Fornecedores de argamassa e equipamentos de bombeamento e projeção discutem problemas, entraves e vantagens do uso da técnica

Totalmente difundida nos países europeus e nos Estados Unidos, a argamassa bombeada e projetada não é uma invenção do século passado. Ela é uma inovação da técnica manual. Bombear significa transportar por meio de tubulações; projetar é aplicar na parede (ou outra superfície) em forma de chapisco, reboco ou revestimento. Disponível só em São Paulo desde o final da década de 1990, hoje seu uso já está presente no dia a dia de construtoras de várias regiões do Brasil, como Paraná, Salvador, Fortaleza e Brasília. “Essas construtoras estão optando pelo sistema por conhecê-lo do exterior”, diz Fábio Campora, diretor executivo da Abai (Associação Brasileira de Argamassa Industrializada). “Elas querem melhorar o processo.” Na obra acabada, mesmo que o resultado final – a olho nu – seja idêntico ao processo manual, as empresas que já aderiram à técnica enumeram suas vantagens. “A argamassa bombeada e projetada permite vários ganhos, como precisão, qualidade e velocidade de obra, além de redução do número de ajudantes e de equipamentos no canteiro”, diz André Jackix, da Pav Mix, empresa sediada em Campinas, no interior paulista. Todas essas vantagens podem ser conquistadas individualmente ou em conjunto. Mas primeiro é preciso entender que a argamassa bombeada e projetada não é uma técnica isolada.

Argamassa de qualidade
“Ela é um sistema que envolve vários elos e todos eles precisam estar otimizados”, esclarece Fábio Campora. O primeiro elo dessa cadeia é justamente o início do planejamento da obra. Você é uma construtora e quer usar a técnica?

Exemplo de projeção para revestimento da alvenaria

Então o canteiro todo tem que ser repensado. O segundo elo do sistema é o produto em si. A argamassa projetada que chega na obra seca, ensacada ou em silo, deve ser de boa qualidade e sempre atender a necessidades específicas. “Às vezes, o fabricante tem uma argamassa convencional e fala que o seu produto bombeia, mas ele não é específico para projeção. Aí vai dar erro porque, dependendo da altura e do equipamento que será usado, a gente escolhe um tipo de formulação”, diz Jackix.

A escolha do maquinário é outra parte do sistema. Para bombear a argamassa, você pode usar desde máquinas mais leves e portáteis até as pesadíssimas. Existem dois tipos de transporte. Imagine que você esteja trabalhando no 20º andar de uma obra e a argamassa precisa chegar até lá. O envio por meio de tubulações tanto pode ser feito a úmido (do próprio silo ou da sacaria) quanto a seco (em pó). Cada versão tem uma finalidade específica. O transporte a seco, por exemplo, elimina a necessidade de limpeza de maquinário ao final de cada dia de trabalho. Já no transporte a úmido com silo, a vantagem é que você elimina pontos de água ou de energia. “Tudo isso tem que estar no planejamento da obra, assim como é preciso também dimensionar as frentes de trabalho para evitar a ociosidade do equipamento, o que significaria um custo desnecessário”, observa Campora.

Ganho de produtividade 
Para alavancar o sistema, outro elo da cadeia é a mão de obra capacitada. Hoje, muitos fornecedores de argamassa e maquinário já oferecem treinamento. “Dessa maneira, você consegue reduzir o número de funcionários no canteiro e a equipe remanescente ainda tem um ganho de produtividade”, afirma Campora. Algumas empresas vêm conquistando maior produtividade com metodologia própria. Andrés Natenzon, sócio-diretor da Anvi, que tem 44 anos de experiência no mercado, relata que conseguiu desenvolver um novo método de treinamento com excelentes resultados nas últimas obras. “Esse método tem nos dado um ganho de 33% no aplicador da argamassa, ou pedreiro, e de 60% no número de ajudantes”, afirma Natenzon. “Desenvolvemos um jeito de trabalhar em que a gente leva os profissionais pela mãozinha em todas as etapas até a parede estar pronta e já na primeira obra dá certo porque a gente dá tudo mastigado.” O ganho de eficiência no uso do sistema é gradativo. “É lógico que, nas primeiras obras, qualquer construtora terá mais trabalho porque o sistema ainda não estará otimizado. Mas ela sempre terá uma curva de evolução disso”, diz Campora.

Por fim, para que o sistema completo da argamassa bombeada e projetada tenha um funcionamento cinco estrelas é preciso considerar, numa visão mais abrangente, a própria economia do país. Como o Brasil está em recessão há dois anos, neste final de 2016 o mercado não está funcionando em sua demanda plena – condição ideal para a consolidação do sistema em todas as regiões. “Mas a gente percebe que esse movimento econômico é cíclico e sempre retoma com força depois”, prevê Natenzon. Algumas empresas, como a própria Anvi, aproveitam essa hora para melhorar seus processos internos, em termos de treinamento e de planejamento de obra. “Com isso, quando vier uma retomada maior da economia a gente já estará otimizando o uso da mão de obra e resultados técnicos que a projeção sempre fornece à aplicação. Nossa construtora tem uma visão que vai além do mês que vem”, completa.

Falando em futuro, Campora revela que muitos diretores de construtoras já estão visualizando suas empresas parecidas com as montadoras de carros: tudo mecanizado e robôs em ação. “Eles me dizem que, no futuro, vão ter uma equipe enxuta, vão projetar e vão montar, e cada fabricante vai fornecer um pedaço do todo como acontece na indústria automobilística”, conta Campora.

A Construção Mercado aprofundou essa discussão durante um debate técnico promovido pela revista com seis profissionais do setor. Veja os principais trechos a seguir.

O que falta para o uso da argamassa bombeada e projetada se consolidar no Brasil?
CAMPORA:
 Para a Abai, a melhor forma de executar um revestimento de argamassa é usar mecanização e argamassa bombeada e projetada. Só que em algumas regiões do país, como São Paulo, as condições de contorno facilitaram a implantação da técnica porque um ponto fundamental é o fornecimento de mão de obra. Outro ponto que influencia na evolução dessa velocidade é a situação econômica. Quando você tem aumento de volume de obra, necessidade de velocidade, escassez muitas vezes imensa de mão de obra na construção civil, aí a mecanização é a saída cinco estrelas. Porém, quando a atividade econômica começa a voltar para trás, e vem o desemprego, ninguém mais quer correr. Então, apesar de ser uma técnica adequada para qualquer momento, numa crise seus ganhos deixam de ser tão essenciais – mas é porque a economia está estagnada.
NATENZON: Só um contraponto. A gente percebe que esse movimento [da economia] é cíclico e que depois retoma com força. As construtoras de muita visão estão aproveitando essa fase de “não urgência” do mercado para melhorar seus processos internos, em termos de treinamento e de planejamento de obra. Com isso, quando vier uma retomada maior, a gente já vai estar otimizando o uso da mão de obra e os resultados técnicos que a projeção sempre fornece para a aplicação. Ou seja, tem construtora que tem uma visão que vai além do mês que vem.

Há alguma aplicação que não possa ser feita à mão e dependa exclusivamente da argamassa bombeada e projetada?
SCARTON:
 Depende. Por exemplo, em uma monocamada pigmentada você vai ter um ganho maior numa aplicação projetada porque você tem uma vazão do material e de água, que é o grande segredo da monocamada pigmentada. Já no processo manual, não. Nele, quem mistura é o operador e, entre uma mistura e outra, ele pode colocar mais ou menos água e isso pode dar diferença. Aí é indicada a projeção, para não ter diferença de cor e queda de qualidade.
NATENZON: Mas tecnicamente, se você tiver um operador muito bem treinado, você consegue evitar esse problema.
SCARTON: Mas esse é justamente um dos maiores problemas que a gente encontra, a falta de gente bem treinada no mercado.
NATENZON: A técnica ajuda muito no transporte de massa, por exemplo, em planos cegos. Sem o bombeamento, você não vai conseguir fazer ou vai ter um trabalho homérico.
SIMÕES: Acho que o transporte nesse caso ajuda bastante porque a única coisa que você tem na obra é a gramalheira. E é um gargalo isso. Então tem empresa que funciona 24 horas para fazer o material chegar na superfície e, no dia seguinte, o pessoal poder dar continuidade ao trabalho. Mas tem regiões do país em que não é permitido o uso nesse período e, nesse caso, o transporte facilita bastante.

A técnica traz ganho de precisão, de qualidade e velocidade. Vocês oferecem treinamento?
CAMPORA:
 Hoje, as boas empresas já dão esse treinamento.
VIEIRA: Em geral, a empresa de equipamento entra com o treinamento relacionado ao equipamento, e a empresa de produto faz o seu treinamento na parte de produto.

O treinamento é só para os funcionários ou também para terceiros?
VIEIRA: 
No caso da Pav Mix, a gente oferece para terceiros e, se for necessário, também para as empresas de equipamentos.
NATENZON: Na Anvi nós temos seis equipes só de treinamento que acompanham as obras.
CAMPORA: O treinamento já existe em várias regiões do país, mas ainda não é na maioria. Só que lá na frente, esse quadro vai mudar e um exemplo é a Souza Netto [Engenharia], empresa de Salvador. Eles deram prioridade a isso e hoje já têm toda a equipe treinada.
JACKIX: O treinamento deixa o profissional apto tanto para começar a usar a técnica quanto para fazer o acompanhamento depois e identificar possíveis melhoras. O ganho de eficiência é gradativo e a aferição disso é feita em andamento.

Em números, quão mais rápido eu consigo trabalhar?
JACKIX:
 Em contrapiso é muito mais rápido, você economiza em torno de 25% do tempo com relação a um contrapiso normal. Um contrapiso numa torre de 20 andares, por exemplo, que você levaria de três a quatro meses para concluir, você acaba baixando isso para um mês. Em revestimento de fachada, a velocidade vai depender do nível de detalhe e das soluções técnicas que já foram adotadas. Mas na argamassa bombeada e projetada eu acho que a gente pode falar de pelo menos 20% até 35% de ganho de produtividade.

E em termos de orçamento de obra, isso representa uma redução?
SCARTON:
 Sim, porque a perda de material é muito menor do que no processo feito à mão.
CAMPORA: Existe um equívoco muito comum, que é comparar tonelada com tonelada. Hoje eu tenho a argamassa industrializada, que eu misturo no térreo, transporto e chapo na mão e dou acabamento, e a tonelada custa xis. Aí, eu vou usar outro sistema, que é o de argamassa bombeada e projetada, que custa dois xis. E a pessoa fala: “Poxa, mas essa técnica custa o dobro”. Só que essa conta está completamente equivocada. Porque, na realidade, ali está sendo executado um serviço. Revestimento de fachada, por exemplo. Então o cálculo comparativo que deve ser feito é o de custo final do metro quadrado acabado, já que aquela tonelada que eu comprei e tá lá no térreo, eu tenho que dosar, misturar, botar água, transportar, e todo esse custo tem que ser somado.
SIMÕES: O tempo é outra variável que tem que entrar nessa conta porque, se ele for perdido, ninguém devolve. Para você provar que o método compensa, a gente tem que fazer um teste. Mas, depois que o cliente aprova, aí ele vê o quanto perdeu tempo em usar o outro sistema.

Quais são os pré-requisitos de uma obra para o uso do material?
JACKIX:
 Você tem que ter um tripé de produto de boa qualidade, máquina-e-aplicador treinado e, não menos importante, a retaguarda da construtora. Ela precisa te dar todas as condições, como a disponibilização de água (inclusive nos andares superiores) ou de energia elétrica em abundância.
NATENZON: Se houver necessidade de silos, tem que haver ainda uma área suficiente para a sua colocação e um preparo do terreno.

O que baliza a decisão do transporte a úmido ou a seco?
SCARTON: 
No transporte a úmido, a grande dificuldade é o limite de altura porque você consegue fazer o envio nas máquinas elétricas até uns 50 metros. E, no final, você terá que fazer uma limpeza de tubulação. No transporte a seco, você alcança alturas maiores, chega a 100, 120 metros e, no final, não é preciso fazer a limpeza. É só desligar a máquina e ir pra casa.
JACKIX: Vou abrir um pouco mais esse leque. Você pode transportar tanto seco quanto úmido até 120 metros de altura. O que você tem que buscar é o equipamento adequado ao sistema. Há dois tipos de bomba: com rotor startor e as de pistão, que têm capacidades maiores. A vantagem de adotar o silo e usar o transporte úmido é que você elimina pontos de água ou de energia. Já no sistema a seco você tem a vantagem de não precisar se preocupar com o tempo de parada, porque a argamassa úmida, ou batida, tem um tempo que pode ficar dentro do mangote – e depois, no final, realmente você tem que fazer a limpeza. Que é simples, parecida com a limpeza do sistema de concreto.
CAMPORA: Mas você não precisa remontar essa estrutura que ele falou de andar por andar. Porque entre o equipamento final de mistura e o bico de projeção há uma mangueira de borracha que permite que você trabalhe até três andares para cima. Ou para baixo.

Então não é qualquer argamassa que pode ser bombeada e projetada?
NATENZON:
 Não. Você tem que desenvolver uma argamassa com capacidade de coesão ao longo do mangote.
CAMPORA: A argamassa é formada por vários componentes e, se não tiver uma composição adequada e a coesão que ele falou, você vai bombear a água e o cimento, e a areia vai ficar, entupir e travar o equipamento. Você pode desentupir e tentar de novo, mas não funcionará. Ou então o produto entope pela viscosidade, que é o que a gente chama de reologia. É por isso que tem gente que fala que esse sistema não funciona. Se o cara alguma vez na vida faz um teste com um produto inadequado e não bombeia, ele já rotula o sistema como ineficiente.
NATENZON: Mas isso que você está comentando é sobre alguns casos de pisos autonivelantes que, de fato, tiveram muitos problemas técnicos. Mas aí foi falha de produto. É importante esclarecer que, no revestimento, você nunca ouviu falar de patologia, pelo contrário, ele só melhora a vida do usuário.

Quais são as principais patologias desse sistema?
SIMÕES:
 No contrapiso, a gente tem o desplacamento, que pode acontecer não só por causa do produto inapropriado como também pela execução ou a limpeza inadequada.
NATENZON: De novo, esse desplacamento que ele fala se refere ao piso. Com revestimento, seja chapisco, emboço ou acabamento, você nunca tem dor de cabeça.
VIEIRA: Você tem que pensar no desempenho do produto depois que ele endurece. Para evitar o desplacamento, é preciso ter boa aderência, uma base de aplicação limpa, o material não pode ser tão rígido para poder acompanhar a movimentação da estrutura, ou seja, tem toda uma técnica de formulação da argamassa para o produto obter um desempenho 100%.
JACKIX: O problema do contrapiso é que ele não tem norma.
CAMPORA: É verdade.
JACKIX: Muitos fornecedores dizem que têm um piso autonivelante ou autodensável mas estão cometendo um equívoco por não entenderem o que esse sistema requer. Além de aderência da base, é preciso ter absorção de deformações, resistência a brasão superficial mínima e resistência de compressão. Mas como não tem norma para tudo isso, a qualidade fica a critério de quem produz e isso está ocasionando uma série de problemas em pisos. Já no revestimento a história é totalmente diferente mesmo. Porque você tem normas.

Como saber se a argamassa é de boa qualidade?
SIMÕES:
 Você faz o teste. No caso do contrapiso, a gente se baseia na argamassa de fachada. Fazemos o teste de arrancamento e de resistência, e esse laudo, por falta de norma, serve de baliza para dar garantia ao cliente.
VIEIRA: Também tem o teste da percussão: você pega um martelinho de borracha, dá uma batidinha e vê se tem som oco.
CAMPORA: Os principais indicadores de qualidade são três: o primeiro é de aderência à base, chamado de ensaio de arrancamento. Você corta um pedaço do revestimento com uma serra adequada, cola uma pastilha e arranca com um dinamômetro para calcular a força que teve que fazer. Para isso existe norma. A Abai tem um convênio com a Escola Politécnica chamado Consitra (Consórcio Setorial para Inovação em Tecnologia de Revestimentos de Argamassa) que pesquisa tudo sobre argamassa. O segundo é o teste de dureza superficial. Hoje não existe norma para isso, mas a gente está com uma comissão de estudos em desenvolvimento e essa norma deverá estar concluída em no máximo 12 meses. Na falta da norma, temos o ensaio empírico, que é pegar um metal e raspar no revestimento para ver se ele está duro ou esfarelando. Isso é chute, não é científico. E o terceiro teste é de módulo de elasticidade. O revestimento está grudado nesse prédio, que se movimenta mesmo que a gente não enxergue. E o que está grudado nele tem que se movimentar também, senão descola e cai. Ou seja, a argamassa não pode ser rígida, senão a estrutura vai movimentar e ela vai fissurar ou quebrar. Esse teste também tem norma técnica de medição. É por isso que a gente defende a argamassa bombeada e projetada. O produto tem que estar muito bem formulado e dificilmente você vai conseguir uma argamassa feita em obra que atenda a tudo isso. E já é cientificamente comprovado [pelo Consitra] que o mesmo produto numa mesma base tem um ganho significativo de aderência se for aplicado por projeção em comparação com a técnica manual.

Por Gustavo Curcio e Lidice-Bá

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