Artigo: qualificação e produtividade são os grandes desafios da construção

Quando construí meu primeiro edifício em 1970, os canteiros de obras tinham baixa produtividade. A construção era um processo quase inteiramente artesanal. A mão de obra, pouco qualificada. E a segurança do trabalho, precária. Trabalhadores resistiam ao uso de botas, capacetes e outros equipamentos de proteção individual.

Nas últimas décadas, a evolução foi expressiva. Processos de certificação da qualidade como a ISO e o PBQP-H contribuíram para a racionalização de processos. Um número cada vez maior de empresas trabalha com BIM, possibilitando um planejamento prévio bastante detalhado e elevação da produtividade na execução da obra.

Com o surgimento de novos processos construtivos, ganhamos uma mão de obra mais qualificada. A atenção aos procedimentos de segurança reduziu expressivamente o volume de acidentes do trabalho

Junto com o surgimento de novos processos construtivos, ganhamos uma mão de obra mais qualificada. A atenção aos procedimentos de segurança reduziu expressivamente o volume de acidentes do trabalho.

Esta evolução também se refletiu na diminuição de desperdícios e retrabalhos. Hoje quando se encomendam materiais como azulejos, por exemplo, compra-se um excedente de até 5%, não por conta de desperdício, mas devido à necessidade de cortar algumas peças. Houve também aumento expressivo de equipamentos que potencializam o trabalho braçal.

Na movimentação de materiais, os avanços foram notáveis. As gruas se mostram seguras para o transporte e sua utilização é cada vez maior. Outro progresso foi a paletização de materiais, como os blocos. A mecanização dessas atividades nos canteiros representou ganho de tempo que também se refletiu no aumento da produtividade.

Quanto à utilização de itens pré-fabricados, como paredes de drywall, ela vem acontecendo na construção industrial e comercial, mas ainda enfrenta resistência entre os contratantes de construção residencial. O construtor precisa estar atento, verificando sempre se o mercado vai aceitar inovações e se elas se mostrarão viáveis a ponto de justificar o investimento na qualificação da mão de obra para implementá-las.

Diferentemente de alguns anos atrás, hoje o mercado dispõe de oferta de mão de obra qualificada. Isso significa que temos a oportunidade de prosseguir no esforço de elevar a produtividade nos canteiros, com processos de melhorias contínuas.

Nesta trajetória, há espaço para avanços. Estudo desenvolvido pela Fundação Getulio Vargas (FGV) para o SindusCon-SP, com dados disponíveis até 2013, mostrou que a produtividade do trabalho na construção naquele ano equivalia a 68% daquela da economia brasileira e a 30% da produtividade média da economia de países desenvolvidos.

Olhando para a elevada produtividade na construção norte-americana, o estudo apontou algumas características bastante relevantes: amplo uso de processos industrializados, com padronização das atividades envolvidas em cada processo e dos materiais empregados, como forma de compensar as restrições originadas no mercado de trabalho; inexistência de incentivos tributários à adoção de processos industrializados na construção; relevância da eficiência logística no contexto de uma teia cada vez mais complexa de fornecedores e prestadores de serviço; e piora na qualificação da mão de obra funcionando como um estímulo à intensificação do uso de processos industrializados.

Ou seja, no Brasil precisamos intensificar a padronização e a industrialização de processos; superar desestímulos tributários, como a cobrança de impostos elevados sobre a produção e a comercialização de materiais e sistemas construtivos industrializados; e aproveitar a qualificação da mão de obra para treiná-la a trabalhar com esses materiais e sistemas.

Aqui é necessário atacar os componentes que desafiam diariamente nossas construtoras: a busca por recursos para financiar avanços de produtividade; o desenvolvimento de um projeto de aperfeiçoamento contínuo da gestão da empresa e da mão de obra; os cuidados com a organização e a logística do canteiro, e a busca de eficiência em relação aos fornecedores.

Uma vez que a atividade da construção é cada vez mais a gestão de uma rede de empresas subcontratadas, que executam tarefas distintas nas diversas fases da obra, a gestão da produtividade no canteiro está intrinsecamente ligada à gestão dessas empresas.

Trata-se de um fator sobre o qual a construtora precisa atuar, exigindo da subcontratada um elevado padrão de atualização tecnológica e eficiência. Entretanto, muitas destas subcontratadas tendem ao emprego de mão de obra pouco qualificada e também dependem de eficiência por parte dos seus fornecedores de insumos. Complicado.

Diante destes desafios, o sucesso no emprego de novas tecnologias, na qualificação da mão de obra e na gestão da empresa depende da melhora contínua da eficiência em todos os níveis hierárquicos da empresa. Por isso, a elevação da produtividade nos canteiros de obras depende fundamentalmente dos processos de gestão das empresas como um todo.

E, como é sabido, nossas empresas enfrentaram nos últimos anos um cenário oposto ao esforço pela produtividade: deterioração da política econômica com inflação e alta dos juros, investimento público declinante em habitação e infraestrutura, crescente dificuldade de acesso ao crédito, corrupção nos negócios com o Estado, insegurança jurídica derivada de marcos regulatórios falhos, carga tributária elevada e educação insuficiente.

Isto para não falar do excesso de burocracia no licenciamento das obras, do cipoal legal que se precisa atravessar para desenvolver, aprovar e executar empreendimentos e das exigências para a promoção da saúde e segurança do trabalho, aliás, também necessárias à elevação da produtividade.

A recente mudança na política econômica, buscando equilíbrio das contas públicas e a recuperação da confiança dos investidores, é um sinalizador positivo. Mas certamente ainda levará muitos anos para que um ambiente macroeconômico e político favorável à produtividade trabalhem a favor da elevação da produtividade das construtoras e de seus canteiros de obras.

Sergio Porto sócio da Sergio Porto Engenharia, é presidente do Serviço Social da Construção (Seconci-SP) e representante do SindusCon-SP junto à Fiesp. Foi presidente do SindusCon-SP e do Instituto de Tecnologia e Qualidade da Construção.

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