Saiba o que considerar na contratação de um retrofit de fachada

Valorizar o imóvel e prolongar sua vida útil promovendo melhora no desempenho da envoltória é a principal função do retrofit da fachada de edificações. A motivação para um retrofit, de acordo com o engenheiro civil Jonas Medeiros, diretor técnico da Inovatec Consultores Associados, quase sempre é econômica. “Depois que as soluções para projeto e obra são vislumbradas, a sustentabilidade pode se tornar decisória, principalmente se há a intenção de certificar o empreendimento”, afirma.

Mas como saber se a fachada precisa passar pelo retrofit? Um caminho é conversar com os usuários para entender o cenário de conforto ambiental do prédio. Se a fachada não proporciona boas condições de ocupação, não garante bem-estar aos usuários e compromete a eficiência energética, é hora de fazer o retrofit, dizem os especialistas. Segundo Medeiros, trata-se de um projeto complexo, pois o novo invólucro será construído sobre uma edificação existente e da qual nem sempre há dados disponíveis. “Muitas vezes não existe projeto de arquitetura nem de estrutura e o projetista precisa fazer sondagens e levantamento de campo para conhecer a fachada original. O número de interferências também é maior, o que impacta diretamente em custos e prazos”, explica.

Para fazer um projeto de retrofit o primeiro passo é a contratação de um consultor em eficiência energética e conforto ambiental, um engenheiro de instalações e um arquiteto – preferencialmente com alguma experiência na área. De acordo com o arquiteto Marcelo Nudel, professor de sustentabilidade de edificações na universidade Mackenzie e sócio-diretor da Ca2 Consultores Ambientais Associados, esses três profissionais são os primeiros a vistoriar a edificação para avaliar suas limitações e potencialidades em relação ao retrofit. É importante que eles tomem, conjuntamente, todas as decisões de projeto. Cabe ao consultor mostrar ao cliente que o investimento terá o retorno esperado em um determinado prazo. “O retorno financeiro é calculado sob o ponto de vista da economia de energia que será alcançada. Tem que fazer estudos, simulações computacionais de luz e calor das alternativas possíveis até encontrar a melhor resposta”, explica Nudel. Essas informações darão subsídio ao projeto.

Medeiros destaca que é necessário elaborar o estudo de viabilidade considerando fatores como prazo, custo e logística de obra. Aspectos como dificuldades de acesso, sequência executiva e interferências na vizinhança e nas atividades do edifício existente também devem ser levados em conta. Só depois é que vem o projeto conceitual. “Com base nesse projeto e nos demais parâmetros é que se chega aos valores para a decisão final”, afirma o engenheiro. A escolha de uma tecnologia que abrevie o cronograma é fundamental no caso de edifícios que foram fechados para a intervenção. Dependendo do caso, é possível fazer a obra com o prédio em operação, mas isso requer planejamento detalhado de cada fase para minimizar transtornos.

Sistemas e materiais
O que não falta no mercado são opções para a nova fachada, tais como pele ou cortina de vidro, revestimentos aderidos e não aderidos, placas cimentícias, pré-moldados, fachadas ventiladas e com rochas ornamentais, entre outras. A definição do novo sistema e a especificação de seus componentes depende de análise técnica criteriosa, feita com base em simulações de desempenho. “Não adianta ter uma fachada atraente se a eficiência energética e o conforto ambiental ficam abaixo da expectativa. Especificar um sistema sem conhecer as consequências de cada escolha pode até levar à piora das condições do prédio”, alerta Nudel.

Não existe uma norma técnica brasileira específica para intervenções em fachadas ou que trate do desempenho da envoltória ou do conforto ambiental de uma edificação comercial. Além das certificações de sustentabilidade voluntárias e da Procel Edifica – Etiqueta de Eficiência Energética em Edificações, os únicos parâmetros são os que se referem à vida útil dos elementos da fachada e ao conforto térmico, ambos presentes na norma de desempenho NBR 15.575/2013 que, apesar de voltada ao segmento habitacional, serve de referência a outras tipologias. O projeto e a obra devem seguir as normas técnicas pertinentes ao sistema envoltório escolhido. No caso das fachadas ventiladas, não existem normas brasileiras e é preciso recorrer à normatização de outros países para o desenvolvimento de projetos seguros e eficientes.

O prédio e a cidade
Não há necessidade de consultar os vizinhos para dar início às obras de retrofit, porém, é obrigatório criar proteções que evitem a queda de material sobre transeuntes, veículos ou construções adjacentes. Se a obra estiver localizada no entorno de um edifício tombado ou na área de um centro histórico é necessário verificar quais são as diretrizes dos órgãos de preservação do patrimônio para intervenções nas fachadas de prédios naquela área. Obras de reforma ou retrofit estão sujeitas às legislações municipais e cabe ao arquiteto elaborar o projeto legal para aprovação na prefeitura, considerando o Código de Obras e também a Lei de Zoneamento, que interfere tanto na taxa de ocupação quanto na volumetria do imóvel.

Solução para pequenas obras
Nem todas as obras de retrofit envolvem edifícios de escritórios ou outras construções verticais. A renovação das fachadas também permite estabelecer uma imagem comercial para imóveis que originalmente tiveram uso residencial ou possuem fachadas degradadas. Este é o caso do projeto do arquiteto Márcio Tenreiro para uma oficina mecânica localizada em Pedreira (SP). A fachada ventilada foi escolhida com a finalidade de renovar a estética da construção, valorizar o imóvel e promover o conforto térmico com menos consumo de energia elétrica. “Buscamos uma solução sustentável, que conciliasse estética e atenuação térmica”, diz Tenreiro.

A obra foi realizada pela Excellent Esquadrias de Alta Qualidade, de Hortolândia. Segundo a arquiteta Noemi Del Vale do Amaral, gerente comercial da empresa, a nova fachada foi projetada combinando pele de vidro, alumínio e um painel de alta resistência e padrão amadeirado próprio para uso em fachadas ventiladas. “Não foi necessário quebrar nada, apenas instalamos a nova fachada em cima do plano existente, e a oficina continuou funcionando normalmente”, afirma Noemi.

ETAPAS DO RETROFIT DE FACHADAS

– Levantamento e sondagem da fachada, alvenaria externa e estrutura existente;
– Seleção de alternativas possíveis;
– Estudo preliminar de arquitetura e análise das condições de execução da obra;
– Projeto conceitual do sistema construtivo;
– Estudo de viabilidade técnica-econômica;
– Projeto executivo de arquitetura e do sistema construtivo;
– Orçamento detalhado;
– Execução;
– Manual de manutenção. Fonte: Inovatec Consultores Associados

NORMAS TÉCNICAS

Fachadas leves com estruturas metálicas e fachadas ventiladas
NBR 6.120:2000 – Cargas para o Cálculo de Estruturas de Edificações
NBR 6.123:1988 – Forças Devido ao Vento em Edificações
NBR 8.800:2008 – Projeto de Estruturas de Aço e de Estruturas Mistas de Aço e Concreto de Edifícios
NBR 15.329:2006 – Ligas de Alumínio Para Uso Estrutural na Arquitetura e na Construção Civil – Especificação
NBR 12.609:2012 – Alumínio e Suas Ligas – Tratamento de Superfície – Anodização para Fins Arquitetônicos – Requisitos
NBR 14.827:2002 – Chumbadores Instalados em Elementos de Concreto ou Alvenaria – Determinação de Resistência à Tração e ao Cisalhamento
NBR 10.065:2011 – Elementos de Fixação de Aço Inoxidável e Aço Resistente à Corrosão – Especificação

Fachadas com vidro
NBR 7.199:1989
 – Projeto, execução e aplicações de vidros na construção civil;
NBR 10.821:2011 – Esquadrias Externas para Edificações
NBR 11.706:1992 – Vidros na Construção Civil
NBR 12.609:2012 – Alumínio e Suas Ligas – Tratamento de Superfície – Anodização para Fins Arquitetônicas
NBR 13.756:1996 – Esquadrias de Alumínio – Guarnição Elastomérica em EPDM para Vedação – Especificações
NBR 14.125:2009 – Alumínio e Suas Ligas – Tratamento de Superfície – Revestimento Orgânico para Fins Arquitetônicos – Requisitos
NBR 14.697:2001 – Vidro Laminado
NBR 14.698:2001 – Vidro Temperado
NBR 15.575:2013 – Edificações Habitacionais – Desempenho – Parte 4: Requisitos Para o Sistema de vedações Verticais Internas e Externas – SVVIE;
NBR 15.737:2009 – Perfis de Alumínio e Suas Ligas Com Acabamento Superficial – Colagem de Vidros Com Selante Estrutural
NBR 15.919:2011 – Perfis de Alumínio e Suas Ligas Com Acabamento Superficial – Colagem de Vidros Com Fita Dupla-face Estrutural de Espuma Acrílica Para Construção Civil
NM 293:2004 – Terminologia de Vidros Planos e Dos Componentes Acessórios e Sua Aplicação
NM 295:2004 – Vidro Aramado

Por Nanci Corbiolli

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