Promover a adoção de valores de ética é um processo longo, mas imprescindível para as construtoras no momento, diz o consultor

As investigações no âmbito da Operação Lava- -Jato, que expuseram uma relação de corrupção entre políticos, empreiteiras e diretores da Petrobras, está mudando de forma significativa o cenário do mercado de construção civil, com cada vez mais exigências para que o setor adote políticas e práticas que coíbam ilegalidades.

Para Vitor Seravalli, CEO da Seravalli Consulting, este é um caminho sem volta, e as empresas que não se adaptarem às exigências cada vez mais rígidas do mercado em relação à ética ficarão para trás. ‘Com a nova lei anticorrupção, as empresas precisam olhar para dentro, fazer a lição de casa e acreditar realmente que terão de desenvolver um código de ética que seja real e possa ser respeitado.’

Nos últimos dois anos, o consultor colaborou para a elaboração de um guia sobre ética e compliance para a construção civil da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Segundo ele, todas as empresas podem e devem tomar medidas para garantir que suas práticas estejam de acordo, independente do tamanho. ‘Eu vejo como um caminho sem volta e são muitas as possibilidades para pequenas e médias empresas aderirem a esses compromissos.’

Em entrevista à Construção Mercado, Seravalli admite que promover mudanças na cultura de uma empresa é um processo longo e penoso, que demora a render os frutos desejados. ‘Obviamente, se você estiver junto com outros líderes que pensam adequadamente e sentir o suporte de organizações institucionais que valorizam isso, evidentemente se sentirá mais forte. Mas, no fim das contas, em meio à lembrança do fluxo de caixa, dos seus compromissos, a decisão, em alguns momentos, não vai ser fácil.’ Veja a seguir os principais trechos da conversa:

Qual a importância das construtoras terem sistemas de ética e compliance?
Esta é uma questão de valor das organizações públicas e privadas, nós aqui no Brasil sabemos disso. Eu vejo, no caso da indústria de construção, uma grande oportunidade. Quando falamos em sustentabilidade empresarial, de cumprir com seu papel dentro da sociedade, a gestão da ética e do compliance é uma questão de valor fundamental. É simplesmente algo indispensável. Sem ela você corre o risco de interromper o caminho dos seus objetivos.

Quando você tem os fundamentos e as competências, você não precisa de dinheiro, você precisa de atitude

Quais são os principais dilemas éticos enfrentados pela construção civil e como um sistema de compliance é capaz de lidar com eles?
O compliance, por definição, está relacionado à obediência e ao respeito às leis. Isso é fundamental, mas a questão precisa ser trabalhada na sua origem, no planejamento de negócios, no planejamento estratégico, na cultura organizacional. Quando questões de valores e ética estão consolidadas, o compliance se torna algo mais simples. Com relação aos dilemas éticos, os negócios das construtoras, principalmente as maiores, estão muitas vezes relacionados a Parcerias Público-Privadas (PPPs). A empresa que tiver uma gestão da ética, atendendo todas as exigências de compliance, terá mais oportunidades de negócios. Pensando no presente, talvez não [tenham oportunidades de negócios], porque como existe ainda uma cultura de corrupção, as empresas que têm isso [compliance] muito forte acabam perdendo oportunidades de negócios porque não jogam o jogo.

Qual o impacto dessas ações nos resultados financeiros?
Quando você se propõe a ser sustentável, a ter questões éticas, respeitar o meio ambiente e a sociedade civil, quando a empresa faz isso com consciência, dentro do planejamento de negócios, ela ganha economicamente de diversas formas. Primeiro por se diferenciar no mercado de atuação dela, e hoje isso é um posicionamento de marketing, é estratégico. Outra possibilidade é redução de custos. Além de acessar capital restrito, que só está disponível para empresas que têm comprometimento com princípios e valores. Hoje os grandes bancos já começam a restringir investimentos a empresas que não são sustentáveis. Países em que há uma maior consolidação de questões éticas e temas de sustentabilidade restringem muito mais o acesso [a recursos].

É possível empresas de pequeno e médio porte adotarem esse tipo de procedimento?
Ainda há um mito de que a sustentabilidade é custo e as empresas não podem pagar, quando na verdade uma organização, por menor que seja, tem competência [de aplicar esses valores]. Como consultor sempre digo que, para mim, a sustentabilidade é uma competência essencial, individual, de liderança, e também das organizações. Quando você tem os fundamentos e as competências, você não precisa de dinheiro, precisa de atitude.

Todas as empresas podem e devem tomar medidas para garantir que suas práticas estejam de acordo com as diretrizes de ética e compliance, independente do tamanho

Quais passos precisam ser tomados para implementar esses critérios?
Primeira coisa é olhar para “dentro de casa”, como é que é a atitude [de trabalho]. Qual a referência para que um empresário, por melhor que ele seja, tome uma atitude. É preciso ter uma pessoa lá dentro preocupada em desenvolver isso, porque se não tiver, não adianta. É preciso observar como acontece a tomada de decisões, se existe ética no momento da escolha, como é o tratamento com os funcionários, a segurança, a limpeza e o uso dos recursos. Quais são os critérios? Começar a fazer esse filtro, ver o alinhamento do que a empresa faz com o objetivo de ser sustentável.

As empresas aceitam esse tipo de controle ou ainda há resistência?
No nível geral empresarial podemos dizer com convicção que há uma tendência irreversível para a adoção de medidas de controle. Existe sim um movimento, as grandes empresas têm um papel fundamental por se tornarem referência para todos. As pequenas, porém, não precisam necessariamente esperar, até porque as associações empresariais e os sindicatos falam disso toda hora. O primeiro passo é perceber que isso não tem volta, entender que o empresário brasileiro, principalmente no ramo da construção, tem uma grande oportunidade de crescimento quando a sustentabilidade está atrelada aos negócios.

Qual dos itens é considerado prioritário dentro de uma empresa que pretende seguir padrões rígidos de compliance: confidencialidade, transparência, divulgação correta de dados, responsabilidade fiduciária, integridade, responsabilidade, confiança ou verificação?
É uma questão muito difícil, até porque a primeira percepção de diversos empresários que ainda não estão abertos para uma nova cultura que valorize a ética é achar que estamos falando uma tremenda besteira e irreal. A primeira questão quando se opta pelo compliance é verificar como estão as suas escolhas, por menores que sejam. Em um código de ética e conduta, que é a melhor forma de se falar desse documento, a referência ética é estratégica e a conduta é operacional. Nele existem todos esses tópicos e não adianta dizer que um [valor] é mais importante que o outro. Estão todos interligados em uma pergunta que deveria ser feita por todos os líderes, por todos os funcionários.

Considerando as denúncias e delações no âmbito da Lava-Jato, a legislação precisa de ajustes?
Ainda estamos nos acostumando com a Lei 12.846. Publicada em 1o de agosto de 2013, ela entrou em vigor em março de 2015, quando foi regulamentada por decreto. Muita gente fala que ainda ninguém foi preso por ela. É um processo de aprendizado, de adaptação e não existe legislação que seja estática, que não esteja aberta a correções. Se a lei sofrer qualquer tipo de adaptação para generalizar o compliance, ou seja, todo mundo pode fazer o que quiser que estará dentro da lei, então isso não é compliance, é manipulação. Quando nos comprometemos com a não corrupção, quando respeitamos a questão legal, a legislação fica mais forte. Isso gera cultura e lá na frente ela vai ficando desnecessária. A lei começa a ser respeitada quando realmente há um engajamento de todos os stakeholders.

Quando falamos em sustentabilidade empresarial, de cumprir com seu papel dentro da sociedade, a gestão da ética e do compliance é uma questão de valor, é fundamental

Além de critérios que evitem ilegalidades, como fazer para proteger um funcionário que deseja denunciar uma irregularidade na empresa em que trabalha? Como aprimorar mecanismos e procedimentos internos?
A disponibilização de canais que criem oportunidades para que stakeholders da organização, independente se são funcionários de alto ou baixo nível, ou mesmo stakeholders externos, possam encaminhar suas denúncias é algo que já deixou de ser novidade. Ele é um instrumento extremamente valioso e que é utilizado por muitas organizações de formas distintas. Uma grande empresa normalmente contrata uma empresa especializada nesse tipo de instrumento que já tem todo o processo estruturado de encaminhamento [da denúncia] dentro da organização. No caso de pequena organização, ela pode disponibilizar uma urna, um e-mail.

É fundamental que exista credibilidade, confiança nos processos, e isso não vale só para as pequenas. A abertura de canais ajuda a resolver problemas. Hoje, as empresas – independente do tamanho – começam a estruturar isso, e é um bom sinal.

Como garantir que as práticas de fornecedores e terceirizados estejam de acordo com o sistema de ética e compliance da empresa?
Quando você pensa na cadeia de valor, na cadeia de suprimentos principalmente, na medida em que seu fornecedor vai se distanciando de você, ou seja, quando está comprando uma coisa de um fornecedor, que comprou de outro fornecedor, que comprou de outro… você vai perdendo o controle. Fica muito difícil garantir a gestão ética de um fornecedor em algum desses níveis. Quando falamos de sustentabilidade com líderes mundiais, eles têm a cadeia de valor, a de suprimentos, talvez como a principal prioridade, às vezes até maior do que a própria comunidade no entorno ou o próprio funcionário, porque quando se lida com fornecedor está lidando diretamente com a continuidade do negócio. Essa questão do relacionamento com os fornecedores já se tornou estratégico em nível mundial e está sendo desenvolvida uma norma internacional. A ideia é, primeiro, que se institua processos de aquisição que garantam rastreabilidade e o compromisso em todos os níveis. Algumas empresas introduzem códigos de ética para os seus fornecedores. Vamos supor que uma construtora está contratando um serviço de carpintaria de uma empresa, que compra madeira de outra [empresa]. O que ela faz? Ela introduz um código de ética e faz com que a fornecedora assuma o compromisso de realmente ser responsável por qualquer tipo de problema que possa ocorrer posteriormente no processo. Isso é eficaz? Como não é tão antigo [a exigência], ainda não está consolidado em alguns segmentos. A cadeia de valor é prioritária e para a construção civil ela é subsistência.

A criação do cargo de Diretor de Governança, Risco e Conformidade, como fez a Petrobras, é recomendada mesmo para empresas menores?
Vejo como uma reação natural das empresas elas darem um sinal, pela reestruturação e valorização de recursos, para atacar eventuais reincidências. É para mostrar aos seus acionistas que existe um compromisso de não deixar que aconteça novamente. A estrutura em si é uma forma de criar percepção [que os problemas estão sendo combatidos] de que o processo vai dar em algo. Mas pode ser totalmente ineficaz se esse mecanismo não for materializado nos conselhos de administração, nas revisões, nas aberturas dos processos para que todos tenham conhecimento do que está acontecendo, que os acionistas tenham acesso a essas informações.

A lei começa a ser respeitada quando realmente há um engajamento de todos os stakeholders

Já é possível apontar resultados do guia da CBIC sobre ética e compliance para a construção civil?
No final de 2014 começamos a fazer o trabalho e detectei nitidamente que nós não estaríamos inventando a pólvora. Tínhamos evidências do comprometimento da CBIC e o que veio à mente foi esse código de ética, que foi aprovado em 1992, 1993, pelos próprios associados. Estamos na fase da materialidade [do projeto]. Quando ela [CBIC] disponibiliza um guia está deixando um legado e também um voto de confiança. É um projeto de longo prazo, só que ela precisa da resposta das organizações. Esse é o desafio. A CBIC faz o seu papel, os sindicatos aderem, mas a implantação da cultura é realmente aquele processo em que você joga uma semente na terra boa e tempos depois vê que ela se tornou uma árvore frondosa, com frutos.

Quais as suas expectativas com a criação de um padrão internacional de compliance, como o que tem sido elaborado pela Coalizão Internacional de Padrões Éticos (Iesc, na sigla em inglês) com o auxílio de líderes independentes da indústria e especialistas em ética e compliance? O documento esteve aberto para consulta pública e sugestões até o final de abril.
Tenho participado das reuniões e vejo que estamos na direção certa, pelo trabalho que está sendo feito, por ter pessoas de múltiplas culturas e com importância estratégica. Porém, esse caminho vai nos apresentar como produto final instrumentos que não necessariamente vão se adaptar a cada cultura e região. Sustentabilidade é algo que você pensa globalmente, mas age localmente. Tem que considerar os aspectos da cultura, mas utilizar essas conclusões e propostas da melhor forma possível.

Por Ivan Ryngelblum

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