Seis em cada dez produtos oferecidos no mercado de fios e cabos elétricos estão fora de conformidade, segundo pesquisa da Qualifio

A norma técnica NBR 5.410: 2004 – Instalações Elétricas de Baixa Tensão determina que as instalações elétricas das edificações devam ser dimensionadas com a previsão de um futuro aumento nas cargas, mas não dá detalhes de como deve ser a reserva. Nesse cenário de indefinições, não é raro encontrar no mercado prédios novos em todas as faixas de renda sem preparo para suportar a instalação de sistemas adicionais, como os de aparelhos de ar-condicionado, por exemplo, em todas as unidades.

“A NBR 5.410 tem poucas determinações quanto à previsão de carga elétrica e consequentemente, ao consumo de energia. No item 9.5.2 – Previsão de Carga são passadas algumas diretrizes que devem ser seguidas para aparelhos específicos, porém o ideal é estar em sintonia com os fabricantes (desses equipamentos elétricos) e seguir as cargas indicadas por eles”, diz Júlio Fonseca, diretor de engenharia da GreenGold Engenharia Multidisciplinar.

Apesar de estabelecer cargas de iluminação mínimas (dependendo do tipo de cômodo) e a quantidade e potência mínima de tomadas de uso geral por cômodo, a norma não estabelece a quantidade e a potência mínima de tomadas de uso específico, tais como para ar-condicionado, chuveiro elétrico e torneira elétrica. “O documento apenas lembra que cargas específicas devem ser consideradas, mas não entra no mérito de quais cargas são essas. Como isso também não é tratado pelas normas das distribuidoras de energia, fica a critério da construtora e do proprietário indicar para os projetistas quais são as cargas específicas que deverão ser consideradas em cada caso”, explica o consultor e engenheiro eletricista Hilton Moreno.

Essa situação abre espaço para que algumas construtoras deixem de considerar certas cargas no momento do projeto, segundo ele. “Não serão previstas na instalação e, consequentemente, podem fazer falta no futuro quando o usuário precisar delas.”

De maneira ideal, Fonseca diz que a empresa projetista, ao fazer o dimensionamento, deve considerar qualquer acréscimo de carga futura no período de pós-ocupação, além de garantir elementos físicos, como eletrodutos e canaletas maiores; espaços livres nos quadros elétricos; e caixas de ligação adicionais. “Obviamente, essas diretrizes são determinadas de acordo com a tipologia da edificação indicada pela construtora ou incorporadora, considerando região geográfica, área dos apartamentos e outros fatores.”

Na prática
Uma medida adotada no mercado é utilizar entre 5% e 10% de reserva de carga por apartamento, sempre lembrando que esse porcentual pode variar muito dependendo do tipo e local da edificação, já que há variações entre as regras das concessionárias de energia. “O mais comum é que as construtoras deixem apenas o eletroduto instalado, e não as fiações e os disjuntores necessários para uma demanda futura”, pondera Eduardo Daniel, diretor da MDJ Assessoria e Engenharia Consultiva, ressaltando que existe uma dificuldade de as empresas entenderem o conceito de previsão de carga.

Já Hertez Puggina Correa, engenheiro da área de instalações da Cyrela, defende que as construtoras devem prever apenas espaço para instalações futuras, e não cargas elétricas adicionais. “Se assim fosse, o produto imobiliário ficaria muito mais caro. Nós, construtores, não vendemos a instalação adicional.” Ele diz que a compra de fios e cabos elétricos representa de 20% a 30% do custo da instalação elétrica de um empreendimento residencial, que, por sua vez, representa 8,5% do custo global da construção. Segundo ele, a previsão de cargas adicionais sem a certeza que elas serão consumidas pelos futuros moradores causa um impacto relevante no custo das instalações elétricas. “Estamos em um mercado acirrado e precisamos ser competitivos”, observa.

Muito mais do que avaliar os custos adicionais, é preciso pensar na imagem negativa que a construtora pode criar nos compradores de imóveis, na avaliação de Moreno. “É perfeitamente possível que uma construtora no Nordeste do Brasil entregue uma edificação residencial sem a previsão de aparelhos de ar-condicionado. Isso significaria uma redução substancial no custo da parte elétrica da obra, porém resultaria numa enorme dor de cabeça para o futuro morador.”

FOTOS: MARCELO SCANDAROLIQualidade
Além da falta de clareza no dimensionamento das cargas adicionais, outro problema é a baixa qualidade dos produtos ofertados no mercado. De acordo com a pesquisa anual feita pela Associação Brasileira pela Qualidade dos Fios e Cabos Elétricos (Qualifio), de 86 marcas avaliadas de janeiro até novembro de 2015, 39% estão em conformidade contra 61% não conformes. Das 110 marcas avaliadas pela entidade em 2014, 37% delas estavam em conformidade, contra 63% não conformes. “Os fabricantes ruins tiveram dificuldade de colocar o material no mercado e, consequentemente, nós tivemos mais dificuldade de encontrar tais produtos no comércio”, diz Maurício Sant’ana, secretário-executivo da Qualifio. Ele destaca que, no final de 2014, a Portaria 640/2012 do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) foi implementada, passando a ter efeitos positivos no mercado no ano passado.

A portaria estabeleceu que, além do selo certificando a adequação dos produtos, os cabos deveriam ter nas etiquetas da embalagem e na própria gravação o número do registro na entidade. Este registro é único para cada produto de cada fabricante, de modo a dificultar a falsificação. “Com isso, o número de denúncias por parte da Qualifio aumentou. Essas denúncias geraram ações por parte do Inmetro e de alguns institutos de pesos e medidas (Ipem). No caso do Ipem-SP, foram realizadas várias ações junto aos lojistas, e tivemos alguns fabricantes sendo autuados. Essa medida causou efeito principalmente entre os lojistas, que passaram a comercializar produtos de melhor qualidade”, lembra Sant’ana.

Segundo o secretário, o caminho para evitar o risco de aquisição de fios e cabos elétricos não conformes é testar rigorosamente os produtos ofertados pelos fornecedores. A própria Qualifio oferece o serviço gratuito de avaliação desses itens para as construtoras.

Mesa-redonda

FOTOS: MARCELO SCANDAROLI

FOTOS: MARCELO SCANDAROLI

 

FOTOS: MARCELO SCANDAROLIAs construtoras consideram as futuras demandas de uso no dimensionamento da capacidade elétrica dos edifícios?
PAULO REWALD – Há dez anos, nosso escritório de projetos de instalações elétricas já tentava convencer as empresas a trabalhar com uma capacidade de carga que suportasse, por exemplo, a instalação de sistemas de arcondicionado. Hoje, assumimos uma postura de não mais assinar projetos sem a previsão para instalação desses equipamentos, pois todos os empreendimentos nos quais esse cuidado foi ignorado atualmente passam por problemas judiciais. Há umas quatro grandes construtoras que passaram por esse problema.

O descaso das construtoras com a demanda elétrica dos condomínios persiste?
REWALD
 – Desde o boom imobiliário, não se projeta mais sem a previsão de instalação de equipamentos de ar-condicionado. Há dez anos, não havia empresas de projeto de arcondicionado que projetassem para edificações residenciais. Esse cenário mudou. Por outro lado, vale ressaltar que equipamentos como os splits evoluíram muito e, hoje, possuem demanda de carga muito mais baixa que os modelos antigos. 
HERTEZ PUGGINA CORREA
 – Há dez anos, fazíamos a conta “ao contrário”, considerando que apenas 30% das unidades dos empreendimentos executados em São Paulo instalariam os equipamentos. Não valia a pena disponibilizar cargas maiores, que aumentavam o custo das instalações elétricas para a construtora. Quando falamos de fios e cabos elétricos, falamos de cobre, um material muito caro.

E hoje? A instalação de aparelhos de arcondicionado aumentou?
CORREA – Há um ano, visitamos alguns prédios erguidos pela Cyrela com pós-ocupação de dois a cinco anos (em São Paulo) e constatamos que essa porcentagem permanece a mesma. Em edifícios com apartamentos de 120 m², o índice de unidades que instalam os aparelhos é de 30% a 35%; em edifícios de 80 m² a 90 m², o índice chega a 20%. Esse cenário paulista é bastante diferente do encontrado no Rio de Janeiro, cujo índice de unidades com ar-condicionado pode checar a 80% nos edifícios.
REWALD – Estamos tentando levantar dados sobre a demanda de energia com os condomínios, via Secovi, mas sem sucesso. O mesmo acontece com relação à AES Eletropaulo. Há dificuldades para levantar os parâmetros de consumo de energia elétrica dos residenciais. Nos últimos quatro anos, a construção de edifícios com studios aumentou muito. Nessas tipologias, por norma, é proibido o uso de gás, então todas as instalações são elétricas, o que impactou o modo de projetar.

A NBR 5.410 prevê reservas de circuito? E ela está atualizada?
REWALD
 – Reserva de circuito é imposição de norma e deve ser prevista, levando em conta uma quantidade de circuito a mais do que aquele que será instalado. 
EDUARDO DANIEL
 – A norma não apresenta valores de potência de reserva, mas, sim, define quais são os critérios de reservas de circuito. Cabe ao projetista prever quais serão essas reservas.
CORREA – Cabe ressaltar que a NBR 5.410 fala de previsão de espaço para instalação, e não de previsão de carga elétrica adicional. Se assim fosse, o produto imobiliário ficaria muito mais caro. O construtor não vende essa instalação adicional.
REWALD
 – O ar-condicionado não representa uma carga tão grande. Em geral, quando as pessoas ligam os aparelhos, outros equipamentos, tais como máquina de lavar ou micro-ondas, não estão sendo usados. Por isso, não restrinjo a instalação.

Mas há notícias de empreendimentos novos de padrão médio que querem instalar os sistemas e não conseguem, por falta de capacidade de carga elétrica…
MARCELO FONTOURA
 – Estamos recebendo reclamações com relação à dificuldade de instalação de aparelhos de ar-condicionado, mas não em função da falta de carga elétrica, e sim por conta da falta de flexibilidade do nosso sistema construtivo. Adaptações futuras nos sistemas embutidos são praticamente inviáveis na alvenaria estrutural. Por conta disso, estamos reestudando os nossos produtos, até porque a Living passou a atender a faixas de renda maiores.

Os cuidados com a qualidade são maiores no segmento de alto padrão?
REWALD
 – Não necessariamente. Isso varia de acordo com a atenção dispensada pelas construtoras e incorporadoras às instalações elétricas.
DANIEL – O caso do bairro popular Serra do Mar, da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), em Cubatão (SP), é emblemático. O empreendimento levava em conta diversos aspectos de sustentabilidade e recebeu a certificação para instalação elétrica, que não apresentou nenhum problema de conformidade. Por outro lado, já atendemos um caso de uma residência de alto luxo no interior de São Paulo com problemas seriíssimos.
DOUGLAS MESSINA – O Brasil consome pouca energia. No entanto, esse quadro está mudando. Hoje há aparelhos de ar-condicionado portátil em empreendimentos de baixa renda. Essa mudança de paradigma deve resultar na incorporação dos projetos de elétrica também nos empreendimentos populares.

O último ano teve avanços na qualidade dos materiais, projetos e execução das instalações elétricas?
MAURÍCIO SANT’ANA
 – As empresas que fornecem produtos de qualidade continuam ofertando esses produtos, já as empresas fora da linha continuam ruins, e as intermediárias tendem a melhorar pelo menos um pouco. O cobre é caro, por isso o número de empresas que ofertam produtos de baixa qualidade, mesmo certificadas, ainda é muito alto. 
NELSON VOLYK
 – Cabe acrescentar que a mão de obra instaladora ainda está aceitando produtos de baixa qualidade, que são mais baratos.

Como as construtoras devem fazer a triagem dos fornecedores?
CORREA – Há alguns anos, começamos a exigir dos fabricantes ensaios de laboratório dos fios e cabos, além da comprovação de certificação dos produtos pelo Inmetro. Com esses critérios de triagem, conseguimos cortar muitos fabricantes, e hoje trabalhamos com seis ou sete marcas de produtos certificados. 
FONTOURA
 – No início das suas atividades, a Living construía apenas empreendimentos para atender ao programa federal Minha Casa Minha Vida. Nosso foco era o custo, já que as margens de lucro nessa faixa de renda são pequenas. No entanto, hoje também estamos de olho na qualidade dos fornecedores.

As construtoras estão mais conscientes da necessidade de investir em instalações de boa qualidade?
FÁBIO JR. RIPPE
 – No caso dos quadros e dos eletrodutos, percebemos que as grandes construtoras estão preocupadas em adquirir produtos de qualidade. No entanto, muitas ainda compram por preço, isso é um fato.
REWALD – Nosso escritório já fez muitos projetos de habitação de interesse social, no entanto, nunca conseguimos participar de um projeto do programa Minha Casa Minha Vida. Esses empreendimentos são baratos e não pagam o projeto. Quanto aos materiais, cabe ressaltar que o cobre tem valor agregado alto, portanto, poucas empresas querem usálo. É cada vez maior o uso do barramento blindado na instalação elétrica. 
MESSINA
 – Faltam técnicos qualificados, os projetos não são valorizados e a qualidade dos produtos é duvidosa. As especificações nem sempre são corretas. O Inmetro também falha na verificação dos materiais disponibilizados, e não há inspeções finais das instalações. Por outro lado, as construtoras estão cada vez mais qualificando seus produtos. As especificações de construção têm melhorado, mas muito lentamente.

O preço mais alto da energia está impactando os projetos?
REWALD – Ainda há muita teoria e pouca prática quando se trata de eficiência energética de edificações. Nossa cultura é muito conservadora, e a tecnologia evoluiu mais rápido do que conseguimos absorvê-la. A grande revolução do setor foi a introdução das lâmpadas LED e a proibição do uso do modelo incandescente. Mas é importante ressaltar que o mercado está infestado de produtos de baixíssima qualidade. 
CORREA
 – Há uma consciência maior com relação ao uso de equipamentos e tecnologias mais eficientes, pois uma crise está em curso. A Cyrela tem projetos com certificações Leed e Aqua. As duas certificações, no entanto, não são impulsionadoras das vendas.

Quais são as novidades no quadro normativo do setor elétrico?
DANIEL – A maior novidade nos últimos anos foi a publicação da NBR 15.920: 2011 – Cabos elétricos – Cálculo da Corrente Nominal, Condições de Operação e Otimização Econômica das Seções dos Cabos de Potência, que trata do dimensionamento “econômico” de circuitos elétricos. O texto aponta os aspectos a serem considerados para aumentar a eficiência energética dos condutores. Recentemente, a IEC (em, inglês, International Electrotechnical Commission) soltou uma norma sobre eficiência energética em instalações elétricas de baixa tensão e que dá diretrizes sobre o ciclo de vida das instalações. 
FISSATO FUJI
 – Cabe ressaltar que o dimensionamento econômico dos circuitos resulta na necessidade de fios e cabos com seções até três vezes maiores do que as usadas nos projetos convencionais. Do ponto de vista financeiro, é praticamente inviável dimensionar de um modo mais eficiente.

Por Gisele Cichinelli

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