Saiba o que considerar no recebimento de aço cortado e dobrado em fábrica

O recebimento de aço cortado e dobrado em fábrica exige cuidado minucioso no canteiro de obras. Embora os fornecedores geralmente providenciem o transporte dos vergalhões em condições que evitem danos ao produto, em frotas exclusivas de caminhões, é preciso observar se não houve qualquer tipo de avaria na movimentação. Além disso, é necessário averiguar se as peças estão nas quantidades corretas e com as especificações definidas no projeto da obra.

A primeira providência é checar a documentação que acompanha os vergalhões. Entre os documentos apresentados pelo entregador, segundo a Gerdau, deve estar a nota fiscal, o “roll” de entrega – lista de posições e de peças compradas conforme o projeto – e o certificado de qualidade.

O engenheiro civil Fabio Karklis Diniz, um dos criadores do blog Engenheiro no Canteiro e especialista em projetos de loteamentos e tecnologias de construção, ressalta que o memorial descritivo do projeto estrutural indica as quantidades e as bitolas de cada peça.

“Algumas empresas de corte e dobra exigem do comprador, no momento da solicitação, o detalhamento das peças – vigas, lajes, pilares – a ser concretadas conforme o projeto específico enviado previamente ao fornecedor”, diz Paulo Sanchez, vice-presidente de Tecnologia e Qualidade do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP).

“Com a solicitação em mãos, o responsável pode confrontar aquilo que está sendo entregue com o pedido”, acrescenta Sanchez. Assim, o “roll” de entrega é a principal ferramenta de conferência na hora em que o material chega ao canteiro de obras.

“Os feixes com as posições de corte e dobra são identificados por etiquetas vindas de fábrica e que são conferidas no recebimento, mediante o romaneio enviado”, diz Sanchez. “Nesse momento, verifica-se se os quantitativos estão corretos.”

O canhoto da etiqueta de cada feixe deve ser retirado e comparado com a lista de peças que consta na documentação. Se algum item estiver faltando, será necessário acionar imediatamente o atendimento técnico do fornecedor ou o vendedor responsável, informando os dados da nota fiscal, do romaneio e da posição da peça no projeto.

Segundo a Gerdau, também é importante avaliar as condições físicas das peças para identificar possíveis avarias ocorridas no transporte ou na movimentação do material. É preciso observar se as barras estão retas, sem ferrugem ou sinais de corrosão.

Entre os problemas mais comuns na entrega estão a falta de peças nas posições solicitadas e peças com dobras erradas. “Em menor escala, temos encontrado falhas na entrega completa das posições”, afirma Sanchez.

Pontos de atenção
Além das quantidades e dobras, há ainda outros pontos em que possíveis inadequações podem ser encontradas. De acordo com Fabio Karklis, é preciso ficar de olho no comprimento e no diâmetro das barras e no dobramento delas, e nos comprimentos da ancoragem, que são as pontas das dobras e que devem ser respeitados. “É preciso tomar cuidado com o raio de curvatura, pois existem medidas mínimas, por norma, para evitar o enfraquecimento da peça”, diz Karklis.

Em qualquer caso de não conformidade, o vice-presidente do SindusCon-SP reforça que o fornecedor deve ser comunicado imediatamente. “Em geral, as empresas pedem um prazo máximo de 48 horas para aceitar a substituição das posições faltantes ou incorretas”, diz Sanchez. “Elas costumam enviar um técnico para checar a ocorrência apontada”, acrescenta.

Com relação a defeitos nas peças, normalmente a providência da construtora é mandar refazer o serviço de corte e dobra, com o posterior reenvio dos vergalhões para a obra. “Refazer o projeto geralmente exige muito mais trabalho do que aproveitar as peças erradas”, afirma Karklis.

Há uma série de normas da ABNT que dão suporte ao construtor para a fiscalização do material recebido. Entre as principais estão a NBR 7.480:2007, que trata de aço destinado a armaduras para estruturas de concreto armado, e a NBR 6.118:2004, sobre projeto de estruturas de concreto – procedimento.

Pequenas obras não têm o costume de exigir o certificado de qualidade do lote, fornecido pelo fabricante. No entanto, o recomendado pelo engenheiro civil Giuliano Tognetti, também do blog Engenheiro no Canteiro e especializado em gerenciamento de projetos pela Universidade de La Verne (Califórnia), é pedir sempre esse documento. “Ele é fundamental para garantir a resistência e as características de trabalho do aço”, diz.

Em geral, quem faz o recebimento do material é o encarregado da obra ou do almoxarifado, ou uma pessoa determinada pelo engenheiro responsável. Segundo Sanchez, o almoxarife é o responsável pela conferência do material para entrada no canteiro. “O encarregado de armação é o responsável pela descarga e pelo armazenamento, possibilitando a melhor disposição para o uso no canteiro”, acrescenta.

CHECKLIST

– Conferir a documentação que acompanha o material: nota fiscal, “roll” de entrega – lista de posições e de peças compradas conforme o projeto – e certificado de qualidade

– Retirar o canhoto da etiqueta de cada feixe para compará-lo com a lista de peças que consta na documentação

– Avaliar as condições físicas das peças, que devem estar retas e sem sinal de corrosão

– Checar itens como comprimento das barras, comprimentos da ancoragem – pontas das dobras -, diâmetro das barras e raio de curvatura das dobras, que têm de ter medidas mínimas para evitar o enfraquecimento da barra

– Acionar imediatamente o fornecedor em caso de qualquer inconformidade. As empresas costumam enviar um técnico para verificar a ocorrência apontada e em 48 horas se comprometem a providenciar o reparo ou a troca das peças com defeito

NORMAS TÉCNICAS

ABNT NBR 6.118:2004 – Projeto de Estruturas de Concreto – Procedimento
ABNT NBR 6.349:2008 – Barras, cordoalhas e fios de aço para armaduras de protensão – Ensaio de Tração
ABNT NBR 7.480:2007 – Aço Destinado a Armaduras Para Estruturas de Concreto Armado – Especificação
ABNT NBR 7.481:1990 – Tela de Aço Soldada – Armadura para Concreto
ABNT NBR 7.482:2008 – Fios de Aço para Estruturas de Concreto Protendido – Especificação
ABNT NBR 7.483:2008 – Cordoalhas de Aço para Estruturas de Concreto Protendido – Especificação
ABNT NBR 7.484:2009 – Barras, cordoalhas e fios de aço destinados a armaduras de protensão – Método de Ensaio de Relaxação Isotérmica
ABNT NBR 8.548:1984 – Barras de Aço Destinadas a Armaduras Para Concreto Armado Com Emenda Mecânica ou Por Solda – Determinação da Resistência à Tração
ABNT NBR 11.919:1978 – Verificação de Emendas Metálicas de Barras de Concreto Armado -Método de Ensaio
ABNT NBR 14.931:2003 – Execução de Estruturas de Concreto – Procedimento (estabelece critérios para aceitação de luvas para emendas de barras)

Por Edson Valente

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