Projeto de captação de água pluvial deve estar alinhado com previsão de demanda do condomínio

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Depois da primeira filtragem, água pluvial é acumulada em cisterna e passa por nova filtragem e tratamento

Os sistemas de captação da chuva são uma alternativa racional para os condomínios residenciais e comerciais aproveitarem a água que seria descartada e, ao mesmo tempo, reduzir os gastos com o abastecimento pela rede pública. Para isso, o dimensionamento do sistema deve estar adequado às demandas dos futuros condôminos, sem que a operação custe mais do que a água fornecida pela concessionária.

Os sistemas de captação de água pluvial são constituídos, basicamente, de receptor, peneira ou gradil, reservatório, filtro, bomba e caixa d’água com tubulação independente.

A captação começa pelas calhas, instaladas nos telhados dos prédios. Na sequência, a água da chuva passa por uma filtragem simples, em que grades ou peneiras fazem a retenção dos resíduos maiores, como folhas. Dali a água é encaminhada para um reservatório ou cisterna, localizado geralmente na garagem do edifício. A água é armazenada temporariamente nesse local, onde passa por nova filtragem e tratamento (cloração, raio ultravioleta e/ou ozônio). Após essa etapa, é bombeada para uma caixa d’água elevada, exclusiva para esse uso, de onde é redistribuída para os apartamentos e áreas comuns por meio de uma tubulação independente.

O bom projeto para captação da água pluvial é aquele que atende às necessidades de consumo de água dos futuros usuários do prédio, sintetiza Ricardo Toscani, diretor de contratos da Odebrecht Realizações Imobiliárias (OR). No empreendimento residencial Park One, em São Paulo, a OR adotou um sistema desse tipo. O custo de implantação foi de R$ 40 mil, com perspectiva de que o investimento se pague em cerca de três anos e meio. O condomínio tem 1,7 mil m² de jardins, e o sistema foi dimensionado para atender até três regas completas de toda essa área. “O potencial de redução do consumo da água tratada fornecida pela concessionária pode chegar a 2 mil litros em cada utilização”, explica Toscani.

O diretor da OR ressalta que a viabilidade econômica e operacional do sistema está relacionada à sua concepção, que deve ocorrer ao mesmo tempo em que o projeto do empreendimento está sendo desenvolvido. “O retorno é sempre maior no início da concepção. Nessa fase, você consegue eliminar possíveis interferências futuras”, explica, citando chances de conflito com as demais instalações hidráulicas e sistemas estruturais.

Uma vez implantado, o sistema é capaz de prover economia relevante nas contas de água dos condomínios, afirma Daniel Fazenda Freire, diretor-executivo da construtora D2F Engenharia. “A redução é de 20% a 30% na conta. Em geral, em até quatro ou cinco anos você paga o sistema”, diz.

Contratação
A captação da água pluvial é regida especificamente pela NBR 15.527:2007 Água de Chuva – Aproveitamento de Coberturas em Áreas Urbanas Para Fins Não Potáveis. A norma determina o uso da água só para fins não potáveis, como irrigação de jardins, uso em descargas sanitárias e lavagens de pisos. Ali também estão as principais referências técnicas para os equipamentos e para manutenção, além da qualidade final da água. A norma rege apenas a captação da chuva sobre os telhados, deixando de fora a água pluvial que escorre de fachadas, garagens e quadras esportivas. Esses locais, ainda sem norma própria, demandam sistemas específicos de tratamento da água, pois estão em contato com outros resíduos, como os óleos que vazam de veículos.

O engenheiro Plínio Tomaz, coordenador da formulação da NBR 15.527, recomenda que o projeto contratado seja feito por profissionais especialistas da área, como engenheiros, arquitetos ou tecnólogos. Segundo Tomaz, os erros mais comuns do projeto acontecem exatamente pelo desconhecimento da norma. Entre esses erros estão o dimensionamento incorreto dos reservatórios e a falta de clareza sobre a frequência das análises da água. Ele conta que muitos projetistas também esquecem de determinar o first flush, que é o descarte da primeira vazão de água da chuva captada, pois ela concentra a sujeira acumulada no telhado, enquanto as vazões seguintes são mais limpas.

Tomaz também recomenda que o contratante fique atento aos outros critérios técnicos. As cisternas, por exemplo, devem atender aos requisitos da NBR 12.217:1994 – Projeto de Reservatório de Distribuição de Água para Abastecimento Público – Procedimento. Para cada tipo de uso, há um tamanho de reservatório ideal. As fórmulas para estipular o volume correto da cisterna para cada situação estão presentes no texto dessa norma.

Tratamento
O tipo de tratamento da água deve ser detalhado pelo projeto e fica a cargo do condomínio, que pode contratar uma empresa especializada nessa área para realizar a manutenção. O estudo de viabilidade da adoção do sistema também passa pela análise de aspectos econômicos, uma vez que essa operação gera custos para o condomínio. “Na prática, ela pode inviabilizar o processo de captação. Muitas vezes, isso acaba onerando o condomínio de uma forma em que perde o sentido implantar o sistema, porque fica mais fácil pegar a água da rede”, pondera Freire, da D2F.

A norma 15.527 determina que a água passe por tratamento, com frequências (mensais, trimestrais etc.) que variam conforme o aspecto analisado, como nível de turbidez, grau de cloriformes, coloração, entre outros. O tratamento da água é feito usualmente por meio de cloro, embora a norma também mencione a possibilidade de se adotar outros processos de desinfecção, como a aplicação de raio ultravioleta e ozônio.

Freire ressalta a importância dessas medidas para evitar a contaminação da água por bactérias, já que a água na cisterna ainda carrega carga orgânica. “As bactérias se proliferam na água parada. E para isso não precisa ter muita carga orgânica.”

O engenheiro acrescenta que as empresas contratantes do projeto devem ficar atentas se os equipamentos têm a qualidade exigida para cada etapa do tratamento. Um exemplo é o filtro presente na cisterna, que deve ser de aço inox e dimensionado para o volume do reservatório. “O filtro de inox não enferruja e evita a contaminação de ferro na água”, explica.

CHECKLIST
– Verifique se as dimensões do sistema estão em linha com a demanda de reúso de água prevista para o condomínio
 Fique atento se o projeto tem viabilidade econômica. A operação não pode custar mais do que a água da rede pública
 Observe se a manutenção do sistema e o tratamento da qualidade final da água estão detalhados no projeto
 Confira se os equipamentos recomendados são feitos de materiais com a resistência adequada para seu uso
 Compre materiais apenas de empresas bem conceituadas no mercado, com certificação garantida

NORMAS TÉCNICAS
NBR 15.527:2007 – Aproveitamento de Coberturas em Áreas Urbanas para Fins Não Potáveis
NBR 12.217:1994 – Projeto de Reservatório de Distribuição de Água para Abastecimento Público
NBR 10.844:1989 – Instalações Prediais de Águas Pluviais

Por Gabriel Calviño

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