Sistemas racionais de consumo de água esbarram na falta de normas técnicas

O uso inteligente de água nos prédios residenciais – como os sistemas para reúso das águas cinzas e aproveitamento das chuvas – tem potencial para reduzir a conta dos condomínios. Mas, embora as soluções sejam promissoras, ainda estão longe de se tornarem uma realidade nos edifícios em lançamento. A carência de normas técnicas para implantação e operação dos sistemas espanta a maioria dos empreendedores, que prefere não se expor a eventuais riscos sanitários. Além disso, a inclusão desses sistemas nos projetos gera custo extra, mas não representa, necessariamente, um fator capaz de impulsionar as vendas.

Algumas empresas de construção e incorporação imobiliária, como Tarjab e Trisul, em São Paulo, e o Grupo Toctao, em Goiânia, decidiram dar os primeiros passos na área. “A escolha por esses sistemas tem dois focos: o primeiro é oferecer produtos de boa qualidade, enquanto o segundo é comercial”, explica o gerente de produção da Tarjab, Bruno Freire. Ele admite, porém, que ainda não foi possível mensurar o retorno na comercialização, pois as iniciativas são relativamente novas, e as prioridades dos clientes, difusas. “Não sei mensurar o quanto isso ajudou na venda, de fato. A crise hídrica despertou mais interesse das pessoas. Mas, em seguida, veio a crise financeira, e a preocupação geral se voltou para o preço”, complementa Freire (veja mais no debate da próxima página).

Um dos sistemas com maior potencial de expansão é o reúso de águas cinzas, que tem esse nome porque capta a água proveniente de chuveiros, lavatórios e máquinas de lavar, com coloração acinzentada. O sistema requer uma rede hidráulica independente, por onde os líquidos são encaminhados para uma estação de tratamento dentro do próprio condomínio. Dali, são destinados para fins não potáveis, como descarga de vasos sanitários, lavagem de pisos e irrigação de jardins. A manutenção do sistema e o monitoramento da qualidade da água dependem de uma empresa especializada.

O reúso da água cinza é uma solução bastante usada em países como Alemanha, Japão e Israel, onde as populações estão concentradas em territórios pequenos e com poucas fontes de água potável. No Brasil, não existe uma norma técnica que especifique os parâmetros para a implantação e a operação do sistema, uma situação que limita a disseminação dos sistemas racionais.

“Como não existe padronização da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), existem muitos projetos que são meros chutes e utilizam equipamentos ruins”, alerta Plínio Tomaz, engenheiro especialista em hidráulica. Tomaz explica que a contaminação dos condôminos é o principal risco de um projeto mal concebido ou carente de manutenção. Nas áreas comuns, por exemplo, as torneiras têm que ser lacradas para evitar o acesso de crianças ou adultos desavisados. Já as tubulações precisam ser bem sinalizadas para que não haja conexão indevida de mangueiras em reformas futuras. A qualidade da água, por sua vez, requer exames periódicos para medir a presença de coliformes, o nível de turbidez, a demanda biológica de oxigênio (DBO), entre outros aspectos.

Proposta 
Uma comissão formada por quatro especialistas enviou em julho de 2015 para a ABNT uma minuta com propostas para o reúso não potável de água proveniente de Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). Entre os participantes do grupo estavam o engenheiro Plínio Tomaz, os pesquisadores Ivanildo Hespanhol e José Carlos Mierzwa, da Universidade de São Paulo, e a engenheira civil e consultora Virgínia Sodré.

O documento sugere instruções para implantação de tubulações, reservatórios, bombas, medidores de vazão e demais equipamentos, alertando sobre a necessidade de que sejam de uso exclusivo, pintados em cores diferenciadas e acompanhados de sinalização nos pontos de acesso. A minuta também propõe diferentes padrões de qualidade da água, tipos de exames laboratoriais e frequência da manutenção de acordo com a destinação da água, que pode ser: irrigação de jardins; sistemas de refrigeração em prédios comerciais; e uso amplo, como vasos sanitários, lavagem de pisos, desobstrução de galerias e aplicações na construção civil.

“É preciso definir a qualidade da água para, a partir daí, definir qual será o tipo de tratamento aplicado no sistema”, explica Virgínia Sodré, diretora técnica da Infinitytech, empresa de engenharia ambiental. “A primeira minuta é provocativa. Ela serve como referência e orientação para o início das discussões”, disse.

A ABNT informou à revista Construção Mercado que recebeu a minuta e está em busca de partes interessadas em analisar o tema e apurar a viabilidade de se desenvolver uma norma nessa área. Se a viabilidade for confirmada, será criada uma comissão de estudo com especialistas para preparar uma proposta de norma que será submetida a consulta pública. Segundo a ABNT, não há previsão para conclusão desses procedimentos.

Na ausência de norma técnica, os projetos nacionais se baseiam em diversas referências. Uma das principais no Brasil é o manual Conservação e Reúso da Água em Edificações, organizado pela Agência Nacional das Águas (ANA), em parceria com o SindusCon-SP e a Fiesp. Outra fonte bastante consultada é a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (Usepa, na sigla em inglês), que dispõe de bibliografia com o padrão de qualidade de água de reúso exigido pelas legislações de Estados como Califórnia, Flórida e Texas, além de países como Alemanha, Austrália, Espanha, Israel, Japão e Emirados Árabes.

A adoção de um sistema de reúso de águas cinzas também requer um estudo de viabilidade econômica. A implantação do sistema gera um custo para a incorporadora de até 1,5% do custo total da obra, enquanto a sua manutenção gera despesas mensais para os condôminos. Segundo Virgínia, em São Paulo o condomínio deve consumir ao menos 10 m3 de água não potável por dia em descargas, lavagens e regas. Caso contrário, o tratamento deixará a água mais cara do que a da concessionária.

Água da chuva 
O aproveitamento da água pluvial é outra opção para os condomínios reduzirem suas despesas. Neste caso, a regulamentação é feita pela NBR 15.527:2007 Água de chuva – Aproveitamento de coberturas em áreas urbanas para fins não potáveis. A norma é clara ao regrar o uso unicamente para fins não potáveis. Ela também estabelece as referências técnicas para os equipamentos, como reservatórios, calhas, instalações prediais, bombeamento, além da qualidade final da água. “A norma padroniza os projetos para evitar erros”, comenta Tomaz, que coordenou a sua elaboração, em 2007.

Embora seja a principal referência do ramo, a NBR 15.527 se limita a orientar a captação da chuva sobre os telhados. Fica de fora a água pluvial que escorre de fachadas, garagens e quadras esportivas. Esses locais teriam condições de ampliar significativamente o volume de captação nos condomínio, mas, para isso, demandam sistemas próprios de tratamento da água. Nas garagens, por exemplo, os pisos costumam ter a presença de óleos automotivos, diferentemente dos telhados, que concentram poeira, folhas e sujeira de animais.

DEBATE TÉCNICO

Mesa-redonda

FOTOS: MARCELO SCANDAROLIComo está a disseminação dos sistemas de uso racional de água nos prédios residenciais?
ROBERTO PASTOR –
Na Trisul, lançamos um empreendimento em Moema (bairro da zona Sul de São Paulo) há um ano e estamos trabalhando com reúso de águas cinzas. O departamento comercial não sabe mensurar se já existe retorno em cima disso, mas ainda é cedo. Nós passamos por uma crise hídrica dura, sem saber aonde ela ia dar. Vendo as notícias e recorrendo ao trabalho das consultorias, entendemos que era preciso adotar um sistema para reaproveitamento da água definitivo nos empreendimentos.
BRUNO FREIRE – Na Tarjab, a escolha por esses sistemas tem dois focos: o primeiro é oferecer produtos de boa qualidade, enquanto o segundo é comercial. Já trabalhamos com tratamento de água há nove anos. Hoje, praticamente todos os nossos prédios aproveitam água da chuva. Não sei mensurar o quanto isso ajudou na venda, de fato. No caso do reúso de águas cinzas, estamos chegando agora ao terceiro empreendimento (o primeiro foi entregue em 2009). É um investimento mais pesado. A crise hídrica despertou mais interesse das pessoas. Mas, em seguida, veio a crise financeira, e a preocupação geral se voltou para o preço.

Como é a operação dos sistemas?
FREIRE – 
Orientamos o condomínio a fazer a contratação de uma empresa especializada para a manutenção preventiva. O sistema é automático, então precisa apenas de verificações esporádicas. No caso do reúso de águas cinzas, o que atrapalha a disseminação é a falta de uma norma técnica específica e a qualidade final exigida da água. E ainda surgem preocupações do condomínio sobre interferências nas tubulações em eventuais reformas feitas pelos moradores, ligações cruzadas ou até crianças mexendo em torneiras e bacias sanitárias.
SIBYLLE MULLER – São Paulo, Goiânia e Brasília são algumas das cidades com mais sistemas de reúso de águas cinzas. O grande problema é a operação. Depois que o condomínio é instalado, muitos síndicos e moradores responsabilizam a construtora se ocorrerem problemas. No entanto, se recusam a contratar uma empresa de manutenção. Na AcquaBrasilis, nós damos assistência, e a coisa funciona bem. Mas não vai bem quando o condomínio não contrata o acompanhamento técnico duradouro e adequado alegando falta de disposição para pagar por isso. O zelador pode cumprir algumas tarefas, mas tem limite.
HAMILTON LEITE JR. – Há um problema sério aí. Pode haver um problema público de saúde se a operação ficar por conta de um zelador sem qualificação.
LILIAN SARROUF – O empreendedor que adota esses sistemas tem que enfrentar a carência de norma técnica e a falta de parâmetros para desenvolvimento e implantação dos projetos. Esses riscos de operação valem a pena?
VIRGÍNIA SODRÉ – O risco sanitário existe. Admiro a visão da Tarjab, que é pioneira nesses processos. À medida que o condomínio adota uma solução alternativa – seja uso de água pluvial ou cinza – ele passa a ser um produtor de água e deve assumir responsabilidades por isso. Na Infinitytech, nós usamos parâmetros internacionais para os projetos. As adequações começam na fase de desenvolvimento do projeto e se estendem por execução, operação e manutenção. Por fim, tem que ser feito um plano de comunicação para os usuários entenderem que esses sistemas trazem o benefício da economia de água, mas precisam de cuidados.
LEITE JR. – A base de tudo isso é a normatização, que hoje é deficiente.
EMÍLIO BELLINI – Embora não exista uma norma sobre reúso de águas cinzas, o SindusCon-SP tem um manual de reúso de água em edificações que nós, na Alphenz, usamos como referência. Depois da crise da água, houve um aumento na procura por sistemas de captação da chuva e reúso de águas cinzas, que iniciamos em indústrias, hotéis e residências. A operação é muito importante, por isso contamos com um departamento de pós-vendas e assistência técnica. Mas, às vezes, o condomínio está mesmo mais preocupado com o custo, e acaba procurando uma assistência menos qualificada, porém mais barata.
CÍNTHIA MARTINS – A questão representa um ganho para a própria empresa. Na Toctao, a política de sustentabilidade foi efetivada em 2007, com o primeiro empreendimento com captação da água da chuva. O programa de uso racional foi trabalhado para atender o dia a dia do empreendimento. Além disso, desenvolvemos um equipamento para tratar a água cinza vinda dos chuveiros nos vestiários e da limpeza dos caminhões no próprio canteiro. Desde então, foi percebida uma mudança na postura da empresa. A economia começou a se refletir no consumo de água, energia, papel, controle do almoxarifado, passando pelo serventes de obras, engenheiros e diretores. Todos começaram a linhar o discurso e a prática da sustentabilidade. Isso fortaleceu a empresa e a imagem, além de ajudar na conquista de novos clientes. A gestão da água se desdobrou em outros benefícios.

Uma vez que os sistemas foram implantados, qual a relação com os condôminos?
PASTOR – 
Na assembleia inaugural do condomínio, nós explicamos os benefícios e os riscos. Também damos um treinamento de um dia voltado para síndico, subsíndico e comissão de moradores. Aí o condomínio fica ciente de que pode usar o sistema ou não. Se for usar, recomendamos que chame uma empresa especializada para manutenção periódica. A partir da entrega do empreendimento, o síndico assume 100% da responsabilidade.
CÍNTHIA – Temos dois projetos concluídos com captação de água da chuva. Há muitas dúvidas técnicas por parte dos moradores. Querem saber qual a qualidade da água, se é segura e onde pode ser usada. O primeiro empreendimento que entregamos foi em 2007 e, até hoje, temos procura para essas questões. Na troca de síndico ou zelador, essas informações não são devidamente repassadas. E, a partir do momento em que a empresa implanta o sistema, ela acaba tendo a responsabilidade de prestar alguma assessoria. Para a construtora, ficou um legado.

Os custos de implantação e operação dos equipamentos são altos?
PASTOR – 
A implantação do sistema de reúso de águas cinzas custa de 1,0% a 1,5% do custo total da obra. É relativamente alto. Para nós, o que facilitou a implantação foi a visão de que, além de útil para a sociedade, tem um potencial comercial. Outro ponto é o fato de que, em meio à crise nacional, nós enxugamos os custos de toda a cadeia da obra. Com essa “economia”, conseguimos absorver o custo da implantação do sistema de reúso.
VIRGÍNIA – Não se pode adotar o sistema de reúso sem, antes, ser feito um estudo da viabilidade técnica e econômica para garantir que é sustentável para o condomínio. Em São Paulo, o tratamento de vazões abaixo de 10 m³ por dia é inviável. Os custos da análise físico-química deixam a água mais cara que a da concessionária.
LEITE JR.  Há uma diferença de interesses. O incorporador tem uma visão de curto prazo, que se estende até a entrega da chave. Se não enxergar o retorno até aí, optará por não fazer o projeto, independentemente do retorno para o usuário. A conta com a implantação dos sistemas racionais é mais viável para edifícios comerciais em que o empreendedor permanece como dono para locação. É o caso de hospitais, hotéis, lajes… . Aí o empreendedor enxerga o retorno de médio a longo prazo.
LILIAN  Tem que se pensar nos imóveis como um bem de longo prazo. A pior fase da crise hídrica já acabou, mas ela pode voltar no futuro. Os empreendimentos têm que ter uma resposta para isso.

A disseminação depende de uma lei específica, que exija a adoção desses sistemas?
LEITE JR. – 
Eu acredito que deve ter legislação específica, mas com aplicação progressiva e com incentivos. No início, tem que se estruturar um conjunto de ações, passando pela normatização até as regras para operação. Também é preciso pensar na qualificação da mão de obra que vai trabalhar nessa área. Não adianta fazer uma lei que, hoje, não vai ter condições de ser seguida. Nem existem tantos fornecedores para isso.

Há boa disponibilidade de projetistas?
WAGNER OLIVEIRA 
 Hoje em dia, o responsável pelo projeto hidráulico conhece pouco os sistemas de reúso. Muitas vezes, ele faz um projeto concebido para usos convencionais sem considerar as características técnicas e práticas específicas para aproveitamento ou captação da água. Esse projetista deixa a cargo do fornecedor completar as instalações. Também é necessário que os próprios especialistas em soluções para uso de água comecem a fazer parte do projeto de forma integrada.

E como anda a oferta de equipamentos?
VIRGÍNIA 
 O mercado brasileiro ainda não está preparado para esses sistemas. É preciso termos maior oferta de tubulações, válvulas de passagem, bacias sanitárias e outros materiais específicos, resistentes à agressividade das águas cinzas. Eles são relativamente simples, mas ainda não existem em nosso mercado.
BELLINI  Isso acontece porque o mercado ainda é muito jovem. Além disso, somos um país abundante em água, onde se cria a imagem errônea de que ela não vai faltar.
OLIVEIRA – Enquanto não houver demanda suficiente, o fornecedor não vai expandir as opções de produtos.

Por Circe Bonatelli

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