Conheça o fluxo de um sistema de reúso de águas cinzas em prédios residenciais

Os selos de sustentabilidade e a crise hídrica colocaram os sistemas de reúso de águas cinzas no foco de incorporadoras e construtoras. Chuveiros, lavatórios, tanques e máquinas de lavar fornecem esse tipo de água servida, que pode ser utilizada na lavagem de áreas comuns, na irrigação de jardins, no abastecimento de vasos sanitários e, no caso de empreendimentos comerciais, em torres de resfriamento e em aparelhos de ar-condicionado – as pias de cozinha e as águas já utilizadas nos vasos sanitários são consideradas águas negras e devem ser encaminhadas para a rede de esgoto.

A incorporadora Trisul decidiu substituir o sistema de captação de água da chuva pelo sistema de reúso de águas cinzas em todos os seus edifícios novos de padrões médio ou alto. A captação será realizada nos chuveiros e lavatórios, e a utilização, nos vasos sanitários das unidades. De acordo com o diretor técnico da companhia, Roberto Pastor, a adoção da reutilização das águas servidas não exigiu grandes adaptações em shafts ou em outros pontos dos projetos. Os investimentos necessários para a instalação do sistema, segundo ele, representam apenas 1% do valor dos empreendimentos.

A engenheira Sibylle Muller, diretora da fornecedora de estações de tratamento AcquaBrasilis, diz que os sistemas de reúso de águas cinzas podem custar de R$ 30 mil a R$ 200 mil, de acordo com a demanda de cada empreendimento, e o investimento costuma ser pago em aproximadamente dois anos de operação. Ainda segundo ela, o tratamento das águas servidas pode funcionar paralelamente a um sistema de captação de água pluvial.

Apesar do custo relativamente baixo de implantação, o reúso exige cuidados. A engenheira explica que a presença de matéria orgânica no fluido requer que ele seja tratado de maneira especial, de forma a eliminar odores e substâncias contaminantes. “Um simples filtro não resolve.”

Ainda não há uma norma técnica regrando o reúso das águas cinzas no País – uma minuta foi encaminhada à Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) no segundo semestre do ano passado, e a proposta deverá, nos próximos meses, motivar uma discussão interna na entidade para, só então, ser elaborada uma norma técnica. Em decorrência desse vácuo normativo, há muita variação entre os sistemas adotados nos empreendimentos, segundo Sibylle. Ela também diz que não há um entendimento internacional a respeito da abrangência do tratamento a ser adotado: alguns especialistas defendem que a água deve ser tratada de acordo com a finalidade de uso; outros acreditam que ela deva estar praticamente potável.

A contratação da fornecedora da estação de tratamento deve levar em conta a insegurança normativa. A Trisul, por exemplo, fez testes com três empresas, além de um profissional autônomo, antes de decidir qual solução seria reproduzida em seus projetos. O diretor do escritório de projetos de instalações Projetar, Cláudio Riva, lembra que o fornecedor deve se responsabilizar pela qualidade da água – em geral, a empresa oferece também o serviço de manutenção do sistema ou pode treinar funcionários do condomínio para isso.

A engenheira da AcquaBrasilis diz que, mesmo na ausência de norma, alguns documentos publicados dão informações de base. Um dos referenciais é o manual “Conservação e Reúso de Águas em Edificações”, publicado em 2005 pela Agência Nacional da Água (Ana) em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP). Já a norma técnica NBR 15.527 – Água da Chuva – Aproveitamento de Coberturas em Áreas Urbanas para Fins Não Potáveis – Requisitos traz um parâmetro mais simples, na medida em que diz respeito à reutilização exclusiva de águas pluviais, mais facilmente tratadas.

A implantação do reúso de águas cinzas deve ser fruto de um trabalho integrado dos projetistas hidráulicos e das empresas responsáveis pelos equipamentos de tratamento. Veja, a seguir, como funciona o sistema:

Ilustração: Daniel Beneventi

1. Fontes
A área de banho é a principal fonte de águas cinzas para os sistemas de reúso, e as águas dos lavatórios também são muito utilizadas. Embora os tanques e as máquinas de lavar roupas também forneçam águas servidas aptas à reutilização, em geral o aproveitamento dessas fontes é desnecessário, já que a demanda normalmente consegue ser atendida pelos chuveiros e os lavatórios; por outro lado, o tratamento pode ser complicado, na medida em que as águas das áreas de serviço podem ter maior quantidade de substâncias químicas.

2. Tubulações
A água de reúso deve ter uma prumada específica, isolada da coluna onde circula a água proveniente das empresas de abastecimento. A identificação das tubulações por meio de cores também é importante para evitar confusões. É importante lembrar que as águas cinzas, depois de tratadas, têm aparência similar às águas potáveis.

3. Tratamento
O tratamento normalmente é realizado no primeiro subsolo da edificação, nível em que é possível realizar descartes de material orgânico na rede pública de esgoto. A estação de tratamento ocupa um espaço de 10 m² a 20 m², dependendo da complexidade do tratamento adotado e do número de unidades atendidas.

4. Reserva
Depois de tratada, a água é bombeada para um reservatório exclusivo para água de reúso no topo da edificação. Pode ser realizada uma ligação atmosférica entre o reservatório que recebe a água potável da concessionária pública e o reservatório da água tratada. Essa medida garante que possa haver o abastecimento do sistema de reúso com água potável em casos de necessidade.

5. Distribuição
A água de reúso tratada também é distribuída por tubulação específica para seu destino. Normalmente, ela recebe um corante antes de ser encaminhada para a irrigação de jardins, para a lavagem do chão nas áreas comuns e para os vasos sanitários das unidades. Especialistas recomendam que sejam usadas, nos pontos de consumo, torneiras com cadeado, além de placas de aviso.

Apoio técnico: Cláudio Riva, Sibylle Muller e Roberto Pastor

Por Gustavo Coltri

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