Com redução da atividade da construção, uso de novas tecnologias de fôrmas e escoramentos pode incrementar produtividade e até reduzir custos

As construtoras e incorporadoras, com margens de lucro mais estreitas em função do atual momento do mercado imobiliário, estão sendo obrigadas a rever a maneira de contratar serviços e equipamentos. Esse cenário já afetou as empresas do setor de fôrmas e escoramentos, agora bem mais flexíveis do que nos tempos de boom.

“As construtoras estão solicitando outras formas de contratação, e os fornecedores estão cedendo a essa pressão. O controle de material e, consequentemente, o desperdício em obra, que tradicionalmente sempre foi de responsabilidade da construtora, está sendo assumido pelos fornecedores. Estamos tendo de assimilar mais esse custo”, observa Osvaldo Gamboa, diretor técnico da Associação Brasileira das Empresas de Fôrmas, Escoramentos e Acessos (Abrasfe) e diretor comercial da Doka.

Além de buscar custos menores, aumentar a produtividade por meio do uso de soluções inovadoras – como o sistema deck (caracterizado por painéis com cabeçais descendentes, os chamados dropheads) e as mesas voadoras, por exemplo – também é outra meta de algumas construtoras atualmente.

A Odebrecht Realizações Imobiliárias, por exemplo, apostou no uso dos decks para a execução das duas torres residenciais do empreendimento Homenagem Jaçanã, na capital paulista, e ganhou produtividade. “Os resultados foram muito satisfatórios. Conseguimos economizar 6% do custo total da obra com o uso do equipamento, comparado ao sistema convencional, e vamos incorporar essa solução em outros empreendimentos”, conta Dennys Gomez, engenheiro de obras da companhia.

Compra ou locação?
O uso dessas tecnologias de ponta, no entanto, ainda é restrito no Brasil. De acordo com Nilton Nazar, diretor da Hold Engenharia e professor do Instituto Mauá de Tecnologia, no segmento residencial o mais comum é moldar as estruturas com as tradicionais fôrmas de madeira e os escoramentos de madeira ou metálicos.

O engenheiro lembra que existem duas maneiras de contratar as fôrmas para concreto: a partir de projetos, para execução na própria obra, ou a partir da aquisição das peças prontas, produzidas por empresas especializadas. “No caso de cimbramentos, vale a mesma regra das fôrmas: ou são produzidos na obra ou comprados prontos no caso da madeira. Os escoramentos metálicos são usualmente adquiridos por locação”, explica.

“Hoje, 90% dos equipamentos são locados e 10%, vendidos”, observa Felipe Crudo, engenheiro comercial de vendas da Peri Brasil. A variação das tipologias de plantas (tornando mais difícil a padronização dos projetos e a contratação de um tipo único de solução) e a dificuldade encontrada pelas construtoras para manter e armazenar corretamente os equipamentos são apontados como fatores que explicam essa condição.

“Para adquirir os equipamentos, é preciso analisar a tipologia da estrutura, as condições de prazo e os recursos de obra”, lembra Gamboa, observando que, para obras com cronogramas mais curtos, estruturas muito robustas e sujeitas a alterações, a melhor opção ainda é apostar na locação.

Seja qual for a modalidade de aquisição, a escolha do fornecedor deve levar em conta a solução técnica de fôrmas e escoramentos, produtividade e qualidade das peças, logística de atendimento e suporte técnico oferecido pelas empresas.

Contratos
De maneira ideal, a contratação das fôrmas e escoramentos deve envolver a equipe de engenharia que tocará a obra e ser realizada antes da definição do produto imobiliário – para que o projeto possa ser ajustado de acordo com as especificidades do sistema. “É preciso pensar em contratar uma solução, e não apenas as peças isoladas. O ideal é envolver as empresas fornecedoras, que podem nos ajudar a escolher a melhor alternativa para cada obra”, observa Gomez.

Gamboa diz que as empresas locadoras não podem ser vistas como adversárias, e sim como parceiras. “Há consultores e pessoas especialistas nelas que podem ajudar a orientar a melhor contratação.”

Vale lembrar que a devolução dos equipamentos ainda segue sendo um dos pontos de estresse na relação entre fornecedor e construtora. Grande parte das indenizações, legais e previstas em contrato, ocorre por má utilização, manutenção e limpeza ou perda de peças durante a obra.

Para evitar contratempos e surpresas desagradáveis ao final da contratação, os contratos devem apresentar dados como prazos de locação, preço das peças, condições e prazos de pagamento e, sobretudo, os custos de reposição de cada peça em caso de avarias, perdas ou falta de manutenção. “O contrato de locação precisa ter cláusulas com regras claras e apresentar as condições específicas do acordo de fornecimento”, observa o diretor técnico da Abrasfe.

Cuidados no canteiro
Contar com uma gestão eficiente das etapas de recebimento, estocagem, utilização e devolução dos equipamentos é um cuidado fundamental para que as construtoras evitem sobrecustos. “Ainda é muito comum que ocorram problemas na devolução do material locado, justamente pela má gestão dentro do canteiro”, afirma Antônio Carlos Zorzi, diretor corporativo de engenharia da Cyrela Brazil Realty.

O engenheiro observa que grande parte dos problemas pode ser evitada apenas com um bom treinamento da mão de obra, que deve ser capacitada para tirar o máximo de proveito do equipamento no canteiro, garantindo o desempenho e a durabilidade previstos pelos sistemas de fôrmas e escoramentos.

O ideal, segundo especialistas, é contar com um funcionário que se responsabilize por cuidar dos equipamentos, como faz a construtora paulista Tarjab. Nos canteiros da empresa, que apostou na compra de fôrmas e escoramentos durante a expansão do setor imobiliário e hoje voltou a locar, as peças são verificadas, a cada obra, por dois funcionários especializados nesse tipo de conferência. “A tarefa não é muito simples devido à quantidade e ao formato das peças”, ressalta Rodrigo Yamamura, gerente de planejamento da Tarjab. No entanto, os resultados podem ser surpreendentes.

Após a implantação do sistema de recebimento e devolução, a construtora conseguiu reduzir drasticamente o valor das indenizações, que caíram de 20% do total do valor dos contratos para aproximadamente 1%. “Vale considerar, no entanto, que trabalhamos com mão de obra própria treinada e que nos ajuda a cuidar dos nossos ativos”, salienta.

Para garantir a correta manutenção e evitar perdas, é recomendável, antes do primeiro uso e na desmontagem, que as peças sejam organizadas na obra em caixas e paletes, seguindo todos os cuidados necessários ainda na desenforma, de modo a facilitar seu uso nas etapas subsequentes de aplicação.

Antes de cada concretagem, os fabricantes recomendam a aplicação de desmoldantes nos jogos de fôrmas. Após essa etapa, o ideal é aplicar um jato de água para retirar o excesso de concreto que fica depositado nas peças. “Todos esses procedimentos facilitam a próxima utilização, aumentam a durabilidade do equipamento no caso de compra e locação e evitam o risco de indenizações por limpeza e danificação dos equipamentos”, diz Gamboa.

Mesa-redonda

1. Dennys Gomez engenheiro de obras da Odebrecht Realizações Imobiliárias

2. Felipe Crudo engenheiro comercial de vendas da Peri Brasil

3. Rodrigo Yamamura gerente de planejamento da Tarjab

4. Nilton Nazar diretor da Hold Engenharia e professor do Instituto Mauá de Tecnologia

5. Wlademir Correa diretor comercial da Atex

6. Osvaldo Gamboa diretor técnico da Abrasfe e diretor comercial da Doka

7. Marcelo Carvalho gerente da unidade de São Paulo da SH

8. Ruberlito de Freitas diretor técnico Obraplan

9. Rogério Germano supervisor da área comercial da Etena’s

A desaceleração da construção civil tem afetado o ambiente de negócios e a maneira de contratação das fôrmas e escoramentos?
OSVALDO GAMBOA – O Brasil conta com empresas locadoras multinacionais e nacionais, que possuem diversos tipos de equipamentos para atender a diversos segmentos (residencial, comercial, industrial e infraestrutura). As multinacionais estão conseguindo enxugar despesas, retirar os equipamentos do País (e levar para outros mercados onde elas atuam), diminuindo seus estoques e, consequentemente, os custos de depreciação das peças. Já as empresas nacionais não têm essa margem de manobra e acabam disponibilizando os equipamentos no mercado a preços mais baixos.
FELIPE CRUDO – As multinacionais conseguem reduzir seus estoques vendendo seus equipamentos em mercados mais demandados. As modalidades de contratação por metro quadrado, na minha visão, funcionam bem, mas requerem um trabalho muito grande da empresa contratada, que deve ter um controle mais rigoroso sobre os seus equipamentos. O planejamento deve ser muito bem-feito com a construtora, com negociações bem articuladas.

Como as construtoras estão contratando esses equipamentos?
DENNYS GOMEZ – Estamos enxugando em todos as áreas, e as contratações foram afetadas. Os imóveis estão caindo de preço e, para que a gente consiga manter uma margem de lucro saudável, precisamos contratar mais barato todos os itens da cadeia. Na OR, procuramos contratar a solução (um sistema que atenda, da melhor maneira, a variáveis como prazo e produtividade), e não os equipamentos, antes da definição do produto imobiliário, inclusive. A engenharia ajusta o produto de acordo com o sistema de fôrmas e escoramentos que conseguimos viabilizar.
NILTON NAZAR – O ideal é contratar o melhor sistema para cada obra. Como consequência, a solução contratada sempre será a mais barata.
GAMBOA – Algumas construtoras ainda analisam apenas o preço final da fôrma e do escoramento por metro quadrado. É preciso levar em conta a produtividade do sistema eleito. A conta é muito mais complexa do que uma simples comparação entre equipamentos. Vale lembrar que é preciso colocar a solução certa para cada tipo de obra.
GOMEZ – Em geral, investimos em soluções mais caras de saída, mas que garantem produtividade e, consequentemente, vantagens econômicas para a obra.
RODRIGO YAMAMURA – Quando o mercado estava muito aquecido, em 2011, chegamos a comprar jogos de fôrmas e escoramentos. Mas essa modalidade de aquisição requer uma gestão e controle rigorosos dos equipamentos na obra. Nos últimos anos, voltamos à locação, mas a ideologia de controle dos ativos se manteve. Com esse cuidado, conseguimos reduzir o valor das indenizações por mau uso, que hoje está em torno de 1% e 2% do valor do contrato, contra índices que chegavam a 20% no passado. Mas vale observar que trabalhamos com mão de obra própria, o que facilita o treinamento e o controle do uso das peças na obra.

Ainda compensa comprar equipamentos, ou a locação é a melhor opção?
NAZAR – A compra exige um bom planejamento, que deve levar em conta aspectos como armazenamento, manutenção, projeto e se a sequência de obras padronizadas justifica a aquisição definitiva.
GOMEZ – A construtora tem de ter a certeza de que vai conseguir replicar o uso do equipamento em outros projetos. É mais difícil para a construtora fazer a gestão das peças do que para o fabricante. O investimento inicial na compra é maior, e o impacto é negativo no caixa na partida do projeto, já que o retorno do investimento só acontece quando o cliente final adquire o imóvel.
GAMBOA – Nos países europeus, a compra é muito mais comum do que no Brasil. Particularmente, acredito que, se a construtora tem sequência de obras, a modalidade da venda é bastante atrativa.
WLADEMIR CORREA – Hoje, 98% do nosso faturamento são de locação. Existem, sim, alguns contratos para compra, mas essa modalidade de aquisição é limitada por conta da falta de padronização dos projetos.

Há opções de fôrmas e escoramentos mais vantajosas nesse cenário de crise?
GOMEZ – Isso é indiferente, pois não usamos apenas um tipo de fôrma ou de escoramento. Sempre analisamos várias soluções e montamos comparativos entre elas.
NAZAR – Para prédios acima de dez pavimentos, estão sendo usados garfos de madeira, com grande produtividade, de 0,45 homem/hora por metro quadrado de fôrma, e com menor custo.

As fôrmas modulares têm sido usadas para moldar pilares, vigas e lajes?
RUBERLITO DE FREITAS – O ideal seria trabalhar com esse tipo de fôrma, mas, para isso, é necessário que o projeto seja padronizado. Trabalhamos com obras curtas e rápidas, cujos layouts costumam sofrer alterações durante a obra, inviabilizando a contratação desse produto.
GAMBOA – O que o mercado chama hoje de fôrmas metálicas são, na verdade, as fôrmas modulares. A estrutura é metálica, mas o revestimento pode variar. Há várias empresas que fornecem fôrmas modulares com revestimentos diversos, que permitem executar pilares de diversas dimensões, se adequando à necessidade da obra. Esse tipo de produto é interessante para a situação de obras rápidas. As fôrmas metálicas para moldar pilares redondos, por exemplo, já são usadas, mas, nesse caso, são disponibilizadas para venda.
GOMEZ – Usamos essa solução para execução de vigas baldrame, reservatórios e caixas d’água. É um sistema produtivo, que permite a concretagem de diversos elementos com o uso de um pequeno jogo de fôrmas.

Soluções inovadoras como o sistema deck e as mesas voadoras perdem ou ganham espaço neste mercado em crise?
GOMEZ – Sempre procuramos industrializar o processo, buscando maior produtividade e qualidade do produto final e menor mão de obra em canteiro. Recentemente, trouxemos o sistema de fôrma deck da Áustria para fazer uma laje plana de um edifício residencial. Apostamos no uso de um equipamento caro em um projeto econômico, o que conferiu um resultado muito bom e barateou o empreendimento, devido à alta produtividade e à redução de mão de obra.
GAMBOA – Algumas empresas estão buscando ainda mais as tecnologias inovadoras justamente para errar menos e ganhar mais. Em obras mais simples, a contratação está cada vez mais pautada no preço.
CRUDO – Depende do perfil da empresa. Algumas buscam inovação sempre, outras sempre apostam na mesma solução.
CARVALHO – Os projetos estão mais enxutos. Os decks e mesas voadoras são pouco usados em São Paulo, pois o uso de lajes planas aqui ainda é muito pequeno. A crise, acredito, irá forçar os calculistas a se mexerem também. Ainda há poucos equipamentos na praça, perto das vantagens que esses sistemas podem oferecer.

As avarias e perdas das peças em obras caíram ou cresceram nos últimos anos?
GAMBOA – Na fase de superaquecimento do setor da construção, a qualidade da mão de obra caiu brutalmente, impactando o uso e o cuidado com o equipamento no canteiro. As construtoras deveriam ter uma atenção maior com as peças. Ainda há muitos pontos a serem equacionados. É preciso esclarecer as empresas sobre as situações que geram indenizações e quais são os termos exatos delas.
CORREA – A questão da indenização está virando um item de barganha na contratação. Algumas fornecedoras que sabem da qualidade do produto acabam isentando as empresas quanto aos materiais danificados. As indenizações são feitas apenas em casos de perda ou inutilização.
GOMEZ – Tentamos fazer um contrato bem elaborado com os construtores, que são os responsáveis pelo material que estamos locando. O construtor, em geral, tem funcionários pouco qualificados, mas, por outro lado, cabe à obra ter uma gestão e controle de entrada e saída dos equipamentos do canteiro. Essa é tarefa difícil, pois exige a administração de muitas peças parecidas.
ROGÉRIO GERMANO – O ideal é que a fornecedora ofereça treinamento e esclarecimentos sobre quais sãos os cuidados básicos necessários com o equipamento. É mais barato ter uma pessoa dentro do canteiro que recolha as peças pequenas do que, ao final da obra, ter de pagar os valores de indenização.

Qual é o índice de perdas considerado saudável para cada obra?
CRUDO – Algo em torno de 5% a 15%, que ainda é um número alto. Mas, em algumas obras, esses índices chegam a 40%.
GAMBOA – As margens de tolerâncias são cada vez maiores, diga-se de passagem.

Quais são os itens que devem ser previstos em contrato?
GAMBOA – As regras devem ser claras, e as tabelas de indenização, previamente definidas. As indenizações nunca podem ser maiores do que o valor das escoras. Critérios como limpeza das peças também devem ser previstos. Nos treinamentos, sempre indicamos como proceder com a limpeza e a manutenção do material.
CRUDO – Quando o cliente terceiriza a mão de obra, não se preocupa muito com o treinamento e o bom uso dos equipamentos, que são pouco valorizados dentro dos canteiros. Os treinamentos concedidos pelas fornecedoras não são valorizados pelos contratantes.

Para o construtor, que pontos devem ser sanados na relação com as fornecedoras?
YAMAMURA – Os critérios usados para classificar sujeiras e avarias, por exemplo, ainda são muito subjetivos. Não há documentos e manuais que expõem essas regras de forma mais clara e objetiva.

Por Gisele Cichinelli

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