Brasília em obras | Construção Mercado

Negócios

NEGÓCIOS

Brasília em obras

Mais de R$ 1 bilhão em obras de infraestrutura já licitadas, novo bairro de 200 hectares e estabilidade do funcionalismo público sustentam a construção brasiliense

Por Iago Bolívar
Edição 93 - Abril/2009

Marcelo Scandaroli
Em Brasília e em cidades-satélite como Águas Claras (foto), empresários do setor acreditam que os salários do funcionalismo federal devem garantir a estabilidade do mercado
O nível salarial e a estabilidade do funcionalismo público, assim como as obras de infraestrutura previstas pelo governo do Distrito Federal garantem à capital do País uma perspectiva de crescimento no mercado de construção acima da média nacional em meio à crise de crédito e de confiança na economia.

Quarenta e oito anos depois de construída, a cidade vive ainda a expectativa de uma nova grande onda de obras. A espera pode ser desencadeada pela provável escolha de Brasília como uma das 12 sedes da Copa do Mundo de futebol de 2014 e pela abertura de uma área de expansão imobiliária.  Por ser capital e ter feito investimentos de cerca de R$ 50 milhões no estádio do Bezerrão, a cidade é considerada uma das favoritas.

Mas representantes do setor de construção reconhecem que Brasília não está imune aos efeitos da crise e reduziram as expectativas altas de crescimento do setor, que continuam maiores à média nacional. 

"Nossa expectativa, antes da crise se manifestar, era de que tivéssemos um crescimento de 20 e poucos por cento este ano. Agora trabalhamos com a previsão de 15% de aumento sobre o ano passado", afirma Elson Ribeiro e Póvoa, presidente do Sinduscon-DF (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Distrito Federal).

Salários e infraestrutura   
Póvoa diz que esse crescimento se dá sobre um patamar elevado, já que em 2008 o setor de construção já havia crescido cerca de 20% em relação a 2007. O salário da elite do funcionalismo federal, que está em torno de R$ 10 mil, em média, mas pode chegar a R$ 24 mil, continua a ser determinante para a estabilidade do mercado na capital.

Entretanto, o empresário Gil Pereira, diretor presidente da construtora Emplavi - voltada para o segmento de alta renda - pondera a suposta estabilidade do mercado consumidor. "Do meu público, compradores de imóveis classe A, apenas 16% são funcionários públicos federais", diz o empresário, cujo principal lançamento este ano, um residencial para as classes A e B na cidade satélite de Águas Claras, está seguindo, segundo ele, esse padrão de vendas.

Para o construtor, a economia da capital se diversificou e se tornou mais complexa nos últimos anos, com o crescimento dos setores de serviços, comércio e indústria não poluente. O diretor conta que o choque inicial da crise financeira levou a uma redução de 30% nas vendas nos meses seguintes a setembro de 2008 em relação à igual período no ano anterior. Porém, meses depois a procura de clientes por novos empreendimentos oscilou, sem tendência muito forte.

Mas é na independência em relação aos mecanismos de financiamento bancários que reside uma das vantagens de certas empresas do setor de construção brasiliense para tocar obras e garantir condições de crédito a clientes. "O efeito da crise é avassalador sobre os agentes financeiros, mas nossa situação é mais tranquila porque essa é uma crise de crédito e  financiamos com recursos próprios tanto a obra quanto a venda para o cliente final", explica o empresário.

Outro fator de aquecimento desse mercado é o conjunto de construções de infraestrutura previsto para o Distrito Federal em 2009 e nos próximos anos. "Temos mais de mil obras públicas sendo realizadas, mais de R$ 1 bilhão em obras licitadas", calcula o presidente do Sinduscon-DF. "Temos, por exemplo, as obras do metrô, que já têm recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e as obras do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), que vai ligar o aeroporto e as áreas da W3 Sul e Norte, que também têm recursos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento)."

Em uma cidade tombada como Patrimônio Histórico da Humanidade e na qual as terras são monopólio do Estado, 2009 começou com uma medida longamente aguardada pelo setor imobiliário da capital e que deve ter efeitos "anticíclicos" em relação à crise financeira. Em janeiro, o governo do Distrito Federal licitou uma área no Setor Noroeste, em que 43 lotes residenciais e 11 comerciais foram vendidos por R$ 537 milhões. (Veja boxe.)

RESUMO DA REGIÃO
Por que não sentiu a crise?
Nível salarial superior ao funcionalismo público nacional; investimentos em infraestrutura garantidos e potencial de construção de um bairro de 200 hectares - o Setor Noroeste, recentemente licitado

Principais investimentos na região
Mais de mil obras públicas sendo realizadas e cifra superior a R$ 1 bilhão em projetos licitados, segundo o presidente do Sinduscon-DF. Entre os empreendimentos,  destacam-se: investimento de R$ 260 milhões na compra de 12 novos trens do metrô do DF e mais R$ 600 milhões para construção de cinco novas estações; construção   do VLT (Veículo Leve sobre Trilho) e de um terminal no final da Asa Sul; R$ 232 milhões   na construção do VLP (Veículo Leve sobre Pneus), que ligará o Gama a Santa Maria; construção de 43 lotes residenciais e 11 comerciais já vendidos por R$ 537 milhões

Oportunidades
Imóveis de alto padrão e projetos de infraestrutura, em especial de saneamento e transporte, e expansão imobiliária caso seja escolhida como uma das 12 sedes da Copa do Mundo de futebol de 2014

Setor Noroeste em trâmite
Anunciada pelo governo do Distrito Federal como a "maior licitação da história" da Terracap (Companhia Imobiliária de Brasília), a venda de lotes do Setor Noroeste, em janeiro deste ano, abriu uma nova área de expansão na cidade, que é apontada como uma oportunidade de investimento para empreendedores imobiliários e prestadores de serviço de construção.

Localizado em área nobre, no final da Asa Norte, entre o Parque Ecológico Burle Marx  e o Parque Nacional de Brasília (Água Mineral), o Setor Noroeste tem 200 ha e está sendo apresentado pelo governo brasiliense como o primeiro bairro ecológico do Brasil. A venda dos lotes deve aquecer o setor de construção não apenas devido aos novos imóveis particulares, mas porque o governo prometeu investir 100% dos R$ 537 milhões obtidos na licitação.

Segundo o diretor técnico e de fiscalização da Terracap, Luís Antônio Reis, 10% do valor arrecadado será investido em infraestrutura do próprio Setor Noroeste, 5% usado para urbanizar o Parque Burle Marx e outros 85% serão destinados às áreas em desenvolvimento do Distrito Federal, como a Estrutural, Sol Nascente, Pôr do Sol e Itapuã. "O Setor Noroeste ainda não tem nenhuma infraestrutura, tudo vai precisar ser construído e já há recursos para isso, que é o dinheiro da própria venda dos lotes", diz Elson Ribeiro e Póvoa, do Sinduscon-DF.

Ele diz acreditar que a venda dos imóveis a serem construídos no setor será um sucesso devido à grande demanda de pessoas que desejam morar no Plano Piloto. Gil Pereira, da Emplavi, adquirente de lotes no Setor Noroeste, afirma, entretanto, que nenhuma construção começou no local porque os novos proprietários ainda não receberam escrituras e não foi aprovado o alvará para nenhuma obra. "As pessoas pagaram, mas não têm escritura, norma de gabarito, nenhum prédio foi lançado ainda", reclama.

A assessoria da Terracap nega que haja qualquer problema na liberação da documentação. Para o presidente do Sinduscon-DF, é natural que o trâmite burocrático não seja imediato, mas ele acredita que os primeiros lançamentos devem ser feitos ainda em 2009.

Destaques da Loja Pini
Aplicativos