Ano começa sem perspectiva imediata de melhora na construção, avalia Ana Maria Castelo

ACERVO PESSOAL
O cenário fiscal atual não permite que mais subsídios e recursos públicos sejam acionados para estimular a atividade

O índice de confiança das empresas da construção (ICST), apurado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), alcançou 86,1 pontos em janeiro de 2015, o que representou uma queda de 13,5 pontos na comparação com janeiro de 2014. Em dezembro de 2015, o ICST da construção fechou o ano em 68 pontos, 19 pontos abaixo do alcançado em dezembro de 2014. (Veja a evolução no gráfico).

Os números bastante ruins do indicador de confiança já no primeiro mês do ano passado seriam uma sinalização do desempenho das empresas da construção nos meses seguintes. A maior contribuição para a queda de janeiro veio do componente que capta a percepção referente à situação atual das empresas (ISA). Ou seja, as empresas começaram o ano de 2015 relatando queda nos negócios e na atividade. Os números da pesquisa de emprego na construção confirmaram a percepção de enfraquecimento da atividade formal do setor registrada pela sondagem: em nenhum mês as admissões foram superiores às demissões. O saldo foi de corte de mais de 500 mil vagas de trabalho no setor em 2015 em todo o País, de acordo com pesquisa da FGV em parceria com o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP).

É importante notar que este cenário não abateu apenas o setor da construção: a queda na confiança foi generalizada entre os segmentos empresariais e nos consumidores. Especialmente estes últimos, que começaram o ano menos confiantes: o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), também calculado pela FGV, atingiu, em janeiro, o nível mais baixo da sua série histórica.

A piora do cenário macroeconômico respondeu em grande parte por essa perda de confiança de famílias e empresas. Vale lembrar que as taxas de juros subiram e o crédito em geral ficou mais difícil – mesmo o financiamento imobiliário com origem na poupança tornou-se mais restritivo, dificultando a situação de muitas famílias que planejavam comprar um imóvel.

No entanto, para o setor da construção o movimento do início do ano, atípico em relação ao histórico recente, representou um aprofundamento da queda iniciada em 2013 – quando, pela primeira vez desde o início da série, em julho de 2010, o indicador de confiança setorial caiu abaixo dos 100 pontos.

Esta perda de dinamismo ocorreu nos dois principais segmentos setoriais. No mercado imobiliário, a redução das vendas e dos lançamentos começou em 2013, traduzindo-se em diminuição do número de empregados, a partir do segundo semestre de 2014. Na área de infraestrutura, o fim das obras da Copa do Mundo e a redução do ritmo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) também atuaram de forma negativa sobre o desempenho já a partir de 2014.

Assim, a deterioração do cenário macroeconômico completou o quadro de tempestade perfeita para o setor da construção em 2015. O aumento das demissões ao longo do ano foi amplificado com os cortes dos investimentos em todas as esferas da economia. A desaceleração das obras do programa Minha Casa Minha Vida, do PAC e dos investimentos dos Estados e municípios, no contexto do ajuste fiscal, fizeram o nível de emprego despencar na construção. O índice de confiança do segmento de edificações caiu 18,1 e o de infraestrutura 17,7 pontos no ano passado.

Os fatores apontados pelas empresas como limitativos à expansão dos seus negócios retratam bem o cenário setorial. Em dezembro de 2015, o principal fator limitativo foi a insuficiência de demanda, assinalado por 49,0% das empresas. Em dezembro de 2010, somente 6,7% dos empresários se preocupavam com esta questão. Em contrapartida, a escassez de mão de obra qualificada, que em 2010 era assinalada por 39,3% das empresas, foi lembrada por somente 9,7% delas em dezembro último. Acesso ao crédito bancário foi também um fator que apresentou forte crescimento, ao passar de 7,8%, em 2010, para 23,7% em 2015.

Como o desempenho do comércio de materiais de construção aponta um encolhimento também da demanda das famílias por obras e reformas – até outubro a queda acumulada no ano era de 7,4% -, estima-se que o setor registre uma retração da ordem de 8% em 2015. O que terá sido o pior resultado desde 2003, quando o Produto Interno Bruto (PIB) setorial caiu 8,9%.

Perspectivas de reversão?
Os empresários também terminaram o ano de 2015 bastante pessimistas em relação à possibilidade de recuperação de suas atividades: em dezembro, o Índice de Expectativas (IE) ficou quase 15 pontos abaixo do patamar observado no ano anterior e 42 pontos abaixo do resultado de 2010, alcançando o segundo pior resultado da série. Os empresários de todos os segmentos estão pessimistas. Isso significa que a percepção dominante é de que não há melhora à vista no horizonte nos próximos meses.

Apenas 15,5% dos empresários acreditam que a tendência dos negócios é de melhora nos próximos seis meses, enquanto 31,8% indicam piora. E somente 7,3% dos empresários assinalaram intenção de aumentar o número de empregados no primeiro trimestre de 2016, enquanto 46,3% apontam intenção de reduzir o contingente de trabalhadores da empresa.

Assim, com base no atual cenário, as projeções para 2016 são igualmente negativas: estima-se nova retração do PIB da construção, da ordem de 5%. Ou seja, o ano começa com a atividade ainda mais fraca e sem perspectivas imediatas de melhora.

Enfim, parece que o melhor que o setor pode esperar é um feliz 2017. Vale lembrar, porém, que o setor trabalha com ciclos de duração relativamente longos. Ou seja, para esperar um feliz 2017 é preciso que as condições para isso comecem ainda em 2016.

Já no primeiro mês deste ano, o setor foi “lembrado” por sua grande capacidade de gerar renda, emprego e tributos. De fato, esse efeito multiplicador na economia teve uma importância fundamental em 2009, quando, respondendo ao aumento dos investimentos do PAC e à criação do Minha Casa Minha Vida, o PIB setorial registrou crescimento de 7%.

A criação de uma agenda positiva para País, que sinalize um caminho para a retomada do crescimento, passa pelo setor: pela recuperação do investimento em infraestrutura; pela continuidade dos investimentos habitacionais; e pelo aumento da produtividade das empresas. Mas, ao contrário de 2009, o cenário fiscal atual não permite que mais subsídios e recursos públicos sejam acionados para estimular a atividade. O investimento privado, via concessões e/ou parcerias público-privadas (PPPs), precisa aumentar e, para isso, o ambiente de negócios e, portanto, a confiança empresarial, precisa melhorar a partir deste ano.

Ana Maria Castelo
coordenadora de estudos da construção da Fundação Getulio Vargas (FGV)

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