segundo passo foi a criação de uma norma (NBR 15569) de projeto e instalação. Ou seja, isso não é mais feito pela experiência. Outro passo foi dado com a Abrava (Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento) junto ao governo, com a criação de centros de treinamento de instaladores. Há um projeto-piloto em Belo Horizonte, junto com os Senais e o programa Sol Brasil. E há planos de ir para outras cidades.

Joel Lima - Em relação ao dimensionamento em prédios, o sistema de recirculação é um dos pontos principais de problemas, sobretudo nos andares inferiores, nos quais as pessoas têm o problema da água chegar numa temperatura inferior.


Como está a capacidade do setor para atender à demanda?

Borges
- No caso de construtoras, não temos tido problemas. Em São Paulo ainda estão todos tentando entender as coisas.

Santos - Do ponto de vista produtivo, a maioria das empresas já vem se preparando há alguns anos. Elas têm até capacidade ociosa. O que está acontecendo são os fornecedores criando departamentos de engenharia para dar suporte às construtoras. Não é só uma questão de produto, os projetistas estão trabalhando juntos.

Chaguri - Na parte de instalação, a demanda está saturada. Está difícil achar instalador, o mercado está começando a inflacionar essa falta. O mercado está aquecido. Há uma preocupação do sindicato na parte de qualidade. A Abrinstal (Associação Brasileira pela Conformidade e Eficiência de Instalações) foi criada para isso, e temos o Qualinstal (Programa de Qualificação de Empresas Instaladoras). As companhias de gás estão exigindo. Esse processo não é tão volátil, as empresas não conseguem se estruturar muito rápido. Não tem mão-de-obra, mas estamos nos preparando para isso. Há perspectivas boas de crescimento.

Santos - Em termos de construtores de modo geral, eu vislumbro um futuro não distante das próprias construtoras instalarem os sistemas, com a qualificação de seus quadros. Não é imediato, mas não está longe.

Quais cuidados devem ser tomados na hora de cotação e compras? Como comparar marcas diferentes?

Santos
- Há uns dez anos era bem complicado. Isso melhorou muito, temos ferramentas que auxiliam. Em relação a dimensionamento, temos uma norma que funciona muito bem. Para produtos, o Inmetro é fundamental. Os produtos são testados sob normas internacionais. E há a Abrava, que está à disposição para consultas e informações.

Vocês podem fazer uma síntese da situação atual do mercado?

Santos
- O interessante, à parte a questão da lei paulistana, é que, com a divulgação, as construtoras percebam que o sistema de aquecimento solar é um atrativo a mais, que agrega valor à construção. É interessante ver o feedback do usuário bem-sucedido, que percebe que toma um banho confortável e que a conta de energia é menor. As construtoras cada vez mais se preocupam com conforto e bem-estar, e nesse ponto o sistema de aquecimento solar é muito importante.

Chaguri - A energia solar tem um mercado quase que totalmente aberto para recebê-la. Há pouca utilização ainda, e deve ser agregada a outras disponibilidades. As empresas de gás não querem competir, querem se juntar. O foco de sustentabilidade, de uso racional, já não é mais discutido. A questão hoje é em relação às boas práticas: equipamentos adequados, boas instalações, empresas qualificadas, sistemas eficientes. O energético renovável tem que ser eficiente. A discussão é boa porque denota interesse do mercado. Há muitas dúvidas, questões culturais, de mercado, econômicas. É valor agregado, mas até quanto o consumidor está disposto a pagar por ele?