Moradia popular impulsiona setor imobiliário em Campo Grande

Com um déficit habitacional na casa dos 34%, segundo último censo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade de Campo Grande tem registrado boas possibilidades de vendas para empreendimentos voltados à moradia popular. São produtos com tickets de até R$ 180 mil, enquadrados na Faixa 2 do programa Minha Casa Minha Vida que garantem um desempenho equilibrado do mercado imobiliário em ano de cenário macroeconômico desfavorável.

Uma das empresas que resolveu apostar no segmento é a Tecol Engenharia, com sede em Araçatuba (interior de São Paulo), que atua há 15 anos na construção civil. “Nós estamos em Campo Grande desde agosto de 2000. Entregamos 27 empreendimentos, sempre no padrão Minha Casa Minha Vida”, afirma Marcos Luiz de Oliveira, diretor da Regional Campo Grande, que prevê crescimento de 10% em 2016 na comparação com o ano passado.

O último empreendimento da Tecol na capital sul-mato-grossense é o Villas de Castilla, que foi lançado no começo do ano e possui 50% das 256 unidades vendidas. São apartamentos de dois dormitórios, com 55 m², e ticket a partir de R$ 135 mil. Para atingir a velocidade de vendas, o diretor explica que o investimento em publicidade e marketing foi muito alto. “Também estamos financiando a entrada. Hoje em dia, estamos nos adequando ao orçamento do cliente. Todas as propostas são analisadas.”

O interesse pela aquisição do primeiro imóvel segue firme na cidade, principalmente devido ao desenvolvimento agropecuário e ao fortalecimento do setor de serviços, diretamente ligado à atividade do agronegócio. Além disso, Campo Grande tem registrado um aumento populacional acima da média nacional, o que gera demanda para o setor. De 2010 a 2016, a população cresceu 9,8%, chegando a 863.982 habitantes, contra 8% registrado no mesmo período no País.

Segundo o presidente do Sindicato In – termunicipal da Indústria da Construção Civil do Estado de Mato Grosso do Sul (SindusCon-MS), Amarildo Miranda Melo, há muito espaço para a construção de moradia popular na cidade. “Temos muitos vazios urbanos, então na realidade dá para construir em todo lugar. Campo Grande é muito espalhada”, explica.

“Só de perímetro urbano são 36 mil hectares. Isso permite que se faça empreendimentos em vários lugares”, ressalta Marcos Augusto Netto, presidente do Sindicato da Habitação do Mato Grosso do Sul (Secovi-MS). Em setembro, um relatório elaborado pelo Observatório de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) apontou que 35,54% do perímetro urbano de Campo Grande são de espaços vazios. A área é equivalente a 12 mil campos de futebol.

No curto prazo, esses espaços vazios devem ser ocupados pelas empresas locais. Isso porque, com o agravamento da crise, várias construtoras que investiam na cidade acabaram retornando para seus locais de origem. É o caso da PDG, Rossi, Goldfarb e Brookfield. “Do ano passado para cá, nenhuma dessas empresas estão atuando no mercado. Temos uma redução da oferta e população crescendo, o que gera boas perspectivas para nós”, afirma o diretor da Tecol.

Apesar de não haver dados nem pesquisa do desenvolvimento imobiliário na cidade, os empresários e entidades locais afirmam que o ano segue equilibrado, com poucos lançamentos e baixo estoque disponível. “Eu diria que estava em uma curva descendente, mas não desce mais. Talvez essa curva suba já no primeiro semestre do ano que vem”, prevê Amarildo Melo, que ressaltou a pouca quantidade de lançamentos.

Alto padrão 
Lançar menos, inclusive, tem sido a estratégia adotada por um dos principais players do mercado local, o Grupo Plaenge, fundado no Paraná e que atua em Campo

Grande há 28 anos com foco principalmente no médio e alto padrão. “A estratégia é lançar quando identificamos que há demanda. Para isso nós temos uma pesquisa de mercado. Não criamos uma oferta maior que a demanda para que isso não implique a re – dução de preços”, afirma Édison Holzmann, diretor regional da empresa.

O grupo lançou dois empreendimentos em 2015, um em fevereiro deste ano e ainda deve fazer outro lançamento neste semestre. O empreendimento lançado no começo de 2016 é o Rioja Residence, apartamento de 87 m² de área privada e três dormitórios. São 76 unidades com R$ 570 mil de preço médio, no bairro Bela Vista. A entrega está prevista para fevereiro de 2020.

O bairro Bela Vista possui a quinta maior renda média da cidade, ficando atrás apenas dos bairros São Bento, Jardim dos Estados, Itanhangá e Chácara Cachoeira. Todos ficam próximos ao Parque das Nações Indígenas e ao Shopping Campo Grande, região de grande valorização e onde está a maior parte dos empreendimentos de alto padrão

Grupo Plaenge foca no mercado de alto padrão e se prepara para o segundo lançamento de 2016

“A cidade tem um número bom de empreendimentos de alto padrão. O que chama atenção é o que tem em volta do Shopping Campo Grande. Tudo que está em torno dele é mais badalado”, afirma o presidente do Secovi-MS. Em Campo Grande, o preço médio do metro quadrado para o alto padrão fica em torno de R$ 6,5 mil.

Em pesquisa realizada em 2015 pela consultoria Prospecta Inteligência Imobiliária, a cidade de Campo Grande aparece em 10º lugar entre as melhores cidades com menos de um milhão de habitantes para se investir em imóveis, possuindo classificação “ótima” para baixo, médio e alto padrão. A boa demanda para o alto padrão se deve, principalmente, à alta renda per capita da cidade, na média de R$ 1.246,75.

“O público de alta renda sempre é menos sensível às oscilações econômicas que o País passa, por isso é um público relevante para nós”, afirma Frederico Kessler, diretor geral de negócios do Centro-Oeste da Brookfield Incorporações, que tem três empreendimentos lançados em Campo Grande: Green Life (2013), Yes (2011) e Vitalitá Condominium Club (2009).

Legislação urbanística 
Para o diretor da Brookfield, a cidade possui também a vantagem de ter facilidade na aprovação dos projetos, principalmente comparado às outras capitais. “Campo Grande tem uma legislação urbanística mais bem definida e os processos são mais organizados e mais claros”, diz Frederico Kessler.

Atualmente o Plano Diretor de Campo Grande passa pelo processo de discussão em audiências públicas e até o final do ano, a prefeitura deve encaminhar a matéria para aprovação no Legislativo Municipal.

O principal ponto que tem causado polêmica e mobilizado o setor é a questão da possível criação da outorga onerosa. “É um ponto de discussão [do Plano Diretor] muito grande. Nossa particularidade não permite isso aqui. Nós temos que fazer ações do Plano Diretor que atraiam investimento e empresa, não o contrário”, reclama o presidente do SindusCon-MS.

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