Goiânia: na esteira de 2008 | Construção Mercado

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Goiânia: na esteira de 2008

Pesados investimentos realizados no ano passado garantem crescimento da região

Por Guilherme Conte
Edição 93 - Abril/2009

Divulgação: Consciente Construtora
Nos últimos meses, número de lançamentos para classes média e baixa tem compensado retração no nicho de alta renda em Goiânia
Em meio ao pânico dos mercados mundiais, os ventos de crise parecem ter atingido apenas brandamente a região de Goiânia. Incrustada no coração do Planalto Central, a jovem cidade - 75 anos de idade - de pouco mais de dois milhões de habitantes segue firme. Goiás foi um dos oito Estados brasileiros que apresentaram saldo positivo de emprego em fevereiro. Quais as razões dessa paz?

O fato de Goiânia não ter uma cultura de mercado financeiro como o eixo Rio- São Paulo talvez seja um primeiro indicativo para responder à questão. Assim, os setores que mais sofreram são os mais dependentes do mercado externo e que operam com moeda estrangeira, e os que atuam pesado no mercado financeiro, que representam uma parcela pequena da economia goiana.

"Passamos um 2008 com muitos investimentos em vários segmentos da economia, como agronegócio, mineração e indústrias alcooleiras", afirma Roberto Elias, presidente do Sinduscon-GO (Sindicato da Indústria da Construção do Estado de Goiás). "Isso teve um efeito residual que perdurou e ainda se mantém nesse início de 2009."

Essa solidez fica evidente quando se olha para os números da construção. Uma pesquisa da Ademi-GO (Associação dos Dirigentes do Mercado Imobiliário) sobre lançamentos imobiliários mostra que entre janeiro de 2008 e janeiro de 2009 Goiânia teve um total de 8.077 unidades vendidas, média de 642 por mês. O total de recursos movimentados nessas transações foi de R$ 1.711.224.975.

"O que percebemos de saída ao olhar para esses resultados é que a demanda existe e é real", analisa Ilézio Ferreira, presidente da Ademi-GO. "As expectativas para esses meses se mantêm nos mesmos patamares." Como aconteceu nos demais mercados, os imóveis de mais alto padrão tiveram uma retração, mas que foram compensados com folga pelos lançamentos para as classes mais baixas. Elias aponta os imóveis entre 50 m2 e 75 m2 e com valor de venda até R$ 150 mil como um filão importante.

O mercado imobiliário de Goiânia comporta outro segmento que também tem sentido pouco os efeitos da crise: compra e venda de imóvel usado e locação. A desaceleração enfrentada no segundo semestre, sobretudo nos meses de mais incerteza (entre setembro e novembro), foi completamente superada já em janeiro, principalmente nos imóveis residenciais; os comerciais, naturalmente, sofreram um pouco mais.

"A análise que temos feito é que a necessidade de locação é perene", diz Marcelo Baiocchi, presidente do Secovi-GO (Sindicato da Habitação do Estado de Goiás). "A pessoa pode até passar a morar em um imóvel menor e mais barato, mas não vai deixar de ser inquilina", explica. Na avaliação de Baiocchi, isso garante aquecimento constante do setor, e a procura por imóveis para locação como fonte de renda é um importante alvo de investimentos.

Cultura do financiamento
Uma peculiaridade do mercado imobiliário goiano, especialmente distinta quando comparada à realidade dos mercados do Sudeste, é a ainda incipiente participação dos financiamentos bancários no total de transações imobiliárias. Esse é um desafio apontado pelos profissionais do setor para dar um salto no número de empreendimentos, sobretudo nas classes mais baixas. Há quem especule, até, que o fato de a Encol - construtora que faliu em 1997 - ter nascido em Goiânia seja um fator psicológico que influa o mercado até os dias de hoje.

"Para atender à demanda das classes mais baixas é fundamental ter financiamentos bancários, prazos longos e juros baixos", afirma Roberto Elias, do Sinduscon. Ele também avalia que os recursos do PAC que ainda não vieram são de suma importância para que a construção ganhe vulto. "O mercado imobiliário quer empreender principalmente no entorno de Goiânia, mas esbarra na não liberação das AVTO's (Análise de Viabilidade Técnica Operacional). Sem elas, não aprovamos os projetos e não se pode construir para a população de renda mais baixa."

Em meio a esse cenário, há expectativa considerável em torno do pacote do presidente Lula para fomentar a habitação entre as classes mais baixas. "Estamos aguardando essas ações com ansiedade", diz Ilézio Ferreira, da Ademi.

"A nosso ver, os principais benefícios para a iniciativa privada advindos desse projeto devem ser colhidos no longo prazo", avalia Marcelo Baiocchi, do Secovi. "Num espaço de cinco ou dez anos essas pessoas devem começar a procurar novos imóveis, o que também vai gerar um impacto positivo no setor." Ele também espera que a Caixa Econômica Federal atue mais no fomento à produção, não só concentrando os esforços na figura do adquirente de imóveis. "É preciso estimular toda a cadeia do negócio."

Em consonância com o sentimento geral dos agentes imobiliários e da construção por todo o País, os goianos são unânimes em apontar um esforço para uma desburocratização geral: no acesso ao crédito, na aprovação de projetos, no licenciamento ambiental. "Temos que simplificar e facilitar a vida de quem quer empreender no País", diz Roberto Elias, do Sinduscon. "Perdemos muito tempo e dinheiro."

"Hoje todas as nossas obras têm uma série de valores agregados que demandam custos", explica Ferreira. "Também temos uma expectativa muito grande de que os juros pagos ao financiamento habitacional possam ser deduzidos do IR, de uma redução na taxa de juros e no IOF para o setor imobiliário, além do IPI sobre os materiais, principalmente para as habitações de baixa renda."

Copa do mundo
Por fim, há uma grande expectativa para a nomeação de Goiânia como uma das cidades-sede da Copa do Mundo de futebol de 2014. Em se confirmando, ela trará uma série de pesados investimentos em infraestrutura. "Goiânia vai virar um grande canteiro de obras", diz Ferreira.

Há uma lista grande de obras que vão movimentar toda a cidade, caso eleita: a ampliação do aeroporto, a construção do anel viário, uma nova estação de tratamento de água, duplicação de rodovias, a reforma do estádio e do autódromo, um novo zoológico e um novo parque agropecuário, entre diversas outras.

Além disso, a estrutura hoteleira necessariamente terá que passar por uma radical ampliação - em Goiânia, hoje, só há um hotel cinco estrelas. O potencial turístico da região ainda é muito pouco explorado, com baixas taxas de permanência de turistas. Mesmo que a seleção brasileira não ganhe a taça, os goianos terão muito o que comemorar se a cidade for uma das sedes.

RESUMO DA REGIÃO
Por que não sentiu a crise?
De acordo com as fontes da reportagem, os investimentos em 2008 em Goiânia se concentraram principalmente em produção e infraestrutura, notadamente em agronegócio e usinas sucroalcooleiras. Os setores mais sensíveis às turbulências do mercado seriam os atrelados a recursos estrangeiros.

Principais investimentos na região
Na construção, os principais investimentos estão concentrados no setor de habitação, sobretudo para as classes C e D.

Oportunidades
Embora haja demanda considerável para imóveis de alto padrão, as residências de classe média e baixa são a atração do setor. Há grande expectativa, também, para o possível anúncio de Goiânia como uma das cidades-sede da Copa do Mundo de 2014, o que atrairia pesados investimentos na infraestrutura da cidade, desde aeroportos e avenidas até estrutura hoteleira e turística.