Veja como empresas brasileiras implementaram o BIM em seus projetos

Ser capaz de trabalhar dentro do conceito de BIM (Building Information Modeling ou Modelagem da Informação na Construção, em português) é uma aptidão que vai, pouco a pouco, tornando-se mais importante no currículo de engenheiros e arquitetos no Brasil. Com a crise econômica que esfriou a construção, essa habilidade tende a ser um diferencial para os profissionais à procura de uma vaga no mercado, segundo fontes consultadas para esta reportagem.

Entre as construtoras que desenvolvem projetos em BIM, a procura por mão de obra com capacitação nessa área já é uma realidade. No caso das empresas que estão dando os primeiros passos dentro do conceito, o caminho natural passa pela contratação de consultores especializados e busca de apoio dos fornecedores para treinamento de equipes internas de funcionários.

A modelagem da informação na construção oferece mais do que um modelo visual do edifício. Ela envolve um conjunto de informações multidisciplinares sobre o empreendimento, passando pela concepção do projeto, orçamento, planejamento, construção, até a fase de uso e manutenção. A vantagem dessa integração está na possibilidade de diagnosticar de forma ágil eventuais incompatibilidades na construção, além de obter dados quantitativos sobre materiais, prazos e custos.

DIVULGAÇÃO: SINCO ENGENHARIA
Equipe da Matec em reunião para desenvolvimento de projeto BIM. Em pé, do lado direito, o diretor de engenharia, Marcelo Pulcinelli
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Cantareira Norte Shopping, empreendimento com 51 mil m² de área construída, foi totalmente desenvolvido em BIM pela Sinco Engenharia. Imagem destaca planta e diversas instalações simultaneamente

O movimento de capacitação no mercado brasileiro segue uma tendência global encabeçada por países como Estados Unidos, Inglaterra e Cingapura, onde a proficiência em BIM se tornou uma demanda amplamente disseminada entre empresas na fase de contratação de profissionais.

“O modelo de contratação está ligado a como se faz a implementação do BIM nas empresas e nos projetos”, afirma Lucio Soibelman, professor da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos. Segundo ele, há duas opções para se trabalhar na área: o lonely BIM e o social BIM.

No lonely BIM, ou “BIM solitário”, os projetistas entregam seus trabalhos em 2D, e o gerente de projeto BIM – chamado pelo jargão de BIM manager – recria todos estes modelos em 3D e faz a análise final de compatibilidade. “Isto permite que o trabalho se faça em um escritório ou em uma empresa de consultoria. O problema é que o modelo BIM resultante é uma cópia dos projetos anteriores. É um esforço duplo, por ter o projeto e o reprojeto, que muitas vezes não está devidamente atualizado”, pondera Soibelman.

O consultor Rogerio Suzuki, da RS Consultoria, observa que esse modelo é bastante popular porque funciona como uma experimentação para as construtoras que ainda não estão familiarizadas com o BIM e procuram entender se a ferramenta é viável para seus empreendimentos. Com essa “terceirização”, a consultoria assume a tarefa de desenvolver a modelagem sem que a construtora tenha de investir altos valores em equipamentos e treinamento. “Nesta fase, é comum a construtora usar as licenças de prova dos softwares, versão que permite apenas a leitura dos modelos produzidos”, relata Suzuki.

Já o modelo social BIM pressupõe o envolvimento de toda a cadeia, passando pelas equipes internas da construtora até o escritório de arquitetura, que já desenha o projeto em 3D conforme o modelo definido pela contratante. “Aí não é preciso existir um BIM manager. Todos os profissionais têm de entender da ferramenta”, explica o professor Soibelman.

O BIM no Brasil
A Matec Engenharia é uma das pioneiras na implantação do BIM no País. A empresa deu largada aos estudos em 2008 e hoje está consolidada em social BIM. “Não é possível enxergar o profissional de hoje que não tenha essas habilidades”, avalia Marcelo Pulcinelli, diretor de Engenharia.

Ele conta que um dos desafios na implantação foi qualificar os trabalhadores. “Ninguém tinha habilidade para modelar, então criamos e qualificamos um mininúcleo, formado inicialmente por uma estagiária e um gerente de projeto, para trabalhar em um novo empreendimento”, relembra. “Tudo era feito internamente, e começamos, com treinamentos aplicados pelos fornecedores de softwares, a formar alguns jovens, todos com muito pouca experiência, basicamente estagiários e arquitetos recém-formados.” O executivo explica que a escolha da Matec pelo social BIM se deu porque a empresa queria incluir inteligência no processo, o que não era possível apenas com a modelagem de projetos em 2D.

O grande salto, porém, aconteceu entre 2011 e 2012, quando um projeto de uma fábrica de semicondutores exigiu a contratação e interação da Matec com uma equipe dos Estados Unidos mais experiente em BIM. “Desenvolvemos o projeto com eles e aprendemos muito. Nossos projetistas começaram a receber os modelos das diferentes disciplinas (como a de instalações) e passaram a fazer a análise crítica dos trabalhos”, relembra Pulcinelli. Hoje, a Matec tem líderes de projeto que coordenam em BIM todas as atividades, desde a elaboração do modelo volumétrico até o de produção, passando pelo modelo executivo. “O meu líder de projeto não tem hoje para si um núcleo somente de BIM. Todos da organização estão inseridos neste contexto”, explica.

A Sinco Engenharia é outro exemplo de empresa consolidada dentro desse conceito. “Quando implementamos o BIM, a partir de 2010, nossa linha de frente foi formada por estagiários, que receberam cursos de modelagem. Os salários não subiram na época. A contrapartida foi uma qualificação maior e a possibilidade de participar de um novo time”, conta Fernando Augusto Corrêa da Silva, diretor da empresa.

A Sinco acaba de entregar, em São Paulo, a obra do Cantareira Norte Shopping, que foi totalmente desenvolvido em BIM. Apesar das vantagens da modelagem, um dos maiores desafios do projeto foi encontrar fornecedores que realizassem seus trabalhos usando o BIM ou que estivessem dispostos a trabalhar pela primeira vez com a tecnologia. Nesses casos, foi necessário entregar a eles os projetos em formato 2D.

Além do número restrito de empresas que atuam com BIM, Corrêa observa que o impacto da crise sobre os negócios setoriais também influenciou o desenvolvimento dos profissionais, que, no mercado de trabalho, poderiam receber salários em torno de 5% acima do que seus colegas sem essa qualificação. No entanto, com muitos projetos postergados, essa não é a realidade. “Há muita gente disponível, e hoje se contrata quem tem BIM pelo mesmo preço dos que não têm. O diferencial está em apresentar esta habilitação no currículo e, quando o mercado reaquecer, os profissionais qualificados serão os primeiros a serem escolhidos”, aponta o diretor.

Avanço lento
Além da retração das obras, o avanço do BIM no Brasil caminha lentamente porque sua implementação também exige uma transformação cultural das equipes. “Ainda não chegamos a ter um volume significativo de busca por profissionais de BIM no País. As poucas empresas que já têm procurado gente especializada o fazem geralmente dentro do ambiente acadêmico ou de uma das revendedoras de softwares”, diz Rafael Falcão, diretor de Operações da empresa de recursos humanos Hays Recruting Experts Worldwide.

Na sua opinião, é comum que, neste primeiro momento no qual a oferta de profissionais experientes é diminuta, as empresas procurem contratar alguém que já tenha conhecimento comprovado. Entretanto, este cenário pode mudar. “O BIM é uma tendência de mercado. Os executivos das empresas do setor nos revelam planos estratégicos de implementá-lo, sobretudo naquelas empresas ligadas ao Minha Casa Minha Vida, já que a modelagem é também um instrumento de eficiência”, descreve Falcão. “A competição global dos grandes players internacionais de construção civil, que cada vez mais oferecem risco às companhias brasileiras, sinalizam a necessidade de agir rápido.”

Opções de cursos para formação em BIM

MBA em Plataforma BIM – Modelagem, Planejamento e Orçamento. Curso organizado pelo Instituto Brasileiro de Educação Continuada (Inbec), de Fortaleza. Em 400 horas de aulas presenciais, o curso de formação de gerentes BIM é destinado a arquitetos, engenheiros e tecnólogos ligados a desenvolvimento de projetos prediais.

Projeto Arquitetônico com Ênfase em BIM – Curso organizado pelo Instituto IDD, de Curitiba, com 414 horas de duração. Visa a aprofundar conhecimentos em ferramenta de desenho para modelos 3D com banco de dados de alta complexidade, extração de documentação técnica, sistemas construtivos com seus respectivos prédimensionamentos e modelagens, diretrizes e normas técnicas para projeto arquitetônico, coordenação de processos e ferramentas 4D e 5D e gestão integrada de projetos.

Gestão Colaborativa de Projetos – Ênfase em BIM. Também é organizado pelo Instituto IDD, de Curitiba, e tem 414 horas. Forma consultores e gerentes para tocar os projetos em todas as suas competências dentro de uma construtora ou para ajudá-la a implementar o BIM. A turma deste curso para o início de 2016 tem lista de espera.

International Master BIM Manager – Curso com 600 horas de duração, realizado a distância pela empresa espanhola Zigurat. Forma profissionais para cargos de gestão na metodologia BIM para que sejam capazes de aplicar todos os conceitos com excelência. Ensina o uso avançado de quatro ferramentas – Revit, Archicad, Allplan e Aecosim – e como aplicá-los nas diferentes fases dos projetos.

Academia BIM – Desenvolvida pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP). Com 28 horas de aulas, o curso busca apresentar os fundamentos básicos do BIM a gerentes de projeto e projetistas de construtoras.

Características ideais de um gerente BIM

O gerente é o coordenador da equipe responsável pela fluência dos projetos. Para Lucio Soibelman, professor da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, o perfil ideal de um gerente BIM é alguém que entenda de projetos mecânicos, hidráulicos, estruturais, elétricos, que seja um especialista em gestão e saiba modelar e coordenar projetos em todos os softwares do ramo, como Revit e Navisworks (Autodesk), ArchiCAD (Graphisoft), Tekla (Construsoft), Solibri e Synchro. “Ele também não pode ser um nerd, sem a capacidade social de gerir os profissionais para que entreguem a informação certa no tempo certo”, diz.

 

O consultor Rogerio Suzuki, da RS Consultoria, acredita que a habilidade fundamental desse gerente é atuar como um facilitador. Nestes casos, geralmente, a empresa repassa os projetos em 2D para o consultor, que tem uma equipe própria para modelar o projeto em 3D, extrair as quantidades, descobrir falhas no cronograma e fazer a detecção de interferências. Já a revisão do modelo é feita junto com os profissionais do cliente. “O gerente BIM não é só capacitado para conhecer as ferramentas e os processos, mas também para fazer a gestão das mudanças. Tem de saber gerir processos, entender as vantagens e desvantagens de cada software e saber o que pedir aos projetistas”, ressalta.

Na Matec Engenharia, o perfil profissional exigido valoriza a performance em tecnologia, embora a habilidade de trabalhar em equipe seja o ponto indispensável, de fato. “O software é só uma ponte. A tecnologia evolui muito rápido, e o profissional deve conseguir reagir a isso na mesma velocidade. E ele não trabalha sozinho. É o seu projeto que define toda a cadeia de atividades por trás de uma obra, então ele tem que estar integrado aos responsáveis pelo orçamento, obras e custos”, conta o diretor de Engenharia, Marcelo Pucinelli.

Na Edalco Construtora, o potencial de integração também é uma habilidade muito valorizada, conta o diretor Alexandre Couso. “O BIM possui um conceito muito forte de integração, tanto entre os softwares quanto entre os profissionais. E esse conceito foi decisivo na metodologia para implantarmos o sistema, de modo que os próprios profissionais da empresa, de diferentes áreas, foram sendo treinados e capacitados”, explica. Segundo Couso, a coordenação do processo de implantação na Edalco foi realizada por uma consultoria especializada, que desenvolveu treinamentos para operar os softwares BIM e assessorou a empresa. “Para fazer a interface com a consultoria, foi definido um profissional da própria construtora para atuar como gerente BIM. Portanto, não houve a necessidade de novas contratações, mas sim a capacitação dos nossos profissionais”, conta.

Por Nathalia Barboza

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