Construção Mercado, Editorial, financiamento, distrato, crédito imobiliário

No início deste ano foram divulgados dois dados econômicos que jogam luz sobre um problemaço para os empresários do ramo imobiliário e para qualquer cidadão que busca adquirir a moradia própria. O primeiro dado mostra que a caderneta de poupança teve um saque recorde de R$ 53,6 bilhões em 2015, a maior já registrada na série histórica do Banco Central, iniciada em 1995. A perda de recursos é explicada pela migração dos investidores para aplicações financeiras com retornos mais atrativos. No ano passado, o rendimento da caderneta ficou na faixa de 8,0%, um patamar bastante abaixo da inflação, que chegou a 10,6%. Além disso, com a inflação alta e o aumento do desemprego, é natural que as pessoas recorram ao dinheiro guardado na poupança para salvar as contas do mês. A consequência do desgaste da caderneta é a míngua de recursos para o crédito imobiliário, uma vez que a poupança é a principal fonte de recursos para o Sistema Financeiro da Habitação (SFH).

O segundo dado econômico preocupante é o volume de rescisões de vendas de imóveis. Entre janeiro e setembro de 2015, os distratos representaram 41% das vendas brutas, segundo pesquisa da agência Fitch Ratings baseada no balanço de nove empresas: Brookfield, Cyrela. Gafisa, João Fortes, MRV, Moura Dubeux, Queiroz Galvão, Rodobens e Viver. O patamar de 41% é muito alto e supera o registrado em todo o ano de 2014, quando os distratos representaram 29% das vendas brutas, e em 2013, quando foram de 24%.

[A agenda da construção em 2016 deve, obrigatoriamente, incluir a discussão de alternativas de financiamento e soluções jurídicas para resolver os impasses]

A relação é clara: com o agravamento da crise e a escassez de financiamento, os consumidores não concluem a compra do imóvel, provocando os distratos. A rescisão do negócio, por sua vez, dá início a uma queda de braço entre consumidores e incorporadores para chegarem a um acordo sobre a devolução dos valores já pagos. Diante desse contexto, a agenda da construção em 2016 deve, obrigatoriamente, incluir a discussão de alternativas de financiamento e soluções jurídicas para resolver os impasses que tanto atrapalham o setor de construção.

Na seção Entrevista do Mês da revista Construção Mercado de fevereiro, o novo presidente do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP), Flavio Amary, cita a necessidade de criar regras claras para o processo de distratos. Ele ainda alerta que, sem isso, as vendas desfeitas podem comprometer o andamento das obras. A edição deste mês também traz alternativas de negócios. Um deles é o segmento de outlets, que ainda tem algum espaço para o desenvolvimento de novos projetos. E na seção Raio X, empresários de Fortaleza apostam no ramo hoteleiro para reavivar os investimentos em meio à crise. Boa leitura.

Circe Bonatelli
editor