BIM, realidade virtual e laser scanner terrestre (LST) podem diminuir em até 30% os custos de uma obra

Imagine entrar em um terreno vazio e, com apenas um tablet na mão, conseguir mergulhar naquele ambiente já pronto, antecipando etapas, visualizando cada detalhe e tendo a possibilidade de proporcionar a otimização de processos. E o melhor: saber exatamente quanto tudo irá custar, desde o projeto até a manutenção da edificação. Isso já é possível com o avanço tecnológico na construção civil através de ferramentas de realidade virtual (RV) e suas aplicações, como a realidade aumentada (RA), o building information modeling (BIM) e o laser scanner terrestre (LST).

De acordo com os especialistas, o uso dessas tecnologias pode chegar a diminuir os custos em até 30%, além de proporcionar detalhes sobre a obra, antecipar e prevenir problemas. Entre elas, o BIM tem sido a mais popular no Brasil em diversos segmentos da construção civil, com ampla utilização nas grandes construtoras. Alexandre Couso, diretor da Edalco, afirma que um dos princípios do BIM é a otimização e a integração dos processos. “Todo o intercâmbio de dados está conectado e integrado”, diz. Dessa forma, explica, as perdas que existem nos processos convencionais são minimizadas, uma vez que tudo está acoplado a apenas um modelo tridimensional e parametrizado da edificação.

Em relação às outras tecnologias, Alexandre Couso afirma que a RA pode ser usada na fase comercial para visualização das plantas em 3D, ou até mesmo nos pontos de venda de imóveis com a utilização de óculos de RV. Na obra, é possível utilizar o recurso de laser scanning no caso de reformas ou retrofit. “A construção é mapeada por uma nuvem de pontos, gerando o modelo e permitindo que se projete em cima do molde existente”, afirma. Segundo o diretor da Edalco, após a obra, na fase de manutenção, a RA pode ser usada no gerenciamento de facilities através de aplicativos que integram o modelo à posição espacial do usuário, facilitando a visualização de instalações e o acesso às informações agregadas em cada uma delas. “Tudo isso somado resulta em redução de custos, pois os processos são aprimorados conforme a demanda. Evitamos retrabalho e diminuimos significativamente a perda de dados”, conclui.

Diferença entre custo e investimento 
De acordo com Mariana Guedes, gerente de engenharia BIM na construtora Método, o custo para implantar essa ferramenta em um escritório é muito variado. “Depende de uma série de fatores, especialmente se a empresa estiver começando sem nenhum conhecimento prévio sobre a tecnologia”. Mariana explica que é necessário investir na escolha e aquisição de softwares, consultoria externa, treinamento de equipes, aquisição de hardware compatível com as necessidades de processamento dos softwares e tempo para convergir os processos de trabalho, considerando as alterações advindas com o uso da tecnologia. “O BIM está inserido na Método há muitos anos e o custo com implementação tornou-se obsoleto”, diz. Entretanto, ela alerta para o fato de que o investimento em atualizações é constante, cabendo a cada companhia entender que há uma diferença fundamental entre “custo” e “investimento”.

Confira nas páginas a seguir de que forma os modelos de realidade aumentada são utilizados em diversos segmentos da construção civil para reduzir gastos em diversos tipos de empresas.

Conheça as aplicações das ferramentas de RA
Realidade virtual (RV)
É uma tecnologia definida como sendo um meio composto por simulações interativas em computador para perceber a posição e as ações do usuário e substituir ou aumentar um ou mais sentidos, favorecendo a sensação de estar mentalmente imerso ou presente na simulação de um ambiente. Essa tecnologia já vem sendo utilizada na construção civil por engenheiros e arquitetos para a elaboração de projetos e treinamento de profissionais, e como ferramenta de divulgação e venda de imóveis.

Laser scanner terrestre (LST)*
É um equipamento usado para levantamento de dados sobre determinada superfície, oferecendo precisão e rapidez na taxa de aquisição. Os dados obtidos são digitalizados em 3D e depois podem ser importados para soluções no levantamento das medidas existentes nas edificações, transformando em desenhos técnicos todas as informações encontradas no local que se relacionem com os projetos do edifício, tais como instalações elétricas, hidráulicas sanitárias, sistema de prevenção e combate a incêndio e níveis, auxiliando numa combinação de fotogrametria e esboços manuais.

FONTE: ARTIGO CANTEIRO DE OBRAS BRASILEIRO E A ADOÇÃO DE RECURSOS TECNOLÓGICOS – EM BUSCA DE MELHORIA DAS PRÁTICAS ATRAVÉS DE INOVAÇÃO DOS PROCESSOS (2015), DA ENGENHEIRA DOUTORA MÁRCIA REGINA DE FREITAS, UNESP GUARATINGUETÁ.

Custos x benefícios em diferentes segmentos

 

Francine Ramil, gestora do projeto BIM na IDP Brasil Engenharia
As principais variáveis na hora de pensar o custo da implementação do BIM são: compra das licenças de softwares, novos equipamentos, treinamento de equipes e o tempo de adaptação da empresa à nova cultura. Fizemos este investimento no Grupo IDP há oito anos, começando por Barcelona, na Espanha. No Brasil, a estratégia foi iniciar um escritório desenvolvendo 100% dos projetos em BIM. É uma tecnologia inovadora que complementa o mundo real sobrepondo ou compondo objetos virtuais a ele, onde tais estímulos sintéticos são registrados, muitas vezes, para facilitar a obtenção de informações imperceptíveis aos sentidos humanos. Hoje temos um grupo de pesquisa e desenvolvimento que estuda as principais inovações e soluções existentes no mundo BIM, avaliando as necessidades do mercado e incorporando-as no processo interno de produção de acordo com as demandas. Contamos com BIM Managers para dar apoio ao projeto e projetistas, difundindo conhecimento e ajudando a manter nossas bibliotecas atualizadas. Quanto ao retorno, tudo depende do nível de amadurecimento do escritório que tem a ferramenta. No Grupo IDP este tem sido um grande diferencial, contribuindo para o nosso crescimento mundial. O retorno maior é do cliente, que terá um projeto assertivo e de mais qualidade.

Alexandre Couso, diretor da Edalco Construtora
Entendemos que os valores referentes à implantação do BIM são investimentos e jamais devem ser considerados despesas, pois a tecnologia consiste numa mudança de cultura que envolve todas as áreas da empresa. Esses investimentos foram referentes essencialmente à consultoria especializada, capacitação profissional e licenças de softwares – utilizamos o Archicad, Solibri e Vico Office. O retorno imediato não é mensurável, pois o primeiro impacto foi a automação que o BIM proporcionou aos processos de compatibilização de projetos, levantamentos quantitativos e planejamento da obra. Com o avanço da ferramenta em novos projetos, vamos afinando nossos indicadores e, com isso, percebendo o retorno exato do investimento. Na área de projetos, o BIM aprimora o processo de compatibilização das disciplinas, pois, com todas elas modeladas na mesma linguagem, a compatibilização é praticamente automática. Em orçamentos, o levantamento quantitativo é gerado automaticamente, reduzindo o tempo e custos de orçamentação, minimizando as diferenças e eventuais erros. O cronograma é baseado em quantidades reais e conectado ao modelo, de forma que todo o escopo do projeto seja planejado e alinhado conforme produtividades obtidas de análises ou históricos. Na obra, o tempo gasto em leitura e interpretação de projetos é reduzido, pois os profissionais podem visualizar o modelo 3D e resolver dúvidas no próprio canteiro através de dispositivos móveis como tablets e celulares.

Reinaldo Kaizuka, diretor do França & Associados Projetos Estruturais
Antes da implementação da tecnologia, em 2015, já utilizávamos o TQS, software para análise estrutural, como ferramenta para a geração de alguns modelos em BIM. O grande passo foi usar um software para unificar o modelo BIM às documentações 2D sem abrir mão da plataforma de cálculo estrutural. É difícil mensurar exatamente quanto custa introduzir essa tecnologia, pois existem diversos fatores envolvidos neste processo de conectividade. No início da adaptação no escritório, criamos e subsidiamos um novo setor responsável pelo BIM. Na época, essa equipe passou por um período de capacitação que demandou cerca de 2 mil horas com pesquisas, treinamentos e desenvolvimento de bibliotecas, padrões e procedimentos até conseguirmos iniciar, efetivamente, a primeira obra em BIM. Podemos dizer que nesse início, durante esta fase de consolidação, não pudemos notar grandes ganhos com a produtividade, já que as horas gastas foram semelhantes às de um projeto similar desenvolvido na plataforma 2D. Porém, pudemos notar um ganho imediato através do detalhamento de elementos complexos e da possibilidade de inserirmos vários tipos de vistas para um melhor entendimento do projeto. Acreditamos que num futuro breve, com a equipe totalmente qualificada e a estruturação consolidada, teremos mais ganhos com a utilização da ferramenta em diferentes fases do projeto.

Carlos Caruy, gerente técnico de produtos da Placo do Brasil
Em nossa empresa de drywall, o BIM não é apenas um novo modo de realização de projeto, mas um conceito inteligente que permite aos usuários a interoperabilidade em seus processos, gerando informações consistentes e modelos visuais significativos. A implantação da ferramenta em nossos processos depende do nível de projeto que se pretende alcançar, mas como retorno podemos mencionar o reconhecimento dos clientes e do setor, transparência nas informações de desempenho dos sistemas, padronização da linguagem de especificação dos produtos ofertados ao mercado, redução de falhas e erros de especificação, maior produtividade e possibilidade de customização das tipologias com informações precisas e padronizadas. Os modelos e o detalhamento obtidos a partir das simulações virtuais desenvolvidas por meio do BIM em cada um dos projetos permite aos projetistas e demais envolvidos antecipar e visualizar algumas condições que provavelmente não seriam identificados nos projetos concebidos em CAD. Essa antecipação de modelos visuais permite um nível maior de detalhamento e um aumento na precisão entre o projeto e a execução, reduzindo custos em todas as etapas.

Por Alexandra Gonsalez

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