Empresas adaptam projetos para atender singularidade de consumidores e apostam na personalização dos empreendimentos

O mercado de construção civil avança lado a lado com as mudanças sociais. De fato, não poderia ser diferente já que é entre as paredes que a vida cotidiana acontece – nas casas, nos apartamentos, nos escritórios e nas áreas de convivência social. Não por acaso o comportamento humano está no centro das pesquisas feitas por construtoras e incorporadoras na hora de lançar empreendimentos. O setor tem buscado atender a demandas particulares de cada um dos públicos que pretende atingir.

Mais do que uma estratégia de marketing, se antecipar às necessidades dos seus clientes é uma forma de manter-se vivo em um mercado tão competitivo. “Estamos sempre buscando entender como o indivíduo contemporâneo se comporta para, assim, realizar o desejo dos nossos clientes”, afirma Luiz Fernando Moura, diretor da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc).

Exatamente por isso tem crescido o número de lançamentos que buscam atender a nichos específicos do mercado. As empresas têm se dedicado tanto à infraestrutura interna de cada unidade como também às áreas de circulação e convivência, buscando agregar serviços que sejam úteis, atrativos e propiciem alguma economia para o morador.

Longe dos modismos, segundo Moura, a busca pelo atendimento dos nichos está associada a uma visão de longo prazo. “A cada vez que vivemos um novo momento social, vemos os costumes mudando a partir desses pequenos grupos e, mais tarde, se solidificando de forma mais ampla na sociedade”, explica.

Idosos 
Uma das tendências mais observadas pelo mercado imobiliário é a do envelhecimento da população. No Brasil, nos últimos 40 anos, o número de pessoas com 70 anos ou mais quintuplicou – de 1,7 milhão para 8,8 milhões de indivíduos, compondo 4,6% da população. Essa é uma tendência irrevogável, há muito já comentada no universo do varejo, e agora também presente na construção civil.

A Vitacon lançou em maio deste ano o VN Perdizes, seu primeiro empreendimento voltado para este setor. Segundo o diretor presidente da empresa, a preocupação inicial foi entender como os idosos vivem em São Paulo. “Antigamente as famílias eram grandes e o idoso poderia ter, além dos parentes, um cuidador. Hoje o cenário é completamente diferente”, explica. “Além da família ser pequena, com 2,1 filhos por casal, em média, o custo de ter um cuidador em tempo integral já começa a ficar proibitivo.”

Nesse sentido, a ideia é oferecer unidades que proporcionem o máximo de autonomia e de socialização para esse público. Dentro dos apartamentos, os pisos são nivelados, sem pequenos degraus, as portas têm vãos mais largos e a altura das tomadas são medianas, de forma a melhorar a acessibilidade. Nas áreas molhadas o piso é antiderrapante e os banheiros possuem barras de apoio. Também está previsto um botão de alarme dentro de cada unidade, que avisa a portaria de qualquer emergência, além da entrega de uma pulseira responsável pelo monitoramento dos sinais vitais do morador.

Nas áreas comuns, o investimento é nos serviços e nas áreas de socialização. “Buscamos trabalhar esse viés com soluções compartilhadas de assistência, como restaurante, sala de fisioterapia e sala de cinema”, afirma Lafer.

O VN Perdizes está previsto para ser entregue no segundo semestre de 2018. “O sucesso de um empreendimento como esse está na soma de fatores: a boa localização, a demanda das famílias e a oportunidade que se cria a partir do envelhecimento da população e da escassez de mão de obra.”

“Um solteiro quer um salão gourmet para receber os amigos e um estacionamento. Já o universitário tem demanda por serviços” Juliano Antunes diretor presidente Uliving

Jovens adultos 
A reboque das mudanças nas organizações familiares, surgem também os imóveis voltados para solteiros ou casais jovens. Esse é o público prioritário da MaxHaus, que atende os jovens adultos em busca de um ambiente despojado, inovador e, principalmente, personalizado. Os apartamentos têm área privativa de cerca de 70 m² e estão localizados em pontos de fácil acesso ao transporte coletivo ou próximos aos grandes centros empresariais.

A personalização fica por conta da chamada arquitetura aberta, na qual o morador pode organizar os cômodos de acordo com seu estilo de vida – quem prefere receber os amigos pode adotar a integração entre os cômodos. Depois do nascimento dos filhos, os quartos poderão ser fechados, eliminando a necessidade de uma mudança de apartamento para atender este novo momento da vida. É possível, inclusive, juntar as unidades para obter metragens maiores.

Segundo o superintendente da Maxcasa, Luiz Henrique Vasconcelos, multifuncionalidade, conforto e praticidade fazem parte do desejo desse público. “Por exemplo, o MaxHaus Café – um novo estilo de salão de festas – com oferta de internet wi-fi, foi pensado para oferecer ao morador um espaço para relaxar, receber amigos, fazer home office ou simplesmente para um encontro rápido de trabalho”, explica. “Além disso, oferecemos lavanderia coletiva, sistema pay-per-use de limpeza e outras funcionalidades. Alguns desses serviços são opcionais e a contratação depende da decisão dos moradores em reunião condominial”, explica.

O bônus fica com a automação, já que o público de jovens adultos tem maior aderência a todo o tipo de tecnologia. Com o AutoHaus, o morador faz programações dentro e fora do apartamento para fechamento de cortinas, controle de intensidade das luzes ou acionamento do sistema de som. As portas possuem funções eletrônicas com garantia de segurança e um controle remoto no lugar da chave. Os elevadores são envidraçados, o piso de cimento queimado e as paredes grafitadas, levando a arte da rua para dentro de casa.

A estratégia de marketing também foca na modernidade, com força total na mídia via internet. “Optamos por seguir com o online, pois, atualmente, as pessoas ficam pouco tempo em suas casas e a internet nos computadores e celulares ganha espaço cada vez maior no cotidiano”, ressalta Vasconcelos. “As facilidades de busca e segmentação que as mídias online proporcionam fazem com que os investimentos em divulgação sejam muito mais efetivos”, afirma o superintendente.

Universitários 
Foi-se o tempo em que uma república animada e cheia de badalação era o sonho de dez em cada dez universitários. O crescimento da demanda neste mercado tem sido tão grande que há empresas fazendo deste público a sua especialidade. É o caso da Uliving. Fundada em 2013, trabalha exclusivamente com empreendimentos voltados para jovens universitários.

“Identificamos que não existia uma empresa explorando esse nicho no Brasil, então fomos buscar nos Estados Unidos e na Europa referências de como esses projetos são construídos”, lembra Juliano Antunes, diretor presidente da administradora que identifica as oportunidades, conceitua o empreendimento e busca uma construtora parceira interessada em apostar nesse mercado.

Os dois empreendimentos em operação, um em Sorocaba e outro em São Paulo, já funcionam com 100% de ocupação e lista de espera. É o sucesso destes empreendimentos que quebram a resistência dos investidores, acostumados com formatos mais tradicionais.

Os empreendimentos Uliving são compostos por unidades de cerca de 21 m² – com suítes ou quartos compartilhados. Uma cama, um pequeno espaço para estudo, uma bancada com pia e um frigobar são suficientes para quem tem uma extensão do campus nas áreas comuns do condomínio. “Um solteiro quer um salão gourmet para receber os amigos e um estacionamento. Já o universitário tem demanda por serviços”, afirma Antunes. “A lavanderia é de uso comum, há possibilidade de contratar quinzenalmente os serviços de limpeza administrados pelo próprio condomínio, além dos serviços de água, luz e internet embutidos no aluguel”, conta.

Apartamento com arquitetura aberta voltado para jovens adultos. O espaço permite a integração entre os cômodos e, depois do nascimento dos filhos, os quartos podem ser fechados, eliminando a necessidade de mudança de imóvel

Na hora das vendas, a Uliving mira no universitário e, principalmente, nos pais dele. Os jovens são sensibilizados pelas mídias online, tendo os benefícios como principal argumento. “Fazer parte da rede Uliving significa ter acesso a outros universitários de todo o País pelas comunidades internas, participar de eventos e até descontos em diversos produtos e serviços como comida congelada, por exemplo. O poder de negociação que eu tenho como rede é passado para o usuário na forma de benefícios”, explica o executivo.

Já com os pais, o discurso é outro. “Temos um padrão de operação dos empreendimentos e das nossas unidades. É fundamental que os pais tenham certeza do que vão encontrar ao colocar o filho para viver em um Uliving”, diz.

A Vitacon também aposta nesse mercado. O primeiro empreendimento deve ser lançado em parceria com a ESPM, em São Paulo. No mesmo conceito de extensão do campus, o projeto conta com apartamentos de até 32 m², com laboratórios, academia, biblioteca e cozinha nas áreas comuns. Até o início das obras, a Vitacon e a ESPM aproveitam o espaço com o projeto Língua, uma espécie de estacionamento de food trucks idealizado por Sérgio Cabral e Arthur Norgren, sócios da contain [it], responsáveis pelo projeto Marechal Food Park, eleito o melhor foodpark de 2015 pela Folha de São Paulo. Uma estratégia de marketing diferenciada para atrair o público foco para o local.

Quem investe
Em todos esses casos, a tendência de compra para locação fica mantida. Segundo Alexandre Lafer, da Vitacon, esse tipo de empreendimento costuma interessar quem pretende fazer renda. “O imóvel deixou de ser uma compra para a vida inteira. O indivíduo muda de casa conforme seu momento de vida”, explica.

Por outro lado, o investimento chama a atenção justamente pela alta liquidez e, principalmente, por oferecer alto valor agregado: boa localização, além do custo de construção e de operação menor, graças ao formato compacto.

Na imagem de cima , imóvel com quarto compartilhado em empreendimento voltado para universitários. Um pequeno espaço para estudo e um frigobar completam o ambiente. Na imagem de baixo, empresas investem em imóveis compactos e nas áreas comuns para agradar universitários e jovens adultos

Segundo Lafer, para aproveitar as oportunidades é fundamental se aprofundar no perfil do seu cliente. “Atualmente, quem não faz uma pesquisa ampla e profunda sobre o mercado em que vai atuar não consegue ir muito longe”, diz.

Mais do que a boa pesquisa, é fundamental ter agilidade de execução. Ainda que o mercado imobiliário funcione em tiros de longo prazo, Luiz Fernando Moura, diretor da Abrainc, lembra que as mudanças sociais são constantes – e cada vez mais rápidas. “É claro que a relação das pessoas com a própria moradia não é algo que muda do dia para a noite, até porque a oferta de imóveis não acompanharia uma velocidade tão grande”, explica. “Mas é importante manter o empreendimento em constante atualização até que ele seja entregue – às vezes um prazo de seis meses é o suficiente para a demanda do público mudar de alguma forma.”

A nova varanda gourmet
Com estratégia e pesquisa, setor encontra solução para driblar a crise
Por Bárbara Ladeia

Até meados do ano passado, os espaços gourmet – tanto as varandas quanto as salas de uso comum – eram a menina dos olhos do mundo imobiliário. Já seria tempo de uma nova moda ter tomado conta dos canteiros de obra do País, não fosse a crise econômica que colocou o mercado inteiro em compasso de espera. Em julho deste ano, as vendas de imóveis novos caíram 13,8%. Por outro lado, os lançamentos dispararam 13%. Ao que parece, esse tímido ensaio de retomada já tem reanimado o mercado. Nos últimos dois anos, o desafio foi conseguir vender imóveis, driblando a avalanche de distratos e inadimplência.

Agora a inovação deve voltar à rotina dos empreendedores. Uma das grandes novidades que surgem a partir do novo plano diretor é a implementação da chamada área de fruição pública. Trata-se de espaços de no mínimo 250 m² no andar térreo que fica aberta para circulação, instalação de estabelecimentos comerciais e de serviços.

Para Alex Franchetta, presidente da Apto.vc, esse movimento comercial no empreendimento garante alguma segurança, além de baratear o condomínio para os moradores. “Tenderemos a ver mais empreendimentos mistos, que unem residencial e comercial, comercial junto com hotel ou ainda tudo junto em um mesmo espaço, mas em torres separadas.

Os serviços pay-per-use, que eram exclusividade dos imóveis para solteiros, agora também estão na moda dos empreendimentos para famílias. Construtoras têm lançado mão de parcerias com prestadores de serviços de renome para montar a arquitetura e a gestão ideal para cada área do condomínio, como academia, sala de balé ou de lutas. “Uma piscina com projeto assinado pela escola de natação do Gustavo Borges, por exemplo, agrega nome ao empreendimento”, explica. “Além do que, nem sempre o arquiteto residencial conhece as melhores estruturas para cada um desses serviços.”

Mesmo com tantas possibilidades, segundo a arquiteta Daniella Sampaio, sócia do Estúdio Forma, o terraço gourmet ainda faz muito sucesso. “Agora o que temos mais visto são as variações disso, como a adição de uma pequena sala de estar ou outro tipo de área de convívio”, explica. Releituras como essa trazem o que tem sido outra tendência: a integração de ambientes.

“A escassez de terreno no Centro das grandes capitais faz com que todos os empreendimentos sofram uma espécie de ‘efeito Tóquio’ e encolham de tamanho”, conta a arquiteta. “Apostar na integração dos ambientes é uma forma de reduzir o custo e tornar um imóvel menor mais confortável.”

Varanda gourmet para todos
Há um mercado específico que conhecerá os prazeres da varanda gourmet em breve. Trata-se dos futuros moradores do Terraço Quintaúna, em Osasco, empreendimento da Danpris lançado pelo programa de habitação popular Minha Casa Minha Vida. “Em geral, esses empreendimentos têm cinco andares, nenhuma área de lazer e nem elevador. É um caixotão sem nem uma sacadinha para sair e tomar um ar”, comenta Dante Seferian, diretor presidente da construtora. “Estamos montando diversos produtos inovadores nesse sentido e esse foi o primeiro deles.”

Oferecer um terraço gourmet em um empreendimento de baixo custo foi uma forma de proporcionar conforto e sofisticação a um público de menor renda. “Esse cômodo da casa já é uma realidade nos imóveis de classe média, por que não trazer também para o público de baixa renda? “, questiona Seferian.

Aparentemente a estratégia deu certo. Em plena crise econômica, a Danpris encerra o ano com 70% das unidades vendidas. A construtora encontrou uma forma de elevar a qualidade dos apartamentos sem perder a sua margem de lucro. “A margem de um Minha Casa Minha Vida é menor, mas, nesse caso, temos uma velocidade de vendas grande. Se o terreno for bem comprado e o orçamento for seguido à risca, é possível ter sucesso”, explica o executivo.

No mais, o imóvel segue as tendências do mercado, com unidades compactas e a planta inteligente. “Nós procuramos criar um produto realmente agressivo, encantador e com preço competitivo.”

Por Bárbara Ladeia

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