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Campo impulsiona Cuiabá

Números do agronegócio fomentam construção civil em Cuiabá e região, ao lado de demanda por infraestrutura e recursos federais para habitação de baixa renda

Por Thiago Oliveira
Edição 93 - Abril/2009

Divulgação: Secom-MT
Com a crise, grandes incorporadoras deixaram de assediar Cuiabá (foto) e adjacências, mas construtoras locais retomaram sua força
Ao mesmo tempo em que lidam com as questões particulares de seus setores, os empresários do Mato Grosso se mantêm de olho no desempenho do agronegócio no Estado. Compreensível: é do campo que saem as riquezas que dão sustentação à economia local.

Ainda que a crise mundial coloque os produtores em estado de alerta, não há indícios de que a região vá perder o destaque que conquistou em diversas culturas. O Estado é o maior produtor de soja e algodão do País, além de possuir o segundo maior rebanho bovino e a segunda maior produção nacional de milho. As exportações do agronegócio mato-grossense ficaram em quarto lugar no ranking brasileiro de 2008, somando US$ 7,7 bilhões, em 2007, esse número foi de US$ 5,03 bilhões. 

Apoiada na liquidez difundida por tais resultados, a construção civil em Cuiabá e cidades próximas segue alheia à onda de restrições que tomou conta da maioria dos mercados. Ao menos por enquanto, os efeitos do novo cenário revelam inclusive facetas positivas. "Acho que essa crise foi até boa porque acabou aquele negócio de falta de cimento, falta de aço", afirma Luiz Carlos Richter, presidente do Sinduscon-MT (Sindicato das Indústrias da Construção do Estado de Mato Grosso).

Segundo o dirigente, se o setor continuasse no ritmo de expansão galopante em que vinha até setembro do ano passado, a escassez de materiais e a inflação nos preços seriam cada vez mais problemáticas. "Hoje o custo do aço e do cimento já diminuiu. Estamos com um crescimento mais sustentado, o pessoal colocou mais o pé no chão", analisa.

A previsão da entidade é de que em 2009 o setor cresça 10% em relação a 2007 - que "já foi um ano muito bom", de acordo com Luiz Richte. O ano passado não entraria na conta devido ao seu caráter excepcional; seria inviável, na atual conjuntura, igualá-lo e ainda superá-lo - o que não indica necessariamente retração. As porcentagens são calculadas com base no consumo das principais matérias-primas da construção, volume de empregos no setor e também pela somatória de projetos aprovados, em metros quadrados, nas prefeituras.

Vendas na crise
Quando os problemas no crédito começaram a surgir, dando origem a dificuldades no setor por todo o Brasil, as construtoras do Mato Grosso não estavam nem endividadas, nem alavancadas. A observação é do empresário Júlio Cesar de Almeida Braz, sócio-diretor da Ginco Empreendimentos, que atua no ramo de condomínios horizontais em Cuiabá desde 2001. "Estávamos com projetos em andamento e, de certa forma, não mudamos nada", garante.

A afirmação é comprovada no lançamento pela Ginco, em novembro de 2008 (período de latência da crise), de um conjunto de três condomínios que somam 860 casas na faixa dos 60 m². "Apenas em 90 dias, vendemos mais de 700 unidades", comemora Braz. "Tínhamos a expectativa de concluir a comercialização em um ano e meio, e vamos conseguir antecipar o encerramento das vendas para menos de seis meses."

No outro segmento de atuação da Ginco, o de imóveis de padrão mais elevado, o reflexo imediato da turbulência mundial foi uma elevação nas vendas, nos meses de setembro e outubro do ano passado. "Muita gente que estava investindo no mercado financeiro, na bolsa de valores, tirou rapidamente o dinheiro e buscou um porto seguro, caso do imóvel", explica Braz.

Depois dos meses de novembro e dezembro estabilizados no que toca à procura dos compradores, o sócio-diretor da Ginco voltou a experimentar incremento nas vendas em janeiro e fevereiro deste ano. "A leitura que faço é a seguinte: estamos um pouco distantes desse processo que vem ocorrendo nos grandes centros", diz Júlio Cesar Braz.

Como consequência mais evidente do freio do setor, o mercado imobiliário de Cuiabá e arredores sentiu o sumiço das grandes empresas que haviam entrado na região. A novidade não está sendo exatamente lamentada pelos construtores locais. Havia queixas quanto à concorrência predatória de algumas incorporadoras de capital aberto, oriundas, sobretudo, de São Paulo. "Toda semana tinha alguém aqui. Estávamos avaliando uma área por R$ 3 milhões, chegavam e ofereciam R$ 10 milhões", lembra Braz. "Isso acabou completamente."

Marcos Bergamasco/Secom
Casas populares no bairro Recanto dos Pássaros, em Cuiabá: mercado espera R$ 600 milhões em créditos da Caixa para habitação, este ano
Mais investimentos
Se por um lado companhias fortes do ramo alimentício, como Sadia e Perdigão, congelaram investimentos polpudos que fariam no Mato Grosso, prejudicadas pela crise financeira, por outro lado o ano de 2009 corre recheado de boas perspectivas. Uma delas está ligada à reativação das obras de PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) no Estado, várias das quais paralisadas no ano passado por questões ambientais, de invasão de áreas indígenas, entre outros motivos.

Na seara da habitação de interesse social, as previsões são também muito otimistas, baseadas no volume de financiamentos a serem liberados pela Caixa Econômica Federal. "Em 2008, a Caixa investiu mais de R$ 300 milhões no Estado, por meio de diversas linhas de crédito. Este ano, a notícia é de que serão mais de R$ 600 milhões", relata Luiz Richter, do Sinduscon-MT. Os recursos viriam do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e da Caderneta de Poupança, além de integrarem o escopo do PAR (Programa de Arrendamento Residencial).

"O Governo do Estado também contribui por meio do Fethab (Fundo Estadual de Transporte e Habitação), entrando principalmente com recursos necessários para a infraestrutura dos bairros, enquanto a Caixa financia as habitações", esclarece Júlio Cesar Braz, da Ginco.

Outro fator de intensa expectativa dos empresários mato-grossenses é o anúncio (adiado para o mês de maio) das cidades que serão sede da Copa do Mundo no Brasil, em 2014. Cuiabá é uma das candidatas à escolha da Fifa (Federação Internacional de Futebol). Caso se confirme, a paisagem local mudará radicalmente. "Há tudo por fazer, ainda", resume Braz.

Para o presidente do Sinduscon-MT, a confirmação do evento no município vai repercutir num aspecto já delicado hoje: a falta (em volume e qualificação) de mão-de-obra na construção civil do Estado. "Esse é o nosso principal gargalo hoje", acredita Luiz Richter. "Nos grandes centros, há possibilidade de se tirar mão-de-obra de alguma outra área para trabalhar na construção. Aqui não dá, temos uma limitação. Outros setores, como o agronegócio, estão remunerando muito bem os funcionários."

O sócio-diretor da Ginco Empreendimentos confirma a dificuldade. "Para se ter ideia, um empresário do setor chegou a fazer uma promoção: os funcionários que permanecessem na empresa iriam participar, no final do ano, do sorteio de uma motocicleta por cada obra", relata Braz. "Esse é o caminho: cada construtora segurar seus operários como puder".

Sobre o tema da qualificação profissional, vale mencionar a Escola da Construção, inaugurada em dezembro de 2007 em Cuiabá pelo Senai-MT (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Mato Grosso). A unidade oferece mais de 60 cursos, como apontador de obras, pintor, instalador hidráulico e predial, assentador de revestimento cerâmico, armador de ferros, pedreiro, entre outros.

RESUMO DA REGIÃO
Por que não sentiu a crise?
A construção civil na região tem sido "protegida" pela força do agronegócio no Estado.

Principais investimentos na região
Perspectiva de R$ 600 milhões em 2009, para financiamento habitacional, oriundos da Caixa Econômica Federal.

Oportunidades
Imóveis para baixa renda são a principal janela no momento. Caso a cidade se confirme como sede da Copa do Mundo, investimentos gerais em infraestrutura serão necessários, uma vez que "há tudo por fazer", incluindo obras viárias, de transporte público e empreendimentos comerciais e hoteleiros.

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Confira dados de emprego na construção civil e no agronegócio no Estado do Mato Grosso